Nienna adentrou a cúpula com passos firmes e decididos, seu manto fluindo atrás de si como uma sombra elegante. Seus olhos de um verdes profundo focaram-se no centro do grande salão, onde uma mesa circular refletia a luz suave das tochas mágicas. O burburinho das raças ali reunidas ecoava pelo espaço amplo, enquanto a tensão era palpável, estampada nos rostos de todos os presentes. A ansiedade e o medo entrelaçavam-se em cada expressão. Entre os representantes estavam elfos, anões, demi-humanos, e outras raças mágicas, todos unidos pela iminência de uma nova catástrofe.
Com um simples gesto de mão, Nienna fez o silêncio se espalhar gradualmente sobre a multidão. Cada olhar se voltou para ela, aguardando suas palavras como quem aguarda a sentença de um destino já pressentido.
"Estamos à beira de mais uma era de trevas," iniciou Nienna, sua voz clara e majestosa preenchendo o salão com uma autoridade incontestável. "A chama da guerra ameaça eclodir novamente. Os humanos estão se armando, e sua intenção é clara: o extermínio de todas as raças não humanas."
Um murmúrio indignado varreu o ambiente, mas Nienna não vacilou. Continuou, com a mesma firmeza. "Eles não nos consideram seus iguais. Nos veem com desprezo e medo. Dizem que temem a nossa longevidade, que temem as habilidades que possuímos, habilidades que jamais poderão alcançar. Para eles, somos uma ameaça, algo que deve ser exterminado."
As palavras dela ressoaram como trovões nos corações dos presentes. Gritos de revolta começaram a ecoar por todos os lados. "É verdade!" bradou um ancião da tribo dos centauros. "Os humanos são mesquinhos e traiçoeiros!" ecoou um anão, batendo com força seu machado no chão. "Eles se fazem de santos, mas são hipócritas!" continuou uma mulher fera das sombras, sua voz cheia de desprezo.
"Os humanos distorcem até a história dos deuses!" gritou um elfo negro de aparência altiva, sua voz carregada de ódio. "Eles se dizem os únicos abençoados, mas isso é uma farsa!"
Nienna levantou novamente a mão, pedindo calma. Sua expressão permanecia severa, porém tranquila. "Sim, é verdade," afirmou ela, deixando que suas palavras deslizassem como lâminas afiadas. "Eles mentem. Em todas as eras, os humanos manipularam a verdade para nos subjugar, para justificar sua supremacia. Mas... nem sempre foi assim. Houve, entre nós, um homem que ousou desafiar o domínio deles. Ele lutou pela liberdade, pela justiça."
O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. Os olhos da multidão brilharam com curiosidade e expectativa.
"Esse homem," continuou Nienna, "possuía um poder imensurável. Ele não era apenas forte, mas também sábio e corajoso. Lutou com todas as suas forças para garantir que nossas raças pudessem coexistir em paz. Mas a raça à qual ele pertencia... teve seu nome apagado da história pelos humanos. Eles detinham o controle sobre as palavras e, com isso, reescreveram nossa história. O nome da raça de Seraphiel e seus semelhantes foi distorcido, transformado em algo maligno. Eles os chamaram de Demônios."
Um suspiro coletivo de incredulidade tomou conta da cúpula. Os olhares se cruzavam, cheios de uma mistura de fúria e dor. Logo, as vaias e os gritos de indignação explodiram de todos os lados. "Assassinos!" gritava um minotauro, sua voz ecoando pelas paredes. "Os humanos são a verdadeira maldição deste mundo!" vociferou um o homem lagarto, sua aura intimidante preenchendo o espaço ao seu redor.
"Eles se proclamaram heróis," continuou Nienna, sua voz crescendo em intensidade, "glorificaram suas ações enquanto apagavam o legado de Seraphiel. Ele foi o único com coragem suficiente para se colocar na linha de frente por nós. E como os humanos reagiram? Assassinando-o. Difamando-o. Reescrevendo sua história para pintá-lo como um vilão."
A revolta atingiu seu ápice. O salão parecia prestes a explodir de tanto ódio acumulado. No entanto, Nienna manteve sua postura imperturbável. Ela sabia que precisava guiar aquelas emoções antes que elas transbordassem de maneira destrutiva.
Foi então que Nienna acenou para Astharoth, que aguardava silenciosamente nas sombras da entrada. O salão mergulhou em um silêncio reverente quando a imponente Rainha dos Demi-Humanos entrou, seus passos graciosos contrastando com o peso do momento. Em seus braços, ela carregava Riyon, o pequeno herdeiro de Seraphiel.
Com uma leveza quase sobrenatural, Nienna apresentou o menino à multidão. "Eu lhes trago esperança," declarou, sua voz agora carregada de uma emoção mais suave, porém igualmente poderosa. "Este é o filho de Seraphiel, o herdeiro de seu legado. Riyon Santy D'Lucifferos, o futuro de nosso povo. Filho de Astharoth Angellos D'Lucifferos."
O silêncio foi quebrado por um rugido de aprovação. Gritos de alegria e esperança ecoaram pelas paredes da cúpula, enquanto todos os presentes levantavam suas mãos ou armas em um gesto de saudação ao jovem herdeiro. A atmosfera, que antes fora carregada de ódio, agora vibrava com uma nova energia.
"Nossa esperança está aqui!" gritavam muitos. "Riyon é a luz que nos guiará!"
Nienna observou a cena, sentindo um alívio sutil. A chama da esperança havia sido reacendida, e mesmo que o futuro ainda fosse incerto, a fé no que estava por vir era palpável. O salão, antes um espaço de angústia, agora brilhava com a promessa de resistência e renovação.
Riyon observava a multidão, sentindo a pressão das expectativas crescer com cada olhar. "Eu, esperança? Eu mal entendo quem sou neste mundo. Como eles esperam que eu seja a chave para o futuro?" Pensava, perplexo. Seu olhar percorria os rostos ao seu redor, todos cheios de uma fé inabalável nele, mas dentro de si, ele sentia uma inquietação impossível de ignorar.
"Desde quando o nome de uma raça pode ser apagado assim? E como os humanos têm tanto poder sobre as palavras? Isso é magia, manipulação divina... ou apenas medo disfarçado de poder?" Riyon ainda se agarrava às crenças que o moldaram como herói humano, mas a verdade por trás da palavra "demônio" o corroía. Se os humanos tinham distorcido a história dessa maneira, então o que mais poderia ser mentira?
"Seraphiel... o que eles fizeram com você e com sua raça? E por quê?" Ele começava a se perguntar se os humanos temiam os demônios não por sua crueldade, mas por sua força e longevidade. "Inveja, preconceito... talvez seja isso. Somos diferentes, e os humanos têm medo do que não compreendem. Mas ao invés de aprender, eles escolheram destruir."
O jovem olhou para o símbolo de poder que ele havia se tornado. "Eu costumava pensar que salvar o mundo era simples: derrotar o mal, proteger os fracos. Mas... e se o verdadeiro mal não for aquele que enfrentei? E se a verdadeira batalha for contra o medo, a ignorância e as mentiras que definiram as gerações passadas?"
Sua mente estava agitada. "Como os humanos conseguiram apagar o nome de uma raça inteira? Isso seria impossível no meu mundo... ou pelo menos, assim parecia. Mas aqui, onde deuses caminham entre nós e a magia molda a realidade, parece que tudo é possível." A dúvida e a curiosidade se misturavam dentro dele. Ele sabia que o poder das palavras tinha um peso diferente aqui, algo que ele ainda não compreendia por completo.
"Talvez a verdadeira força dos humanos não esteja em seus números ou em sua coragem, mas em sua habilidade de moldar as narrativas. Eles criaram heróis, moldaram a história, e agora eu sou parte de uma nova narrativa... mas desta vez, não quero ser apenas uma peça no jogo deles."
Enquanto o clamor da multidão ecoava, ele pensava nas implicações do que estava aprendendo. "O mundo que conheço pode não ser real. E se for assim... o que mais está escondido? Quantas outras mentiras foram contadas, quantas outras verdades foram apagadas?" Cada nova pergunta alimentava sua determinação. Ele não poderia apenas aceitar o que lhe haviam dito.
"Eu não posso simplesmente aceitar isso. Não posso ser a esperança de um povo sem entender o que realmente aconteceu." Olhando para Astharoth, ele via a força que ela representava. "Minha mãe... ela sabe mais do que diz. E eu preciso saber. Não só sobre Seraphiel, mas sobre tudo que levou até este momento. Se eu for lutar, quero saber por quem e por quê."
Riyon inspirou profundamente, sentindo o peso do destino se intensificar em seus ombros. "Agora sou Riyon Santy D'Lucifferos, filho de Astharoth e herdeiro de Seraphiel," pensou, enquanto o clamor ao seu redor ecoava. "Mas antes disso, eu era apenas um estudante. Morri e renasci como herói, apenas para descobrir que, no fim, matei o pai da minha atual reencarnação."
As memórias se entrelaçavam, confusas e dolorosas. "Agora, mais do que nunca, percebo que talvez tenha sido manipulado todo esse tempo. Cada passo que dei pode ter sido guiado por mãos invisíveis." Ele fechou os olhos, absorvendo a gravidade de suas próprias palavras. "Mas agora, mais do que herdeiro ou herói, sou alguém em busca da verdade."
Riyon abriu os olhos, decidido. "E se há algo que este mundo me ensinou, é que a verdade é mais poderosa do que qualquer espada ou magia. Só ela pode libertar ou destruir o que realmente somos."
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Alexandroppp8
Man essa obra é muito boa, deveria ganhar adaptação pra manhwa.
2025-01-26
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