Capítulo 18 A convivência do casal dragão

A mansão Zhang está às escuras, é a quarta hora do dia, mas o

marechal já está de pé pronto para sua missão. Ele gosta de

liderar missões assim, onde um pouco de perigo é previsto. Cerca de

dez anos atrás, a última guerra tinha terminado e o império Jinhai

saiu vitorioso e o grande nome dessa guerra foi Zhang Huizong, o

herói que foi honrado pelo próprio imperador, na época. Hoje em

dia não existem mais conflitos e os poucos encontros com os

bárbaros, não são o suficiente para acalmar o coração desejoso

de ações e perigos do grande marechal Zhang Huizong, que não gosta

da agitação da capital e muito menos do conflito de imagens, que as

pessoas da corte estão sempre fazendo. Para ele, de bom grado,

trocava de lugar com o terceiro príncipe, que vive em um lugar

remoto, na província mais distante. Lá ele ficaria em paz, poderia

expor sua raiva do mundo atacando os bárbaros, que invadem aquela

região com mais frequência. O marechal Zhang Huizong é um homem

triste e magoado, que prefere viver longe das pessoas. Não sorri por

não ver a graça de um anoitecer, de um voo de pássaros ou um

sorriso de uma bela mulher, nada lhe interessa.

Entregando suas bolsas ao ajudante de ordens, ele ouve passos no corredor.

 O que faz acordada? É cedo ainda.

 O esposo está de partida? Vim me despedir e pedir que tenha cuidado

em sua missão.

 Por quê? - pergunta o marechal achando que sua esposa fica bem de

branco, lembra um ser celestial.

 Por ser sua esposa …

 Sente que é sua obrigação? Não tem necessidade, pode voltar a

dormir.

 Quero que tenhamos uma convivência tranquila. Sou sua amiga e quero

muito que seja meu amigo. Isto é possível?

O grande marechal ficou sem resposta. Essa com certeza não é a

coquete concubina Li Liling, muito menos a desinteressada concubina

Ji Huang. Essa é sua esposa, acenando com um pedido de paz dentro da

mansão.

 Não tenho data para meu retorno.

 Ficarei ansiosa por suas mensagens, informando que tudo está bem e

de quando volta.

 Seja cautelosa e cuide de tudo.

 Eu o farei, esposo.

Os primeiros raios de sol vão colorindo o mundo e o grande marechal, em

seu cavalo, olha para a porta de sua mansão e vê sua esposa

acenando e ela está sorrindo. Nunca ninguém se despediu dele antes,

mas sempre sentiu certa inveja de seus subordinados, quando via a

alegria nos rostos dos familiares, quando voltavam de alguma missão,

ao marechal o que o aguardava era o avô perguntando dos resultados

da missão, um relatório minucioso, que durava horas e que ele ouvia

paciente, do mesmo jeito que ouvia quando o avô percebia algum erro

e o repreendia por isso. Aquela visão na porta de sua mansão,

parece uma ilusão e por um momento, quase devolveu o aceno enviado.

A guarnição composta de cem homens, se encaminha para a província de

Jade Azul, a missão do marechal é avaliar a situação das três

províncias do lado oeste do império e depois vai se encontrar com o

terceiro príncipe, unir as informações e voltar para a capital. É

uma avaliação lenta e sem data para terminar.

Tia Meirong está tranquila, beberica seu chá bem quente, em frente a

janela, enquanto observa a neve cair. Já faz um mês que o sobrinho

partiu e ela não fez nada contra a esposa dele. Não por medo ou

receio de algum retorno, que talvez não possa suportar, mas sim por

perceber que aquela garota não é tão ingênua quanto pareceu ser.

A garota é esperta e astuta e tia Meirong está se preparando, logo

vai surgir uma oportunidade que vai agarrar com unhas e dentes, então

aquele sorriso simpático de Zhang Jingfei vai sumir para sempre, é

o que ela acredita. Para essa mulher, os movimentos agora são as

visitas a casa do general Gang Chaofu e conversar com a esposa deste,

Gang Jia Sui, passear pelo mercado e comprar mais joias, ir ao chá

da imperatriz-mãe e em todos esses lugares, tem a companhia das

concubinas do sobrinho. Tia Meirong aprendeu a muito tempo atrás a

esperar por seu momento, fez o mesmo com a irmã e agora é a vez

daquela garota

__ Saboreie seu momento, ele será breve. - murmura tia Meirong olhando

a neve branca cair no jardim.

Zhang Jingfei teve um mês de muita tranquilidade. Aprendeu mais sobre os

servos da casa, sobre a história da família Zhang e passou admirar

a coragem de Zhang Annchi, uma mulher virtuosa que padeceu calada e

trocou sua vida pela vida do filho. O mordomo Yun falou muito sobre o

assunto, para ele não havia nada de mal que a jovem senhora soubesse

sobre a mãe do marechal, o mordomo espera que com isso, a jovem

senhora entenda um pouco mais a personalidade do marechal.

Nesse mês, sem a vigilância de tia Meirong, Jingfei mudou toda a mansão.

Mudou os móveis de lugar, trocou cortinas, pintou paredes,

reorganizou várias partes do jardim e plantou muitas mudas de

jasmim, mesmo no inverno, por que espera que na primavera, elas

consigam brotar e perfumar o ar, além do mais, jasmim era a planta

preferida da mãe do marechal e com isso Jingfei espera que o marido

goste dessa lembrança.

Ela fez mais do que ficar um mês reorganizando a mansão e cultivando a

simpatia e lealdade dos servos, que realmente passaram a admirar a

jovem senhora que os trata com respeito, entretanto, sabem eles que

por baixo daquele sorriso encantador, tem uma mulher inflexível

quando a traem. Aos servos resta uma opção somente, serem honestos

com a jovem esposa do marechal.

Jingfei também passeia pelo mercado, mas não compra joias, seu interesse

maior é em comprar uma bela espada, algo que sempre quis, para tanto

contratou um ferreiro que fará uma especial para ela e uma outra de

presente para o marido, afinal o aniversário de casamento se

aproxima e Jingfei quer dar um presente especial.

No último dia do mês, é o chá da imperatriz-mãe e para não

compartilhar a liteira com tia Meirong, Jingfei comprou uma nova,

aliás, reformou a que tinha, mantendo o belo cavalo marrom, mas

adicionou o emblema da família Zhang e outros enfeites aqui e ali,

para que a liteira realmente se parecesse nobre.

Na mansão tem um cachorro de personalidade triste, talvez siga a

personalidade do dono, mas isso mudou quando Jingfei foi apresentada

a ele.

 O nome dele é Kiri, senhora, mas é muito preguiçoso. - diz o

mordomo Yun.

Kiri é um belo pastor que veio das Terras Além Mar, onde são usados

para pastorear as cabras e outros animais. Isa conhece a raça de

Kiri, é um pastor alemão, mas as pessoas daqui não o conhecem por

esse nome. O cachorro é dócil, mas o que faz é só dormir.

 Preguiçoso ou não é motivado a se exercitar?

O mordomo Yun não tem resposta para essa pergunta. Nunca viu o

marechal brincar com esse cachorro, que está na casa porque foi

presente do falecido imperador que achava que um homem de vinte e

oito anos gostaria de um cachorro, mas, na verdade, o presente foi

dado apenas para conquistar um filho criado a distância. Contudo, na

presença de Jingfei, Kiri passou de um dorminhoco lamentável a um

cachorro ativo, que corria pelo bosque, que espantava as pombas do

pátio e corria alegre atrás de Jingfei. Kiri se tornou a outra

sombra de Jingfei.

No dia do chá da imperatriz-mãe, Jingfei resolve levar Kiri, a

imperatriz-mãe gosta que seus convidados levem seus cachorros, desde

que se comportem. Nesse dia, sai da mansão o séquito de Jingfei,

que consiste em Jia, Xiuying e ela mesma na liteira, na segurança,

andando ao lado da liteira estão os soldados He Yue Jin e Meng Yuan

e o condutor da liteira, um novo cavalariço que substitui aquele

espião.

Quando Jingfei chega, tia Meirong acaba de descer de sua liteira ricamente

ornamentada e olha com desprezo para a simplicidade da liteira da

esposa do sobrinho, na verdade, tia Meirong está com inveja, pois a

garota tem mais serviçais do que ela e ainda por cima com uma

escolta, coisa que poucas esposas de nobres tem. Um segundo momento

de espanto para tia Meirong, é quando o cachorro desce da liteira,

justo aquele cachorro sujo e preguiçoso, mas que agora está limpo,

com os pelos claros e que olha para Jingfei com a alegria de um cão

domesticado. Tia Meirong bufa várias vezes de raiva.

 Bisneta Jingfei, como está? Trouxe um convidado dessa vez? -

cumprimenta alegre a imperatriz-mãe.

 Estou bem, imperatriz-mãe e esse é Kiri, o cachorro que pertence ao

marechal.

 Sim, eu sei. - a imperatriz-mãe acaricia a cabeça do animal que

agora tem o pelo macio e limpo. - Ajudei a escolher pessoalmente esse

presente cheio de carinho.

A tarde está tranquila, o chá está servido e Jingfei passeia pelo

jardim do pavilhão da imperatriz-mãe, que é outro lugar que foi

construído pelo falecido imperador, quando vê novamente o amigo da

mãe, a pessoa que não consegue lembrar o nome e decide se

aproximar, mas no meio do caminho a senhora Chen Mei e Ji Jing, a

interrompem.

 Conhece aquela família, senhora Zhang? - pergunta Chen Mei.

 Aquele homem era amigo de minha mãe.

 Melhor ser cuidadosa agora com as pessoas que conhece.

 Por que, senhora Chen Mei?

 Senhora Zhang, essa família caiu em uma armadilha aqui na corte e

não podem se livrar do peso do escândalo que se envolveram. -

completa a senhora Ji Jing.

 Qual escândalo? Esse homem é um dos amigos mais honesto que minha

mãe conheceu. Ela sempre o elogiava, tinha um imenso respeito por

ele. Um dos melhores negociantes que existe.

 Sim, pode ser, senhora Zhang, mas depois que a esposa se matou, onde

as pessoas dizem que a causa foi por ela ter descoberto que o marido

tem uma amante, que visita todo mês em Jade Azul, muitos nobres se

afastaram e até o casamento da filha foi cancelado.

 Que fofoca absurda! Conheço esse homem e conheço também a mulher

que ele visita todo mês!

 Conhece, senhora Zhang?

 Sim, é a ama de leite dele e que cuidou dele por anos a fio. Céus,

aquela mulher tem mais de oitenta anos! Como puderam fazer isso com

uma família?

Todos ao redor ouviram essa conversa e ela começa a se espalhar de mesa em

mesa. Jingfei decide se aproximar da família, mas antes precisa

saber algo.

 Senhoras, por favor me ajudem. Faz muito tempo que não o vejo e

esqueci o nome dele.

  Senhora Zhang não tem medo de defender alguém, mesmo sem saber seu

nome?

 A mim, senhora Chen, basta que conheça a pessoa e seus atos.

 O nome dele é Meng Jiang. - finaliza a senhora Ji Jing.

As pessoas que estão próximas, estão olhando a atitude de Jingfei,

que se aproxima calmamente da família Meng.

 Olá, senhor Meng Jiang, lembra-se de mim? - diz Jingfei com um

sorriso simpático.

O homem a sua frente parece triste, seus olhos estão tristes, todo mês

ele comparece a esse evento, na difícil tarefa de reconquistar

clientes e negócios, para dar um casamento digno a sua filha e um

lugar de trabalho para o filho, mas todas as vezes é a mesma coisa,

todos o ignoram, a ele e sua família, tudo por causa de um

mal-entendido e de muitos fofoqueiros.

A garota a sua frente lembra alguém, aquele sorriso sincero, os olhos

brilhantes e interessados, que não deixam dúvidas de quem seja,

pois a garota é muito parecida com uma amiga muito querida.

 Liang Jingfei!

Os cumprimentos são feitos e as apresentações também. A filha do

senhor Meng Jiang é Meng Huan e o filho Meng Yao. Uma conversa sobre

o passado se inicia, sobre a saudade que a mãe de Jingfei deixou e o

lamento do senhor Meng Jiang sentiu ao não poder ter visto a amiga

de tantos anos, antes de sua morte prematura. A conversa caminha

cheia de emoção e as pessoas a volta observam o grupo, incluindo a

imperatriz-mãe e tia Meirong, cada uma tirando a sua própria

conclusão.

Já chegou aos ouvidos da imperatriz-mãe, a conversa de Jingfei sobre o

líder da família Meng e como a garota parece sempre acertar em suas

atitudes, a imperatriz-mãe decide apoiar a esposa de seu bisneto,

pois achou um absurdo o que aconteceu aquela família, por conta de

um boato sem provas nenhuma.

 Bisneta Jingfei, então conhece o senhor Meng Jiang?

 Conheço desde criança, imperatriz-mãe e estou aqui agora

perguntando sobre Siá, a baba que cuidou dele por tantos anos e que

ele agora é que cuida dela, visitando-a todos os meses, já que

aquela pobre senhora de oitenta anos está doente e sozinha.

 Nobre atitude de sua parte, senhor Meng Jiang, muito nobre mesmo. -

comenta com cordialidade a imperatriz-mãe.

A imperatriz-mãe percebe um documento oficial nas mãos do jovem da

família Meng, algo que ela sabe o que é. Por dois anos

consecutivos, Meng Yao tenta ser um Apoio a um dos conselheiros, mas

mesmo tendo obtidos as melhores notas na Escola de Magia e Cultivo,

nunca permitiram sua admissão. Tudo baseado na história contada por

alguém e que se tornou verdade para todos.

 Talvez seja a hora de mudar isso. - pensa a imperatriz-mãe.

O imperador caminha lentamente por entre as mesas dos convidados de sua

bisavó, não tem interesse em estar ali, prefere a companhia de sua

doce concubina. Quando conversa com aquela mulher, não precisa pesar

suas palavras, sente-se a vontade, conversa sobre tudo e se sente

feliz em estar com ela. Isso tudo é novo para ele, que foi ensinado

a controlar tudo o que pensa e fala.

Sua companhia nesse chá, é o primeiro conselheiro, que fala das pessoas

convidadas pela bisavó.

 A imperatriz-mãe deveria escolher, com mais cautela, quem ela

convida para esses momentos.

 Por quê? - pergunta o imperador voltando a realidade.

 Muitos nessa festa são indignos. Veja, por exemplo, a família Meng,

que recentemente se envolveu em um escândalo de traição e

suicídio.

 Algo que até hoje não foi comprovado.

 Vossa majestade sabe que este tipo de coisa é bem complicada de

esclarecer. - responde o conselheiro Yan, que ficou muito satisfeito

com esse escândalo que se abateu sobre aquele homem, afinal, isso

facilitou em muito se apropriar de vários pontos de comércio que

pertenciam a Meng Jiang. - Vossa majestade, agora a imperatriz-mãe

está se excedendo em conversar com aquele homem desavergonhado.

 Parece que outras pessoas a acompanham, não é verdade?

 Vossa majestade, a esposa do marechal é nova na corte, não deve

saber do escândalo e as demais, parece que só acompanham.

 Ótimo, então vamos ver o que está acontecendo.

 Vossa majestade, não deve …

As palavras do primeiro conselheiro ficam no ar, o imperador já se

encaminha para o pequeno grupo de pessoas que estão sorrindo. O

imperador percebe que muitas pessoas estão atentas ao grupo e sua

curiosidade aumentou.

 Bisneto, que bom que está aqui!

 Vossa majestade. - cumprimentam todos ao redor.

 Bisavó, observei que a senhora está sorrindo com tanta satisfação,

que me aproximei para saber o motivo.

 Bisneta Jingfei conta momentos divertidos, que aconteceram quando

criança e viajava na companhia do senhor Meng e a mãe dela.

 Bisneta Jingfei? - questiona o primeiro conselheiro. - Não acha que

é muito cedo para chamá-la assim, imperatriz-mãe?

 A duas primaveras bisneta Jingfei frequenta a corte, para mim, está

mais do que na hora de tal intimidade, não é mesmo?

 De certo que sim, imperatriz-mãe. - o primeiro conselheiro foi

intimidado na frente de todos e seu desgosto pela imperatriz-mãe só

aumentou.

 Posso ouvir também, preciso de algumas boas histórias.

 Claro, bisneto, mas antes quero dizer algo que a bisneta Jingfei nos

contou e que pode ser comprovada, isso se alguém quiser, é claro. -

uma pequena indireta aqueles que começaram com a história da

traição do mercador. - Você sabia que o senhor Meng teve uma babá

por longos anos, depois do falecimento da mãe? - como o imperador

negou com a cabeça, a imperatriz-mãe continua. - Pois bem, essa

mulher foi sua ama de leite e depois sua babá, cuidando dele com

todo o carinho e depois de adulto, o senhor Meng resolveu cuidar

dela, algo muito nobre e assim faz, afinal a mulher tem oitenta anos

e vive sozinha.

 Não é a amante dele, como todos dizem?

 Não, bisneto, não é! Isso foi uma fofoca de alguém com a intenção

de prejudicar esse honrado mercador e parece que teve sucesso.

-finaliza a imperatriz-mãe com o rosto cheio de orgulho pela ajuda

que está prestando, diante de algo vergonhoso que foi a fofoca que

quase está destruindo aquela família.

 Sua esposa não se suicidou?

 Vossa majestade, minha esposa morreu por causa da febre do feno, que

contraiu no continente de Gor e por isso foi enterrada sem a presença

da família.

 Agora me lembro do senhor, que em companhia da mãe da cunhada

Jingfei traziam o chá Estrela, pois tinham um acordo especial com o

rei de Gor.

 Sim, vossa majestade, isso mesmo.

 Não vai mais trazer o chá?

 Meu navio, vossa majestade, eu vendi para quitar algumas dívidas e

agora ninguém aluga um para mim.

 Bobagem. O senhor vai levar meu barco, que está parado no cais e vai

refazer esse acordo com o rei de Gor, mas eu tenho uma condição.

 Imperatriz-mãe, eu não sou digno de sua bondade …

 Claro que é e a minha condição é que no primeiro carregamento, a

primeira porção seja minha. Eu gosto muito desse chá.

 Se imperatriz-mãe deseja, eu o farei!

 O resto é por sua conta, mas o chá o senhor não deve esquecer.

 Obrigado, imperatriz-mãe. - Meng Jiang está com os olhos marejados

e a voz embargada. Tinha quase que perdido a esperança de voltar a

fazer o que sempre amou fazer, viajar pelo mar e encontrar novos

lugares para comercializar, função de seus ancestrais desde o tempo

em que o império era o reino de Jinhai.

 Bisneto, gosta das frutas Gor, não gosta? Está vendo esse sorriso,

senhor Meng? As frutas fazem parte do acordo. - sem esperar, a

imperatriz-mãe pega o documento da mão do jovem Meng e mostra ao

bisneto. - Isto está certo? Um rapaz com esse nível, ser rejeitado

para o cargo de Apoio de conselheiro, bisneto.

 Ele precisa passar por um teste muito minucioso, para a vaga. - se

intromete o primeiro conselheiro.

 Conselheiro Yan, estes documentos são as provas e ele se saiu muito

bem, são notas de alto nível e ele fez as provas ontem, pela data

no papel e hoje pegou o resultado, que foi assinado por seu Apoio,

informando que não há vaga para ele.

 Se vossa majestade me permite. - interrompe Jingfei e depois continua

quando o imperador concorda. - Estive com o conselheiro Yang por

muitos dias, naquela nossa missão e ele reclamava muito por não ter

um Apoio. Será que se esqueceram dele? - uma pergunta, mas também

uma insinuação ao primeiro conselheiro.

 Se é assim, digo agora que a vaga existente no Conselho de Magia e

Cultivo, pertence ao jovem Meng, por suas nota notáveis na prova.

Isto é o correto, não é, conselheiro Yan? Já que esqueceram de

perguntar ao conselheiro Yang sobre suas necessidades no Centro de

Pesquisas e Estudos.

 De certo, foi um engano, vossa majestade. O jovem será empossado

amanhã pela manhã, junto com os demais.

__ Ótimo, conselheiro Yan, faça isso.

A tarde foi muito alegre e proveitosa para alguns, mas para outros, as

coisas não ficaram bem. Por exemplo, o conselheiro Yan é o que traz

o chá Estrela para ser vendido no império, mas não conseguiu fazer

acordos comerciais com o rei de Gor, sequer foi recebido por aquele

rei, então o que sobrou, foi comprar de terceiros o chá e revender

no império a um preço muito alto, em consequência, o chá quase

não é vendido e agora o verdadeiro dono da rota de comércio com

Gor volta a ativa e começará a vender o chá em um preço mais

acessível as pessoas, é claro que as vendas serão garantidas e o

lucro será certo. O conselheiro Yan morde os lábios de raiva, olha

para a imperatriz-mãe e a raiva que tem daquela mulher só aumenta

e para se unir a ela veio agora Zhang Jingfei.

A volta para casa está alegre, na liteira de Jingfei é só risos,

agora na liteira de tia Meirong é só silêncio.

Naquele dia, surge um novo rumor, a imperatriz-mãe é poderosa e agora ela

tem uma escudeira, a esposa do segundo príncipe e primeiro marechal,

Zhang Jingfei.

A guarnição do marechal, cavalga lentamente pelas ruas da capital da

província Jade Azul. Não existe muita coisa para ver, primeiro

porque as nevascas do inverno cobriram quase que toda a cidade e seus

falecidos moradores, segundo, que o cheiro de carne podre ainda está

no ar, apesar da neve que ameniza um pouco, mas uma respirada mais

forte e o cheiro penetra nos pulmões e é insuportável,

principalmente na praça, onde ocorreu o confronto com a guarnição

da capitã Wang Li Jie. Este cheiro, ainda atrai os corvos, que se

alimentam do que fica à mostra.

A casa do falecido governador da província será a base de operações,

o marechal divide sua guarnição em quatro grupos, que investigará

tudo e seguirão nas quatro direções para o interior da província,

o próprio marechal comandará um dos grupos.

Por vinte dias, os quatro grupos percorrem o leste, oeste, norte e sul da

província Jade Azul e as observações são as mesmas, ou seja,

todas as cidades e vilas, estão desertas, todos os animais, quer

sejam da pecuária ou de tração, não foram vistos, não foi

encontrado vivo nenhum morador e as lavouras estão sob a neve. Com

essas informações, o marechal e sua guarnição se dirigem para a

província vizinha, Jade Verde, para encontrar o mesmo cenário e o

mesmo em Jade Amarelo. O marechal Zhang Huizong, percorreu as três

províncias do lado oeste do império em sessenta dias e está pronto

a se encontrar com o terceiro príncipe, seu irmão o marechal Guang

Chonglin, na província Jade Negro.

Um encontro aparentemente amigável, apesar de o marechal Guang Chonglin

guardar para si sua insatisfação em ter sua moradia em um fim de

mundo, na verdade, o que ele quer é sair de sua fortaleza sombria e

se aproximar mais da corte. Sente saudades dos amigos, das mulheres

nos bordéis e das bebedeiras.

O segundo marechal Guang Chonglin quer construir uma nova fortaleza na

província de In, que fica a menos de dois dias da capital e quando

isso acontecer, ele ficará muito feliz, não se importa com quem

ficará a coroa, quer voltar para a corte onde as coisas

interessantes acontecem.

O encontro dos príncipes acontece na casa do falecido governador de

Jade Negro, lá eles trocam informações, refazem o relatório para

o imperador e na hora de encerrar o encontro, marechal Guang Chonglin

tem uma surpresa.

 Tragam o homem!

Um homem é arrastado para dentro da sala de audiência. Ele está

amarrado, mas movimenta o corpo a todo custo para andar e sair pela

porta. Seus olhos está fixos no horizonte, aquele olhar fixo que

todos naquela sala, já testemunharam na coroação do imperador.

Está terrivelmente desnutrido, seus ossos estão praticamente a

vista, a pele está escurecida e de sua boca aberta, escorre a saliva

esbranquiçada. Suas roupas estão rasgadas, cabelos compridos

escondem parte do rosto que contém várias cicatrizes, iguais ao

resto do corpo. Seus pés sangram, não usa sapatos.

 Quem é ele? - pergunta o marechal Zhang.

 Encontramos ele na Estrada Principal, em direção a Jade Amarelo,

talvez até o porto, afinal ele carregava mantimentos e uma sacola

com ferramentas.

 Como disse o conselheiro Yang, que todos os que estão em transe

foram para o porto de Jade Amarelo. - comenta o general Ji Liao. - Já

se passaram duas estações e ele continua a caminhar?

 Os portos estão vazios. - lembra o capitão Cheng Yan.

 Estão vendo o corte profundo no pé esquerdo? Por causa desse

ferimento ele andava devagar. Os mantimentos que carregava estavam

todos podres …

 Ou seja, ele foi deixado para trás por não seguir o ritmo dos

outros. - finaliza o marechal Zhang.

 O que é interessante, é que ele não para. Dia e noite, ele tenta

voltar ao caminho, tenta andar, mesmo que não carregue nada, ele

quer voltar ao caminho. - observa o segundo marechal.

 Acredita que ele ainda está obedecendo a alguma ordem e não vai

descansar até cumpri-la?

 Acredito nisso, irmão Huizong, mas eu não sou especialista. Talvez

o conselheiro Yang possa nos dar respostas melhores.

 Levá-lo para a capital, não seria perigoso? - pergunta um dos

capitães do marechal Guang Chonglin.

 O homem basicamente não faz nada, só quer voltar a caminhar. Não

come, não bebe água e não dorme. Acredito que não representa

perigo. - finaliza o marechal Guang Chonglin.

Por alguns minutos, todos expressam suas opiniões e no final resolvem

levar o homem para ser examinado pelo conselheiro Yang.

A reunião termina e os dois irmãos conversam na varanda. O marechal

Guang Chonglin encontrou bárbaros no caminho para a província Jade

Negro.

 Para saquear, talvez? - pergunta o marechal Zhang.

 Eram batedores. Estavam avaliando a situação. Talvez o rei bárbaro

veja aqui uma oportunidade de invasão.

 Acredita nisso?

 Irmão Huizong, assim como você, já lutei várias vezes contra os

bárbaros e muitas vezes, expulsei os acampamentos montados nas

cidades de fronteira, cidades que eles queriam dominar, portanto,

irmão, acredito sim que os bárbaros estão avaliando a

possibilidade de invadir as cinco províncias, se não as cinco, pelo

menos a Jade Amarelo e a Jade Negro.

 Isso será guerra. - comenta com olhos brilhantes o marechal Zhang.

 Sim, irmão, guerra. - outro que está com os olhos brilhando,

antevendo as batalhas.

Homens de guerra, que foram ensinados a lutar, anseiam por batalhas.

A província de Jade Negro também fica no litoral, mas no lado leste

do império, mais precisamente no sudeste. O porto pode ser visto da

sacada da antiga residência do governador, no entanto, não existe

nada para ser visto, antes se podia ver os mastros dos navios

mercantes carregando as centenas de engradados de peixes e frutos do

mar, das mais variadas espécies. Olhando para onde começa a Estrada

da Província, uma das construções do império quando anexou o

reino, assim como a capital que foi construída como todas as

capitais de províncias do império, como cidades fortalezas, ficava

um mar verde das lavouras de arroz. Jade Negro é a província que

comercializava peixes e arroz, para mais da metade do império e

agora o que se vê é nada. Quilômetros de neve e sem nenhuma alma

viva por perto, aliás, vivos por perto são só os corvos e alguns

abutres. A visão é desoladora e muito triste, até para um homem

acostumado com a destruição que uma guerra produz, marechal Zhang

Huizong fica triste ao ver tudo aquilo, ainda mais triste quando se

lembra que participou da guerra para anexar aquelas terras ao império

e que muitas vezes depois, esteve nessa mesma sacada observando o

movimento da cidade, antes de partir para uma batalha contra os

bárbaros. Durante dez anos, o marechal presenciou a evolução

dessas províncias, de cidades destruídas, para grandes centros

comerciais, com uma grande população. O marechal suspira, colocando

para fora a tristeza, afinal a missão ainda não terminou.

Faltando quatro dias para entrarem na Estrada dos Comuns, para depois

cavalgarem pela Estrada Imperial, as duas guarnições dos dois

príncipes do império, descansam as margens de um rio. Tudo o que

foi planejado pelo imperador, os dois marechais e o primeiro

conselheiro, foi feito. As cinco províncias têm agora duas bases de

vigilância. Toda a informação, por menor interesse que tenha, deve

ser enviada a capital imediatamente, revesamento entre os soldados

que ficaram é de dois meses e a troca de equipe será de seis em

seis meses, cada base tem um pira de aviso de emergência de mais de

vinte metros, altura suficiente para que as bases de vigilância em

outras províncias vejam e alertem a capital e finalmente, deve ser

solicitado ao imperador que permita que outras pessoas habitem as

províncias, para impedir a invasão dos bárbaros. A missão foi

completada em noventa e cinco dias.

Sentados na margem do rio, o marechal, seu general, capitão e dois tenentes,

conversam sobre a missão.

 Pensei que encontraríamos algumas pessoas em transe. - comenta um

dos tenentes.

 Ainda bem que não. Pelo relatório da capitã Wang Li Jie, essas

pessoas são difíceis de matar. - comenta outro.

 Isso não é o pior, na verdade a pior coisa seria encontrar pessoas

em transe e reconhecer a pessoa e saber que tem que matar esse

conhecido. - argumenta o general Ji Liao.

 Verdade. Imagino o que eu faria, alguns parentes meus estavam em Jade

Amarelo, todos idosos. - capitão Cheng Yao respira profundamente. -

Eu vi seus corpos encobertos pela neve, não consegui dar a eles um

enterro digno, mas quero muito que isso não volte a acontecer.

Muitos concordam com o capitão, afinal alguns deles têm parentes em

algumas das províncias atacadas e esperam a mesma coisa.

 Nossa preocupação agora é com os bárbaros invadindo o que está

sem proteção. Precisamos repovoar as províncias e protegê-las

direito. - fala o marechal com o olhar fixo no rio.

 Devo enviar um mensageiro para avisar sua esposa que está

retornando?

 Qual a finalidade disso, general Ji Liao?

 Para que sua esposa prepare o banho e a refeição, assim que o

senhor chegar. - completa o general com um sorriso.

 Não vejo necessidade.

Mas, marechal, as esposas amam quando seus maridos enviam uma

mensagem do retorno. Elas acreditam que isso é uma demonstração de

afeto. - explica o capitão Cheng Yao.

 Marechal, isto é um habito de todos os soldados casados ou não, de

avisar a família de seus retornos e o senhor sendo casado a pouco

tempo tem que fazer isso também.

 Não vejo necessidade, general.

 Marechal, querendo muito que seu relacionamento com sua esposa fique

mais forte, tomei a liberdade de enviar um mensageiro até a mansão

Zhang.

 Está passando dos limites, general.

__ Eu sei, marechal espero que me perdoe, mas é por uma boa causa.

O marechal Zhang Huizong não pensou na esposa uma vez se quer,

enquanto estava em missão. Faz parte de seu treinamento, que quando

em missão ou em guerra, qualquer pensamento fora daquele momento em

que está, é colocado no fundo de sua mente, sendo assim, se Jingfei

passou por alguma dificuldade com a tia e as concubinas, isso não

foi o suficiente para desviá-lo de seu dever.

Noventa e cinco dias de tranquilidade para Jingfei. Nenhuma discussão,

nenhum truque, nenhuma observação maldosa na frente dos outros,

durante o chá da imperatriz-mãe ou qualquer outro evento. Agora

Jingfei já é bem conhecida na corte, conquistou o respeito de

muitas pessoas e aquelas que preferem apoiar o primeiro conselheiro,

que não gosta da jovem senhora Zhang, preferem ignorar a jovem. Isso

é um fato, outro fato é que, Jingfei faz questão de os ignorar

totalmente.

O mensageiro está cansado, mesmo saindo com um dia de antecedência,

antes da partida das guarnições dos dois príncipes, ele está

atrasado. Uma forte chuva o deteve por horas e agora em vez de avisar

a esposa do marechal, que o marido chegará em três dias, deve

avisar que o marechal chegará em dois dias.

 Em dois dias, mordomo Yun?

 Considere, senhora, que pode ser menos.

 É comum o marechal avisar? Não me lembro disso antes.

 Não, senhora, o marechal nunca avisou antes.

 E essa letra é dele?

 Não, minha senhora, não é. - vendo a expressão de desapontamento

no rosto da jovem senhora, o mordomo Yun quer concertar as coisas. -

Talvez o marechal esteja muito ocupado e deu ordens para enviar a

mensagem, afinal todos comunicam aos familiares que estão

retornando.

 Não se preocupe, mordomo Yun, eu não fiquei muito chateada com

isso. - Jingfei sorri afastando um pensamento que não gostaria de

ter e segue em frente. - Vamos, mordomo Yun, vamos ver se a despensa

tem tudo o que precisamos, para um bom jantar de boas vindas ao

marechal.

Um dia e meio depois, o marechal chega acompanhado de sua guarda

pessoal, os demais membros de sua guarnição foi para o

quartel-general ou para suas próprias residências. O marechal

esqueceu da mensagem e que agora compartilha sua casa com uma esposa,

que está a porta sorrindo levemente, o esperando, mas o marechal faz

o que sempre fez, desmonta do cavalo, segue a passos firmes em

direção a porta, passa por ela e vai em direção a seu aposento.

 Bem-vindo ao lar, esposo. É pedir muito um cumprimento quando chega?

O marechal para seus passos rápidos, dá meia volta e olha para a

mulher vestida de azul que ainda sorri.

 Não pedi por isso.

 Claro que não, esposo, mas isso é o mínimo …

 Você não é obrigada a fazer nada que não queira.

 Isso é o mínimo que uma esposa quer fazer, quando espera ter uma

convivência pacífica com seu esposo, não concorda? - Jingfei não

se incomodou com a interrupção ou com o olhar de frieza do marido.

 Convivência pacífica? O que você quer dizer com isso?

 Esposo, nós não podemos viver de maneira amigável? Vai custar

muito?

 Tenho minhas próprias normas nesta casa.

 Sim, eu sei e uma delas é o de ser grosseiro?

 Como ousa falar assim comigo? Você, uma simples mulher! - o marechal

esquece que agressividade para com uma mulher é um crime e em

qualquer nível ou tempo, mas, mesmo assim, ele a segura pelo braço

com tamanha força, que marca a pele branca de Jingfei.

 Solte meu braço, que você está me machucando. - fala com uma calma

que a própria Jingfei desconhece. - Parece tolice de minha parte

esperar qualquer coisa disso, então que sua vontade seja feita, mas

continuarei na porta para que todos saibam que educação e bons

modos eu tenho. - fala Jingfei enquanto massageia o local marcado. -

Seu banho está pronto e quando quiser pode jantar.

Jingfei quer chorar, mas não vai dar esse gosto ao marido, não vai deixar

que ele perceba que isso a magoou muito.

Na grande sala de refeições, Jingfei continua massageando o local

marcado e olhando pela janela, pensa que foi muito tola ao pensar que

o marido tinha, de alguma maneira, criado uma simpatia por ela.

Talvez esse pensamento tenha ocorrido, porque o marechal não se opôs

a esposa em momento algum naquele jantar, meses atrás, ela sentiu

que aquele silêncio era uma espécie de aceitação dela como

esposa.

 Idiota! Isso é o que eu sou!

 Senhora, não fique assim!

__ Tudo bem, Jia, não é a primeira vez que me machucam.

Xiuying está em silêncio em um canto, algo não está certo. Acha que isso

não deveria acontecer.

As recomendações para o jantar foram feitas e Jingfei se lembra de uma

das normas do marechal, que vai cumprir para não ter mais conversas

como aquela.

O marechal está mergulhado na sua enorme banheira, que mais parece uma

piscina infantil. Não se arrepende de ter repreendido a esposa, acha

que mulher alguma pode chamar a atenção do marido. Pobre marechal,

que cresceu sem ter uma figura feminina ao lado, portanto não

conhece o poder de uma mulher em uma casa, em uma vida ou na vida de

um homem. Zhang Huizong quer esquecer aquele momento, já a colocou

no devido lugar, só a apoiou para que tia Meirong não transformasse

sua vida em um inferno, mas agora está tudo calmo, como o mordomo

Yun mesmo relatou. Aquele momento é até fácil de esquecer, mas o

rosto de decepção de Jingfei, esse não sai de sua mente.

A enorme sala de refeições está iluminada. Na mesa estão seus

pratos favoritos, tem até um suco de frutas Gor, mas não vê mais

ninguém. O marechal senta-se a mesa, come sua comida sem prestar

muita atenção no sabor, bebe seu suco, come a sobremesa e percebe

que são pêssegos, a sua fruta favorita, cozidos em mel, mas não

tão doces, está no ponto que gosta de doces. Um sorriso de

satisfação pela atenção, veio, mas foi interno, seu semblante

permanece o mesmo.

Apesar do cansaço, o marechal Zhang Huizong quer rever alguns pontos do

relatório que fez, antes de entregá-lo ao imperador, para isso está

na sua biblioteca e sente no ar um aroma conhecido e que o irrita

muito, mas tem mais o que fazer.

 Sobrinho, como está? Foi boa sua missão? - pergunta tia Meirong

entrando sem bater.

 Está tudo bem.

 Vocês já jantaram?

 Eu já jantei, minha esposa sabe que faço minhas refeições

sozinho.

 Ah! Que bom que ela se lembra das normas da mansão.

 Tia, o que quer? Tenho muito trabalho ainda.

__ Sobrinho não sente no ar um perfume conhecido? Parece que alguma

norma, a sobrinha Jingfei esqueceu. - tia Meirong aguarda paciente o

momento de lançar seu veneno e depois sai.

O marechal respira profundamente e sente o cheiro que o irrita, mas

hoje não há mais tempo para conversas, amanhã vai verificar o que

aconteceu.

Jingfei demorou a dormir e quando aconteceu, teve um sonho estranho. Não

eram pessoas ou lugares que Isa conhece ou que estão na memória de

Jingfei, mas acordou inquieta e chamou Xiuying para conversar, para

isso foram passear com Kiri, além do bosque.

 Talvez sejam restos das memórias de Jingfei, senhora. Não deve se

preocupar com isso.

 Acho, Xiuying, que não. As memórias de Jingfei, eu conheço quase

todas, as que não conheço são aquelas de quando era apenas um bebê

e isso porque são memórias desorganizadas. Não, Xiuying, não são

sonhos aleatórios. Pareciam muito reais e as pessoas pareciam

conhecidas.

 Mas os sonhos são assim mesmo, para nos dar a sensação de

realidade.

 Xiuying, acordei inquieta, meu coração parece, até agora em

chamas. Um sentimento de raiva que cresce no peito.

 Talvez, o sentimento exista pelo que aconteceu ontem, com o marechal.

 Pode ser, pode ser.

Isso não convenceu Jingfei, muito menos a Xiuying que reconheceu nas

pessoas descritas, a Senhora do Fogo, mas aquela viveu a mais de

cinco mil anos, algo impossível, afinal, mesmo ela não estava

nascida naquela época e Jingfei ou Isa não tem relação com a

Reino do Fogo. Xiuying precisa de mais informações, a noite vai

falar com a número dois e tentar esclarecer isso, já que não pode

voltar ao Reino das Águas antes que sua missão esteja cumprida.

A refeição da manhã está quase no fim, quando Jingfei entra na sala

e para acabar com qualquer apetite, lá estão tia Meirong e as

concubinas.

 Sobrinha Jingfei, quem deu a você a autorização …

 Deixe que resolvo isso, tia. Quem deu autorização a você para

plantar jasmim nos jardins da mansão?

 Alguém me disse que não podia?

O marechal lança sua xícara na parede, as concubinas gritam, fingindo

um medo que não sentem, tia Meirong sorri, por trás do leque

florido.

Antes de qualquer ação, um som de agonia é ouvido por todos e Jingfei

sai correndo, sabendo que é o cachorro que está em agonia.

 O que aconteceu? - pergunta Jingfei preocupada vendo o cachorro se

contorcer de dor no piso da cozinha.

 Senhora, me desculpe, mas Kiri comeu os ramos do alho e começou a

ficar assim. - diz uma das servas da cozinha.

 Kiri? De quem é esse cachorro? - pergunta furioso o senhor marechal.

 É o cachorro que seu pai o presenteou, não se lembra dele, esposo?

- uma Jingfei totalmente irônica.

O cachorro, em agonia, uiva mais demorado, olha com carinho para

Jingfei e fecha em definitivo os olhos. Jingfei ajoelhada ao lado do

cachorro, chora.

 Senhor marechal, eu não tive culpa! O Kiri tem mania de comer ervas

e deve ter pensado que os ramos de alho eram para comer! Perdoa-me,

senhor marechal! - a serva de joelhos implora, sabe que danificar,

quebrar ou matar algo de propriedade de um mestre é morte na certa.

 Leve essa serva para fora e dê pauladas até que morra por seu

crime! - fala tia Meirong fingindo indignação.

 Parem! Eu ainda não fui destituída de meu cargo como a esposa e

responsável pela mansão. - Jingfei se levanta, olha para o cachorro

que aprendeu a amar, um animal que como ela, só queria alguém que o

fizesse feliz e o que Kiri queria era só correr atrás das pombas,

correr no bosque em sua companhia.

 Senhora Zhang, eu não tive culpa! Acredite em mim! O cachorro comia

tudo que era verde, sabe disso!

 E eu já tinha falado com você, que todas as verduras deviam ficar

longe do alcance de Kiri. Porque eu acho nojento comer algo que o

cachorro comeu e você não obedeceu minhas ordens.

 Senhora, por favor!

 Você vai levar Kiri até o bosque e enterrá-lo lá, depois vai

voltar e limpar a sujeira. Depois disso, o mordomo Yun vai

providenciar que leve vinte chicotadas e vai voltar para as

lavadeiras. Você não é digna de confiança em uma posição como

auxiliar na cozinha.

 Senhora, por favor, não foi culpa minha! Eu prometo que não vou

errar mais!

 Está questionando as ordens de sua senhora? - fala o marechal,

apoiando ela de novo. - Mordomo Yun, aumente as chicotadas para

quarenta.

 Sobrinho, a serva matou um objeto seu …

 Objeto? Kiri era um cachorro dócil e muito meigo, um animal melhor

do que muitos seres humanos. - Jingfei olha para o cachorro e as

lágrimas escorrem. - Matar a serva vai trazer de volta o cachorro?

Claro que não, mas uma punição que a faça lembrar de sua

incompetência é mais útil, porque nunca mais vai entrar na casa

principal para trabalhar. Ouviu isso, mordomo Yun?

 Sim, minha senhora.

Jingfei sai da cozinha e um pequeno grupo a acompanha.

 Ainda não terminamos nossa conversa. - adverte o marechal.

 Sobre o que quer conversar?

 Quem a autorizou plantar jasmim nos jardins da mansão?

 Ninguém autorizou, esposo, essa foi uma idéia estúpida que tive

quando soube que sua falecida mãe gostava do aroma do jasmim, sendo

assim, resolvi plantar achando que o esposo gostaria de sentir o

mesmo perfume que agradava muito a sua mãe, mas se isso é um

incomodo, eu já conserto meu erro, amanhã pela manhã não haverá

um único pé para o incomodar.- Jingfei falou rápido, não deu ao

marido espaço para comentários ou mais perguntas, seus olhos estão

brilhando de raiva e o coração está doendo pela morte de Kiri.

 Por que não cuidou melhor do cachorro? Não sabe que foi um presente

do antigo imperador? - provoca tia Meirong.

 Qual o nome do cachorro? - pergunta Jingfei com os olhos soltando

chispas em direção de tia Meirong.

 O quê? Que pergunta estúpida é essa?

 Nenhum dos dois sabe ao menos o nome do cachorro que vivia coberto de

moscas e sujo, mesmo assim têm a capacidade de chamar a minha

atenção? Vocês são de uma ousadia incrível.

 O que diremos ao imperador, quando perguntar do cachorro? - continua

provocando tia Meirong.

 Qual deles? O que morreu não vai perguntar nada, afinal está morto

e o que está vivo, duvido que se lembre do cachorro e se lembrar

diga a verdade, que um acidente matou o cachorro.

 Está se excedendo, esposa.

 Verdade? Não vejo assim, afinal estou dando a você uma oportunidade

de ouro.

 Explique-se. - o marechal está incomodado, mas não quer pensar

muito a respeito, a esposa o está confrontando novamente.

 Veja, esposo, esta é a oportunidade perfeita para você me repudiar,

não vê?

Um silêncio na sala. Tia Meirong pensou em apenas perturbar a vida da

garota, mas ela mesma está apresentando uma maneira de sair da

mansão.

Repudiar uma esposa é algo sério no Império Jinhai. Toda mulher repudiada

nunca mais poderá casar ou voltar para a família, será uma

proscrita. Em muitas situações em que isso ocorreu, a mulher se

torna prostituta em algum bordel de quinta categoria.

 Você está louca! - grita o marechal. - Já pensou no que vai

acontecer com a minha família?

 Com vocês, nada, afinal são a família imperial, nada os atinge,

mas a mim sim, algo vai acontecer, porque eu estarei livre. Vou

voltar para minha casa, já que não tenho família, vou poder

comprar um navio e me tornar uma mercadora como foi minha mãe. Vou

viver do jeito que sempre quis e não do jeito que meu pai queria. O

único bem que farei aos outros é comprar e vender mercadorias. Isso

será o máximo!

Novo silêncio.

 Sua garota estúpida, quer nos cobrir de vergonha?

 Vergonha é o que sinto vivendo aqui, me esforçando ao máximo para

estar bem e fazer cumprir um acordo que não tive participação,

apenas para agradar e ajudar um pai que se perdeu no caminho da

ganância, isso para mim é uma vergonha!

 Sua garota …

 Chega, tia! - o marechal está espantado com as duras palavras de sua

esposa, não é mais uma afronta, ela está dizendo que desgosta

estar naquela casa.

Jingfei olha para a janela aberta, o céu está limpo e o frio entra na sala.

Frio está seu espirito, na verdade o que ela quer fazer é abrir a

porta e sair andando sem rumo e não voltar nunca mais. Isso foi o

que Isa fez, fugir de suas responsabilidades e nas memórias de

Jingfei, ela só mostrava desculpas para não agir. Nenhuma das duas

lutou de verdade ou assumiu a responsabilidade nas situações, as

duas sempre fugiram, porque era muito mais fácil.

O marechal quer olhar para o rosto da esposa, mas ela está olhando

pela janela, no rosto tem uma sombra, algo triste e os lábios

apertados, como que segurando um grito, algo que o próprio marechal

já fez antes, quando tinha que obedecer a uma ordem do avô, que na

verdade não queria fazer.

O marechal Zhang Huizong agora está pensando nas atitudes da esposa,

no quanto está se esforçando para viver em harmonia, como ela mesma

disse. Ser o alvo de gentilezas é algo que o marechal nunca foi e

sua jovem esposa está tentando o melhor para que ela cumpra seu

papel em um acordo que nenhum dos dois esteve presente ou opinou.

 Esposa, vamos conversar com calma, está bem?

 Sobrinho, é um absurdo ouvir essa mulher!

 Boa noite, tia.

Tia Meirong, por um momento achou que tinha uma luz no fim do túnel e

que poderia se livrar daquela garota, mas pelo tom de voz do

sobrinho, agora ela acha que seus comentários acertaram o alvo

errado.

Jingfei está com muita raiva, sente seu corpo queimar. Para aliviar um pouco

o calor, se aproxima da janela, para sentir o ar frio da noite.

Nas memórias de Jingfei, não existem traços de que algum dia tenha

falado tanto das coisas que queria para sua vida e Isa nunca falou

coisa alguma de seus sonhos para ninguém. As duas mulheres têm um

passado em comum, suas vidas são iguais em muitos pontos, as duas

são pessoas inteligentes, mas que nunca sentiram coragem para mudar,

usando essa inteligência. Só que agora, essa mudança está

complicada, Jingfei sabe bem disso, sabe que o império vai tomar

posse de todas as propriedades das cinco províncias Jade e com isso,

perdeu sua casa e o dinheiro que tem, jamais será o suficiente para

comprar um navio e ser livre do jeito que tão orgulhosamente disse

na frente do marido. Ela não tem saída, mas olha de um lado e

depois olha para o outro lado, não tem como sair desse lugar e isso

faz seu coração se encher de dor. Isa e Jingfei queriam tanto ficar

longe de uma família que as consideravam um peso, que abriram mão

da luta por seus sonhos e aceitaram qualquer coisa que as mantivessem

longe, mas agora elas não têm família, não têm ninguém e não

existe lugar para ir.

A dor se transforma em tristeza e a tristeza em lágrimas.

 Esposa, o que há?

 Não me toque! - Jingfei se afasta. - Vou voltar para o Pavilhão do

Sol, coloque sua tia de volta no comando da mansão. Eu estou cansada

dessa coisa toda.

 Espere! Você precisa me ouvir! As coisas não são assim, você

precisa prestar atenção ao se redor. Lembra-se dos espiões? O que

acontece nessa mansão chega aos ouvidos dos nossos inimigos …

 Nossos inimigos? Eu não tenho nenhum, você é que tem!

 E você os está alimentando contra mim!

 O que quer que eu faça? Eu não vou me curvar aos caprichos de sua

tia e muito menos das concubinas.

 Isto eu sei. Podemos começar seguindo sua sugestão e tentar viver

de uma maneira mais harmoniosa, o que acha?

Jingfei se volta para olhar o marido que tem o rosto coberto na penumbra da

sala, mas é possível ver o brilho do olhar. Não há sinal de

deboche ali.

 Viver assim, começa com um pouco de compreensão e paciência. -

começa Jingfei, entendendo onde o marido quer chegar.

 Seguida pela conversa, antes de alguma atitude que cause algum

embaraço desnecessário.

 Isso é um acordo?

 Acho que um bom acordo. - fala o marechal saindo das sombras e se

colocando a frente da esposa. - Nesse acordo nós temos voz, dessa

vez.

 Sim, verdade. - Jingfei está um pouco mais calma. O coração não

está mais tão apertado, mas a tristeza ainda está por perto. -

Podemos acrescentar algumas coisas com o passar do tempo.

 Para isso, basta conversar a respeito. Então, temos um acordo?

 Para vivermos em paz, pelo tempo que for necessário, com lealdade,

sinceridade e amizade. Tudo bem?

 Acredito que são bons itens para um acordo. Então, temos um acordo?

- insiste o marechal com a mão estendida.

 Tudo bem, temos um acordo.

Um aberto de mão para selar um acordo que lembra muito as palavras do

sacerdote no dia do casamento, mas quem espera que eles se lembrem

disso, afinal, casaram por eles também.

No Astral, uma Guardiã, conversa consigo mesma. Sim, é isso mesmo.

 No palácio, tudo está muito bem. A concubina Lin Ehuang está bem

protegida pelo imperador, que a colocou como favorita e as outras

duas concubinas aceitaram a situação.

 E a imperatriz?

 Fica a maior parte do tempo em seu pavilhão, sai apenas para o chá

com a imperatriz-mãe ou algum evento em que sua presença seja

necessária. - Xiuying Dois está sentada de frente para sua outra

metade, a Xiuying Um. Suas mãos estão uma sobre a outra, este gesto

é para confirmar a magia da divisão. - Xiuying, seu Ki está

trêmulo, o que há?

 Duas coisas aconteceram que não vimos na Janela do Futuro. A

primeira é que o relacionamento entre Jingfei e o marechal é muito

atribulado …

 Verdade. Vimos apenas que eles ficam juntos, mas existe alguma coisa

que podemos fazer?

 Não existe nada, Xiuying Dois, apenas tenho que ficar atenta e fazer

algumas sugestões, que, com certeza, tudo terminará conforme os

planos.

 E a outra coisa, seria?

 Temos na memória a figura da Ninfa do Fogo, certo? - Xiuying Dois,

balança a cabeça afirmativamente. - Pois bem, Jingfei sonhou com a

Ninfa do Fogo, alguns dias atrás.

 Talvez ela tenha visto alguma pintura dela ou talvez seja um mero

acaso.

Acaso? Xiuying Dois, você sabe bem que isso não existe, assim como

coincidências. Jingfei nunca viu a Ninfa do Fogo, muito menos existe

alguma pintura dela ou da batalha de a cinco mil anos atrás, mas

Jingfei descreveu em detalhes a Ninfa do Fogo.

 E o que isso significa?

 Não sei, Xiuying Dois, não sei. - Xiuying está preocupada, não

viu esse fato na Janela do Futuro. - Vamos ficar cautelosas em

relação as duas mulheres, entendeu? Procure saber se Ehuang sonhou

com alguma coisa diferente esses dias e depois me conte.

 Tudo bem. Xiuying Um, você percebeu que não conseguimos mais

sincronizar nossas mentes? Antes não precisávamos contar nada,

porque já sabíamos o que tinha acontecido, mas agora temos que

falar. O que está acontecendo é a separação total?

 Estamos a tempo demais divididas, mas não temos outra opção.

Devemos continuar.

 Ficará triste em ter uma irmã gêmea? Eu não vou ficar. - comenta

Xiuying Dois com um sorriso.

 Sua boba, seus desejos e suas vontades, são iguais as minhas.

Com a rapidez de um pensamento, as duas Xiuying voltam para seus

respectivos corpos, para continuar com a missão, mas Xiuying Um está

preocupada com esse sonho de Jingfei. Sonhos são, em sua maioria das

vezes, relatos de vidas passadas ou momentos que acontecerão.

Talvez, Jingfei seja uma descendente de alguma pessoa da Terra do

Fogo. Xiuying pensa que são muitas perguntas sem respostas e não

tem tempo para descobrir o que isso significa, o mais importante

agora é se concentrar no relacionamento entre o marechal e sua

esposa.

Existe o oposto do Bem, que vive na espreita, sempre vigilante, quando o Bem

não está totalmente atento. No Astral, o Bem pode entrar, assim

como seu oposto, que ouviu a conversa entre as duas Guardiãs e ele

ri, afinal, enquanto o Bem luta muito para que tudo dê certo, o seu

oposto só precisa atrapalhar e se isso der certo, Tian vai trazer de

volta o caos e o Mal.

Xiuying Dois não tem muito trabalho para cuidar de Lin Ehuang. A mais nova

concubina do imperador é agora a concubina preferida e ninguém se

atreve a falar meia palavra sobre ela.

A corte aguarda apenas que o anúncio da gravidez da concubina seja

feito, para felicitar o imperador, que não poupa esforços para

agradar seu único amor na vida. O imperador ama sua concubina, um

sentimento novo para ele e sua felicidade é vista estampada em seu

rosto e sua alegria é maior ainda, pois sua amada não é

gananciosa, ao contrário, Lin Ehuang se mantém simples nas suas

atitudes e palavras, fazendo que a admiração do imperador e de

algumas pessoas da corte, só aumentem.

Outro muito interessado na gravidez da concubina Lin Ehuang, é o primeiro

conselheiro Yan Cong, que acompanhado de sua filha, a imperatriz, já

tem um plano muito bem organizado, plano este que fará o futuro

herdeiro do trono, ficar sob os cuidados da imperatriz Guang Li Hua.

Os dois estão otimistas com esse plano, portanto, eles só aguardam

e observam.

Agora Xiuying Um, tem muito trabalho. Jingfei é teimosa, gosta de expor

suas idéias, algo não muito comum nesse mundo e gosta mais ainda de

fazer o que quer, outra coisa que muitos não toleram, mas com o

acordo feito entre o casal, Xiuying acredita que as coisas vão

retornar aos trilhos, para o sucesso da missão.

Tia Meirong esperava que Jingfei voltasse para o Pavilhão do Sol, mas

para seu espanto, na manhã seguinte, durante a refeição matinal,

lá está a esposa do sobrinho caminhando pelo jardim, recolhendo

todas as pequenas mudas de jasmim. O mordomo Yun informou que a

senhora Zhang continua na casa principal cuidando de tudo como

sempre. A comida está saborosa, mas para tia Meirong a comida tem um

gosto amargo, principalmente quando essa se mistura com a acidez em

seu estômago.

__ Eu ainda tenho paciência. Algo vai me ajudar e eu vou me livrar

dessa garota estúpida. - murmura tia Meirong massageando o estômago,

que agora se contorce em uma azia violenta.

Já se passaram oito meses desde o atentado a vida do imperador, nesse

tempo o marechal Zhang, em companhia do marechal Guang, vistoriaram

as cinco províncias, atestando ao imperador que tudo está deserto

nas províncias e que não foi avistado nenhum inimigo. No final, o

imperador tomou posse de todos os bens abandonados nas províncias e

uma comissão foi montada para redistribuir esses bens para quem

tinha vontade de morar lá, enfim, para aqueles que gostariam de

repovoar as cinco províncias e para tanto deveriam preencher um

requerimento e entregar o documento a tal comissão, que é formada

por dois conselheiros, que, diga-se de passagem, são próximos ao

primeiro conselheiro Yan.

Na semana que o casal Zhang decidiu pela paz, essas decisões do

imperador, foram firmadas em um decreto e espalhado por todo o

império, para quem quisesse saber.

No dia seguinte, da conversa séria entre o casal, Jingfei, junto de

suas servas e do jardineiro, começam a arrancar os pés de jasmim e

vão queimar tudo nos arredores do bosque.

 Sobrinho! Sobrinho! - grita tia Meirong entrando como o vento na sala

do marechal.

 Tia, o que é tudo isso?

 Aquela mulher está queimando coisas no bosque! Isto pode causar um

incêndio!

Tia, se acalme, estamos no final do inverno e o gelo está

derretendo. Duvido que as chamas vão se espalhar. - o marechal se

aproxima da varanda e vê Jingfei carregando uma touceira nos braços,

assim como as servas e o jardineiro. - O que ela está queimando?

 Não sente no ar? São os pés de jasmim!

 Todos?

 Sim, todos os que foram plantados! Aquela garota estú …

 Chega, tia.

O marechal sentiu uma certa porção de culpa, sua esposa, no final das

contas, só quis fazer uma homenagem a aquela a quem pertence a

mansão.

 Onde vai, sobrinho?

 Verificar se existe algum perigo.

Tia Meirong não ficou satisfeita com a reação do sobrinho. Não

esperava essa defesa sincera, talvez uma defesa como antes, aquela

típica de um marido, mas desta vez, tia Meirong sentiu que o

sobrinho está mais simpático com a esposa.

Jingfei usa uma veste simples, cinza, para o trabalho. Suas mãos estão com

grossas luvas e está carregando as touceiras de jasmim.

 Não há necessidade de queimar todas. - diz calmo o marechal.

 Que susto! - se assusta Jingfei colocando a mão sobre o peito. -

Você não pode andar tão silenciosamente assim! Céus, quase tive

um ataque!

 Desculpe, mas o silêncio no andar é resultado de anos de

treinamento.

Um olha para o outro e não surge uma conversa.

 A esposa não precisava arrancar todos os pés …

 O esposo não gosta do perfume.

 A esposa já esqueceu do nosso acordo?

 Deveria ter conversado com o esposo antes. Eu esqueci. - Jingfei fica

sem graça, tomou a decisão de queimar o jasmim, mas esqueceu do

acordo de falarem um com o outro sobre tudo o que fariam. - O esposo

não gosta do jasmim, pensei que não se incomodaria.

 Não que eu não goste, mas durante anos ouço todos dizerem que

minha mãe gostava dessa planta, que comecei a me irritar com ela e

tudo relacionado.

 O esposo sente falta dela?

Antes quando perguntavam tal coisa ao marechal, imediatamente ele endurecia

o rosto e não respondia, mas agora a mesma pergunta veio com um

toque tão delicado e sincero, que o marechal começou a falar sem

perceber.

 Antes, quando era jovem, sentia muito a falta dela. Queria muito me

lembrar de alguma coisa para me confortar, mas eu era um bebê quando

ela morreu e a única coisa que tenho é uma pintura.

Um silêncio amigável.

 O esposo teve companhia, eu não tive. Quando minha mãe morreu, eu

fiquei sozinha. Meu pai se afastou, cuidando dos negócios que ele

não estava familiarizado e minha avó abandonou tudo e se fechou em

sua dor.

 Minha companhia como você diz, se preocupava comigo, admito, mas não

era o que toda criança tem, eu fui treinado a vida toda para ser o

marechal e o príncipe.

 O esposo nunca jogou bola?

 Não tinha tempo para isso.

No inverno não tinha batalhas de bola de neve, com os amigos?

 Não e eu não tinha amigos. - o marechal olha para a esposa, para

sondá-la, ler os pensamentos. - Tem pena de mim?

 Não. Nós vivemos na expectativa de nossos pais e apenas seguimos o

caminho indicado. Quando meu pai se casou novamente, trouxe para casa

uma nova família. Talvez ele sentisse falta de uma companhia adulta

e a menina que veio junto com a nova esposa, ele acreditou que seria

uma companhia para mim.

 Não foi?

 Não, não foi. Duas mulheres mimadas que gostavam de comprar coisas

e mais coisas, não tinham tempo para uma garota de treze, quatorze

anos que se tornou solitária, mantendo distância de todos.

 Parece, esposa, que nossas vidas têm muita coisa em comum, não

acha? - o marechal está a vontade, caminha ao lado da esposa em

direção ao buraco onde estão sendo jogados os pés de jasmim.

 Não, não temos. - Jingfei sorri, zombando do marido. - A nossa

diferença está que eu participei de muitas batalhas de bola de

neve, quando estava na escola de cultivo da província.

 Isso é uma diferença?

 Claro que sim, afinal, vou lançar um desafio e meu esposo não pode

recusar. - continua sorrindo Jingfei.

  Acho que não seria justo, você já participou de várias batalhas.

 Não posso fazer nada, sobre isso. - encolhe os ombros Jingfei,

zombando do marido.

Os servos estão a distância, separando os pés de jasmim e observam o

casal dragão, como estão sendo chamados em segredos pelos servos.

 Está bem, mas antes de começarmos, separe alguns pés desse jasmim

e plante-os perto da Sala da Contemplação. Meu pai fez aquele lugar

para minha mãe e se no verão ou na primavera o perfume se espalhar

pelo ar, ela ficará mais feliz onde está.

 Que pensamento lindo, esposo. Claro que farei isso.

Jingfei, se afasta e ordena que o pedido do marechal seja atendido e olhando

de lado, observa que o marechal está apreciando a vista do bosque,

com as árvores ainda cobertas de neve. Jingfei se abaixa e faz sua

primeira munição, sem esperar um aviso, o marechal é alvejado em

cheio nas costas.

O som do sorriso de Jingfei, parece uma melodia para os ouvidos do

marechal.

Quer dizer que ataques furtivos é uma das normas?

 Que vença o melhor! - grita Jingfei correndo, para se afastar do

marido. - Eu sou perita no assunto.

Talvez o marechal, nunca tenha brincado na infância, o menino de olhos

grandes e negros, sempre ficava observando os outros brincarem, mas

ele estava sempre estudando. O avô dizia que para ser aceito como o

legítimo príncipe e marechal, ele deveria superar a todos, mas não

nas brincadeiras sem sentido, como dizia seu avô. O marechal foi

treinado na arte da guerra, por toda a sua vida e nesse instante,

observa os movimentos do adversário e seu cérebro treinado nas

estratégias de batalha, já imagina um plano para a vitória.

Jingfei se esconde atrás de uma árvore próxima e está fazendo seu arsenal

de bolas de neve, quando a primeira bola a atinge nas costas.

Assustada com o ataque, Jingfei pega sua bola de neve e parte para o

ataque frontal. Jingfei errou nessa. Atacar um adversário de frente,

sendo ele mais habilidoso do que ela, não é uma boa opção. O

resultado, é mais uma bola, dessa vez nas pernas, que a fez quase

cair. Jingfei mudou a tática e volta para trás da árvore. Não

entende como o marido tem tantas bolas de neve e como as arremessa

tão rápido.

 Ei! Esposo! Não vale usar magia!

 Tenho que usar tudo que tenho para minha primeira vitória!

 Nunca vencerá!

 Veremos, veremos.

O marechal aproveita a fumaça, onde estão queimando o jasmim, para

encobrir seus movimentos e com isso contorna a árvore onde Jingfei

está escondida. A saraivada de bolas de neve é certeira e a defesa

impossível. Jingfei cai na neve e fica imóvel. As servas fazem o

movimento de ir até a jovem senhora, mas Xiuying as detém, algo

está acontecendo e Xiuying não quer que alguém atrapalhe.

O corpo de Jingfei começa a se mover de maneira estranha, o marechal

Zhang Huizong acha que exagerou nas bolas de neve e corre em direção

a esposa caída, mas quando a vira, o marechal é surpreendido pelo

mais belo sorriso que já tenha visto.

 Está ferida?

 Não! Estou feliz, me lembrei o quanto isto é divertido. - o sorriso

não desaparece e as mãos cheias de neve se movimentam e arremessam

a neve no rosto do marechal.

 Eu perdi, mas você foi marcado! - e o sorriso se mantém.

O marechal tem neve no cabelo, no rosto e nas vestes, mas isso não

importa, para ele nesse momento, é presenciar a visão mais bela do

mundo, ver sua esposa sorrindo, com os cabelos em desalinho, as

bochechas vermelhas e os olhos brilhando de alegria. Essa é a visão

do ser celestial que sua esposa é.

Os servos observam tudo, estão encantados ao ver o casal dragão sendo

amigáveis um com o outro, mas, de repente, o encantamento se

transforma em choque. O marechal Zhang Huizong está sorrindo! Essa é

a visão mais inesperada de todas. Nunca, nenhum servo viu o marechal

sorrir, em momento algum, com ninguém ou para alguém, mas agora lá

está ele, com um sorriso feliz e sincero no rosto.

Jingfei está sentada na neve, suas roupas estão úmidas e as pontas dos

dedos começas a congelar, mas não foi isso que a fez parar de sorri

e sim a visão daquele homem a sua frente, que está sorrindo.

Jingfei acha que o marido fica mais bonito sorrindo e os olhos

brilham muito.

 Ah, mas vai ser bonito assim, lá em casa! - pensa Isa.

Sentindo que está sendo observado, o marechal se levanta e estende a mão

para ajudar a esposa a ficar de pé.

 Vamos, estamos molhados e podemos ficar doentes.

O casal dragão segue pelo caminho de pedras, em direção a casa

principal. No caminho, passam pelo pavilhão das concubinas que

observavam todo o movimento pela janela. Uma delas está destilando

ódio e a outra esconde o sorriso atrás do leque, ela se lembrou da

própria infância quando brincava com os irmãos e primos. Ficou

contente que o casal dragão estão se dando bem. Ao passarem pelo

pavilhão de tia Meirong, esta está na porta, mas o casal não

reparou nisso, estão conversando sobre a neve, o frio e o sol.

Assuntos mais do que interessantes, para os dois. Tia Meirong bateu a

porta ao entrar e não vai jantar na casa principal hoje, seu

estômago já começou a doer.

O jantar foi servido, mas o marechal não está comendo. Sente que,

pela primeira vez, parece ser ruim comer sozinho.

 Mordomo Yun!

 Sim, marechal.

 Onde minha esposa está jantando?

 Ela ainda não jantou. Está preparando algumas flores para

presentear a imperatriz-mãe, amanhã, no chá mensal.

 Sim, é verdade, o chá. - o marechal respira fundo, isso não é

nada demais, vai apenas pedir pela presença da esposa, por que está

nervoso? - Mordomo diga a minha esposa que quero sua companhia para o

jantar e traga a comida dela para mesa.

 Sim, marechal.

O mordomo quase caiu quando fez sua reverencia. Está na companhia do

marechal desde que este nasceu, viu o bebê chorão se transformar em

um grande homem e soldado, que encheu de orgulho o avô e agora,

depois de mais de vinte anos comento sozinho, Zhang Huizong quer a

companhia de alguém á mesa. O mordomo Yun olha para o céu e sorri,

talvez, pensa ele, a mãe do marechal esteja sorrindo também.

Aquela tarde foi uma tarde de sorrisos, de brincadeiras e revelações. Foi

uma tarde onde teve início o relacionamento de dois dragões.

Capítulos
1 Capítulo 1 - O Reino das Águas
2 Capítulo 2 Um tiro perfeito, na direção errada
3 Capítulo 3 A Sala de Espera
4 Capítulo 4 O Caminho é longo
5 Capítulo 5 A festa de casamento
6 Capítulo 6 A nova casa
7 Capítulo 7 O jantar em família
8 Capítulo 8 O Imperador está morto! Viva o novo Imperador!
9 Capítulo 9 O futuro imperador
10 Capítulo 10 A Coroação
11 Capítulo 11 O retorno a cidade natal
12 Capítulo 12 Estamos de volta!
13 Capítulo 13 Momentos complicados
14 Capítulo 14 O palácio imperial
15 Capítulo 15 Uma concubina preferida
16 Capítulo 16 De volta a mansão Zhang
17 Capítulo 17 Um jantar para diversão dos convidados.
18 Capítulo 18 A convivência do casal dragão
19 Capítulo 19 As maravilhas de um bom relacionamento
20 Capítulo 20 O rumor
21 Capítulo 21 O aniversário de casamento
22 Capítulo 22 A Peregrinação
23 Capítulo 23 A terra treme
24 Capítulo 24 A terra treme e o palácio sangra
25 Capítulo 25 - Parte 1 - A terra treme, mas a esperança é sem fim
26 Capítulo 25.I – Parte 2 A terra treme, mas a esperança é sem fim
27 Capítulo 25.II – Parte 3 A terra treme, mas a esperança é sem fim
28 Uma vida e um sonho
29 O imperador e sua amada
30 A Sabedoria de Lin Ehuang
31 Um jantar muito divertido
32 Um corte no tempo – Os irmãos Tian
33 Um corte no tempo e um lugar para os irmãos Tian
34 Um corte no tempo e o alimento de Tian Long
35 As dificuldades de se governar
36 Conhecendo um ao outro e um convite
37 De volta a Jade Azul
38 Muitas aventuras do casal dragão
39 Um corte no tempo para os sonhos
40 Os Bárbaros
41 O Ataque
42 Os Bárbaros e a coragem
43 A volta para casa
44 O Festival do Fim do Outono
45 A despedida
46 Um continente desunido
47 Observações: Fim do primeiro Livro
48 Observações 2ª Parte
Capítulos

Atualizado até capítulo 48

1
Capítulo 1 - O Reino das Águas
2
Capítulo 2 Um tiro perfeito, na direção errada
3
Capítulo 3 A Sala de Espera
4
Capítulo 4 O Caminho é longo
5
Capítulo 5 A festa de casamento
6
Capítulo 6 A nova casa
7
Capítulo 7 O jantar em família
8
Capítulo 8 O Imperador está morto! Viva o novo Imperador!
9
Capítulo 9 O futuro imperador
10
Capítulo 10 A Coroação
11
Capítulo 11 O retorno a cidade natal
12
Capítulo 12 Estamos de volta!
13
Capítulo 13 Momentos complicados
14
Capítulo 14 O palácio imperial
15
Capítulo 15 Uma concubina preferida
16
Capítulo 16 De volta a mansão Zhang
17
Capítulo 17 Um jantar para diversão dos convidados.
18
Capítulo 18 A convivência do casal dragão
19
Capítulo 19 As maravilhas de um bom relacionamento
20
Capítulo 20 O rumor
21
Capítulo 21 O aniversário de casamento
22
Capítulo 22 A Peregrinação
23
Capítulo 23 A terra treme
24
Capítulo 24 A terra treme e o palácio sangra
25
Capítulo 25 - Parte 1 - A terra treme, mas a esperança é sem fim
26
Capítulo 25.I – Parte 2 A terra treme, mas a esperança é sem fim
27
Capítulo 25.II – Parte 3 A terra treme, mas a esperança é sem fim
28
Uma vida e um sonho
29
O imperador e sua amada
30
A Sabedoria de Lin Ehuang
31
Um jantar muito divertido
32
Um corte no tempo – Os irmãos Tian
33
Um corte no tempo e um lugar para os irmãos Tian
34
Um corte no tempo e o alimento de Tian Long
35
As dificuldades de se governar
36
Conhecendo um ao outro e um convite
37
De volta a Jade Azul
38
Muitas aventuras do casal dragão
39
Um corte no tempo para os sonhos
40
Os Bárbaros
41
O Ataque
42
Os Bárbaros e a coragem
43
A volta para casa
44
O Festival do Fim do Outono
45
A despedida
46
Um continente desunido
47
Observações: Fim do primeiro Livro
48
Observações 2ª Parte

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