Em uma manhã fria, Muriel e Elisabeth montaram seus cavalos, prontos para partir em direção à cidade vizinha, um lugar que as memórias da guerra haviam transformado em sombras e ecos. Muriel sentia um nó na garganta, a ansiedade em seu peito pulsava a cada passo que davam, e a cada movimento dos cascos, ele aprofundava-se na sensação de que deveria ter feito mais por sua terra e seu povo. A expectativa daquela jornada era envolta de uma aura de incerteza e tristeza, pois a guerra havia deixado cicatrizes profundas nas almas e no solo que pisavam.
Ao chegarem à cidade, o cenário que se apresentava era de devastação. Ruínas de edifícios, árvores secas e um silêncio pesado dominavam o ambiente. Os habitantes pareciam fantasmas vagando entre os escombros de suas vidas, e Muriel não pôde evitar que a dor se alojasse em seu coração. Ele passou a mão pelo rosto, tentando esconder as lágrimas que teimavam em surgir. Que mundo era aquele que habitavam agora? Era um lugar escuro e sem vida, um retrato da destruição que a guerra deixara para trás.
Enquanto observava a desolação, Muriel se fixou na expressão de Elisabeth, que tentava perceber a dor em seus olhos. Com um suave toque no braço dele, Elisabeth disse: "Não se culpe, Muriel. As consequências da guerra são complexas e a tristeza é um fardo que muitos carregam, mas que devemos aprender a suportar." As palavras dela, embora reconfortantes, não bastavam para aliviar o peso que ele sentia. Ele sabia que a guerra, embora tivesse chegado ao fim, ainda ressoava nos corações de todos ao redor deles.
Muriel suspirou profundamente, tentando compreender a verdade que Elisabeth tentava transmitir. Contudo, a sensação de culpa continuava a apertar seu coração, principalmente quando pensava na influência dos anjos e em como muitas vezes, os deuses também pareciam um tanto distantes em suas decisões. "Talvez tenhamos nossa parcela de responsabilidade por este caos," pensou, enquanto uma onda de frustração o invadia. Cada ruína era um lembrete da fragilidade da vida e da obliteração da esperança.
Caminhando em silêncio ao lado de Elisabeth, Muriel fez uma resolução interna. Precisava conhecer o mundo fora do reino dos anjos, entender a fundo as raízes do sofrimento e também as do renascimento. Foi então que ele decidiu que nunca mais permitiria que a dor o definisse, mas sim que se tornaria um farol de esperança para os que ainda lutavam para se recuperar. Tinha um novo propósito, e esse desejo ardente dentro dele pulsava como um hino de renovação. Com isso, Muriel partiu da cidade devastada, determinado a buscar não apenas a cura para as feridas do passado, mas também a reconstrução de um futuro melhor
Muriel e Elisabeth caminharam pelas ruas de uma pequena vila conhecida por seus segredos ocultos. Assim que entraram na loja peculiar, o aroma de ervas e incensos exóticos encheu o ar, criando uma atmosfera encantadora. A loja estava cheia de objetos misteriosos, mas havia uma tensão invisível no ar, causada pela presença de Muriel, um anjo. Enquanto exploravam as prateleiras, a proprietária da loja, uma mulher idosa com olhos perceptivos, recuou involuntariamente, sentindo a dor que emanava da essência angelical de Muriel, o que provocava desconforto para ela, uma demônio de baixo nível.
Com um olhar preocupado, a mulher explicou que a única solução para proteger Muriel e os que o cercavam seria um amuleto especial que poderia esconder sua presença. O amuleto não só protegeria os demônios mais fracos do impacto de sua aura, mas também permitiria a Muriel navegar pelo mundo sem causar dor a quem estivesse ao seu redor. Elisabeth, determinada a ajudar seu amigo, decidiu comprar o amuleto. Com um gesto rápido e decidido, ela pagou à proprietária, que parecia aliviada ao se livrar de um fardo invisível.
Muriel, intrigado e um tanto inseguro, colocou o amuleto ao redor do pescoço e perguntou a Elisabeth por que sua presença não o feriria da mesma forma que afetava os outros. Elisabeth, com um sorriso confiante, respondeu que, embora sua aura também sentisse um leve desconforto, ela era uma das demônios mais fortes, capaz de suportar sua energia sem grandes dificuldades. Ela explicou que somente os demônios de realeza conseguiam ficar próximos a anjos sem se machucar, pois possuíam o poder necessário para enfrentar tal força.
Essa conversa trouxe um novo entendimento entre os dois, iluminando a complexa dinâmica entre anjos e demônios e como suas interações poderiam ser tanto desafiadoras quanto fascinantes. À medida que deixavam a loja, Muriel sentiu uma leveza que não experimentara antes. Com o amuleto protetor, ele não seria mais um motivo de dor, mas sim a esperança de uma amizade mais forte e um futuro onde poderiam coexistir em paz. A jornada de autodescoberta e aceitação havia começado, e juntos, Muriel e Elisabeth estavam prontos para enfrentar qualquer desafio que o mundo mágico lhes reservasse.
No reino celestial, as coisas eram sempre repletas de luz e harmonia. Muriel, um anjo de asas brancas e puro coração, decidiu retornar ao castelo após uma longa missão nas fronteiras do mundo mortal. Elisabeth, a companheira de aventuras, o acompanhou, cheia de curiosidade. Eles estavam ali não só para descansar, mas também para treinar e revisar as armas do reino, algo crucial após as notícias de um conflito devastador que havia abalado a Terra. Enquanto Elisabeth se juntava ao pilotão para monitorar o equipamento, Muriel sentiu a necessidade de um tempo só para si, optando por se refugiar na biblioteca do castelo.
Na biblioteca silenciosa, Muriel se permitiu refletir sobre as imagens do caos e da destruição que havia presenciado. O coração do anjo apertava, não apenas pela beleza arruinada, mas pela impotência de não poder interferir diretamente nas questões humanas. Como um ser celestial, ele sabia que suas mãos estavam atadas pela ordem divina, e isso o feriu profundamente. As lágrimas começaram a escorregar por seu rosto, respingando sobre os livros ao seu redor. O soluço quebrou o silêncio, revelando a dor que ele escondia sob a sua exterioridade serena e luminosa.
Renato, entrou na biblioteca e imediatamente percebeu a agonia de Muriel. Aproximou-se dele com cuidado, sentando-se ao seu lado. "É ruim ver como ficaram as coisas depois da guerra, né?", disse Renato, preservando um tom de empatia. Muriel levantou a cabeça, buscando respostas nos olhos de Renato, e perguntou por que ele nunca havia falado sobre a realidade lá fora. Renato suspirou, sabendo o peso de suas palavras, e respondeu: "Infelizmente, a guerra é cruel e é uma triste realidade que apenas destrói".
As lágrimas de Muriel continuaram a cair, refletindo suas emoções intensas. Renato, percebendo a dor dele, se levantou e assumiu uma posição de apoio. Ele gentilmente passou as mãos pelo cabelo de Muriel e, em um gesto delicado, limpou as lágrimas de seu rosto. “Nada disso é culpa sua”, murmurou, olhando nos olhos de Muriel. “Todos sabemos que a guerra é assim”. O olhar solidário entre eles falou mais do que palavras jamais poderiam. Na quietude daquele momento, eles compartilhavam um peso que era difícil de suportar, mas juntos encontraram um pouco de consolo.
Enquanto o dia caía, ambos permaneceram ali, silenciosos, permitindo que o olhar um do outro transmitisse compreensão e conforto. Muriel começou a perceber que, mesmo em meio ao desespero, a amizade e a solidariedade ainda podiam trazer luz às trevas. No fundo de seu ser, Muriel sabia que continuar lutando por um mundo melhor era a maneira que eles poderiam fazer a diferença, mesmo que indiretamente. Com o apoio de Renato, ele finalmente começou a se erguer, determinado a transformar a dor em esperança e agir por meio dos canais que lhes eram permitidos, reafirmando seu papel como guardião da luz em tempos de escuridão.
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Atualizado até capítulo 24
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