Zhang Huizong cavalga ao lado da carruagem de sua esposa. A carruagem é um
presente para a esposa. É uma peça simples, pintada de azul-claro e
adornos dourados e o dragão dos lados, é o símbolo da família. O
marechal gostaria de perguntar a esposa, o que era o sangue nos
lençóis, mas não tem vontade para isso, basta que a jovem tenha
agido muito bem ontem a noite, evitando que os dois passassem por uma
situação desagradável.
__ Yan Cong é um cão infeliz! - pragueja baixinho o marechal.
Aquele conselheiro do pai, sempre fez de tudo para dificultar o
reconhecimento de seu nascimento, diz a todos que Zhang Huizong não
é merecedor, por não ter sido educado para ser um príncipe. O
primeiro conselheiro não é um tolo, sabe que se Zhang Huizong for
imperador e com aquela personalidade que tem, as pequenas negociações
feitas e em sociedade com outros conselheiros, acabariam em um
instante e então, o conselheiro Yan Cong apoia de todo coração o
príncipe herdeiro, alguém que é mais fácil de manipular.
O pequeno cortejo nupcial se aproxima da mansão Zhang e Jingfei coloca
a cabeça para fora para ver melhor a sua futura casa.
A mansão é construída de pedras, diferente da casa dos pais que é
feita de troncos de árvores e tábuas lixadas. A mansão é enorme,
na entrada principal tem uma placa no alto, em letras garrafais
douradas, indicando de quem é a moradia. Portões de madeira clara
polida na entrada e quando estes se abrem, mostram o mais belo
jardim. O colorido do jardim é uma visão maravilhosa para Jingfei,
flores para todos os lados e no fundo do jardim, bem distante mesmo,
é possível ver uma construção sem portas, sem janelas e sem
paredes. Para Jingfei não parece um caramanchão ou um pagode
chinês, é totalmente diferente. Depois que descansar, vai passear
até lá, para ver melhor. Agora ela segue o marido pelas escadas de
pedras até a porta principal, que é de madeira pintada de vermelho
e com o símbolo da família talhado nela. Quando a porta se abre,
uma mulher com um sorriso caloroso vai até Zhang Huizong e o abraça.
Meu filho! Que bom que já voltou!
Zhang Huizong permanece como está, não gosta que o toquem, mas tolera o
toque da mulher, porque é sua tia.
Ainda parada na porta, Jingfei observa a sala luxuosa e suntuosa, bem
própria para o primeiro marechal. Muitas cadeiras envernizadas em
vermelho, espalhadas pela sala, muitos vasos sem flores, algo que
deve ser o toque da tia. Em um canto, está uma mesa cercada de
quatro almofadas, provavelmente ali é servido o chá, pois a mesa
está de frente a janela, aliás, as janelas daquela sala são todas
do teto ao piso e com cortinas azuis bem claras. Existem muitas
coisas nas paredes, de um lado estão expostas algumas espadas, do
outro lado uma armadura antiga, mais ao fundo um móvel onde estão
exibidos capacetes, taças douradas, provavelmente de ouro, pratos
decorativos e algumas adagas. Jingfei acha que pertencem ao avó do
marido, relíquias que ganhou quando combatia pelo império.
Senhora Zhang Jingfei, esta é minha tia a senhora Zhang Meirong, ela
administra a casa quando não estou e isso vai continuar assim. - o
tom de voz de Zhang Huizong não é agradável nesse momento. - Eu
não gosto de dividir minha casa com ninguém, mesmo minha tia tem
seu pavilhão para morar, assim será com você também. Sua serva a
espera no pavilhão destinado a você. Não quero ser aborrecido com
tolices entre você e as concubinas. Minha tia resolverá isso. Não
venha até a mim para nada, se eu quiser vê-la, mandarei avisar.
Você, assim como minha tia e as concubinas, comem em seus pavilhões,
não gosto de companhia para as refeições, mas uma vez por mês,
nos reunimos para um jantar e é só. A liteira e o cavalo são seus,
treine sua serva para conduzir a liteira. Terá sua mesada mensal,
como combinado com seu pai. Não envergonhe minha família. Todas as
outras coisas que surgirem, minha tia resolve. Essas são as minhas
normas para essa casa, obedeça e viveremos bem. - Zhang Huizong
termina de falar e em nenhum momento olhou para a esposa ou a tia,
sua preocupação está em organizar os papéis que tem nas mãos. -
Alguma pergunta?
Posso me retirar? Estou cansada. - responde Jingfei.
Não há resposta, só um aceno com a mão indicando que ela pode sair.
Zhang Meirong vai atrás da jovem, quer acompanhá-la até o pavilhão
do Sol.
As ordens de meu sobrinho devem ser seguidas a risca, sem rebeldia,
entendeu? - como não teve uma resposta, tia Meirong, como gosta de
ser chamada, continua. - Nesta mansão quem manda sou eu! Tudo que
você precisar deve passar por mim primeiro, entendeu? As concubinas
estão aqui a mais tempo do que você e ganharam esse pavilhão. -
tia Meirong aponta uma bela moradia pintada de azul e é bem grande,
duas mulheres estão sentadas na varanda comendo o que parece ser
melancia. - Do outro lado é o meu pavilhão. - novamente, tia
Meirong aponta para mostrar sua moradia, que é pintada de branco e
bem grande também. - Se você se comportar e obedecer às normas,
como disse meu sobrinho, viveremos bem.
O tal pavilhão do Sol está na frente de Jingfei e não é como
esperava. É uma moradia de três cômodos, circundada por uma
varanda, com janelas grandes, de madeira envernizada em vermelho, um
jardim morto do lado, uma árvore morta do outro lado, cercas
quebradas e a porta, quando Jingfei abriu, caiu no chão.
Isto vai ser complicado! - diz a jovem esposa do grande marechal
Zhang.
Depois que tia Meirong voltou para a casa principal, Jingfei é apresentada
a nova serva.
Meu nome é Jia. O mestre me incumbiu de servi-la.
Jingfei olha para a mulher que aparenta ter por volta de vinte ou talvez
vinte e cinco anos. Longos cabelos pretos presos em um rabo de cavalo
junto a nuca, roupas simples, na cor cinza. Seu rosto parece ser bem
comum, menos os olhos que são grandes em comparação com outras
pessoas do império.
Qual sua família?
Servos geralmente não tem família e não têm sobrenome. - informa
Xiuying.
Jingfei suspira, esse império tem muitas normas, regras e leis, vai precisar
se acostumar a elas, mas a que mais a aborreceu são as regras do
marido. A impressão que Jingfei guardou enquanto o marido falava, é
que a presença das pessoas a seu lado são apenas para servir aos
propósitos dele, não são de importância nenhuma. A rigidez do
corpo do marido ao abraço da tia foi uma prova de sua tolerância.
Vamos conhecer a casa, talvez com uma boa faxina, ela fique melhor. -
fala Jingfei um pouco entusiasmada.
Esta, senhora, é a pior casa. Está abandonada há muitos anos. Tia
Meirong devia ter dado a outra …
__ Tudo bem, tudo bem. Vamos fazer o nosso melhor para transformar isso
tudo. Prontas?
Xiuying olha para a mulher que no futuro salvará milhões de pessoas. Apesar
das diferenças de mundo, Xiuying admira a boa vontade da mulher,
admira essa postura de não se deixar abater, porque tia Meirong é o
tipo de pessoa desagradável aos limites de qualquer paciência e
Xiuying sabe que ela vai fazer tudo para tornar horrível a vida de
Jingfei.
Tentando manter o bom humor, Jingfei ajuda a varrer e a limpar a casa, mas a
sujeira e o pó não são a única preocupação. Quarenta minutos
depois que as três começaram a limpara a casa, começa a chover e
as goteiras aparecem. Uma, duas, três e quanto mais forte é a
chuva, mais goteiras aparecem, no fim, chove mais dentro da casa do
que do lado de fora. Poças de água se formam por toda a casa, não
há lugar para ficar sem sentir uma goteira.
Foi difícil dormir a noite, já que uma goteira está em cima da cama,
mas no outro quarto, que tem um espaço seco, as três, encolhidas,
dormem sentadas.
Duas semanas e a aparência da casa melhorou bastante, agora é arrumar o
telhado. Jingfei com as memórias de Isa, consertou os moveis, as
portas e janelas, muitas partes do piso e reforçou os pilares da
varanda. Para uma pessoa que tinha um certo conhecimento em
engenheira, decoração, arquitetura e paisagismo, foi fácil fazer
tudo isso, bem, fácil não foi, afinal as ferramentas desse mundo
são muito arcaicas, mas com tudo isso, Jingfei conseguiu fazer muita
coisa boa.
Uma tarde, depois de inspecionar o telhado, Jingfei é avisada que tia
Meirong quer vê-la.
Já fazem agora vinte e cinco dias que não vê o marido ou qualquer
outra pessoa além do servo que traz a comida.
A comida é um assunto que deixa Jingfei furiosa, sabe que tia Meirong
não gosta dela, talvez sinta que pode perder seu pequeno reino, mas
enviar restos de comida para a esposa do sobrinho, é passar um pouco
dos limites. Certa vez, ao abrirem as vasilhas, um cheiro de podre
invadiu a sala. Ninguém jantou aquele dia e o pouco que tinham no
estômago, saiu depois de vomitarem, quando viram vermes andando na
comida estragada.
Jingfei vai aproveitar esse encontro para dizer algumas coisas e pedir
outras, talvez ela tenha que insistir muito por isso.
Que roupas são essas? Quer envergonhar meu sobrinho? - diz tia
Meirong com desprezo, muito confortável em sua cadeira alongada,
sendo servida de um chá cheiroso e muitas guloseimas.
É a roupa que tenho. - responde calma Jingfei depois de aspirar o
cheiro delicioso do chá e dos doces. - Quero falar com a senhora
também.
Antes vou dar a você a mesada que meu sobrinho prometeu. - tia
Meirong faz um sinal e uma serva entrega a Jingfei um saquinho
florido.
O que é isso?
Sua garota desaforada! É a sua mesada!
É uma brincadeira, não é? O esposo acha que sobrevivo com três
moedas?
Ousa questionar as ordens do meu sobrinho? - grita tia Meirong
levantando-se.
Ouso por que posso! Eu tenho telhado para arrumar, senão será
impossível viver lá! Preciso de roupas, preciso comprar
mantimentos, pois os restos que a senhora manda deve fazer falta aos
porcos. Três moedas? É uma brincadeira, só pode ser!
Você é uma criança estúpida e ousada! A casa é responsabilidade
sua! Se não está satisfeita com a comida, não coma!
É assim que vai ser então?
Está me desafiando? Ouse fazer algo, que contarei a meu sobrinho!
Espero que conte, espero mesmo.
O assunto foi encerrado, Jingfei deu as costas a tia Meirong e vai rumo
a sua casa, no caminho avista as duas concubinas rindo na varanda.
Certo, podem rir, mas o riso final será meu, eu garanto! - Jingfei
murmura para si.
O que vamos fazer, senhora? A temporada das chuvas começa em breve e
estamos perto do inverno.
Jingfei suspira, fez muitas coisas com o que tinha em mãos. Parada em frente
ao portão da casa, observa toda a mudança que fez. A porta da
entrada foi colocada no lugar e bem presa dessa vez. Distante uns dez
metros da casa, tem um pequeno galpão onde Jingfei encontrou
martelo, pregos, madeira, palha e muita entulho. Usou seu pouco
conhecimento em construção e arrumou as janelas e portas, elas
agora abrem e fecham. As madeiras no galpão, usou para arrumar o
piso e os buracos na parede, Jia ensinou o que os moradores de sua
aldeia faziam para levantar casas.
Nós não temos dinheiro para comprar tijolos, então muitos usam
palha misturada com barro para construir as casas, talvez dessa
maneira, possamos tampar os buracos ou construir uma parede.
A Isa em Jingfei gostou da ideia, se lembrando das coisas que a mãe
mostrava em suas viagens, sobre construções antigas, fez mais um
cômodo, que pretende usar como uma cozinha. O portão da casa foi
feito com troncos de árvores, que achou no pequeno bosque, que tem
nos fundos da propriedade e lá também achou os galhos que fez a
cerca ao redor da casa. No bosque, tem muitas plantas com flores e
tomando o cuidado de não trazer nenhuma que seja venenosa, plantou
algumas no jardim e usou uma trepadeira para cobrir a cerca.
Na primavera, a trepadeira estará linda, senhora. - Jia gosta de
serviços manuais e ficou feliz em ajudar sua jovem senhora.
A casa está quase pronta, mas falta arrumar o telhado.
O que vou fazer com três moedas para arrumar o telhado?
Suas duas únicas ouvintes não deram respostas. A palha acabou e não
existem telhas de reserva no galpão. Joias não tem para vender,
pedir ao pai está fora de seu pensamento. Se isso chegar aos ouvidos
do marido, será outro motivo para tia Meirong intimidar Jingfei.
Pensando nisso, as três mulheres caminham pela propriedade que é imensa, o
presente do imperador ao pai de sua concubina favorita tem que ser
grandioso. Seguindo pelo caminho de pedras, Jingfei vê algo que
alerta sua memória, quando das aulas de construção da mãe.
Mas é claro! - grita ela assustando as outras duas.
O que aconteceu? - perguntam juntas as servas.
Achei o material para fazer o telhado do novo cômodo e refazer o
telhado antigo. - diz Jingfei sorrindo e apontando para o bambuzal no
fim do bosque.
As ideias mais simples, são as melhores. Essa era a frase de sua mãe,
quando fazia esboços na companhia da filha e agora olhando para seu
telhado novinho, ela está concordando. Um teste no fim do dia, uma
chuva poderosa caiu, com relâmpagos e trovões, mas nenhuma goteira.
As três correm pela casa sorrindo, estão satisfeitas e orgulhosas
pelo que fizeram. Xiuying até achou estranho estar tão contente, o
trabalho que fez foi pesado, suas mãos estão feridas e suas costas
doem pelo peso dos bambus, mas a sensação de ter feito algo é
muito boa, mesma sensação quando acertou o alvo, a sensação do
dever cumprido e de ter feito algo incrível. Só que é mais do que
isso, o que Xiuying sente é o companheirismo, o trabalho em equipe.
Jingfei nunca mandou nenhuma das duas fazerem nada do que ela mesma
não pudesse fazer e sempre é educada e respeitosa com as duas,
sendo assim, as duas servas ajudaram a jovem senhora com satisfação.
A alegria que Xiuying sente é de participar de algo simples, mas, ao
mesmo tempo, grandioso para elas. Xiuying sempre esteve sozinha, seu
aprendizado era algo que tinha que ser feito com sua capacidade, mas
deveria estar sozinha para isso, conhecer seu lado interno é um
trabalho solitário, esse é a essência do cultivo. Aqui ela
aprendeu o que é ser companheira de alguém, de colaborar com
alguém. Xiuying olha para a mulher que quase matou e que aceitou
ajudar a arrumar toda a situação que criou e sente quão nobre e
especial essa mulher é, e promete a si mesma que vai fazer tudo a
seu alcance para que o plano dê certo e que Isa possa voltar para
sua vida feliz.
Quatro meses se passaram, somando-se ao primeiro mês que Jingfei passou
arrumando a casa, agora ela tem cinco meses de casada com o grande
marechal, que partiu para algum lugar e ela não foi informada disso
por tia Meirong. Em todos esses meses, um servo traz a mesada de
Jingfei, as exatas três moedas. No sexto mês, no dia seguinte da
entrega da mesada, Zhang Huizong volta de sua excursão nas
fronteiras do império.
O marechal voltou! - anuncia Jia.
Bem, lá vamos nós para uma grande batalha com o senhor marechal. -
comenta Jingfei tomando seu chá amargo.
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Atualizado até capítulo 48
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