Os últimos três meses na mansão Zhang, foram, no mínimo,
interessantes. Jingfei está se recuperando de sua crise alérgica,
pelo menos é o que foi informado a imperatriz-mãe. O marechal Zhang
Huizong espera que isso amenize um pouco sua situação com a bisavó,
mas aquela mulher sabe de tudo e já tinha lhe dito que foi de
propósito e não um acidente, mas como ninguém ousa perguntar nada
ao primeiro marechal, aceitaram o que ele disse.
Alguns dias se passaram e Jingfei quer voltar a seu pavilhão, lá ela se
sente mais segura e essa palavra quando foi dita ao marechal, faz com
que uma ruga de questionamento surja em sua testa.
Segura? O que quer dizer com isso?
Esposo, vamos ser francos um com o outro, pode ser?
Quando menti para você?
Verdade, nunca mentiu. Aliás, isso é impossível, afinal mal nos
vemos durante esse ano de casados. - a ironia de Jingfei já começa
a ser reconhecida por seu marido. - É impossível mentir para quem a
gente nunca vê, isso é lógico.
Você mesma disse, que foi acidental sua queda no lago e a sopa foi
outro acidente. No que você corre perigo de morte, nesta casa? -
muda de assunto o marechal muito esperto.
Esposo, francamente! Sua casa, especialmente sua casa, tem ouvidos em
vários lugares. Acha mesmo que vou dizer que fui empurrada no lago
por alguém e principalmente sem provas? E esse acidente com a sopa é
difícil de engolir e me desculpe a comparação horrível, mas ela
existe, afinal, todos os servos da mansão sabem de minha alergia a
peixes. - Jingfei se aproxima um pouco do marido. - Acredita mesmo na
falta de atenção dos servos da cozinha?
Jingfei convidou o marido para uma xícara de chá na Casa da Contemplação.
Um bom lugar para uma conversa em particular.
Sua serva é de sua confiança?
Esposo, ela salvou minha vida! Se não confiar em quem salvou sua
vida, em quem confiará?
Isso pode ter sido um truque para ficar por aqui, sabe disso?
Xiuying é de minha confiança e isso me basta.
Certo. Então quer voltar para seu pavilhão por não se sentir
segura aqui, mas isso eu não posso permitir …
Por que não?
Como você disse, existem muitos ouvidos e olhares sobre essa mansão
…
E você quer calar os rumores.
O marechal olha espantado para a esposa, achava que essa informação
não tinha chegado a sua casa, mas parece que além dos ouvidos,
olhares, existem as bocas que carregam as informações.
Soube disso através dos servos?
Sua tia, amigavelmente, me disse isso. Que vários nobres comentam
que o senhor marechal despreza sua esposa, escolhida pelo falecido
imperador e não permite que ela more com ele na casa principal. Foi
o que ela me disse e que eu deveria me envergonhar por manchar o nome
da família. Como se a culpa fosse minha!
O marechal sabe que a tia deve ter mesmo falado tal coisa e sabe também
que a tia está fazendo um jogo perigoso.
Você está certa, a culpa não é sua, portanto, a partir de hoje
você vai morar aqui na casa principal.
O quê? Como? Não quero! Não tem espaço!
O quarto de hóspedes agora é seu aposento e vou deixar a casa
principal sob seus cuidados.
O quê! Você enlouqueceu? Sua tia vai me matar de verdade dessa vez!
Dessa vez? O que quer dizer?
Nada, foi maneira de falar.
Seja cuidadosa com suas falas, algumas não consigo entender, mas as
pessoas podem interpretar de modo errado o que diz.
Certo, certo.
Um momento de silêncio, os dois pensam no futuro. Jingfei já prevê as
batalhas diárias com tia Meirong e o marechal prevê o que ouvirá
da tia.
Xiuying, chame os dois soldados que estão esperando na ante sala.
Sim, marechal.
Alguns segundos depois, Xiuying volta acompanhada por dois soldados. São
duas figuras, um gordo e um magro. Um leal e um ambicioso. Um feliz,
por receber uma missão importante e o outro irritado, por ter que
ser babá de uma mulher.
Esses, a partir de hoje, serão sua escolta. - o marechal segura o
queixo de sua esposa para olhar em seus olhos, para que ela saiba a
seriedade de suas palavras. - Não saia para lugar nenhum sem a
companhia deles, entendeu?
Isso é um exagero! - exclama Jingfei soltando seu queixo. - Não
existe necessidade.
Acha que está segura só com a presença de suas servas?
Jingfei reconhece o ponto que o marido colocou, realmente não está segura
naquela casa e a presença das servas foi de pouca utilidade quando
caiu no lago.
Esses são Meng Yuan e He Yue Jin, são soldados de segunda classe,
pertencem a infantaria sob o comando do general Quon Changlian e de
agora em diante se reportarão a mim sobre qualquer assunto.
Entenderam?
Sim, marechal! - respondem os dois.
Eles não vão me seguir pela casa o tempo todo, não é?
A segurança da mansão teve um aumento de mais cinco soldados, agora
são quinze homens cuidando da casa principal e seus arredores. Esses
dois ficarão nas portas da frente e dos fundos, mas a missão mais
importante é acompanhar você quando sair para qualquer lugar.
Certo, tenho duas sombras agora.
O quê disse?
Certo, como queira.
Depois de alguns segundos de silêncio, o marechal acha que aquele é o
momento para algumas perguntas.
Soldados, voltem para seus postos e Xiuying saia.
Sim, senhor marechal. - respondem os três.
Tem mais alguma coisa para falar?
O convite para o chá foi uma desculpa de Jingfei para conversar com o
marido, mas ele gostou do chá e dos biscoitos, mais ainda de
conversar com a esposa. O marechal já percebeu que sua esposa é
inteligente, observadora e sua língua é ferina. De alguma maneira
isso o agrada.
Tenho uma pergunta simples e quero uma resposta sincera.
Tudo bem.
Como aquele sangue apareceu na cama, na nossa noite de nupcias? O que
sua serva sabe sobre isso?
São duas perguntas.
Responda.
Responderei a primeira e em seguida farei uma pergunta e talvez
responda a segunda.
O marechal percebeu que a esposa quer proteger a serva.
Pois bem, que seja.
Bem, aquilo era sangue de galinha. Trouxe em um frasco pequeno e
espalhei quando vieram nos acordar. Agora é minha pergunta. O que
minha serva tem com o assunto?
Ela não me deixou cuidar de você quando caiu no lago. Disse que
você ainda é virgem e que eu não podia despi-la, completou dizendo
que o casamento não foi consumado.
Bem, ela está certa. Respondendo a sua segunda pergunta, foi ela que
surgiu com a idéia.
Ela sabia o que aconteceria?
Também me pergunto isso, mas ela apenas disse que foi uma intuição,
pois já ouviu algumas coisas sobre o primeiro conselheiro.
É, existem algumas coisas que são obvias em relação ao
conselheiro Yan.
A tarde está ótima. O sol ainda ilumina e aquece com seu calor morno.
As folhas se movimentam com a brisa fria. Se não fosse uma farsa,
poderia se dizer que o casal sentado, tomando chá e comendo biscoito
são um casal normal conversando sobre a vida. Os dois estão em seus
próprios mundos. Jingfei continua se martirizando antecipadamente,
quando tia Meirong souber das novidades e o marechal olha
disfarçadamente as belas mãos de sua esposa.
O chá está frio e os biscoito acabaram, hora de voltar. Durante o
jantar, tia Meirong será informada sobre a nova situação. Jingfei
suspira e olha para o céu. Pedir ajuda é sempre bom.
A mesa de jantar poderia ter se tornado um campo de batalha, era o que
esperava Jingfei, mas absurdamente, tia Meirong recebeu com certa
tranquilidade a notícia que a esposa do sobrinho é que daria as
cartas desse dia em diante. Isso não acalmou o coração de Jingfei,
ela percebeu que tia Meirong já tinha conhecimento do assunto, ou
seja, Jingfei acredita que existe um espião na casa e que vai contar
tudo para tia Meirong, por isso aquela mulher está com um semblante
tranquilo. Essa atitude da tia deixou o marechal em alerta também,
conhece a tia a anos e sabe o quanto ela gosta de dirigir a casa
principal, essa tranquilidade toda é estranha e ele imagina que vai
ter que deixar alguns soldados em alerta.
Se a senhora Zhang precisar de alguma orientação, ficarei feliz em
ajudar. - encerra o assunto tia Meirong antes de voltar para seu
pavilhão.
Tia, um momento. - o marechal quer fazer o possível para que as duas
mulheres se deem bem. - Por que não chama minha esposa de sobrinha?
Chamá-la de senhora Zhang é muito formal para membros da família.
Acho inapropriado, sobrinho. Ela acabou de chegar...
Acabou de chegar? Tia, estamos casados há um ano já, acho que a
senhora deve chamá-la de sobrinha, já é tempo para isso. - essas
palavras para um bom entendedor já deveria bastar e tia Meirong
entendeu a mensagem do sobrinho.
Claro sobrinho, é verdade. Então sobrinha Jingfei, pode me
perguntar qualquer coisa que não souber. Estarei à disposição. -
tia Meirong tenta ser simpática, quase convence Jingfei e convenceu
totalmente o marechal. - Agora vou me retirar, estou muito cansada.
E nós, senhor marechal, como devemos nos dirigir a senhora Zhang? -
pergunta a concubina Li Liling com um sorriso sedutor para o
marechal.
Como senhora Zhang está bom. - responde sério o marechal que não
olhou para a concubina. - Podem se retirar.
Sim, senhor marechal. - falam as duas.
Jingfei não gosta das concubinas do marido, em especial de Li Liling, a
outra tem um olhar assustado, como uma corsa acuada, deve fazer tudo
o que a outra manda, é o que acha Jingfei, mas Li Liling é outra
história. Essa concubina é ousada, aquele sorriso foi descarado,
uma provocação sem vergonha, mas tais pensamentos assustam Jingfei.
O que importa se as concubinas estão em luta pela atenção do
grande marechal? Só por que ele é bonito, poderoso e o príncipe do
império?
Grande coisa. Eu não me importo. - pensa Jingfei observando as
costas largas do marido que se retira para a biblioteca.
Jingfei tem muitas coisas com que se preocupar. Terá que observar as
atitudes de tia Meirong, das concubinas e do espião, que não sabe
quem é.
Senhora Zhang?
Mordomo Yun Qian. Precisa de alguma coisa?
Senhora, essa deveria ser minha pergunta. - o mordomo sorri, ele
gosta da esposa do marechal, acha a jovem muito esperta e educada. -
Estou aqui para apresentar as boas vindas dos servos desta casa,
senhora. Se a senhora quiser, pode me chamar de mordomo Yun, assim
como faz o senhor marechal.
Claro que sim, mordomo Yun. Espero fazer tudo certo.
Tenho certeza que tudo dará certo e pode contar com minha ajuda no
que for preciso.
Que bom, mordomo Yun, que bom.
Vou pedir para Xiuying levar um chá para a senhora.
Obrigada.
Será que o mordomo Yun é o espião de tia Meirong? Talvez o cozinheiro?
Talvez a serva que recolhe as roupas para lavar? Quem será? Essas
são as perguntas que povoam a mente de Jingfei, que terá de agir
com muita cautela.
Xiuying, estamos no caminho certo?
Não se preocupe, está tudo de acordo.
De acordo com os planos da deusa?
Não se preocupe, tem apenas que salvar a todos.
Que ótimo! É só isso que tenho que fazer? Maravilha!
Uma boa noite de sono, ajuda a organizar os pensamentos para o que vem a
frente.
Xiuying Um e Xiuying Dois se encontram no mundo do sonho, o Astral, lá elas
conversam sobre o andamento das coisas, revisam os planos, fazem
novos planos e se consolam quando algo não saiu como planejaram.
Xiuying, como estão as coisas no palácio?
Bem, muito bem. O imperador é um homem com modos muito contidos. Ele
é tímido em muitos momentos, mas estão se conhecendo aos poucos e
existe um interesse entre os dois muito bom. E Jingfei e o marechal?
Céus Acima de Nós que nos protejam! Jingfei não demonstra nenhum
interesse no marechal e o mesmo acontece com ele. Jingfei tem na
memória o fiasco que foi o casamento dos pais e como o pai lapidou
toda a fortuna que a mãe conseguiu e como perdeu os vários acordos
comerciais, baseado nas atitudes erradas dele. Já Isa tem o mesmo
sentimento contra casamentos que Jingfei, afinal o pai perdeu quase
tudo que a mãe construiu e ainda se casou novamente, substituindo a
esposa, algo que enfureceu Isa.
Elas não percebem que as mães se casaram por amor e não por
imposição, que os pais amavam de verdade as mães, o problema é
que eles não eram bons nas suas áreas, como as esposas, mas nunca
foi uma união por interesse. - comenta Xiuying Dois.
Talvez isso seja a grande pedra no caminho, as duas têm que
reconhecer que as mães foram felizes afinal.
Diferente de Ehuang e Ângela. As duas querem muito serem felizes,
querem uma vida onde possam ser apenas elas mesmas.
__ Isso é verdade, temos nas mãos personalidades muito diferentes e
vamos ter que nos esforçar muito para que tudo dê certo. - finaliza
Xiuying Um.
Foi colocada nas costas de Xiuying uma grande responsabilidade, a Senhora
das Águas acredita que ela vai conseguir colocar as coisas nos seus
devidos lugares, embora, em uma linha do tempo diferente, as coisas
vão acontecer do jeito certo.
As duas se despedem. Reforçam a magia da divisão e cada uma volta para
o corpo adormecido em suas respectivas camas.
Os acontecimentos foram alterados por causa de um único raio e a
responsável por isso ainda tem dúvidas quanto a sua capacidade de
consertar tudo. A cada dia que os acontecimentos se alinharem,
Xiuying saberá o quanto ela é valiosa. Assim como Jingfei e Isa
precisam descobrir sobre a própria vida, Xiuying precisa aprender a
confiar mais em si mesma. Essa é uma das tarefas mais difíceis para
qualquer um, olhar para dentro de si e aceitar, mudar ou corrigir o
que vê.
Um mês se passou e nesse tempo, Jingfei apenas conheceu melhor a mansão
e seus arredores, se atualizou sobre as preferências do marechal e
também conheceu e leu os livros de contas da propriedade. Conheceu
todos os servos da mansão e gostou muito deles e eles se
simpatizaram com a senhora Zhang.
A história de cada um foi contada pelo mordomo Yun, assim como sua
própria historia. O mordomo Yun já foi um soldado, trabalhava como
ajudante de ordens do velho general Zhang, mas em uma batalha, o
então jovem soldado Yun, foi atingido no olho direito quando salvou
a vida do general Zhang, que em agradecimento o dispensou
honrosamente do exército e depois o contratou para ser mordomo na
fazenda de cavalos da família Zhang. Quando o general Zhang morreu,
seu neto se mudou para a mansão e trouxe boa parte dos servos e tia
Meirong.
Por isso você tem nome e sobrenome, você não é um servo.
Sim, senhora. Estou a serviço da família Zhang desde antes do
nascimento do senhor marechal.
Meu esposo confia muito em você, mordomo Yun.
Eu tento me esforçar muito para isso.
Então você sabe que temos espiões nessa casa, não sabe?
Sim, senhora, eu sei.
É difícil saber quem são?
Eu já fiz uma lista com todos os nomes e tentei observar cada um
deles, mas infelizmente, todos agem normalmente.
Mordomo Yun, estou apostando nessa lealdade que tem com o marechal e
estou confiando em você também.
Agradeço, senhora.
Muitas das conversas que saem daqui, você não teria como saber e
assim repassar, mas os outros servos sabem. Nunca ouve o que os
servos falam?
Procuro não ouvir, na maioria das vezes são conversas sem sentido.
Precisamos estar atentos, essas informações sobre o que acontece na
mansão, podem servir para prejudicar o marechal …
Eu sei, senhora, mas o que podemos fazer?
Fique bem atento, se perceber algo estranho no comportamento de algum
servo ou soldado, me fale. Tudo bem?
Sim, senhora. - mordomo Yun está satisfeito com a nova senhora da
casa, que se preocupa com todos e inclui o marechal. - Vou
providenciar o jantar e agora me retiro.
Estarei sozinha, de novo?
Sim, senhora.
Que bom. Antes só do que mal acompanhada.
O mordomo Yun não entendeu bem a última frase, mas gostou dela, assim
como gosta da jovem senhora que tem a aparência de uma menina
frágil, mas certamente isso ela não é.
A Casa da Contemplação se tornou o lugar favorito de Jingfei, além
da beleza do lugar, é distante da mansão e é pouco provável que
alguém fique debaixo da água para ouvir alguma conversa.
Jingfei olha ao redor e suspira, geralmente faz as refeições sozinha, tia
Meirong e as concubinas, só aparecem para o jantar quando o marechal
está na mansão e como isso é bem raro, Jingfei janta sozinha.
Nesse mês que está terminando, o marechal voltou para a mansão por
duas vezes e nas duas vezes, Jingfei sentiu uma irritação que não
é normal nela. A primeira a irritá-la foi tia Meirong insinuando
que não vê mudanças.
Não ensinaram a você como administrar uma casa?
Uma pergunta que ficou sem resposta. Em outro jantar com o marechal, Li
Liling surgiu com um vestido novo, ricamente bordado com dragões
dourados. O sorriso de vitória de tia Meirong e de Li Liling era a
pior parte. Durante todo o jantar, tia Meirong fazia questão de
fazer o marechal olhar para a concubina, mas o marechal estava em
outro nível, só voltou para casa para pegar alguns mapas e no meio
do jantar, um soldado trouxe um recado e o marechal voltou para o
quartel-general. Deixando frustradas as três harpias que não
sorriam mais. Quem sorria era Jingfei.
No último dia daquele mês, a imperatriz-mãe convidou Jingfei para
participar do Chá Imperial, que é uma espécie de reunião mensal
da imperatriz-mãe com os membros da corte do mais alto escalão e
com aqueles que tentam chegar no topo. É uma reunião formal, com
homens e mulheres, vestindo suas melhores roupas. Como a
imperatriz-mãe gosta de cachorros, é autorizado levar algum
cachorro, desde que ele seja educado.
Jingfei foi nessa reunião. Vestia uma bela roupa, mas sem exageros. Foi em
sua liteira sem identificação, enquanto tia Meirong e as concubinas
seguiam na carruagem da família Zhang. Tia Meirong está satisfeita,
esse é o último dia do mês e aquela garota não mudou nada na
mansão. Essa mulher espera o jantar mensal do marechal para
desmascarar aquela garota estúpida de uma vez por todas.
Jingfei está acompanhada de seus seguranças. Agora os conhece melhor. O
soldado rechonchudo é Meng Yuan.
Eu gosto muito de pão. - repete sempre que ele pega mais quatro pães
na travessa.
O soldado Meng Yuan é muito alegre, está satisfeito em estar ali,
porque antes nunca o mandaram fazer nada de especial, ficava horas de
vigia e sofria muito com os risos sobre seu corpo gordo. O soldado
Meng Yuan é filho de um antigo capitão, que nunca chegou a ser
general, foi incapaz disso, mas colocou nos filhos suas ambições e
então o soldado Meng Yuan foi treinado desde pequeno a ser um bom
soldado, mas sua paixão pela comida sempre foi mais forte e quando
seu corpo, ao invés de ficar esquio se tornou uma bola, o pai o
neglicenciou e dirigiu a atenção ao filho caçula que respondeu as
expectativas do pai e se tornou esquio, bonito e um soldado de classe
A, enquanto o soldado Meng Yuan é um soldado de classe C, a mais
baixa. Parece que aparentemente isso não o incomoda, pois está
sempre sorrindo e conversando com todos na mansão, que diferente do
quartel, não faz piadas com seu tamanho, afinal na mansão existem
outros iguais a ele.
Agora o soldado He Yue Jin é o tipo ambicioso, não tem família nobre,
sua mãe é fazendeira e suas irmãs mais novas já casaram com
outros fazendeiros, portanto, o soldado He Yue Jin cuida da mãe
sozinho. Ele tem sonhos e um deles é ser tenente, e quer isso logo.
Ficou decepcionado quando soube da missão.
Ser babá de uma mulher, é o pior que podia acontecer.
O soldado He Yue Jin não é bobo, sabe que aquela mulher é a esposa
do marechal, mas ainda não é a missão que dará a ele a
visibilidade que quer para ser promovido.
__ Eu mereço muito mais!
Soldado He Yue Jin acredita que é uma pessoa especial, acima dos outros. Por
algum motivo, que só ele sabe, faz disso uma crença. Talvez por
achar que é mais esperto ou inteligente que os outros, na verdade
ninguém sabe, por isso, assim como soldado Meng Yuan, soldado He Yue
Jin é motivo de piadas no quartel-general.
A reunião da imperatriz-mãe foi muito divertida para Jingfei, que foi
apresentada a muitas pessoas, nobres ou não. Até viu um conhecido
mercador, que saiu de Jade Azul e fixou seus negócios na capital.
Viu também o marido conversando com o terceiro príncipe e outras
pessoas, que quando percebeu olhares sobre ele, voltou-se e viu o
olhar admirado da esposa, que dá meia volta e vai continuar seu
passeio pelos jardins externos. A concubina Li Liling achando que
essa pode ser uma boa oportunidade, corre em direção ao marechal,
mas o olhar gelado do marechal para ela, congela qualquer intenção.
Percebendo que sua permanência no local já foi o suficiente, Jingfei se
prepara para ir embora quando vê uma cena estranha. O amigo da mãe,
que ela gostaria muito de lembrar o nome, está perto de um rapaz
cabisbaixo e uma bela jovem que segura um cachorro marrom enorme.
Para Jingfei é um cachorro comum do sul do continente, mas Isa o
conhece como pastor alemão. O pouco que sabe da história dessa
pessoa é que saiu de Jade Azul e veio para a capital, se casou e fez
uma fortuna muito grande com o comércio de especiarias, tecidos e
peles. O estranho na cena, é que ninguém se aproxima deles, não
olham para eles ou os cumprimentam, eles estão isolados.
Não querendo ficar mais e com os pés doendo, Jingfei volta a mansão,
tem muito o que fazer, já colocou no papel todas as mudanças que
quer fazer na mansão e isso começa no dia seguinte, no primeiro dia
de um novo mês.
__ Um novo mês, uma nova oportunidade. - comemora Jingfei.
A mansão, a casa principal da família Zhang, é enorme. Tem apenas o
pavimento térreo, com uma varanda ao redor de toda a casa. Seus
cômodos são bem distribuídos e todos deveriam ser bem iluminados,
deveriam. Tia Meirong não gosta que abram as cortinas, acredita ela
que a luz o sol pode estragar os móveis e o vento encher o ambiente
de pó. Sim, é isso que ela acredita.
Ela não permite que se abram as janelas?
Não, senhora Zhang. Tia Meirong acredita que assim os móveis serão
mais conservados.
Céus! - Jingfei tem muito o que fazer. - Mordomo Yun, reúna os
servos, tenho instruções a passar.
Sim, senhora.
Na sala, os vinte servos da mansão esperam as novas ordens da jovem
senhora, todos estão preocupados, ocorreram muitos boatos no último
mês e um deles dizia que a jovem senhora dispensaria alguns servos,
vendendo-os ao mercado de escravos.
Jingfei entra na sala e senta de frente aos servos e começa a enumerar tudo
que será feito durante a semana. Quando ela terminou, os servos
olham uns para os outros.
O que foi?
A senhora não vai dispensar alguns servos? - pergunta Jia.
Por que fazer isso? Preciso de todos para cuidar da mansão.
Um som leve, mas que pode ser ouvido, enche a sala, é um suspiro de
alívio emitido por todos os servos.
Porque perguntou isso, Jia?
Algumas conversas surgiram, senhora, mesmo eu dizendo que isso não
aconteceria, muitos acreditaram que seriam vendidos.
Vendidos? Que absurdo! Prestem bem atenção ao que vou dizer. Se em
algum momento eu quiser dispensar alguém, eu vou dizer, entendido?
Sim, senhora Zhang. - respondem todos juntos.
Esta casa precisa dessa quantia de servos, para que ela funcione em
paz e eu não pretendo mudar isso. Entendam bem.
Jingfei pode adivinhar quem espalhou esse rumor, mas para ajudar nessa
espionagem toda, colocou Jia com a missão de contra espionar a todos
os servos. Parece que está dando certo.
No projeto de Jingfei, o trabalho será pesado. Ela quer limpar todos os
móveis da casa, o chão, as cortinas, as janelas e as portas. Não
quer deixar nada de lado, até o telhado terá sua atenção, pois
percebeu algumas goteiras pela mansão, em um certo dia de chuva.
As lojas de tecidos receberam Jingfei com certa frieza, já que não a
conhecem e uma fofoca a precedeu. Dizem os cuidadores da vida alheia
que, a senhora Zhang é arrogante e grosseira com todos. Na loja,
Jingfei está na companhia de suas servas e dos dois soldados e nesse
momento, Jia se afasta para fazer seu trabalho de contra espionagem.
Senhora Zhang, não é de graça que o vendedor a está tratando com
frieza, uma conversa chegou aqui dizendo que a senhora trata mal
todas as pessoas. - informa Jia depois de uma conversa com um dos
ajudantes. Jia tem essa facilidade de conversar com as pessoas e
conseguir informações. - O que fará?
Nada de mais. Vou ser como sempre fui.
Jingfei caminha pela loja escolhendo tecidos aqui e ali, pergunta ao vendedor
a opinião dele para esclarecer algumas dúvidas e recebe respostas
secas, mas com o passar do tempo esse vendedor observa que para uma
mulher arrogante, ela está sendo gentil e educada demais. O vendedor
pensa que ou ela está fingindo ou a história que lhe contaram é
mais uma fofoca. O vendedor acabou aceitando o que diz sua intuição
e mudou sua maneira de tratar a jovem esposa do marechal. No final,
Jingfei leva tudo que precisa para a mansão, incluindo roupas novas
para os servos, Jingfei acha um absurdo que eles usem roupas com mais
de cinco anos de uso e algumas delas estão desbotadas e gastas pelo
uso, mas agora os servos parecerão mais adequados nas vestimentas. E
o vendedor ainda ganhou uma bela gorjeta e sorriu como nunca.
Então, ela tratou você mal? - pergunta o dono da loja.
Gostaria de saber se alguém arrogante deixa duas moedas de prata
como gorjeta.
Duas moedas?
Parece, senhor, que a conversa é de gente que não tem o que fazer.
São raras as nobres que vêm a loja e nos tratam com educação e
essa é uma dessas raras nobres, isso eu garanto.
Mais um ponto para Jingfei em sua batalha.
A mansão está brilhando. Tudo está limpo, encerado e lustrado.
Janelas abertas para o sol e a luz entrarem. Flores nos vasos e vasos
para essas flores. Foi preciso sair para comprar vasos, xícaras e
muitas outras coisas que a mansão não tinha. O cheiro de mofo da
mansão sumiu, deu lugar ao perfume das flores e dos incensos
aromáticos. As cortinas velhas e descoloridas foram trocadas por
outras novas e com tons suaves. Almofadas novas, tecidos novos nas
camas, na mesa e em vários lugares. As janelas limpas, deixam a luz
entrar livre. As portas estão limpas e uma camada de tinta cobriu as
falhas da pintura anterior, até o telhado foi arrumado e Jingfei
descobriu que o galpão particular da mansão tem telhas e tijolos
suficientes, mas tia Meirong, naquela época, disse que não tinha.
A mansão está brilhando e Jingfei está satisfeita com todo o
trabalho feito e para isso, reuniu todos os servos mais uma vez, para
agradecer.
Vocês foram ótimos! Sem vocês não seria possível qualquer
mudança e é por isso que falei que ninguém seria vendido, vocês
conhecem a mansão e trabalham muito bem. Eu agradeço a todos pelo
trabalho bem-feito.
Os servos estão satisfeitos também, nunca tia Meirong acompanhava a
faxina, mas a jovem senhora estava sempre por perto, sugerindo e
apoiando os servos, até ajudava de vez em quando. Isso só somou um
pouco mais de admiração junto aos servos, que pensam seriamente em
manter sua lealdade a jovem senhora, todos não, aqueles que
prometeram ajudar uma tia invejosa e ciumenta ou a um conselheiro sem
caráter, vão se manter leais a suas promessas. No final da reunião,
Jingfei deu uma moeda de prata para cada servo, que ficaram muito
felizes, afinal a vida de servo é basicamente de um escravo, mas
eles têm famílias em algum lugar, querem ajudar essas famílias e
gestos como esses são bem-vindos.
Jingfei passeia pela mansão, absorve o perfume gostoso no ar, observa a
mobília brilhando, um lugar saudável de se viver e por um momento
lembra de sua casa, quando criança, com a mãe trazendo sempre
alguma peça bonita para enfeitar a casa, que as janelas abertas
deixava o sol entrar, que aquela sua casa estava sempre iluminada e a
mãe sempre sorria quando chegava de alguma viagem longa.
Nada como voltar para sua casa. - é o que a mãe sempre falava e
depois abraçava a filha sorrindo de satisfação.
São boas lembranças e Jingfei quer ter boas lembranças aqui também.
É uma quinta-feira e o congo do palácio já anunciou que é a vigésima
hora do dia, quando Jia entra correndo e vai até a biblioteca para
conversar com Jingfei.
Senhora, uma notícia grave!
Grave? O que aconteceu?
Amanhã é o jantar do marechal com seus comandados!
Amanhã? Não, isso é só no final do mês!
Não senhora, parece que uma guarnição vai partir na segunda-feira
para o litoral e o marechal vai junto, então antecipou o jantar para
prosseguir com os planos.
Ele não me avisou!
Ele avisou, só que alguém daqui de dentro não repassou o recado.
Explique-se.
Como todos os dias, fui ao mercado antes que fechasse para comprar
ervas frescas para seu chá e encontrei um dos servos do quartel
general, alguém que conheço e ele me disse que ainda bem que o
marechal está partindo em uma missão, assim eles vão ter um pouco
de paz, bem isso é outra história que contarei depois. O que
importa é que falei que ninguém na mansão sabia disso e ele me
conta que um soldado foi encarregado de trazer um bilhete a esposa do
marechal comunicando isso e antecipando o jantar e esse soldado
entregou o bilhete aqui e para um servo homem, que o recebeu no
portão. Perguntei como ele sabe disso e o servo, meu amigo, me diz
que acompanhou o soldado, pois tinham que entregar essa noticia para
os generais e capitães.
Não acredito!
Acredite, eu não mentiria.
Sei disso, Jia. O que falo é que esse servo fez tal coisa, mesmo
sendo bem tratado!
Talvez, senhora, ele ou ela, recebam mais do que uma moeda de prata.
Verdade.
Esperavam que a senhora fosse pega desprevenida, sem jantar e sem
esperar a presença do marechal.
Sim, ele sempre avisa quando volta para casa.
Quer alguma coisa, digo, quer algo do mercado?
Para um jantar com tantas pessoas, as compras deviam ter sido feitas
hoje de manhã e agora o mercado está quase fechado …
Tem uma loja que vende de tudo e talvez possa ajudar e ela fecha bem
tarde.
Certo, vou fazer a lista com Xiuying e o mordomo Yun, depois disso,
você e mais um servo vão comprar as coisas. - Jingfei respira
fundo, enquanto faz a lista, pensa que agora tem que ter uma postura
diferente ou vai perder sua posição naquela casa. - Quando sair,
peça ao mordomo Yun e Xiuying, para virem falar comigo.
Acho que não foi ele.
Apenas vá, mulher!
Jingfei tem que assumir sua posição como dona da casa, já que assumiu as
mudanças, tem agora que assumir a parte em que deve repreender.
Jingfei está na sala, quando o mordomo Yun entra.
Mandou me chamar, senhora?
Sim. Quero todos os servos aqui e agora, mesmo aqueles que já foram
dormir, acorde-os e os traga aqui.
Aconteceu algo?
Apenas vá chamar os servos.
Mordomo Yun sente que algo aconteceu, a jovem senhora está muito séria e
geralmente sua voz é tranquilo e agora está seca, sem emoção e o
rosto vermelho.
Definitivamente algo aconteceu. - fala consigo mesmo o mordomo.
Os servos estão na sala, Jingfei anda de um lado para o outro, pensa em
como começar essa conversa, no final decide que pelo início é
melhor.
Eu estou muito decepcionada com um de vocês. Sabem porquê? Um
soldado veio até aqui me trazer uma mensagem importante do marechal
e esse servo ou serva, não repassou essa mensagem para mim. -
Jingfei faz uma pausa para olhar para todos que murmuram entre si. -
Silêncio! Agora essa pessoa acha que conseguiu um ponto positivo com
quem a mantém aqui, mas vou dizer algo, você não fez nada para me
prejudicar, mas agora a você e a seus colegas sim. Por que quando as
mercadorias para o jantar de amanhã chegar, todos vocês não vão
dormir, vão ajudar a limpar os frangos, patos, vão cuidar das ervas
e tudo mais que for preciso e amanhã também não haverá descanso,
pois vamos repassar toda a mansão, para que ela esteja limpa para a
noite. Então você espião, de quem quer que seja, não me
prejudicou em nada, mas a seus colegas e a você mesmo, sim. -
Jingfei não sorriu, como costuma fazer, sua voz está fria e seu
olhar fulmina cada um na sala. - Eu sou uma pessoa justa, acredito
que a melhor maneira de conviver com outras pessoas é tratá-las com
respeito, mas a traição para mim é uma sentença de morte. Quando
eu descobrir quem é você, vou vendê-lo para Mucir e você vai
saber o que é sofrer. - novos murmúrios.
Senhora, desculpe a ousadia, mas tem certeza de tudo isso?
Mordomo Yun, eu posso trazer aqui o soldado que entregou a mensagem,
mas agora quero preparar esse jantar, em breve, vou resolver isso. -
Jingfei espera que o espião venha até ela para implorar perdão.
Talvez dê certo.
O movimento na mansão não parou em momento algum, depois que Jia
trouxe as mercadorias que Jingfei listou. Os servos reclamam
baixinho, querem descobrir o tal espião que aborreceu a jovem
senhora, mas ele está em silêncio, acredita que jamais será
descoberto, o soldado não viu seu rosto muito bem, estava escuro no
portão, isso o deixa tranquilo.
Jingfei já conversou com Jia para encontrar o soldado e o servo, o espião
será descoberto, ela acredita nisso.
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Atualizado até capítulo 48
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