Capítulo 13 Momentos complicados

O marechal tem muitas dificuldades em se socializar, mas não é só

isso, ele não consegue entender o que é empatia e foi preciso que a

imperatriz-mãe falasse com todas as palavras o que deveria fazer.

 Sua esposa não pode ficar no palácio, bisneto. É inapropriado,

sabe disso. Leve-a para casa e cuide dela.

 O melhor médico está aqui no palácio. - retruca o marechal.

 O melhor médico está no exército que o senhor comanda, bisneto!

Leve sua esposa e o médico vai cuidar dela. O conselheiro Yang me

informou que os dois médicos têm conhecimento do tratamento a ser

usado, para conter o mal do antídoto.

O marechal Zhang Huizong sentiu que novamente a bisavó o repreendeu e

não gostou nada disso. Olhando para sua esposa deitada no pequeno

divã, percebeu pela primeira vez o quanto ela parece frágil, mas

forte ao mesmo tempo. O rosto dela está vermelho, por causa da

febre, os cabelos em desalinho, fortalece mais ainda a ideia de

fragilidade.

 Não se esqueça que sua esposa é um presente de seu pai, para que

você tenha sua família. Garanto que ele ficaria muito triste se

você tratasse sua esposa com tal pouco-caso. Cuide dela!

Na carruagem, Jingfei está deitada no banco e sua cabeça repousa no

colo de Xiuying. A respiração dela está irregular e mexe o corpo o

tempo todo.

 O que há com ela? - pergunta o marechal.

 A febre está muito alta. Isto são delírios. - responde Jia.

A carruagem vai rápido pelas ruas da capital, a mansão dos Zhang fica

no lado oposto do palácio e a uma certa distância.

 Capitã Wang, o médico foi avisado?

 Sim, marechal Zhang. Ele está a caminho.

O portão é aberto para a entrada da carruagem e o mordomo Yun aguarda

o marechal.

 Leve-a para o quarto de hóspedes, agora! - ordena o marechal.

 Sobrinho, para quê? Ela tem a casa dela, leve-a para lá. -

aconselha tia Meirong.

 Se o marechal me permite, mas acredito que se fizer isso, será

repreendido novamente pela imperatriz-mãe e causará um certo

desconforto ao senhor perante o imperador que está tratando sua

concubina com toda atenção possível. - diz o general Chen Shoi

Ming.

 Que tolice! A imperatriz-mãe não tem nada com isso! A maneira como

o marechal trata a esposa é da conta dele!

Não precisa que expliquem ao marechal que a tia não gosta de sua esposa,

mas o marechal sabe que aquela garota é especial, foi escolhida pelo

pai para ser sua esposa, por uma série de motivos e um deles ela já

demonstrou, que é a coragem.

 Mordomo Yun, coloque minha esposa no quarto de hóspedes e vá ver

porque o médico ainda não chegou!

Sendo amparada por Jia e Xiuying, Jingfei é colocada na cama e está tão

quente que sua roupa está praticamente molhada de suor.

 Eu vou até o Pavilhão do Sol buscar roupas limpas para ela. -

informa Jia.

Saindo correndo pelo caminho de pedras, Jia avista alguém parado na porta

da residência.

 Quem é?

 Sou o médico e meu nome é Gu. Onde está a paciente? Disseram-me

que viria para cá. - explica o médico.

 A senhora Zhang está na casa principal. - informa Jia. - Vá

correndo médico Gu, ela não está nada bem.

O médico sai correndo em direção a casa principal, sabe que vai

ouvir algumas palavras do marechal, mas ele não tem culpa, afinal a

tia Meirong é que disse que a paciente viria para aquela residência.

 Está atrasado médico Gu! Por que a demora?

 Me disseram, marechal, que a paciente estaria na residência dela. -

tenta explicar o médico.

 Isso não importa agora! Vá cuidar dela!

O médico Gu atravessa os corredores, guiado pelo mordomo Yun, até o

quarto de hóspedes e lá vê que Jingfei está praticamente no colo

de Xiuying, que a abraça para que não se machuque, já que está

agitada e bate os braços na lateral da cama.

 Desde quando ela está agitada assim?

 Médico Gu, não faz muito tempo, mas a febre aumentou. - explica

Xiuying.

O médico Gu tocou a testa de Jingfei e concordou que a febre está

mesmo alta, até demais e logo passará para um estágio mais

perigoso, entretanto não houve tempo para o médico Gu fazer mais

análises, Jingfei começou a se debater com mais violência, seu

corpo se mexia para todos os lados e tremia de maneira violenta.

 Ela está tendo uma convulsão! Segure-a firme, não deixe que se

machuque! Vou colocar um pano em sua boca, para que não morda a

língua!

Por cerca de dois a três minutos, Jingfei se debateu, mas estava

firmemente segura por Xiuying e nesse momento entra o marechal.

 Médico Gu, o que está acontecendo?

 Marechal, infelizmente a senhora está em um estágio mais perigoso

agora. A demora no atendimento pode custar a vida de sua esposa.

 Por que demorou tanto?

 Senhor marechal Zhang, eu já disse, me avisaram que eu deveria ir

até o Pavilhão do Sol. Que a paciente estaria lá!

 Quem disse?

 Eu disse sobrinho, afinal, a residência é o lugar dela …

 Tia o que quer fazer? Que o imperador me acuse de não cuidar de

minha esposa? Esposa essa que foi um presente do falecido imperador,

que queria que o nome Zhang não morresse? Se ela morrer, a senhora

vai suportar os ataques que receberei por isso?

São motivos vazios para justificar os cuidados para com Jingfei, mas o

marechal Zhang sabe que seus inimigos vão usar de todos os meios

para manchar sua posição na corte.

 Marechal, se me permite, podemos continuar com o tratamento? Preciso

de uma banheira com água morna, para ajudar a diminuir a febre e

roupas limpas para ela e de que alguém pegue alguns remédios no

quartel-general, pode ser, senhor marechal?

 Faça o que for preciso e necessário!

Durante toda a noite, até que o congo no palácio anunciou que já é

madrugada, a casa principal esteve agitada. Os remédios que o médico

Gu queria chegaram e foi ministrado as duras penas, Jingfei não

abria a boca e quando o fazia, não engolia o remédio.

__ Tenho uma idéia medico Gu. - fala Xiuying, que vai até a cozinha e

pega um bambu bem pequeno e o abre ao meio, limpa-o bem e volta ao

quarto. - Jia, abra a boca da senhora. - Com a boca de Jingfei

aberta, a metade do tubo de bambu é colocado até que quase encoste

em sua garganta e então o remédio é despejado pelo tubo direto até

sua garganta. - Acho que assim poderemos dar a medicação. -

finaliza Xiuying.

O marechal está ao lado, observando tudo o que é feito, inclusive a

dedicação das servas a sua esposa, nenhuma das duas saiu de perto e

ainda arranjaram um meio de ajudar a medicar a mulher deitada na

cama, que agora parece mais tranquila, o vermelho no rosto diminuiu e

a respiração está quase normal. O marechal quase sentiu inveja

desse tratamento. Nunca foi tratado mal naquela casa e o mordomo Yun

sempre foi cuidadoso com ele, mas o cuidado é de um servo a seu

senhor, agora Jia e Xiuying, cuidam de sua esposa com carinho, com

afeto e isso é algo que o primeiro marechal Zhang Huizong nunca

teve.

Todos estão cansados e dormiram onde podiam. Jia e Xiuying estão dormindo

no chão, ao lado da cama de sua senhora, o medico Gu dorme em uma

cadeira, não ousou ir embora, depois da falha ao chegar, não quer

correr riscos desnecessários com relação ao marechal. O marechal

dormiu pouco, ficou muito tempo observando a esposa dormindo, depois

de outra convulsão, naquela hora, a esposa gritava pela mãe e

depois chorava, murmurando o nome da avó. Depois de tentar escapar

do braço de Xiuying, para ir para algum lugar, a convulsão atacou

de novo e de novo o remédio foi ministrado e novamente ela se

acalmou. Cansado pela tensão do momento, foi para o quarto dormir um

pouco, mas a voz sofrida da esposa chamando pela mãe não saia de

sua cabeça. Zhang Huizong nunca chamou ninguém de mãe, nunca

sentiu a dor da perda de uma mãe, não sabe que tipo de solidão se

enfrenta quando elas se vão, principalmente quando a mãe é tão

próxima dos filhos. Zhang Huizong nunca foi amado. O avô o amou,

entretanto, era um amor que não tinha muitas demonstrações e sim

muitos conselhos de como agir em uma batalha. Zhang Huizong sabe que

o avô o amou, mas era um amor do jeito dele. O avô o tornou no

guerreiro que é agora, tudo que outros invejam nele, deve a seu avô.

Quando viu a esposa chamar pela mãe e estender os braços, como que

pedindo colo, algo dolorido no coração chamou sua atenção.

Jingfei sempre fala de sua mãe e o tom de voz é cheio de carinho e

orgulho. Zhang Huizong não sente nada e isso o está incomodando,

algo que não incomodou antes, não sabe porque agora surge algo

assim.

Já é dia claro, o marechal caminha pelo corredor, quer ver se está

tudo bem com sua esposa. O médico Gu está saindo.

 Marechal, bom dia.

 Como ela está?

 Muito melhor. Alguns dias de descanso e tudo voltará ao normal.

 Quantos dias?

 Uma quinzena é o suficiente.

 Quem está com ela?

 As servas que não se afastaram de maneira nenhuma. Boas servas

essas, não acha marechal?

Zhang Huizong não responde, corre a porta para o lado e vê as servas

ajeitando Jingfei na cama. O quarto cheira a incenso de madeira,

talvez para espantar as moscas ou substituir o cheiro dos remédios,

não importa para quê, mas o cheiro é agradável. O marechal busca

com os olhos o rosto da esposa e de repente vê aquele rosto pálido

e com olhos brilhantes, que o recebe com um sorriso lindo.

 Olá esposo. Que bom que voltei para sua vida.

Uma saudação que deixou um marechal sem jeito, uma saudação que

encheu o ar do quarto de carinho, pois sua voz é sincera e

tranquila, ela não está mentindo, está feliz por estar de volta ao

mundo dos vivos.

Os dias que se seguiram foram de muitos cuidados. As ordens do marechal

para que cuidassem da esposa, foram seguidas a risca, mesmo a

contragosto, tia Meirong fez o que o sobrinho ordenou.

É final da tarde e também o final do outono. O chão está forrado com

as folhas que caíram das árvores. O jardim interno da mansão é

muito bonito, suas flores chamam muita atenção, mas o marechal não

se importa, muito menos tia Meirong, os únicos a cuidar do jardim é

o mordomo Yun e o jardineiro. É uma pena, por que o jardim da mansão

fica lindo na primavera. Mesmo agora, quando a primeira nevasca ainda

não caiu, a grama ainda está verde e forrada com as folhas

alaranjadas das árvores, as trepadeiras, muito resistentes a baixa

temperatura do inverno, ainda tem algumas flores para serem

apreciadas. Jingfei teve um vislumbre desse jardim, enquanto

caminhava para a sala de banho e quis ver mais de perto. Ouvindo o

comentário que Jingfei fez, tia Meirong tem uma ideia brilhante e

começou a tecer a teia para envolver Jingfei.

As refeições de Jingfei não tem como base o peixe ou qualquer outra

coisa que lembre o mar, todas as refeições têm a carne de porco ou

frango, como prato principal. O mordomo Yun faz questão de

supervisionar todo o preparativo dessas refeições, embora o

marechal não se incomode com coisa nenhuma no que diz respeito a

organização da mansão, o mordomo sabe que isso é responsabilidade

sua e o cuidado com qualquer pessoa que esteja na casa.

Nos últimos treze dias, Jingfei melhorou consideravelmente, passeia pela

mansão, conhecendo cada detalhe, observando as pinturas do avô

Zhang e da mãe do marido, aquela mulher na pintura não demonstra

qualquer emoção, parece que o artista pintou uma caricatura, mas se

observar melhor pode ser visto que o olhar da mulher parece querer

fugir, como que evitando olhar para frente, para o que está a sua

frente ou quem está a sua frente. A pintura foi um presente do

falecido imperador ao general Zhang, para mostrar ao filho e assim

Zhang Huizong saberia como era o rosto da mãe.

 Passeando pela mansão novamente, garota? - tia Meirong se recusa a

chamar aquela mulher de senhora Zhang, mas nos últimos dias não tem

feito nada que importunasse a esposa do sobrinho. - Então acho que

você está pronta para um passeio no jardim, estou certa?

 Gostaria muito. - Jingfei está desconfiada a muito tempo desse

comportamento sociável de tia Meirong, por isso mantém sua guarda

alta.

 Me perdoe, senhora Zhang, mas o ar frio pode trazer de volta a febre

 Tolice! Ela já está bem melhor e um pouco de ar fresco vai ajudar

mais e depois não está muito frio, o sol aquece um pouco.

É verdade que o sol aquece um pouco o dia, mas as nuvens não deixam

que isso aconteça na sua totalidade, pois estão encobrindo o sol de

vez em quando.

 Venha, vamos caminhar. - tia Meirong olha para trás e fala com

grande entonação na voz. - Somente eu e a jovem senhora.

As duas concubinas se retiram indignadas, mas as servas permanecem no

mesmo lugar.

 Não ouviram o que eu disse? Não quero vocês ouvindo nossa conversa

e depois sair espalhando por aí! - esbraveja tia Meirong.

__ Tudo bem, meninas. Vão preparar meu banho, volto logo.- responde

Jingfei que está com seus instintos ligados no máximo agora, afinal

de contas, tia Meirong nunca a chamou de senhora e agora, assim do

nada, ela é agraciada com esse título por tia Meirong.

A sala onde estão é a sala do chá. Tia Meirong toma chá ali todos

os dias na companhia das duas concubinas, nunca convidou Jingfei, mas

é fato que no dia anterior, tia Meirong convidou Jingfei para o chá,

entretanto isso só aconteceu por que um emissário da imperatriz-mãe

veio até a mansão para saber da saúde da esposa do marechal, que

saiu em uma missão pelos arredores das províncias de Jade Azul. O

emissário achou tudo muito festivo, tudo que foi servido era

saboroso, viu a senhora Zhang comer os bolos com satisfação e

sorrir de alguma coisa que uma das concubinas disse e quando se

retirou, tinha certeza do que falaria a imperatriz-mãe, a mesma

coisa que disse o espião, que a esposa do marechal é tratada com

total desrespeito por parte de tia Meirong e as duas concubinas.

As janelas da sala são altas, são janelas portas e quando se abrem a

visão é a beleza das árvores, os belos pessegueiros ainda

floridos. Existe um caminho de pedras que leva para o interior do

jardim, as duas caminham por ele, em silêncio.

 Você sabe que não é bem-vinda nesta mansão, não sabe? - pergunta

tia Meirong depois de certo tempo.

 A senhora sabe que eu não posso fazer nada, o casamento já foi

consumado e agora só a morte nos separa.

 Querida garota, existem muitos meios de separar um casal, talvez a

morte seja apenas um caminho.

 Tia Meirong, eu não tenho família para voltar, se for essa a

vontade do marechal, meu marido e mesmo que ele me rejeite, o motivo

deve ser justo e isso é algo que ele não tem, por que eu não fiz

nada de errado, para dar a ele um motivo para me rejeitar.

 Claro que não, claro que não.

Um novo silêncio.

 Veja, aquele é o lago artificial que o falecido imperador mandou

construir, não é bonito? - aponta tia Meirong.

O falecido imperador não era um homem das armas, apesar de ter lutado

em algumas guerras de conquistas, mas o verdadeiro imperador era o

homem da escrita, da leitura e do paisagismo. Muitas das belezas em

forma de jardins que existem na capital, foram arquitetadas pelo

imperador, que depois ainda supervisionava a construção

pessoalmente. Para aquele imperador, quando estava planejando e

construindo um jardim, ele estava livre para ser ele mesmo.

O jardim da mansão Zhang foi construído por ele como um presente para

sua amada Ann Chi, quando ela voltasse da Mansão das Esquecidas.

Tudo no jardim era para sua amada, os pessegueiros, as rosas, as

flores mais perenes, que podem sobreviver a um inverno mais rigoroso,

as esculturas e até uma pequena ponte que leva a uma ilha

artificial, construída de muitas pedras e lá foi construído uma

única sala, a Sala da Contemplação, onde o falecido imperador

achava que sua amada ficaria para relaxar a mente. O Jardim de

Cristal, como batizou o falecido imperador, foi concebido para

fornecer ao espírito uma utopia e assim conectar o homem com a

natureza, fazendo com que relaxe e recarregue as energias para

continuar sua luta diária.

A ponte é feita de madeira nobre, resiste ali há mais de vinte anos,

com pequenas avarias que o mordomo Yun sempre se prontifica a

reparar. Uma pequena elevação no meio da ponte, faz com que as

pessoas possam olhar o horizonte e contemplar o pôr do sol e sua

beleza única.

 É uma bela vista, não é?

 Sim, tia Meirong, uma vista muito bonita.

 Espero que a guarde para sempre.

Jingfei não entendeu a última frase, mas antes de se virar e perguntar

algo, sentiu uma mão em suas costas e como não esperava tal coisa,

seu corpo foi para frente e caiu no lago gelado.

 Socorro!!

__ Não adianta gritar, estamos no lado mais afastado da mansão. O

presente do falecido imperador a minha irmã era para que ela ficasse

longe dos aborrecimentos, mas para você essa distância vai custar

sua vida. - tia Meirong se afasta sorrindo e depois para e olha para

o lago onde a esposa de seu sobrinho se debate. - Você também vai

ficar longe dos aborrecimentos, em breve.

Tia Meirong caminha lentamente de volta para a mansão. Em seu rosto está

um leve sorriso, ela sente que venceu de novo. Antes sua irmã era a

preferida, por que era a mais linda, a mais perfeita, superior a ela

em todos os pontos, mas o final que teve foi o de uma qualquer e no

dia que soube da morte da irmã, tia Meirong sorria do mesmo jeito

que sorri agora.

 Senhora, o jantar está quase pronto. A senhora Zhang não voltou?

 Mordomo Yun, a garota quis ficar mais um pouco, afinal é para isso

que serve a Sala da Contemplação. Depois mande alguém chamá-la.

__ Sim, senhora.

Um alvoroço no portão principal, barulho de cascos no pátio e o

mordomo Yun aparece para saudar o marechal.

 O que está acontecendo? Onde vão todos com as lanternas?

 Senhor marechal, procuramos por sua esposa.

 Procurando? Ela fugiu?

 Saiu com tia Meirong para um passeio no jardim e quis ficar na Casa

da Contemplação, mas não voltou e as servas não a encontraram lá.

Organizei uma busca …

 Algo desnecessário, meu sobrinho. A garota deve ter fugido …

 Para onde? Para onde, tia Meirong? De volta para os pais?

 Qualquer lugar, sobrinho.

 Existe algo que a senhora não percebeu, tia Meirong. Minha esposa

poderia ter fugido quando estava na província, mas não o fez e sabe

por quê? Pela honra em que ela foi educada. Ela nunca desonraria a

palavra do pai ou a dela mesma, afinal ela prometeu ao imperador que

seria minha esposa. É por isso que ela não fugiu, pela própria

honra.

 Então, sobrinho, onde ela pode estar?

 Diga-me a senhora, que a viu por último.

 Eu a deixei na Casa da Contemplação. Foi lá que a deixei. - fala

em tom baixo tia Meirong.

 Vamos procurar por lá.

__ Isso, sobrinho, vá logo.

Tia Meirong está em êxtase por dentro, nunca mais vai ver aquela garota

estúpida de novo. Tia Meirong sempre consegue se livrar das pessoas

que a incomodam.

A água do lago deve estar abaixo de zero, uma camada fina de gelo

começa a se formar na superfície. Na margem mais distante da Casa

da Contemplação, um corpo trêmulo repousa depois de lutar muito na

água. Isa sabe nadar, mas o corpo de Jingfei não sabe e controlar

os movimentos foi um luta terrível e muito cansativa. O pequeno

espaço entre a casa e a margem, poderia ter sido atravessado em

minutos, mas o corpo de Jingfei afundou várias vezes, ficou preso

nas algas do fundo do lago, até que finalmente se estabilizou e a

mente de Isa começou a se movimentar no nado livre até a margem,

mas estava exausta e desmaiou.

Metade de seu corpo está na água e a outra está envolvida nas folhagens

longas da margem. Conforme a noite se aproxima, a temperatura cai

mais e mais, consequentemente a água do lago fica mais gelada. O

corpo de Jingfei treme, está perto de morrer congelada depois de

lutar tanto, para não morrer afogada.

 Xiuying, o que faremos? Procuramos em todos os lugares e nada

encontramos!

 Vamos voltar a casa do lago.

 Já passamos lá e os outros também. Não vimos nada.

 Talvez se só nós duas a procurarmos …

 Talvez a gente encontre, é isso?

 Vamos.

Muita gente procurando em um mesmo lugar, às vezes atrapalha, mas duas

pessoas observando nos menores lugares tenham mais êxito.

Na ponte, o marechal observa as duas servas voltarem para a outra

margem, imagina ele que as duas não querem desistir. A ideia de que

a jovem senhora tenha caído no lago já foi exposta e o marechal

sentiu uma leve inquietação, mais do que isso, imaginou o olhar da

bisavó para ele.

 O que eu poderia ter feito, mordomo Yun?

 Senhor marechal, se ao menos os guardas pessoais da senhora

estivessem por perto, não muito, já que tia Meirong não queria que

a conversa fosse ouvida, mas perto o suficiente para ajudar se fosse

necessário.

 No final, a culpa é minha?

 Senhor marechal, me perdoe, não foi essa minha intenção.

Uma comoção na margem.

 O que foi isso?

 Parece que as duas servas encontraram algo e tentam puxar para fora

do lago!

O marechal e suas longas pernas correm em direção a outra ponte, sem

perceber, ele correu tão rápido quanto uma respiração, pois

quando viu o corpo azulado de sua esposa é que soltou a respiração.

 Ela está viva, senhor marechal, mas muito gelada! - diz Jia.

Zhang Huizong segura sua esposa nos braços e novamente corre pela ponte em

direção a mansão.

 Chamem o médico Gu, rápido!

Tia Meirong está na janela de sua residência, viu quando o sobrinho

entrou na mansão com a garota nos braços e ela chuta a parede, de

raiva. Tia Meirong está disposta a tudo, sempre esteve disposta a

tudo por seu lugar ao sol, lugar que tentam tirar dela, mas que ela

não vai permitir que tirem.

Quando pequenas, Isa e Jingfei, tiveram a mesma experiência com a água.

Isa estava na piscina com a mãe e o pai, uma reunião familiar, a

casa recebia amigos mais próximos e a pouca família que tinham. Isa

sempre foi curiosa com as coisas, algo que a mãe sempre incentivou.

 Pergunte sobre as coisas, se você não perguntar, não terá

conhecimento algum.

Palavras de uma mãe que queria que sua filha evoluísse como pessoa, que

tivesse a mente aberta para o conhecimento.

A água da piscina era azul, o reflexo do sol deixava, aos olhos de uma

menina de cinco anos, na água um brilho fascinante, como pequenas

luzes brilhantes e Isa queria ver de perto, mesmo se lembrando que a

mãe disse que, para entrar na piscina deveria chamar por ela ou pelo

pai, mas a menina achava que podia ir sozinha, que já era grande o

suficiente para ter sua própria aventura.

Quando seu pequeno corpo caiu na água, o peso a levou ao fundo e sem saber

nadar, Isa foi afundando mais e mais. Quando respirar se tornou

impossível, uma mão a segurou e a tirou da água, seu pai a salvou.

Depois desse dia, Isa pediu para aprender a nadar e pai e mãe

concordaram.

Dentro da piscina, mesmo que sua garganta queimava, sentindo a falta do

oxigênio, Isa olha para cima e a visão do mundo através da água

foi a coisa mais linda que já tinha visto e ela queria ver mais

imagens como aquela. Foi uma experiência angustiante, mas abriu

caminho para uma nova fase na vida de Isa.

Já Jingfei e sua experiência com a água não foi boa. Ajudando a mãe

com o carregamento de mercadorias, escorregou na rampa e caiu no mar

junto com as mercadorias. Um marinheiro estrangeiro que sabia nadar,

pulou no mar atrás dela e a trouxe para cima.

 Menina tola! O cuidado deve sempre ser a primeira coisa! - exclama a

mãe em sua preocupação com aquilo que era mais importante para

ela, sua filha.

Jingfei também abriu os olhos debaixo da água, mas só viu a escuridão e

um ruido estranho ao fundo, algo como um canto, como uma pessoa

cantando. O som harmonioso a acalmou, quando o ar deixava seus

pulmões, no mesmo instante que uma mão segurava a sua e a puxava

para cima. Jingfei não tem medo de água, ela só não quer passar

pela mesma situação de novo. Por causa dessas duas histórias, as

duas quase se afogaram. Uma sabia o que fazer e a memória da outra

não queria se mover. Felizmente a força de vontade de uma delas

venceu e Jingfei saiu do lago gelado.

Cada vez mais, Isa fica no controle do corpo de Jingfei, mas o ideal seria

uma mistura entre a memoria de Jingfei e a alma de Isa, assim as

decisões seriam únicas e rápidas, para o bem das duas. Com isso, o

sonho que Jingfei está tendo é uma mistura de duas experiências

com a água, uma que foi boa e outra que foi ruim, entretanto, a

inteligência das duas tirou algo de bom dessa mescla de informações

do passado, a de que tudo é possível se houver esforço. Sair da

água não foi fácil, mas também não foi difícil. O que

dificultou foi a distancia entre as duas mulheres, os pensamentos

separados e quando resolveram unir as informações que tinham,

saíram da água gelada a tempo.

Tia Meirong anda pelo caminho de pedra em direção a casa principal, bem

tranquila, afinal a garota não tem como provar nada.

As pessoas na casa principal não dormiram na noite anterior. Já

amanhecia quando o marechal entrou na casa com o corpo gelado de sua

esposa nos braços. Os servos não tiveram um descanso adequado, não

puderam, pois tia Meirong exige seu café da manhã e das concubinas

e promete severas punições a quem não cumprisse suas tarefas

diárias. Assim ela demonstra que é a soberana nesse pequeno

palácio. Seu rosto está sereno quando encontra o sobrinho na sala

de reuniões.

 Sobrinho, por que não está descansando?

O marechal Zhang Huizong está sentado em sua cadeira e sua cabeça

pende para trás. Olha para o teto e pensa no que aconteceu.

 Tia, deixou minha esposa sozinha, sabendo que ela ainda está fraca?

 Para mim, ela está bem, por isso convidei para um passeio pelo

jardim, afinal ela não conhece aquela parte da propriedade.

 Ela não está bem tia! Ela me disse que sentiu uma tontura forte e

caiu no lago!

 Garota mole, isso sim. Uma dama é forte.

 Tia, apenas vá para sua refeição!

 Então, ela já acordou?

 Um pouco, mas depois da medicação do médico Gu, voltou a dormir.

Agora já está bem melhor.

 Fale com ela, sobrinho, para que tenha mais cuidado no futuro.

 Tia, a senhora já pensou na quantidade de inimigos que tenho na

corte? Já pensou o que eles fariam se minha esposa morresse por

falta de cuidados, em minha casa?

 Isso não foi culpa sua!

 Por acaso isso vai importar aos meus inimigos? Tudo o que eu faço é

vigiado dia e noite. Qualquer deslize de minha parte e perco tudo

pelo que eu e meu avô lutamos. A senhora entende isso?

 O que quer dizer? Acha que fui responsável por essa tragédia?

 Pare de implicar com ela, entendeu? Para de alimentar com informações

os meus inimigos, entendeu?

 Sim, sobrinho, eu entendi.

 Vou para os meus aposentos.

__ Claro, sobrinho. Vá descansar.

Tia Meirong está satisfeita, a garota não falou nada, mas o sobrinho

está insinuando coisas, talvez ele esteja realmente preocupado com

os membros da corte, o primeiro conselheiro odeia verdadeiramente seu

sobrinho, contudo, tia Meirong tem algumas surpresas guardadas e o

primeiro conselheiro não vai encostar um dedo em seu sobrinho e

assim ela vai poder continuar poderosa em seus domínios.

Dois dias de sono, foi o resultado do mergulho involuntário no lago, para

Jingfei. Acordou molhada de suor e com uma fome voraz.

O mordomo Yun continua cuidando muito bem das refeições da esposa do

marechal e a cada dia, simpatiza cada vez mais com a amável jovem,

que sabe agradecer aos servos que a ajudam. Aliás todos na casa

começaram a gostar dela, principalmente quando ela pediu a presença

de todos na ante sala de seu quarto, para gradecer pessoalmente pelo

cuidado e preocupação que tiveram ao procurar por ela. Pediu

desculpas por causar tanto trabalho, algo que espantou os servos

acostumados as grosserias de tia Meirong e das concubinas.

Jingfei não morreu afogada, mas a hipotermia quase a levou, mas, foi embora,

entretanto deixou no lugar a pneumonia, que deixa Jingfei fraca e com

febre. A alimentação mudou e saborosas sopas medicinais são

servidas agora, para fortalecer o organismo de Zhang Jingfei, a

esposa do marechal.

O primeiro marechal está muito ocupado, tem que lidar com os

acontecimentos nas províncias Jade, com as invasões dos bárbaros,

com a segurança da capital e do imperador e o mais importante,

cuidar de sua esposa. Por que mais importante? A resposta é simples

e tem um nome que é imperatriz-mãe.

 Como você deixou sua esposa frágil do jeito que estava, passear

pelo jardim?

 Bisavó, ela estava com minha tia.

 Mesma coisa de estar sozinha. - a imperatriz-mãe, sabe que irrita o

bisneto, mas seu espião disse que seria impossível que Zhang

Jingfei caísse no lago, mesmo tonta, como ela alegou. Conclui a

imperatriz-mãe que a jovem esposa foi empurrada e isso é algo que

seu espião concorda. - Já providenciou uma guarda pessoal para sua

esposa?

 Bisavó …

 Sabe que seus inimigos na corte, tem como alvo o que você tem de

mais frágil?

Talvez o marechal achasse que sua luta contra os inimigos ocultos e os não

tão ocultos, fosse somente de sua responsabilidade, mas acaba de

perceber que sua bisavó ainda permanece do seu lado e do lado de sua

mãe. O marechal olha para sua bisavó, aquela mulher de aparência

frágil, parece conhecer tudo o que se passa na corte e talvez em

todo o império.

 Não olhe para mim assim, bisneto. Todos sabem que sua esposa é o

ponto fraco na sua vida perfeita.

 Eu tenho uma tia e duas concubinas.

 Seus inimigos sabem que sua tia é uma interesseira e não me

contradiga, você sabe que ela é! Suas concubinas são inúteis,

você mal toca nelas, portanto, são descartáveis. Agora sua esposa

é outra história, ela é um presente do antigo imperador, vem de

uma família que contribuiu muito para vários acordos comerciais do

império e estava no topo da lista de Mercadores do Império. Ao que

se pensar na situação, de que o quanto seus inimigos poderiam

lucrar se sua esposa fosse morta em sua própria casa, que já foi

invadida duas vezes, para simplesmente prejudicar sua posição, mas

agora houve isso …

 Ela mesma disse que sentiu tontura …

 Talvez sim e talvez não. Veja bem, talvez ela não queira

transformar algo que ela mesma não lembre, em algo que possa ser

prejudicial a você e ao nome da família. Você compreendeu?

 Compreendi.

 Ela é uma mulher de honra e entende bem o que você passa, muitas

vezes conversamos sobre isso em nossos encontros. Designe dois

soldados para a segurança dela, mantenha-a segura.

 Eu farei isso, bisavó.

Com essa conversa em mente, o marechal volta para sua mansão. É certo

que muitos boatos maldosos a seu respeito já surgiram na corte, mas

conseguiu provar sua inocência, agora tem uma esposa que pode se

tornar uma ferramenta dos inimigos para destituí-lo do cargo de

primeiro marechal.

 Preciso ficar mais atento. - resmunga o marechal.

No quarto, Jingfei olha pela janela o céu noturno, as estrelas brilham,

mas o tempo está frio, já chegou o inverno. Jingfei pensa nos

acontecimentos recentes, sabe que o marido não acreditaria se

dissesse que tia Meirong a empurrou no lago. No máximo, o marido

diria que inventou a história para prejudicar a tia, então ela

resolveu mentir a respeito. Acredita que assim é melhor, tia Meirong

é esperta, mas não conhece Jingfei-Isa.

O marechal quer conversar com sua esposa. Faz um certo tempo que quer

ouvir a explicação sobre o sangue na cama na noite de nupcias,

principalmente depois que chegou com Jingfei nos braços e a serva

Xiuying o impediu de entrar no quarto.

 Marechal, lembre-se que sua esposa ainda não foi tocada, aquele

sangue no lençol não lhe dá o direito de vê-la nua. É

inapropriado demais.

A serva sabe o que aconteceu e ele quer saber também.

Ao entrar sente o cheiro do incenso. Os primeiros cômodos cheiram a

incenso de flores, mas o quarto de Jingfei cheira a incenso medicinal

e o jantar está sendo servido.

 Minha esposa está acordada, mordomo Yun?

 Sim, marechal.- o mordomo faz uma careta.

 O que foi?

 Ela está se recusando a comer.

 Eu servirei o jantar.

Mordomo Yun se espantou, com o marechal sendo gentil? Quando isso aconteceu?

Depois de colocar suas roupas informais, o marechal entra nos aposentos de

sua esposa, que está sentada com uma aparência pálida e a pele

avermelhada.

 Soube que não quer comer, isso é verdade?

 Não estou com fome.

 Sabe que a doença tira o apetite e é preciso forçar a alimentação

para fortalecer o corpo e finalmente se curar, sabe disso, não é?

 Não me trate como criança.

 Então tenha a atitude de um adulto e coma.

Não é hora de discussões, Jingfei sabe disso. Seu corpo está dolorido,

sua garganta seca e a cabeça dói, o melhor a fazer é comer, ficar

boa logo e voltar para seu lugar.

Zhang Huizong senta-se na borda da cama e se prepara para alimentar sua

esposa.

 Isso é necessário?

 Quero ver você comer tudo.

 Posso fazer isso sozinha …

 Não, não pode. Sua mão está trêmula e pode derrubar tudo em

você.

 Não sou criança!

 Não, não é. Só está fraca, por causa da doença.

Resignar-se é o melhor a fazer. Jingfei se recosta nas almofadas e espera a

colherada. A sopa é de legumes e cheira bem, mas quando Jingfei

engoliu a sopa, sentiu o estômago se contrair e curvou o corpo.

Nisso a essência do peixe já se espalha por seu corpo.

 O que pretende? Se quer me matar deveria ter me deixado no lago.

Não houve mais palavras, Jingfei tem uma convulsão, sem controle em seu

corpo, ela cai no chão e o barulho chama a atenção de Jia que está

na porta,

 Senhora, o que aconteceu?

A tigela de sopa está no chão e a sopa se espalha no piso.

 Isto é sopa de legumes com molho de peixe? - pergunta Xiuying.

O marechal não tem resposta. O mordomo Yun surge na porta no momento

em que esta pergunta é feita.

 Não, é somente legumes!

 Mordomo Yun, isto é caldo de peixe. Conheço bem o cheiro e … -

Xiuying prova o caldo no chão com o dedo. - … o gosto. Isto é

caldo de peixe.

 Não é possível! Eu cuido dos alimentos com muito cuidado!

 Não temos tempo para saber sobre isso agora! - exclama o marechal. -

O que vocês fazem quando isso acontece?

 Temos as ervas que podem eliminar as toxinas do corpo. Eu vou buscar.

 Rápido, Xiuying, a garganta está se fechando!

 O que acontece quando a garganta se fechar?

 Ela para de respirar, senhor marechal. - responde Jia.

O marechal observa sua esposa lutando por ar. Segura a garganta, como

se tentando abrir espaço para o ar entrar.

Xiuying volta com o chá pronto, mas sabe que será difícil fazer Jingfei

engolir o líquido. Nesse instante ela desmaia, mais difícil agora.

Jia segura Jingfei no colo, quase em pé para que ela ainda possa

respirar, mas o som da respiração está diminuindo. Xiuying pega o

pequeno bambu enfia na boca de Jingfei e derrama o chá. Mesmo que

uma parte caia, mais da metade Jingfei engoliu.

 Mordomo Yun, por favor, peça para fazerem mais chá. Ela precisa

tomar toda essa jarra!

O mordomo Yun está em choque, cuidava muito bem das refeições da

jovem senhora, não pode acreditar que cometeu tal erro. Agora, ele

mesmo vai fazer o chá.

Depois de duas horas de luta, Jingfei volta a respirar. Nesse meio tempo, o

marechal mandou chamar o médico Gu para ajudar, mas quando esse

chega, Jingfei respira livremente.

 Agora temos que limpar seu organismo. Fazer com que ela vomite tudo

que resta no estômago para que não faça mal ao resto do corpo. - o

médico olha para as servas com o rosto duro. - Como permitiram que

ela comesse peixe se vocês sabem o perigo que é para ela?

 Não foram elas, eu que a alimentei.

 Marechal, esse tipo de alergia é muito perigosa. A pessoa pode

realmente morrer!

 Sim, eu sei! Vou descobrir agora o que aconteceu!

O mordomo Yun espera pelo marechal no corredor, ao lado dele estão o

cozinheiro e seu ajudante.

 Marechal, eu sinto muito. Foi minha falha, por favor, mereço ser

punido com rigor.

 Marechal, foi culpa minha em não prestar atenção nas tigelas

oferecidas. A punição é minha.

 Marechal, como auxiliar devo ser punido por não ter avisado o

mordomo sobre a diferença dos pratos. Mereço ser punido.

O marechal para e se volta para os três.

 Que diferença?

 Tia Meirong e as concubinas, pediram sopa de peixe. - explica o

cozinheiro. - Deixei as tigelas sobre o balcão para os servos

levarem, mas esqueci de falar para o mordomo. Tia Meirong me

perguntou sobre as carnes e quando expliquei, esqueci de avisar o

mordomo.

 Minha tia estava na cozinha?

 Sim, senhor. Veio buscar o jantar. - responde o cozinheiro.

 Senhor, nos perdoe. - falam os três juntos.

 Não se preocupem, foi um engano e não foi culpa de vocês.

O marechal caminha para seus aposentos. Sua mente está cheia com tudo

que a imperatriz-mãe disse e com muitas coisas que aconteceram

ultimamente, mas a frase que mais o deixou chocado foi dita por sua

esposa.

__ Se quer me matar, deveria ter me deixado no lago!

O marechal Zhang Huizong, tem um grande problema dentro de sua casa.

Zhang Huizong perambula pela casa. Seus pensamentos estão circulando em

sua mente e não o deixam descansar. Depois de verificar como está a

esposa e ver que ela dorme tranquila e ao lado dela, como cães de

guarda, estão as servas, que com o leve barulho da porta, abrem os

olhos e ficam de pé. Sem jeito, o marechal apenas olha o rosto

sereno da esposa e se retira. Aquelas servas realmente cuidam de sua

esposa.

Quando amanheceu, depois de poucas horas de sono, o marechal manda chamar o

general Ji Liao. O marechal precisa conversar com alguém e o general

Ji Liao é o mais próximo e em quem mais confia.

O general Ji Liao nunca abusou dessa amizade e confiança. Sempre que tem algo

a dizer e que não é sobre o exército, o general conversa em

particular, sempre respeitou a hierarquia e seu marechal.

Quando ainda tenente e conheceu pela primeira vez Zhang Huizong, sabia que o

velho general Zhang já havia passado para o rapaz, que pouco sorria, todo o conhecimento

militar que acumulou em anos servindo ao império. O velho general

Zhang era um guerreiro temido, corajoso, leal e nunca abandonou seus soldados. Era um general justo. Quando devia

elogiar, o fazia sem temor, mas também punia aqueles que

atravessavam a linha do decoro de um soldado. O general Ji Liao

esteve sob seu comando quando ainda era tenente e testemunhou todo o

episódio que quase destruiu o grande general Zhang, mas um grande

soldado, muitas

vezes, também

é um grande homem e ao

assumir a responsabilidade de criar o neto, o fez como um grande

homem deve fazer. O general Zhang foi o mais perfeito soldado, mas

seu maior defeito foi o de não ter nenhum jeito com relacionamento

com pessoas. Seu cérebro de soldado estava ativo o tempo todo,

consequentemente, seus

modos ficavam a desejar. Sorrir era um luxo, ser agradável, outro

luxo e tudo isso foi passado para um plano bem fundo em sua alma. Foi

nesse ambiente que Zhang Huizong cresceu e se formou o mais jovem

general do império e também o mais frio e distante ser humano.

O falecido imperador, tinha dois filhos homens, o príncipe herdeiro Guang

GangGuang e o, na época, segundo príncipe Guang Chonglin. O segundo

príncipe, jovem ainda, não podia ser o primeiro marechal, muito

menos o segundo, então provisoriamente, dois generais ocupavam esses

cargos, afinal por lei, somente os filhos do imperador podiam ocupar

esses cargos. Por vinte anos, o imperador esperou seu filho Zhang

Huizong se transformar no excelente militar que é agora. Por vinte

anos, o imperador esperou o momento certo para começar um processo

para reconhecer Zhang Huizong como seu filho legítimo, mesmo contra muitos opositores. Depois de vinte e dois anos, o imperador

assinou o decreto que anunciava a todo o império que Zhang Huizong

era seu filho e o segundo príncipe. Infelizmente, o grande general

Zhang não estava mais vivo para presenciar o momento, mas,

com certeza, ele estava feliz.

Aos vinte e seis anos, Zhang Huizong se torna o primeiro marechal do império, mas não foi por ser o segundo príncipe,

existem alguns critérios para isso e o mais importante é o seu currículo como soldado e isso, Zhang

Huizong, tem o melhor e o mais extraordinário currículo de todos. O

general Ji Lao estava lá quando o marechal recebeu sua jade verde

com os símbolos do império e sorriu de satisfação ao ver que a

justiça foi feita.

A vida do marechal sempre foi complicada, nunca deixavam de lembrá-lo

que era filho de uma mulher adúltera e com isso, a cada dia que

passava, mais e mais o jovem se fechava em si e com a educação

rígida do avô, é quase impossível, hoje em dia, se aproximar do

marechal.

O imperador sabia do temperamento do filho, sabia que ele jamais se

aproximaria de alguma mulher para propor um casamento e sabia também

que aqueles que se opuseram ao seu reconhecimento, colocariam isso

como um defeito ou obstáculo, para sua convivência na corte. O

imperador previu vários atos que os inimigos do filho fariam para

prejudicá-lo e estando um passo a frente, conseguiu desfazer todos

eles e pôde finalmente reconhecer seu filho, mas faltava algo

importante, um casamento com uma boa donzela e de uma boa família,

para dar ao marechal certa estabilidade e confiabilidade, que os

conselheiros tanto faziam questão de insinuar que o marechal não

tinha. Tudo era um absurdo, o imperador sabia disso, mas ele estava

se preparando para deixar o filho em uma situação estável diante

dos conselheiros.

O imperador descartou as filhas dos conselheiros e dos militares, sabia

que alguns inimigos estão entre eles, resolveu então escolher uma

família renomada, fora da corte e foi assim que chegou a família

Liang. O pagamento foi alto e controverso, afinal, deve ser a família

da noiva a dar o dote, mas não querendo perder tal dama, o imperador

aceitou o acordo com Liang YongLiang e pagou o dote.

General Ji Liao é um dos poucos a saber desse acordo, o imperador confiou a

ele a escolta da donzela Liang e ouviu do primeiro conselheiro a

história toda, dobrando sua atenção, afinal o conselheiro é um

dos inimigos do marechal, um inimigo não declarado, mas que todos

sabem o quanto o conselheiro Yan Cong não gosta do marechal Zhang

Huizong.

Uma donzela foi jogada na cova dos leões, mas o que o general Ji Liao

viu até agora, desde o jantar na mansão do marechal, é que Zhang

Jingfei sabe cuidar de si mesma, pelo menos um pouco.

O general Ji Liao se lembrou de tudo isso quando se sentou e observou o

rosto cansado e preocupado de seu comandante.

O que o aflige tanto?

 General, quero que designe dois soldados, para a segurança da

senhora Zhang.

 Muito bem, mas humildemente peço que não das minhas tropas. - o

marechal arqueia a sobrancelha. - Eu explico. Depois que as notícias

se espalharam, sobre o que aconteceu nas províncias Jades, mais de

cem de meus arqueiros pediram desligamento …

 Cem homens?

 Sim e todos eles, tem ou tinham, famílias nas províncias, portanto,

todos estão agora acampados na beira da estrada para o litoral,

esperando que o imperador dê a ordem, liberando a entrada de

pessoas.

 Sim, esse é outro problema que tenho que analisar.

 Peça ao general Gang Chaofu, suas tropas estão intactas.

O marechal concorda balançando a cabeça.

 Vou perguntar de novo, garoto. O que o aflige?

 Ji Liao, você acredita que minha esposa corre perigo?

 Com toda sinceridade, acredito que sim.

 Por quê? Acha que meus inimigos podem matá-la?

 O que o senhor acha? Afinal o senhor é que mora aqui. O que viu que

o levou a desconfiar?

 A imperatriz-mãe me disse, que o que a senhora Zhang disse, é

somente uma desculpa para não causar comentários.

 Pode ser verdade, afinal, sua esposa é uma mulher bem esperta e já

deve ter percebido as atitudes de algumas pessoas. - o general faz

uma pausa. - O que aconteceu com a sopa?

 Já sabe disso também?

 Já se tornou um comentário entre os soldados e na corte, pelo que

ouvi.

 Isso foi apenas um acidente. Foi feita a sopa da senhora Zhang e

depois três sopas de peixe para minha tia e as concubinas. Na hora

de servir, os servos se confundiram e trocaram as sopas. Um acidente,

apenas.

 Tem certeza?

 O que quer dizer? Que tem espiões nesta casa?

 Garoto, tem espiões em todas as casas nobres neste império! Sua

casa não seria exceção. - uma pausa. - A verdade é que desconfia

de sua tia, você e a imperatriz-mãe, já que conversaram a

respeito.

É por isso que o marechal confia no general Ji Liao. Ele não é só

leal, mas muito astuto, tem uma visão de mundo que o faz estar

sempre pronto para qualquer coisa, o que para muitos seria um

imprevisto, para ele será somente um acontecimento a mais.

 Tia Meirong …

 É uma mulher ambiciosa e interesseira. Se aproximou de você, quando

seu avô morreu, apenas para não ficar longe da corte, do luxo e

para sair daquela fazenda de cavalos, essa é sua tia e você sabe

bem disso.

 Tia Meirong sabe que se tentar ferir a senhora Zhang, isso vai me

atingir diretamente! Ela não seria tão tola!

 Pode ser, mas lembre-se que sua tia é bem quista pela imperatriz e

sua palavra é aceita na corte, logo, ela pode dizer qualquer coisa a

seu favor ou a favor próprio, que estará salva.

O marechal entrelaça as mãos e olha para o retrato de sua mãe e

suspira. Tia Meirong nunca foi de sua confiança, mas cuida da casa

bem, mantém as concubinas tranquilas e é sangue do seu sangue,

talvez por isso, nunca se incomodou com os pequenos deslizes com

relação ao dinheiro ou a escolha das concubinas, na época elas

eram necessárias e tia Meirong se encarregou de encontrar boas

mulheres para a função, mas agora vendo suas atitudes para com a

esposa, percebe que abriu demais as portas da sua confiança.

 Você se esquece, garoto, que esposas herdam tudo e tias e concubinas

não. Se quer um motivo, esse é o mais forte de todos.

 Tia Meirong iria tão longe?

 Claro que sim! É muito a perder.

O marechal lembra, que o avô dizia que o inimigo mais perigoso é

aquele que se disfarça de amigo e agora compreende o que ele quis

dizer.

 Com os dois soldados, talvez esses acidentes parem.

 Pode ser, afinal terá alguém olhando o que acontece com a senhora

Zhang. Isto vai dificultar qualquer movimento.

O marechal está com a mente ocupada com diversos problemas, mas ele é

competente e inteligente o suficiente para achar uma solução, agora

espera que a esposa fique a salvo. Um outro suspiro, agora é de

tranquilidade.

 Porque não chama sua esposa de “minha esposa” em vez de “senhora

Zhang”? Ainda não consegue admitir que ela agora faz parte da sua

vida?

 Avisou a todos, sobre a reunião?

 Sim, senhor marechal.

Essa é a dica para que o general Ji Liao saiba que o momento mudou e

agora ele é o marechal falando com seu subordinado.

Os relatórios foram espalhados sobre a mesa e quinze minutos depois, os

generais e capitães começam a chegar. Existe muito trabalho a fazer

e na próxima audiência com o imperador, uma solução deve ser

apresentada. O marechal Zhang Huizong não tem tempo para analisar

seu comportamento com relação a esposa, não agora, talvez depois.

Capítulos
1 Capítulo 1 - O Reino das Águas
2 Capítulo 2 Um tiro perfeito, na direção errada
3 Capítulo 3 A Sala de Espera
4 Capítulo 4 O Caminho é longo
5 Capítulo 5 A festa de casamento
6 Capítulo 6 A nova casa
7 Capítulo 7 O jantar em família
8 Capítulo 8 O Imperador está morto! Viva o novo Imperador!
9 Capítulo 9 O futuro imperador
10 Capítulo 10 A Coroação
11 Capítulo 11 O retorno a cidade natal
12 Capítulo 12 Estamos de volta!
13 Capítulo 13 Momentos complicados
14 Capítulo 14 O palácio imperial
15 Capítulo 15 Uma concubina preferida
16 Capítulo 16 De volta a mansão Zhang
17 Capítulo 17 Um jantar para diversão dos convidados.
18 Capítulo 18 A convivência do casal dragão
19 Capítulo 19 As maravilhas de um bom relacionamento
20 Capítulo 20 O rumor
21 Capítulo 21 O aniversário de casamento
22 Capítulo 22 A Peregrinação
23 Capítulo 23 A terra treme
24 Capítulo 24 A terra treme e o palácio sangra
25 Capítulo 25 - Parte 1 - A terra treme, mas a esperança é sem fim
26 Capítulo 25.I – Parte 2 A terra treme, mas a esperança é sem fim
27 Capítulo 25.II – Parte 3 A terra treme, mas a esperança é sem fim
28 Uma vida e um sonho
29 O imperador e sua amada
30 A Sabedoria de Lin Ehuang
31 Um jantar muito divertido
32 Um corte no tempo – Os irmãos Tian
33 Um corte no tempo e um lugar para os irmãos Tian
34 Um corte no tempo e o alimento de Tian Long
35 As dificuldades de se governar
36 Conhecendo um ao outro e um convite
37 De volta a Jade Azul
38 Muitas aventuras do casal dragão
39 Um corte no tempo para os sonhos
40 Os Bárbaros
41 O Ataque
42 Os Bárbaros e a coragem
43 A volta para casa
44 O Festival do Fim do Outono
45 A despedida
46 Um continente desunido
47 Observações: Fim do primeiro Livro
48 Observações 2ª Parte
Capítulos

Atualizado até capítulo 48

1
Capítulo 1 - O Reino das Águas
2
Capítulo 2 Um tiro perfeito, na direção errada
3
Capítulo 3 A Sala de Espera
4
Capítulo 4 O Caminho é longo
5
Capítulo 5 A festa de casamento
6
Capítulo 6 A nova casa
7
Capítulo 7 O jantar em família
8
Capítulo 8 O Imperador está morto! Viva o novo Imperador!
9
Capítulo 9 O futuro imperador
10
Capítulo 10 A Coroação
11
Capítulo 11 O retorno a cidade natal
12
Capítulo 12 Estamos de volta!
13
Capítulo 13 Momentos complicados
14
Capítulo 14 O palácio imperial
15
Capítulo 15 Uma concubina preferida
16
Capítulo 16 De volta a mansão Zhang
17
Capítulo 17 Um jantar para diversão dos convidados.
18
Capítulo 18 A convivência do casal dragão
19
Capítulo 19 As maravilhas de um bom relacionamento
20
Capítulo 20 O rumor
21
Capítulo 21 O aniversário de casamento
22
Capítulo 22 A Peregrinação
23
Capítulo 23 A terra treme
24
Capítulo 24 A terra treme e o palácio sangra
25
Capítulo 25 - Parte 1 - A terra treme, mas a esperança é sem fim
26
Capítulo 25.I – Parte 2 A terra treme, mas a esperança é sem fim
27
Capítulo 25.II – Parte 3 A terra treme, mas a esperança é sem fim
28
Uma vida e um sonho
29
O imperador e sua amada
30
A Sabedoria de Lin Ehuang
31
Um jantar muito divertido
32
Um corte no tempo – Os irmãos Tian
33
Um corte no tempo e um lugar para os irmãos Tian
34
Um corte no tempo e o alimento de Tian Long
35
As dificuldades de se governar
36
Conhecendo um ao outro e um convite
37
De volta a Jade Azul
38
Muitas aventuras do casal dragão
39
Um corte no tempo para os sonhos
40
Os Bárbaros
41
O Ataque
42
Os Bárbaros e a coragem
43
A volta para casa
44
O Festival do Fim do Outono
45
A despedida
46
Um continente desunido
47
Observações: Fim do primeiro Livro
48
Observações 2ª Parte

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