Quando as primeiras luzes do amanhecer, atingem as janelas da mansão dos
Zhang, não encontra ninguém dormindo, muito pelo contrário, o
trabalho foi constante durante toda a madruga e ainda não acabou.
Jingfei quer a casa limpa, então os servos que terminam sua parte em
algum lugar, se dirigem para outro. Nunca trabalharam tanto, é certo
que tia Meirong não exigia limpeza profunda na mansão, por isso
alguns servos estão achando tudo isso um exagero e um crime.
Crime, diz você? Crime é o que cometeu esse espião, que tentou
prejudicar a jovem senhora, que poderia muito bem vender a todos nós,
mas preferiu nos fazer trabalhar. - diz uma serva.
Isso não é justo!
Justo? Imaginem se depois da festa, ela pedir ao marechal que venda
todos nós! - comenta a primeira serva.
Tudo isso por causa de um espião!
__ Devemos achar essa pessoa. - finaliza uma outra.
Quatro servos conversam, enquanto lustram o piso de madeira da varanda. A
jovem senhora Zhang foi a pessoa mais comentada durante a madrugada,
muitos a elogiaram e outros a criticaram, mas todos a viram na
madrugada andando pela casa costurando e bordando tecidos que
enfeitariam a mesa do jantar, alguns chegaram a conclusão que mesmo
ela, está sendo punida pela atitude do espião.
No meio da manhã, o marechal chega em sua mansão, acompanhado de
quatro soldados, parte de sua escolta pessoal e como sempre faz, foi
direto para seu aposento, quer revisar alguns documentos antes do
jantar. Não se incomodou em saber como estão as coisas em seu
próprio lar.
Na décima oitava hora do dia, os convidados começam a chegar. Os
generais chegam primeiro e depois os capitães, até parece algo
combinado, como que obedecendo à hierarquia. Tia Meirong chegou
quase na hora de todos se sentarem a mesa, ela e as duas concubinas.
Jingfei ao lado do marido, apenas cumprimenta os convidados, seu rosto está
sério e avermelhado.
Todos acomodados, é hora do jantar. Jingfei usou um habito do mundo de
Isa, marcou os lugares com pequenos bilhetes envolvidos com uma flor.
Devemos obedecer sua ordem de como devemos sentar? - pergunta a
esposa do general Chen.
Senhora Chen, assim fica mais fácil, acredito eu, para todos e não
teremos questionamentos sobre quem se senta onde.
A explicação não foi levada como se não fosse nada, muitos se
lembraram do primeiro jantar em que a jovem esposa foi apresentada e
na discussão sobre quem sentava onde. Desta vez, as concubinas estão
a esquerda do marechal, duas cadeiras depois, antes delas está tia
Meirong. Na cabeceira da mesa, está o marechal, com um lugar vago na
sua esquerda próxima e na sua direita, está sua esposa.
Tem um lugar vago, senhora, espera alguém? - pergunta a capitã Wang
Li Jie.
Aquele será o lugar que o filho do marechal ocupará. - responde
serena e séria Jingfei.
Está grávida, senhora? - pergunta Chen Mei.
Ainda não, mas em breve. - novamente séria.
O jantar é servido, uma quantidade de pratos com uma comida cheirosa e
aparentemente deliciosa.
Não é alérgica a peixes? Por que tantos pratos de peixes e frutos
do mar? - pergunta a esposa do general Gang Chaofu, Gang Jia Sui.
Porque, senhora Gang, eu não tenho direito de impor restrições a
meus convidados, só por causa da minha alimentação incomum.
Mas, a senhora nos colocou em lugares que a senhora achou melhor.
Isto não é uma imposição? - continua perguntando de maneira
agressiva, Gang Jia Sui.
Não, senhora, não é. Isso se chama carinho com os convidados, para
que eles não se percam na hora de tomar um assento e com isso
desobedecer à hierarquia.
Não fazemos isso nessa casa, digo, a formalidade com a patente fica
lá fora. - argumenta Gang Chaofu, que concorda com as palavras da
esposa.
Sei, sei. Então o que vejo sempre nesses jantares, não é manter a
hierarquia? - todos olham para Jingfei. - Senhores não percebem como
entram na mansão? Não? Eu explico, então. Primeiro entram os
generais e suas esposas, depois os capitães. Na mesa, se sentam
primeiro os generais e depois os capitães. Na hora de ir embora,
saem primeiro os generais e depois os capitães. Se isso não é
seguir a hierarquia, não sei o que é.
O silêncio foi interrompido pela sonora gargalhada do capitão Cheng
Yao.
A senhora Zhang é boa observadora. - e continua rindo o capitão
Cheng.
A boa comida está sendo devorada rapidamente, alguns já estão no
segundo prato, mas o clima parece tenso, a senhora da casa não
parece animada.
Sua comida não tem um bom tempero. O cozinheiro perdeu a mão com
uma nova administradora? - alfineta Gang Jia Sui.
__ Não está boa? Estranho isso, afinal a senhora está na sua segunda
tigela. Acho que a senhora se enganou de jantar, porque antes a
comida não refletia a grandeza do dono da mansão e agora sim faz
jus a grandiosidade do senhor marechal. - a resposta foi dita sem uma
entonação diferente, foi como se Jingfei estivesse dando uma
explicação a uma criança.
Novo silêncio, todos percebem, que a jovem esposa tem algo que a está
irritando.
Acaba a comilança, os servos rapidamente recolhem tudo.
Sintam-se à vontade. Vou servir agora algumas frutas e um delicioso
chá.
Frutas? Sobrinha Jingfei, nesta mansão as sobremesas eram o ponto
máximo na refeição. - implica tia Meirong.
Sim, eu sei, mas eu quero algo diferente e então resolvi servir as
famosas frutas de Gor que chegaram hoje pela manhã e seu famoso chá
…
O chá Estrela? - fala a entusiasmada esposa do capitão Xu Yao, Xu
Li Lie. - Gosto muito desse chá, a imperatriz-mãe costumava servir
sempre, mas por algum motivo não serve mais. - completa triste a
jovem.
Sim, isso mesmo, é o chá Estrela, que é muito apreciado em todo
continente, assim como as frutar Gor, que são as mais saborosas …
E caras. O que está fazendo com o dinheiro de meu sobrinho?
Utilizando melhor do que a senhora jamais fez. - a resposta tirou o
som do ambiente e um novo silêncio se faz.
As frutas são servidas em taças de metal, que foram resfriadas na neve
e as frutas cozidas em mel.
Está uma delicia. - comenta a capitã Wang Li Jie e todos concordam,
quer dizer, a maioria concorda. Aproveitando que teve voz naquele
ambiente silencioso, capitã Wang Li Jie pergunta. - Senhora Zhang, a
mansão está diferente, o que fez?
Nesse momento o marechal observa ao redor. Tinha percebido algo de
diferente na mansão, mas não conseguiu identificar o que era.
Diferente? Para mim, parece igual. - comenta com desprezo tia
Meirong.
Não parece igual para mim. - comenta o general Ji Liao. - Aquele
móvel com a armadura do general Zhang não estava aqui antes.
Todos se voltam para olhar o móvel de madeira vermelha, que agora brilha
com o novo verniz aplicado. Dentro está a armadura do antigo general
e suas várias peças, presentes que ele ganhou na sua longa carreira
no exército.
Quem mandou você colocar o móvel aqui? - pergunta o marechal.
O bom senso e o orgulho de pertencer a tal família. - uma resposta
curta e cheia de insinuações.
Está dizendo que não temos zelo pelas coisas de meu pai? - tia
Meirong está vermelha de raiva.
Talvez, afinal como explicar, que coisas tão preciosas ficassem em
um quarto escuro e deixado para que a ferrugem as comessem.
Ferrugem?
Sim, meu esposo, ferrugem. Estas peças preciosas, foram polidas e
restauradas em uma semana.
Ora, sua …
Do que vai reclamar, tia? Nós dois não temos o direito de reclamar.
- fala o marechal se aproximando do móvel com as coisas do avô.
Realmente, o marechal Zhang Huizong não presta muita atenção as coisas
deixadas pelo avô, nenhuma vez acendeu um incenso em sua homenagem e
agora sua esposa, além de expor os objetos de forma honrosa, o fez
lembrar de sua falta de carinho com quem o amou como a um pai.
O móvel está entre duas janelas, ele não é largo, mas comprido, no
centro fica a armadura e nas prateleiras acima e abaixo, ficam as
várias adagas, espadas, capacetes, as condecorações em jade,
presenteadas por dois imperadores de Jinhai. Tudo isso é o resultado
de uma vida de bravura, honra e lealdade. Os generais e os capitães
estão a volta, observam os objetos e fazem comentários sobre o que
ouviram falar e tudo isso faz parte da história que muitos ouvem na
Academia. O marechal olha para a esposa, que conversa com outras
mulheres, gostaria de sorrir em agradecimento, mas Jingfei não olha
para ele.
Sobrinho está pensando que me descuidei com essas coisas, mas não
foi isso o que aconteceu. Essa mansão é muito grande para uma
pessoa sozinha cuidar. Eu fiz o meu melhor!
Minha esposa está cuidando de tudo. - rebate o marechal.
Ela não fez quase nada! Não é justo me culpar, só porque ela
achou esse móvel!
Ninguém a está acusando. Como eu disse, nós dois não devemos
falar nada sobre isso. A senhora tem a sua desculpa e eu tenho a
minha, encerramos o assunto sobre isso aqui e agora.
Pronto! Chega de conversa vazia. Nesse momento, Jia se aproxima e cochicha
algo nos ouvidos de Jingfei.
Convidados, por favor, sentem-se. Agora não há a necessidade de
ordem hierárquica. - finalmente, um leve sorriso de Jingfei. - Vou
aproveitar e conversar com todos.
Olhares com surpresa e sussurros de perguntas sem respostas, que se calam
quando o chá é servido e apreciado.
Bem senhoras e senhores, o que tenho a falar é muito importante,
cruel e perigoso. - assim inicia sua conversa Jingfei.
Todos na sala olham para Jingfei, suas palavras chocaram.
Criança tola, o que pretende assustando as pessoas? Ganhar atenção?
Tia Meirong, acho que já tenho atenção demais.
O que aconteceu?
Esposo, você vai ouvir um relato de Jia e depois podemos, já que
essas pessoas aqui presentes são nossa família, como você costuma
sempre lembrar, conversar a respeito, porque o que fazer, eu já sei.
Vamos perder tempo, ouvindo tudo, se já resolveu o que fazer, é
isso? - pergunta Gang Jia Sui.
Não, não só isso. Quero que todos saibam o que acontece e talvez
vocês possam me sugerir algo melhor.
Jingfei faz um sinal e Jia entra e fica no centro da sala, assim todos podem
ver e ouvir o que ela tem a dizer. Jia começa a falar, assim que
Jingfei a autoriza, conta todos os detalhes do dia que encontrou o
servo, da informação que o servo falou e de onde o servo é.
Jia, sabe quem é esse mensageiro? - pergunta o marechal que mudou
seu semblante assim que Jia foi falando sobre a mensagem que enviara
para a esposa.
O soldado, eu não conheço, mas o servo sim, pois nos encontramos
sempre no mercado.
Isso é sério, marechal. Alguém da casa com esse tipo de atitude? -
comenta general Ji Liao.
Mordomo Yun, mandem trazer esse servo até aqui, agora!
Esposo, hoje pela manhã, pedi que Jia encontrasse o servo e que ele
descrevesse a aparência do servo que recebeu a mensagem …
Isso é impossível! Somente os guardas no portão recebem as
mensagens ou outra coisa qualquer! - fala o general Xu Yao. - Eles
têm ordem de proibir a entrada de qualquer um e comunicar qualquer
presença ou mensagem, para a senhora Zhang.
Pois bem, a pergunta é essa, onde estavam a guarda do portão, para
que um servo recebesse a mensagem? - pergunta Jingfei.
Jia, alcance o mordomo Yun e peça que o soldado que trouxe a
mensagem venha junto.
Sim, marechal.
Nesse momento da conversa, tia Meirong aperta o leque em suas mãos e
aperta os dentes, trazendo um desconforto ao maxilar, mas não nota
nada disso, o que a incomoda é o rumo que essa conversa está
tomando.
Esposo, como eu disse, Jia procurou o servo hoje pela manhã e pediu
a ele que descrevesse o servo.
Quem é?
O cavalariço Jin.
Impossível! Esse homem está na família a anos! Ele e a mãe são
servos do próprio general Zhang. - exclama tia Meirong com fingida
indignação.
Esposa, tem certeza disso? Jin está na família desde que nasceu.
Não existe um engano aí?
Não, infelizmente não há engano, pois o servo descreveu até os
mínimos detalhes do rosto e das veste do cavalariço e na mansão
temos só dois cavalariços, Jin e o Xin. Xin é um velho homem e mal
anda, passa a maior parte do tempo com os cavalos ou sentado em algum
lugar.
Por que Jin?
General Ji Liao, os detalhes é que o incriminaram. O servo não teve
dúvidas ao descrever as roupas de quem estava no portão. -
percebendo que não está explicando direito, Jingfei respira fundo
para uma explicação mais detalhada. - Veja, general, as roupas dos
servos estavam em péssimo estado, vergonhosas mesmo, indignas
daquele que é o mestre da casa, então, decidi mudar as roupas dos
servos e acrescentei que cada servo teria um par de roupas novas e
essas seriam de acordo com suas funções, logo os cavalariços têm
uma roupa diferente dos outros servos e foi assim que descobri o
servo Jin.
Um silêncio na sala, um servo de anos, com total confiança de seu
mestre, que acaba de fazer algo horrível. Todos na sala, pensam em
seus servos.
Se você já fez tudo isso, é porque sabe de alguma coisa. Ele
contou quem o mandou fazer isso? - pergunta finalmente o marechal.
Tenho certeza que nesta mansão, tem alguém que conta as coisas que
acontecem aqui e não são fofocas de servos no mercado, são
informações que não deveriam sair daqui.
Desconfia de algum servo?
Não dos servos, mas dos mandantes, general Chen Shoi-Ming.
Está brincando com teorias? Sua vida na mansão está muito fácil?
Tia Meirong, a senhora e muitos aqui, já ouviram alguma conversa, de
maneira bem discreta, sobre alguma coisa que aconteceu em nossas
casas? Acha que foi coincidência? Fofoca?
Por que não?
Tia, sei sobre o quê minha esposa está se referindo. Eu muitas
vezes, ficava surpreso que algumas pessoas sabiam o que fiz, mas não
esperava que fosse de dentro de minha casa a fonte das informações.
- o marechal está atordoado.
Sobrinho, isso pode ser somente fofoca, nada demais, afinal quem
ousaria colocar um espião em alguma casa?
Tia Meirong, por favor! Sei que ingênua a senhora não é! Os
inimigos do marechal são os primeiros a colocar alguém aqui! - fala
Jingfei com certa impaciência.
Isso é um fato, marechal. - comenta o general Chen Shoi Ming.
Acho, esposo, que deveria acionar sua rede de informações para
descobrir tudo sobre esses espiões.
Rede de informações? - pergunta o capitão Cheng Yan. - Isso deixou
de existir a anos, senhora.
O quê? E como sabem o que está acontecendo no império?
Não há necessidade para ativar novamente a rede, estamos em uma
época de paz. - fala o general Chang Chaofu. - Os homens destinados
a isso estão servindo ao império de outra forma.
Sei. Então, quando o império sofrer um ataque, só vão saber
durante o ataque? Senhor general, em todas as épocas devemos saber o
que acontece ao nosso redor, para não sermos pegos desprevenidos.
Isso não a ajudou muito, não é?
Senhora Chen, a muito tempo sei que alguém da casa envia informações
para a imperatriz-mãe, para o primeiro conselheiro e para outros,
mas sei também o como é difícil encontrá-los.
O que pretende fazer, senhora? Tem algum plano? -pergunta a capitã
Wang Li Jie.
Sim, eu tenho.
Nesse momento entra na sala o cavalariço Jin, com as mãos amarradas nas
costas e escoltado pelo soldado He Yue Jin.
Marechal, marechal! A jovem senhora está enganada! Eu não fiz nada,
nada!
Capitão Cheng, descubra a equipe que estava no portão ontem pela
manhã
Sim, marechal.
Esposa, disse que já sabe o que fazer. O que é?
Só um momento, o soldado está trazendo os servos.
Os servos entram na sala e Jingfei pede que eles se sentem no chão,
quer que todos vejam a ela e ao espião. Isso é algo que Isa
aprendeu com a mãe e Jingfei se lembra que a mãe fazia isso também,
manter a atenção de todos.
Quero que olhem para a pessoa responsável, por vocês estarem
trabalhando até agora. Esse homem destruiu a mensagem que o marechal
me enviou.
Não é verdade, senhora! Estou sendo acusado injustamente!
Injustamente? O servo que acompanhava o mensageiro descreveu você.
Disse cada detalhe do seu rosto. Como isso é injusto?
Um servo acompanhava o mensageiro? O cavalariço Jin se espanta, não
contava com essa situação, mas ainda pode se livrar.
Senhora, eu peço seu perdão! Por favor, me perdoe!
Vai confessar?
Senhora Zhang, eu fui obrigado, fui ameaçado!
Fale.
Senhora Zhang, uma mulher me cercou na rua, tinha o rosto coberto e
disse que poderia libertar minha mãe e sabe como todo servo quer a
liberdade dos seus. Ela também disse que se eu não concordasse,
tinha meios de fazer o marechal vender minha mãe. Eu fiquei
assustado e fiz o que fiz. Me perdoe, senhora. - o cavalariço bate a
cabeça no piso e chora.
Faz tempo que faz isso para essa mulher?
Não, marechal, não. Essa mulher falou comigo a duas semanas atrás.
O quê? - falam todos os servos ao mesmo tempo.
Silêncio! - pede Jingfei. - Cavalariço Jin, sua mãe não morreu
durante as festas de ano novo?
Sim, é verdade senhora. - diz um servo.
Ele pediu ajuda para os funerais da mãe. - diz outro.
Todos ajudamos, até o mordomo Yun ajudou!- fala Lili a ajudante do
mordomo.
Por favo, silêncio. Vamos esclarecer isso. - fala Jingfei um pouco
mais calma. - Quer dizer cavalariço Jin, que sua mãe morreu, essa
mulher não sabia disso e mesmo assim forçou você a trabalhar para
ela, para que sua mãe fosse libertada e você aceitou a chantagem,
mesmo sabendo que sua mãe estava morta! Como cavalariço, você
explica isso? Qual dessas duas coisas é uma mentira? - agora Jingfei
gritou e assustou a todos na sala, todos, incluindo o marechal.
Entra nesse instante o soldado Meng Yuan com as coisas do cavalariço e
quando o soldado abre as trouxas de pano, uma bolsa cheia de moedas
de prata, cobre e ouro se espalha pelo piso.
Entendemos agora o real motivo, não é cavalariço Jin? A boa e
velha ganância! - Jingfei está vermelha, está com raiva. - Mentiu
a seus colegas e ficou com o dinheiro que eles juntam com cuidado
para comprar a própria liberdade, como um desavergonhado que é,
depois faz um acordo com alguém para prejudicar a mim e ao marechal,
talvez prejudicar a todos ao redor do marechal, porque um escândalo
que me envolve, vai manchá-lo também! É isso cavalariço?
O homem não responde nada, nunca imaginou ser pego em uma mentira,
ainda mais uma mentira tão boa como foi a da morte da mãe. Seus
olhos estão arregalados, pensa em pedir ajuda, mas sabe que a pessoa
que o paga jamais vai admitir que fez tal acordo com um servo, afinal
a palavra de um servo não tem valor. O que fazer agora?
Eu admito minha culpa, senhor marechal. Imploro seu perdão. - o
homem mantém o rosto abaixado e pingos de lágrimas mancham o piso.
- Eu nasci servo\, um escravo\, eu quero ser livre e prometi a mim
mesmo fazer tudo para isso, mas ao marechal eu jamais quis
prejudicar, eu garanto.
Garante? Quem mandou você prejudicar minha esposa?
Marechal, minha vida está em perigo, sabe disso. - esse homem quer
ganhar tempo, enviar uma mensagem para alguém que pode salvá-lo.
Sua vida acabou, quando resolveu cuspir no prato que comeu. - afirma
Jingfei e os ditados antigos de Isa. - Eu garanti que o culpado seria
enviado para Mucir e esta manhã um cargueiro chegou no porto de Luz
de Jade e por coincidência, o capitão é um antigo amigo de minha
mãe. Vou vender você a ele, em troca vou querer um livro. Sabe
porque? Um livro tem mais valor do que você! A família Zhang não é
famosa por tratar seus servos como animais, pelo contrário, são
respeitosos dentro do limite da relação servo e mestre. Como você
responde a isso? Traindo toda a família! Não precisa dizer quem o
contratou, mais cedo ou mais tarde eu vou descobrir quem é e essa
pessoa vai pagar caro!
Esposa, Mucir é conhecida por sua brutalidade com escravos,
principalmente nos navios. Quer isso mesmo?
Xiuying, traga o livro. - Jingfei mostra o livro ao marido. - O
capitão Hari já me mandou o livro, só resta enviar o servo.
Marechal, por favor! Não deixe ela fazer isso!
Cale-se! Minha esposa está sendo generosa, você viverá por anos no
navio, se fosse eu, neste momento você já teria se banhado em seu
sangue!
Ninguém na sala ousa respirar alto. Aquele casal parece combinar bem, até na
punição, é o que alguns pensam. Os servos, com olhos arregalados
observam o servo Jin ser arrastado para fora da sala e da mansão,
ele grita por perdão e chora.
O que aconteceu? - pergunta um soldado entrando.
__ Entre e veja com os próprios olhos. - responde o soldado que arrasta
o servo.
Na sala, Jingfei senta em uma cadeira, olha para os servos, seus olhos
brilham muito, suas bochechas estão vermelhas e parece que ainda
está irritada.
Eu disse a vocês que sou justa e sou. Uma coisa que faço questão é
o respeito. Eu respeito vocês e vocês a mim, dessa maneira
poderemos conviver em harmonia sempre. Entenderam?
Sim, senhora Zhang.
Quero pedir a vocês que honrem essa família. Para mim, a palavra de
um servo tem valor, não tenham medo se por acaso alguém se
aproximar de vocês com intenções malvadas, eu vou, se puder, fazer
alguma coisa. Entenderam?
Sim, senhora Zhang.
Bom, muito bom. - Jingfei se vira para o marido, sem sorrir. - Agora
esposo, é a sua vez.
Minha?
Sim. Diga-me, onde estavam os soldados do portão principal?
A dupla de soldados entra na sala nesse instante.
Ouviram a pergunta da minha esposa? Então respondam!
O marechal é um homem austero, sério e em algumas vezes até cruel e
muitos sabem que quando suas sobrancelhas se encontram no meio da
testa, é porque está furioso. Quem pode, foge.
Marechal, eu sou o soldado Qin e eu fui até a casinha e deixei o
soldado Min na guarda do portão. - se explica rápido um dos
soldados.
Eu … eu …
Você o quê? - grita o marechal.
Alguém entre os servos gemeu alto e Jingfei percebeu.
Marechal, imploro seu perdão! - grita o soldado com o rosto no chão.
- Não foi minha intenção.
Onde você estava? - pergunta de novo o marechal aos gritos.
Serva das lavadeiras, por que está chorando? - pergunta Jingfei.
Senhora Zhang, me perdoe, por favor! Estamos apaixonados!
Com esse soldado? Ele é casado! - fala a capitã Wang Li Jie.
A serva olha para o marechal com olhos assustados.
Senhor marechal, eu apenas estava conversando com ela, nunca prometi
nada!
Isto não é o que o marechal quer saber! - fala o general Ji Liao.
Eu carrego um filho seu! - exclama a serva.
Soldado?
Marechal, eu pedi ao cavalariço para ficar no portão até o soldado
Qin voltar. Eu estava querendo resolver isso de uma vez por todas.
Por sua causa e de suas atitudes, algo ruim quase aconteceu, sabe
disso?
Sim, marechal, mas o cavalariço é servo da casa.
E você um soldado que cumpre suas obrigações, se mantém em seu
posto até segunda ordem. Não é isso?
Sim, marechal.
O marechal anda pela sala, todos o acompanham com o olhar, sabem que o
marechal conhece muitas maneiras de aplicar uma punição, que faz
qualquer um estremecer.
Você vai fazer parte da expedição que vai partir daqui a dois dias
e ficará, até que receba ordem ao contrário, na base de
observações na província de Jade Verde.
Sim, marechal. - o soldado respira aliviado, pensou que aquela era a
hora de sua morte.
Antes da partida, receberá cincoenta chibatadas por ter abandonado
seu posto sem ordem. - finaliza o marechal.
O soldado ainda sente alivio, afinal cincoenta chibatadas é melhor do
que a morte e ainda por cima, a transferência o livrou daquela
amante pegajosa.
Os servos e os soldados, saem da sala. Os convidados estão entre
assustados e risonhos. Assustado por verem uma jovem de vinte anos
com atitudes bem adultas e firmes, por alguns momentos, assustadoras.
Risonhos por verem o marechal deixar a esposa conduzir tudo, sem
interromper e ainda com um olhar simpático para ela.
Era para isso, que nos manteve aqui? - pergunta Gang Jia Sui.
Na verdade, eu os quis aqui para usar as informações que pensei que
o marechal e seus comandados teriam, mas me enganei.
Precisamos de uma rede de informações. - comenta o general Ji Liao.
Isso é uma bobagem! Estamos em época de paz. - retruca o general
Gang Chaofu.
Sim, mas podemos ficar a mercê da espionagem interna e …
Chega! Essa discussão é para outro momento.
Sim, senhor marechal. - responde os dois.
Isto é só, esposa?
Ainda não, mas a próxima conversa envolve nosso vizinho e é uma
conversa feia.
O que fizemos? - fica espantada a senhora Gang Jia Sui.
O jantar ainda não acabou. A sobremesa perdeu o doce, afinal a boca de
algumas pessoas está amarga e o chá está frio. Um novo chá se faz
necessário, para acalmar os nervos.
O chá foi servido, a senhora Xu Li Lie saboreou o chá com um sorriso
encantador, parece uma criança comendo seu doce favorito.
Você gastou bem, o dinheiro de meu sobrinho, não é mesmo?
Claro que sim, tia Meirong, afinal o que a senhora queria? Continuar
a comer naquelas tigelas lascadas ou nas xícaras desbotadas e sem
pinturas? Claro que não, aliás, já fazia muito tempo que as usava,
não é? Nós agora estamos em tempo de mudanças e mudanças para
melhor, gostaria que a senhora colaborasse com isso, retirando as
coisas antigas e quebradas, em seu pavilhão.
Não tenho nada velho em meu pavilhão. Todas as coisas lá são
novas! - se irrita tia Meirong, caindo na armadilha de Jingfei, só
que tia Meirong percebe tarde demais.
Então quer dizer, que velharias e peças quebradas eram só na casa
principal?
Ora, sua …
Certo, entendemos seu ponto, mas agora tem algo mais a falar?
Esposo, quando me deixou cuidar da mansão, isso também implica
cuidar do bem-estar e do comportamento de todos, não é isso?
Sim.
Ah, meu esposo. - Jingfei sorri. - Você é mesmo um homem de poucas
palavras.
Falo o que é necessário.
É certo que sim. Bem, continuando. Quero agora cumprir meu papel de
zeladora da conduta de todos nessa mansão e começo chamando a
atenção da concubina Li Liling …
O que eu fiz?
As concubinas têm um exemplar comportamento. - comenta tia Meirong.
Verdade? Então diga-me tia Meirong, desde quando uma concubina sai
da casa de seu mestre, atravessa a rua para conversar por horas, com
um servo da casa do vizinho?
O quê? - falam todos.
Isso é o certo a se fazer, tia Meirong? - pergunta Jingfei com
aparência inocente.
Qual vizinho?
Esposo, a casa do general Gang Chaofu tem uma porta lateral, um pouco
mais a frente e lá fica um soldado na segurança e de vez em quando,
vejo um servo trazer alguma comida para o soldado e nesse momento, a
concubina Li Liling sai pelo portão principal e vai até lá para
conversar com ele, o servo.
Não é nada de mais! Ele é meu amigo de infância!
Quem sabe disso? Eu estou sabendo agora e você meu esposo, sabe
disso?
Não.
Talvez a senhora Gang sabia disso …
É claro que eu não sabia! Esse tipo de atitude é muito vergonhosa!
Pois é, não é senhora Gang. - Jingfei volta a ironia. - Você está
vendo o que está acontecendo? Você, concubina, sabe que a corte
vive de aparências e que poucas pessoas se importam com o que você
faz. Imagine, concubina, se esta sua atitude se torna motivo de
conversa, o que pode acontecer?
Isso é um exagero. A concubina só estava conversando.
Então, tia Meirong, a senhora sabia dessa amizade?
Acho que não é um exagero, senhora Zhang. - interrompe uma senhora
sentada um pouco distante, seu nome é Lin Mei Mei, seu marido é o
general Lin Jiang, um bom homem e um bom soldado, reservado, assim
como a esposa. - Minhas servas contaram que ouviram tal história no
mercado de peixes e isso foi há dez dias.
Mas …
Concubina Li Liling, acabamos de presenciar que os inimigos do
marechal estão dispostos a usar qualquer coisa ou qualquer um, para
prejudicar o marechal e você sai do seu pavilhão para ficar
conversando com seu amigo, não percebendo que isso pode causar um
escândalo e prejudicar toda a família. - Jingfei fala com calma,
pausando ao final de cada palavra para que suas palavras sejam
lembradas.
Concubina Li Liling está proibida de sair da mansão. Isto só vai
acontecer quando estiver na companhia da senhora Zhang ou de tia
Meirong. Fui claro?
Concubina Li Liling se levanta de sua cadeira e corre em direção ao marechal
e se joga a seus pés, para implorar por perdão. Ela não murmura ou
fala, ela grita e chora, entretanto, quando levanta o rosto para
olhar o marechal, este continua com o semblante imóvel, sua bela
sobrancelha não se moveu em momento algum. Entendendo a mensagem, a
concubina, com os olhos vermelhos e a maquiagem borrada, volta para
seu lugar.
Não murmurem, falem o que estão pensando! - diz o marechal de forma
firme, como o senhor da casa.
Marechal, acho que todos aqui concordam que é necessário vigiar
nossos servos, aconselhar nossas esposas e concubinas, para que
fiquem alerta contra qualquer pessoa que se aproximem de maneira
estranha ou duvidosa. - fala por todos o general Ji Liao e todos
concordam.
Façam isso e me avisem se descobrirem quem é essa ou essas pessoas.
Sim, marechal. - respondem todos.
Marechal, precisamos da nossa rede de informações …
Depois general Ji Lao. Tem mais alguma coisa, esposa? - pergunta o
marechal se virando para Jingfei.
Sim, tem e garanto que é a última coisa.
O que é?
Como sabe, ganhei doze peças de tecidos da imperatriz-mãe, para
fazer um vestido para a coração do imperador, mas alguém invadiu o
pavilhão e jogou tinta nos tecidos e com isso tive, junto com minhas
servas, que improvisar e não deixar a imperatriz-mãe aborrecida e o
senhor meu esposo envergonhado.
Isto é uma história antiga.
Sim, tia Meirong, é uma história antiga, mas a pouco tempo,
limpando o pavilhão, descobrimos dentro do baú que continha os
tecidos, uma prova de quem esteve lá. - Jingfei para e olha para
trás. - Xiuying, pode trazer. - Xiuying traz um pacotinho e coloca
sobre a mesa. Todos se inclinam para ver o que é. - Achei isso
dentro do baú, que ficou fechado todo esse tempo. - Jingfei abre o
pacotinho e dentro tem um grampo de cabelo muito delicado e todo
azul.
É o meu grampo! - diz a ingenua concubina Ji Huang.
Tem certeza que é seu?
Tem certeza, sobrinha Jingfei, que achou em seu pavilhão?
Está insinuando que estou mentindo?
Deixe minha esposa terminar, tia Meirong.- diz o marechal antes da
tia abrir a boca.
Pois bem, o pavilhão ficou trancado por quase dois meses, primeiro
ponto. Segundo ponto é que quem achou foram as servas da faxina e
não eu ou as minhas servas, e essas servas que disseram, sem
dúvidas, que o grampo pertence a concubina Ji Huang e o último
ponto é que, eu não disse a quem pertencia o grampo. Eu não falei
nada.
Silêncio, nada de murmúrios, todos esperam o término dessa situação.
Então concubina, qual o motivo de seu grampo de cabelo estar no
pavilhão da senhora Zhang? - pergunta o marechal.
Marechal, seja misericordioso com ela! Sabe o quanto a concubina Li
Huang ama ao senhor! Ela estava com ciúmes e deve ter feito isso por
amor! - defende a concubina Li Liling.
É fato sobrinho, que a concubina tem um grande carinho por você,
mas não fez por mal. Só sentiu ciúmes.
Gostaria de lembrar que dentro do círculo de minhas
responsabilidades, existe uma regra que diz que eu devo corrigir as
atitudes ou comentários das concubinas e se meu esposo intervir,
quebrará minha autoridade.
Novo silêncio, aliás, ninguém está falando nada já a um certo tempo.
Prossiga, esposa.
Concubina Li Huang, tem consciência que o que você fez foi algo
muito, mas muito ruim? Se tem esse sentimento pelo marechal, deveria
ser mais servil e dócil. Isto sim, seria de mais utilidade para a
família. Sua atitude foi um ato de rebeldia e descontrole, não me
deixa outra opção a não ser puni-la, para que no futuro, pense e
pese bem o que fará. - Jingfei faz uma pausa e todos tentam imaginar
o que fará. - Xiuying, traga a concha.
Uma concha de cobre está sobre um prato, também de cobre. A concha
brilha e uma leve fumaça sai dela.
Coloque suas mãos abertas sobre a mesa.
Sobrinho, que loucura é essa?
Tia Meirong, isto é uma punição. - explica o marechal.
A pele das mãos da concubina Ji Huang são finas, resultado do longo
tempo longe da fazenda onde nasceu e do tempo que cuidava das cabras,
na enorme fazenda do pai. Ji Huang está com medo, algumas lágrimas
escorrem de seu rosto. Nunca quis mal algum aquela mulher a sua
frente, não se incomodou com o casamento do marechal, estava ali
para ajudar o pai, para que ele ganhasse um pouco de destaque na
corte, mas seu medo de tia Meirong e Li Liling é grande. Quando
ouviu a história que Li Liling contou, percebeu que deveria assumir
sozinha a responsabilidade daquela estupidez e assim vai fazer,
apenas por temer aquelas duas.
Jingfei pegou no cabo da concha, que está envolvido com um pano e pousa na
palma da mão da concubina.
Um.
A concubina estremece, mas não grita.
Dois.
A concha vai de uma palma para outra.
Três.
As lágrimas agora escorrem livres pelo rosto bonito da concubina Ji
Huang.
Isso é um absurdo, sobrinho! Cruel demais!
Ela não pensou nas consequências quando manchou de tinta as roupas
da senhora Zhang, pensou? - fala calmo o marechal.
Todos na sala olham para o marido e a esposa, percebem que ambos tem muita
coisa em comum e uma delas é saber que uma punição física faz com
a pessoa não repita seus erros.
Essa interrupção me fez esquecer onde estava contando. Vou começar
de novo. - diz Jingfei sem remorso.
A concha pousou cinco vezes em cada mão. A concubina Ji Huang não
gritou nenhuma vez, não seria ela motivo de riso de Li Liliang
depois.
__ Espero que nunca mais faça algo assim. De agora em diante somos
companheiras nessa casa e não inimigas, certo? - Jingfei se aproxima
bem perto para falar isso, muitos não ouvem o que foi dito. -
Xiuying, traga o remédio. - Jingfei passa o remédio nas mãos da
concubina, em uma demonstração de que fez o que fez por uma certa
obrigação. - Este remédio vai fazer que a dor seja menor, mas ela
vai existir e vai fazer você se lembrar que, aquelas que ajuda, não
se importam com você. - novamente, Jingfei fala baixinho no ouvido
da concubina.
Tia Meirong sai aborrecida, não teve voz nenhuma dessa vez naquele
jantar. As concubinas voltam para o pavilhão e os convidados começam
a ir embora, na ordem hierárquica de sempre. Jingfei entrega alguns
presentes aos convidados, é o chá de Gor que está em uma sacolinha
muito bonita, com um dragão bordado em amarelo e muitos outros
detalhes. Todos gostam e se retiram. Cada comandado do marechal volta
para suas casas, com o pensamento no casal que ficou na mansão.
Todos são unânimes em acreditar que Zhang Jingfei é perfeita para
Zhang Huizong.
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Atualizado até capítulo 48
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