Muriel estava sentado em seu confortável sofá branco, próximo à janela que lhe oferecia uma visão do mundo exterior, enquanto a chuva começava a cair suavemente lá fora. Com uma pena em mãos, ele escrevia diligentemente em um livro que havia começado a compor, imerso em pensamentos sobre Renato, um demônio cuja encantadora presença desafiava todas as expectativas. Ao mesmo tempo, lembrava-se de Louis, um vampiro cuja elegância e sedução eram inegáveis. Os olhos de Louis, rubis vívidos, contrastavam com os do intrigante Renato, que possuía um azul profundo como o céu em um dia claro. Seus lábios avermelhados e cabelos vermelhos perfeitamente arrumados faziam dele uma figura hipnotizante. Louis, por sua vez, ostentava longos cabelos alaranjados, que deslizavam até sua cintura, conferindo-lhe um ar enigmático e sofisticado.
Enquanto Muriel observava a chuva que começava a dançar lentamente sobre a superfície da terra, um suave sorriso brotou em seus lábios. Ele utilizava óculos finos, que lhe permitiam ver com clareza as nuances do mundo, e continuou a escrever, determinado a registrar suas reflexões sobre o universo dos demônios e outras criaturas que não eram angelicais. Seu objetivo era proporcionar aos seres celestiais uma nova perspectiva sobre aqueles que, à primeira vista, poderiam parecer inevitavelmente sombrios. Muriel acreditava que até mesmo os seres mais demoníacos tinham uma centelha de bondade, lutando para sobreviver em um mundo repleto de preconceitos.
Foi então que Elisabeth entrou em seu quarto, interrompendo sua contemplação. Com um brilho nos olhos, ela perguntou:
— Muriel, você gostaria de me acompanhar até as vilas menores?
Ele desviou o olhar da janela escura, agora salpicada pela chuva, e suspirou:
— Irei com você. A vida dentro deste castelo já não me agrada mais.
Elisabeth, com um sorriso que misturava preocupação e carinho, respondeu:
— Contudo, será como antes. Acabamos de sair de uma guerra, e a visão que encontraremos não será nada agradável, repleta de vestígios de destruição e caos.
Muriel sentiu uma pontada de dor em seu coração ao ouvir aquelas palavras. Com um tom melancólico, ele disse:
— Estou ciente disso, e sei que, de certa forma, nós, anjos, temos nossa parcela de responsabilidade. Se tivéssemos enxergado a raça de vocês como digna de compaixão, talvez pudéssemos ter evitado tanta devastação. A culpa pesa sobre mim, por ser um anjo cego, aprisionado em nossas crenças limitadas.
Elisabeth cruzou os braços, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Com um olhar compreensivo, afirmou:
— Nada disso é culpa sua. A responsabilidade pela guerra que travamos é algo que não conseguimos controlar, algo que nos escapa. Infelizmente, a guerra traz consigo o sangue e a destruição, deixando um rastro de desolação por onde passa, e não temos o poder de controlar isso, mesmo quando desejamos ardentemente fazê-lo.
Os dois se entreolharam, compartilhando uma compreensão silenciosa sobre o peso da responsabilidade que carregavam, e a jornada que os aguardava, além das portas do castelo, prometia ser um passo em direção a um futuro incerto, mas necessário.
Muriel se ergue do sofá, seus dedos deslizam pelos cabelos enquanto os amarra em um coque elegante. Com um olhar decidido, ele se volta para Elisabeth e declara:
— Irei me arrumar e vestir algo mais adequado; já desço.
Elisabeth, com um sorriso que ilumina o ambiente, responde:
— Antes de partirmos, é melhor você conversar com o Renato. Ele desejava um encontro a sós com você.
Muriel, intrigado, repousa as mãos sobre os próprios ombros e pergunta:
— Você tem ideia do que ele quer?
Elisabeth avança em direção à porta e responde:
— Não me disse, mas enfatizou que era algo pessoal.
Com um aceno afirmativo, Muriel observa Elisabeth sair do quarto. Ele se dirige ao guarda-roupa e escolhe uma roupa formal, uma combinação de preto e branco, que cuidadosamente coloca sobre a cama. Em seguida, dirige-se ao banheiro para um banho revigorante, desejando eliminar as marcas de tinta que ainda habitavam suas mãos, vestígios de sua recente atividade criativa.
Após o banho, Muriel veste a elegante roupa escolhida, adornada com acessórios prateados e luvas brancas que realçam a delicadeza de suas mãos. Diante do espelho, observa-se, passando os dedos pelos cabelos brancos e finos, enquanto a ansiedade a invade. O que Renato desejaria discutir? Uma mistura de medo e felicidade faz seu coração acelerar.
Determinada, Muriel deixa o quarto e avança em direção ao escritório de Renato. Com um leve toque, bate na porta e solicita permissão para entrar. A resposta de Renato é imediata, convidando-a a adentrar.
Ao entrar, Muriel encontra Renato sentado à mesa, absorto em documentos e informações. Ele se mantém em silêncio até que ele inicia a conversa:
— Você tem sentimentos por Louis?
O coração de Muriel dispara, e ela responde com cautela:
— Considero-o intrigante, apenas isso.
Renato, deixando os papéis de lado, entrelaça os dedos e pergunta:
— E quanto a mim, você nutre algum sentimento?
O rosto de Muriel se tinge de rubor, suas mãos começam a se mover nervosamente enquanto a confissão escapa de seus lábios:
— Eu me sinto atraída por você. Na biblioteca, entreguei-me aos seus desejos, mesmo sabendo que, como um ser puro, não deveria me permitir tais anseios.
Renato, com um sorriso revelador, levanta-se e dirige-se ao armário de bebidas. Ao servir vinho em uma taça, declara:
— Desde aqueles dias em que você esteve aprisionado na gaiola, eu soube que queria você ao meu lado. Desejo ser o único a tocar seu corpo.
Muriel suspira, a combinação de nervosismo e euforia a envolve. Com sinceridade, ele responde:
— Sinto atração por ambos. Não posso negar que você possui uma elegância incomparável por ser um rei, mas Louis é enigmático, sensual, e faz meu coração acelerar da mesma forma que você. Não quero escolher entre vocês.
Renato, apoiado na mesa, cruza os braços, sua expressão se torna séria:
— O que você está me dizendo é que deseja ter a mim e a ele?
Uma pontada de dor atravessa o coração de Muriel ao perceber o desapontamento nos olhos de Renato. Ele, com a voz trêmula, responde:
— Eu não compreendo plenamente o que sinto por Louis, assim como não sei ao certo o que sinto por você. Tudo isso é novo para mim; fui ensinado a viver na pureza, como um ser angelical, sem me permitir desejos carnais.
Renato, com um sorriso melancólico, fixa os olhos nos de Muriel, lágrimas negras escorrendo por seu rosto, e declara:
— Anjo, eu conheço meus sentimentos por você e não pretendo me enganar. Não me machuque, pois não hesitarei em transformar seu mundo em um inferno se você me trocar por alguém que não lutou por você.
Com essas palavras, Renato se afasta, deixando o escritório, e a porta se fecha com um estrondo que ecoa na mente de Muriel. Ele sente um peso no peito, uma tristeza profunda, enquanto sua mente é invadida por pensamentos confusos e acelerados.
Muriel deixou o escritório de Renato e se dirigiu à saída do castelo, onde encontrou Elisabeth. Sua mente estava um labirinto de pensamentos, atormentada pelas palavras do interlocutor, que ecoavam como um lamento persistente, intensificando sua tristeza. Contudo, Elisabeth, com sua presença acolhedora, trouxe-o de volta à realidade.
— Podemos ir, Muriel? — perguntou ela, com um tom suave.
Ele acenou levemente com a cabeça, tentando ocultar seu desconforto.
— Vamos, estou bem. Não se preocupe — respondeu, embora a dor interna ainda o consumisse.
À medida que Muriel e Elisabeth se afastavam do castelo, o panorama ao redor se tornava cada vez mais desolador. Assim que cruzaram os portões, a devastação da guerra se revelava em toda a sua crueza: árvores despidas de vida, cidades em ruínas e cidadãos que lutavam para reerguer suas vidas, seus olhares vazios refletindo um desespero profundo. A visão da destruição fez Muriel questionar a própria essência de seu ser. Os anjos, seres de luz que deveriam ser faróis de esperança, não haviam estendido a mão aos necessitados. Era um dilema que o atormentava, pois, segundo o que aprendera em seu reino celestial, a justiça e a benevolência eram deveres sagrados de sua espécie.
A caminhada os levou a uma vila pequena, onde os sinais da guerra eram ainda mais evidentes. Corpos jaziam espalhados, e a chuva misturava-se ao sangue que manchava o chão, intensificando a culpa que Muriel já sentia. Ele parou o cavalo, e Elisabeth, perplexa, desceu também, buscando entender o que se passava com ele. Muriel levantou a mão, pedindo silêncio, ao perceber que a cena diante de seus olhos era um golpe devastador em sua alma. A realidade nua e crua da guerra o deixava em um estado de impotência.
— Sou um ser celestial que ignorava a gravidade da situação — murmurou, olhando para o céu choroso. — Queria ajudar, mas a destruição que vejo aqui faz meu coração desmoronar, e a raiva brota em mim, pois nunca nos disseram como era a guerra para vocês. Encarar tudo isso me faz sentir completamente incapaz.
Elisabeth, com um gesto gentil, colocou as mãos em seus ombros.
— Infelizmente, essa é a realidade do mundo — disse ela, com empatia. — As consequências da guerra não são culpa sua. Os anjos não são o que muitos acreditam.
Muriel, em um ímpeto de frustração, afastou as mãos dela, como se tentasse se libertar do peso que sentia.
— É injusto. Ver tudo isso sem vida, tudo destruído, e nenhum anjo apareceu para curar ou ajudar os mais fracos, como nos foi ensinado. Preciso caminhar um pouco, peço que me deixe sozinho.
Elisabeth deu um passo atrás, respeitando seu desejo por um momento de solitude.
— Eu te dou espaço, mas, por favor, retorne assim que puder — pediu ela, com um misto de preocupação e compreensão.
E assim, Muriel se afastou, imerso em seus pensamentos, enquanto a chuva continuava a cair, como se o mundo inteiro estivesse compartilhando sua dor.
Muriel caminhava pela pequena vila, um lugar outrora vibrante, agora reduzido a escombros e desolação. Ao seu redor, a cena era de desespero: pessoas enfermas, crianças com olhares vazios que pareciam refletir a própria tragédia do mundo. No entanto, em meio à dor, ele avistou Louis, um ser de origem notívaga, que se dedicava a ajudar os habitantes, oferecendo palavras de consolo e apoio.
Intrigado, Muriel aproximou-se e, com um tom de surpresa, exclamou:
— Pensei que seres como você não se aventurassem nas terras humanas.
Louis, com um sorriso suave, respondeu de maneira leve:
— Sou um ser amaldiçoado, portador da imortalidade e das sombras da noite, mas minha empatia permanece intacta, mesmo após tantos anos de vida.
Muriel, olhando para o chão, sentiu o peso da culpa apertar seu coração.
— Sinto-me culpado. Enquanto lutava nas esferas celestiais, não percebi que o mundo humano também padecia em meio ao caos.
Louis, com um sorriso reconfortante, tentou acalmá-lo:
— A culpa não é sua. Não se deixe consumir por um fardo tão trivial. O verdadeiro responsável por esta devastação são os seres que perpetuam a guerra. Eu também estive presente em muitos conflitos, testemunhei mortes e um mar de sangue; nada disso é belo ou digno.
Muriel suspirou, sua voz embargada pela tristeza.
— Mas por que não conseguimos interromper as guerras? O peso das mortes é insuportável, e saber que fui impotente diante disso dói profundamente. Saber que muitos não acreditam em nossa existência, em nós, os anjos, agrava ainda mais essa dor.
Louis, com um olhar de compreensão, refletiu sobre a complexidade da condição humana e a luta constante entre luz e trevas. A conversa entre eles, embora envolta em tristeza, acendia uma fagulha de esperança em meio à penumbra.
Louis olhava para o céu encoberto, onde as nuvens pesadas despejavam suas lágrimas em um lamento silencioso. Com uma voz suave, embora impregnada de melancolia, ele pronunciou:
— Eu sou um vampiro, e conheço bem a fragilidade dos anjos. Seres como você podem, em um instante, ser corrompidos, perdendo sua benevolência e empatia. Muitos acreditam que todos os outros são inferiores, mas não partilho dessa visão sobre você, querido lírio.
Muriel, ao ouvir a doce referência, sentiu o rosto aquecer, enquanto reflexões profundas se formavam em sua mente sobre as palavras de Louis. Fechando os olhos por um momento, ele suspirou, buscando clareza, e ao abri-los novamente, declarou:
— Ignorava essa faceta dos anjos. Sempre busquei ser respeitoso, segui todas as normas à risca e me empenhei em agir com justiça, especialmente em relação aos mais vulneráveis. Nunca presenciei ações tão cruéis. É doloroso perceber que os humanos não nos veem mais como seres divinos, mas sim como carrascos.
Com um gesto delicado, Louis virou-se para Muriel e acariciou os cabelos brancos do anjo, ainda encharcados pela chuva.
— Você é um anjo encantador, e chamar-lhe de lírio é um elogio que ressoa com a leveza de seu semblante.
Um sorriso tímido brotou no rosto de Muriel, enquanto a cor rubra voltava a lhe aquecer as bochechas.
— Agradeço, Louis. Contudo, não desejo ferir o Renato. O que sinto por você é confuso, mas, de alguma forma, faz meu coração acelerar, assim como acontece quando olho para ele.
Louis esboçou um sorriso sutil, colocando a mão sobre a boca em um gesto de ponderação.
— Ele chegou antes de mim. Se for para escolher, fique com ele. Não sou a melhor opção neste caso.
Muriel desviou o olhar, um suspiro escapando de seus lábios.
— No entanto, não quero ser obrigado a escolher. Desejo compreender o que sinto por ambos. Se pudesse, escolheria os dois, pois ambos despertam algo profundo dentro de mim.
Com um sorriso malicioso e um brilho sedutor nos olhos, Louis aproximou-se, passando a mão pelo rosto de Muriel.
— Então venha ao meu castelo e descubra o que realmente sente por mim. Mostre-me o que habita em seu coração e, assim, poderemos discernir se é um sentimento genuíno ou apenas um desejo carnal que anseia por aquecer a alma.
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Atualizado até capítulo 24
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