A propriedade da família Zhang é enorme, só não é maior por que o
imperador tem a maior propriedade de toda capital e por que é
proibido, por decreto, que qualquer nobre tenha uma propriedade maior
do que a do imperador, salvo as fazendas.
A casa principal é chamada Casa do Dragão do Céu, nome dado pelo avô
de Zhang Huizong, por ser bem imponente e por ter na parte mais alta
do telhado, uma estrela que é envolvida por um dragão. O velho
Zhang concluiu que a estrela significa o céu, onde o dragão vive e
logo a casa recebeu esse nome.
A residência dos Zhang fica em uma rua que praticamente tem só essa
casa de um lado da rua e do outro lado tem apenas quatro casas.
Nessas casas, em duas delas, moram seus dois generais mais leais e
nas outras duas, são moradias de seus capitães mais próximos.
Como a rua é, praticamente, extensão da propriedade Zhang, ela é muito
bem cuidada, tanto quanto as ruas ao redor do palácio imperial. As
cerejeiras predominam, plantadas na calçada, florescem lindamente e
quando é a primavera, as outras árvores florescem, então durante o
ano todo, a rua Zhang, como é conhecida, está sempre florida.
Existem dois portões na propriedade, um deles é o portão principal, que
leva diretamente a porta da frente da mansão e o outro é um portão
lateral, usado para descarregar mantimentos e outras mercadorias que
a família necessita, aliás, esse portão é o mais usado por
Jingfei e suas servas, para evitar encontrar com tia Meirong e as
concubinas.
A mansão Zhang, tem dez cômodos muito bem distribuídos. Tem quatro
quartos, uma enorme biblioteca, uma sala principal, onde o marechal
recebe suas visitas, uma cozinha bem equipada, uma sala de reuniões,
onde o marechal constantemente reúne seus generais e capitães para
discutir assuntos sobre o exército, uma sala para meditar e treinar
o cultivo e essa sala é exclusiva do marechal e finalmente a sala de
refeições. Nesse dia em especial, essa sala estará cheia, é o dia
do jantar em família que o marechal faz questão de fazer todo mês.
O marechal acredita que reunindo as famílias de seus subordinados
mais leais, confirmará sua lealdade e cumplicidade para todos os
assuntos, além de ficarem mais próximos. Nesses jantares, a
presença de seus quatro generais é obrigatória, assim como dos
oito capitães. Eles até podem não comparecer, mas a desculpa tem
que ser muito boa. Forçando uma aproximação? Claro que não! O
marechal quer olhar para seus subordinados bem nos olhos e saber se
algum deles está diferente, afinal, dois de seus subordinados, um
general e um capitão, foram convocados pelo segundo marechal, o
irmão caçula do marechal, alegando que faltam membros de qualidade
em suas tropas e Zhang Huizong só soube disso no dia que os viu
usando as insígnias do irmão e para não sofrer nenhuma traição
como aquela, ele determinou a presença obrigatória de todos nos
jantares na mansão.
A mansão está toda iluminada, os castiçais estão todos acesos. Um
cheiro delicioso está no ar, uma mistura dos bons temperos da comida
e dos incensos florais, que queimam por toda parte. As famílias de
seus subordinados vão chegando, sorriem todos, sabem que o jantar
mensal é farto e maravilhoso, mas tem uma situação que todos
querem ver, que é a esposa do marechal.
A capital não é uma cidade pequena, onde todos se conhecem, ao
contrário disso, a população é feita de desconhecidos, muitas
pessoas e de vários lugares, mas não se conhecem. Com tudo isso,
não existem fofocas a respeito de determinada situação ou pessoa,
todos querem viver em paz, mas sempre existe aquele grupo que sabe
tudo o que acontece no palácio imperial e com os nobres. A conversa
que circula é que a esposa do marechal é reclusa como o marido,
outros dizem que pouco sai por não ser bela o suficiente e outros
afirmam com certeza, que tal mulher não existe, pois acham que
mulher alguma suportaria viver com a frieza do grande marechal. Com
todas essas histórias na mente, os subordinados chegam um a um e
esperam ansiosos, para conhecer a esposa do marechal.
Antes desse jantar, alguns dias atrás, mais precisamente, dois dias depois
do encontro de Jingfei e tia Meirong. Nesse dia, a noite, depois que
esperaram por um jantar que não veio, Jia vai até a cozinha da casa
principal para pedir algumas folhas de chá, mas como a ignoraram,
resolve sair e ir até o bosque para colher algumas folhas de hortelã
para um chá, pelo menos será algo para empurrar o pão que fez
naquela tarde. Na volta, anda pela calçada satisfeita com a
quantidade de folhas que conseguiu, vê um homem com as roupas de
criado imperial, um mensageiro. Como Jia foi ao bosque pelo lado de
fora da propriedade, está caminhando até o portão e o homem está
parado lá com a expressão perdida.
Boa noite, deseja algo? - pergunta Jia.
Esta é a entrada da residência Zhang? - responde com outra pergunta
o esnobe criado.
Não, não é. A entrada principal está alguns metros a frente …
Longe?
Não muito. - responde Jia calmamente.
Você é quem?
Sou a serva da esposa do marechal.
Você não tem nome? - pergunta arrogante o mensageiro.
Sou Jia, a serva da casa.
Pois bem, vou pedir algo a você, mas isto deve ficar entre nós,
servos, está bem? - diz o mensageiro mudando o tom da voz. - Estou
atrasado com as mensagens e não posso voltar e esperar que me
atendam, portanto vou dar a você uma mensagem do imperador para a
senhora Zhang, a esposa do marechal. Cuide para que ela receba,
entendeu?
Claro.
Jia vê o homem subir apressado em seu cavalo e galopar mais apressado
ainda pela rua, a noite já está fria e bem mais escura do que
estava quando saiu, portanto já deve ser tarde e Jia se apressa a
entrar. A serva caminha em direção a casa principal com a mensagem,
mas na metade do caminho, pensa, porque ir até lá se pode entregar
a mensagem a própria senhora Zhang? Jia sorri para si, afinal vai
evitar fazer uma caminhada desnecessária.
Onde foi, Jia? - pergunta Xiuying.
Buscar algumas folhas de hortelã, para um chá.
Que bom. O pão que fez está gostoso, mas é difícil de engolir a
seco. - comenta Jingfei.
Vou preparar imediatamente. - responde Jia e volta em seguida. -
Senhora, um mensageiro do imperador deixou esta mensagem. - Jia
entrega a mensagem a sua senhora.
Uma mensagem do imperador, para mim?
Talvez a esteja convidando para um jantar. - comenta Xiuying. - Eles
adoram jantares suntuosos.
Espero que sim e com muita carne! - completa Jingfei.
Ao desenrolar o pergaminho e mesmo não sabendo ler no idioma local, Isa
lê o que está escrito perfeitamente e as rugas entre os olhos vão
se formando e suas bochechas já vermelhas, ficam mais vermelhas.
O que foi, senhora?
O imperador está pedindo desculpas por ter enviado junto aos rolos
de tecido, um tecido de uma cor que não gosto e que eu posso fazer o
que eu quiser com ele.
Rolos de tecido como presente? Quando chegou aqui? - pergunta
Xiuying.
Não precisa olhar para muito longe, é só olhar para as duas casas
antes da nossa.
Senhora, elas não teriam coragem!
Claro que não, mas tia Meirong sim! Aquela mulher quer que minha
vida aqui seja um horror eterno.
Que tola aquela mulher. Ela só tem a perder, estando contra você.
Xiuying, de novo tenho a impressão que você sabe o que vai
acontecer. - diz Jingfei com um sorriso, enquanto a outra nega com a
cabeça. - Tudo bem, não preciso disso.
Senhora, e o jantar do marechal? Vai usar o quê? - pergunta Jia,
entrando com o chá.
Vou usar o que tenho e darei a resposta a altura da pergunta. -
finaliza Jingfei com um sorriso maroto.
Caminhando calmamente pelo jardim, em direção a casa principal, Jingfei não
se lembra mais desse momento, mas sabe que deve estar alerta nesse
jantar. Vai mostrar suas garras, mas não muito, tem que observar
primeiro o ambiente, só depois que alguém falar algo que a
intimide, vai fazer o que for preciso. Assim como fez com os tecidos
que tinha. Com a ajuda de Xiuying, que parece ser muito boa em fazer
uma roupa, Jingfei está usando um vestido todo azul-claro, sem
nenhum ornamento, bordado ou o que seja para deixá-lo mais bonito,
mas está satisfeita com o resultado final.
Ao colocar os pés na soleira da porta, uma brisa faz o tecido leve de
sua roupa flutuar levemente, dando a impressão que uma figura mágica
acabou de entrar, tal simplicidade e a beleza da jovem, formaram um
conjunto que causou um impacto nos convidados e um leve movimento na
sobrancelha do marechal.
Os cabelos de Jingfei estão soltos, o único ornamento é a tiara,
presente do imperador. Seus olhos não tem maquiagem e brilham
naturalmente, na boca uma leve pintura rosa e como suas bochechas já
são vermelhas, não precisa de nada. Nenhum pó foi usado para
aveludar sua pele, está em seu natural, que parece macia, delicada e
suave. Usa uma pequena bolsa que fez a muito tempo, toda em
azul-escuro e um leque, que achou na casa quando se mudou para lá,
formam o conjunto da beleza encantadora. Ela está linda.
Está atrasada! - exclama tia Meirong com desprezo.
Ninguém me avisou dos horários. Da próxima vez faça isso! -
responde Jingfei.
Uma
pequena troca de olhares entre os subordinados do marechal e este
arqueia a sobrancelha.
Tia Meirong está um pouco surpresa, não esperava por uma resposta como
essa.
Esposo, sinto muito pelo atraso. Ainda não tenho conhecimento do
protocolo da sua casa. Gostaria que no futuro me informasse sobre
eles. - fala Jingfei em um tom suave, se inclinando levemente.
Minha tia não a informou? - pergunta o marechal, sem nenhuma
expressão no rosto.
Talvez ela tenha esquecido diante de tanto o que há para fazer na
casa, não é mesmo? - finaliza Jingfei com ironia.
Nova troca de olhares entre os subordinados e todos têm o mesmo
pensamento.
A noite vai ser interessante.
A
sala de visitas ou a sala de audiência, está cheia. Os quatro
generais e suas famílias e os oito capitães estão ansiosos pelo
jantar e conversando muito entre eles, se encaminham para a enorme
sala de jantar, que está iluminada por velas e lanternas. A mesa
para o jantar é comprida, tomando quase toda a extensão da sala,
almofadas macias estão na posição que cada subordinado ocupará. O
marechal na cabeceira da mesa e no seu lado direito está tia
Meirong, do lado esquerdo, as concubinas Li Liling e Ji Huang. Na
sequência ficam dois generais a esquerda e dois a direita, logo em
seguida vem os oito capitães, quatro de cada lado.
Tem-se conhecimento que a realeza é fina, elegante e muito educada, mas
nessa aula, o marechal faltou. Não tem lugar para Jingfei sentar e o
marechal não apresentou a esposa a seus subordinados, como diz a
menor regra sobre etiqueta.
Por acaso, esposo, meu lugar é do lado de fora? - pergunta Jingfei
já de mau humor.
O marechal mal levantou o rosto para responder quando tia Meirong se
adiantou.
Escolha qualquer lugar e sente-se que o jantar está atrasado!
Então, esposo, meu lugar é qualquer um? Suas boas maneiras foram
compradas em qual loja? Preciso saber, para nunca entrar lá. -
replica calmamente Jingfei, que continua em pé, enquanto todos já
ocuparam seus lugares. - Se isso é uma indicação para que eu saiba
o quanto não sou bem-vinda, não devia ter se casado comigo.
Foi a gota d’água, Zhang Huizong se levanta para responder e de novo,
tia Meirong interfere.
Garota, coloque-se no seu lugar!
Onde é ele, exatamente? Todos os lugares estão ocupados, não está
vendo? - a resposta pode ser comparada a um corte feito por uma
espada afiada.
O marechal olha para seu mordomo, Yun Qian, e este sai apressado atrás
de outra almofada. O marechal observa a esposa, que continua em pé,
olhando ao redor, parecendo interessada na decoração.
Deveria ter chegado mais cedo ou se oferecido para ajudar no jantar,
assim saberia seu lugar. - alfineta o marechal.
Que bonitinho, o senhor meu esposo é, mas tem memória fraca. -
Jingfei faz uma pausa para se divertir olhando o rosto carrancudo do
marido. - Meu querido esposo já esqueceu que citou suas regras para
essa casa e que uma delas é para que eu não interfira, pois sua tia
é que administra a casa.
O marechal foi pego de surpresa com a resposta, mas não demonstrou
nenhuma alteração em seu rosto, ao contrário, continua a olhar a
jovem esposa com a expressão de tédio. Por sua vez, Jingfei depois
que terminou de falar, esconde o sorriso com o leque, para ela, o
marido é muito bonito, mas muito idiota.
O mordomo traz a almofada macia e olha para o marechal, como que
perguntando onde colocaria a almofada. Jingfei se adianta, antes que
o marido ou tia Meirong falem alguma coisa e se senta na cabeceira
oposta ao marido.
Isso é um ultraje! Uma esposa não se senta de frente para o marido!
- exclama tia Meirong possessa.
Está vendo o resultado da sua falta de atenção, tia Meirong. -
Jingfei se acomoda e olha para a tia Meirong com um leve sorriso. - A
senhora é a culpada por eu acabar de quebrar uma das regras de
etiqueta. - um novo sorriso. - Da próxima vez, providencie um lugar
para mim e como sabe bem, eu sou a esposa e meu lugar é do lado
esquerdo de meu marido.
Na sala é possível ouvir o bater de asas das moscas ao redor de uma
das lanternas. Os olhares vão de um lado para o outro e a tensão no
ar aumenta.
As regras na minha casa, quem faz sou eu. - fala firme o senhor
marechal.
Então, posso concluir que meu lugar, na sua mesa de jantar, pode ser
em qualquer lugar, é isso?
O marechal está sem resposta, algo incomum e seus subordinados sabem
disso e alguns estão com dificuldades em conter o riso.
Faça como quiser. - finaliza o marechal e ordena que o jantar seja
servido.
Jingfei abre o leque para esconder mais um sorriso. Parece que o marechal
achava que sua esposa se sentiria intimidada e voltaria correndo para
a outra casa, mas olhando para a esposa, ele vê que ela está a
vontade e bem tranquila.
A comida está sendo colocada na mesa, o vinho é servido e todos
respiram aliviados, a demonstração de força acabou empatada, na
opinião de alguns. A comida é farta, muitos pratos bem elaborados,
diversidade de sabores, mas com algo em comum, são todos pratos
feitos a base de peixe ou de frutos do mar.
O que foi agora? Vai insultar seu marido, não comendo? - observa tia
Meirong.
Tia Meirong, como a senhora é adorável, em perceber isso. -
responde Jingfei. Existe algo em comum entre Isa e Jingfei, as duas
são adeptas a ironizar tudo e a todos, quando necessário, são
especialistas no assunto. - O cardápio do jantar, que a senhora
elaborou, é perfeito e o cozinheiro está de parabéns, a visão
deve dar água na boca para quem gosta de peixe e frutos do mar, mas
infelizmente para mim, toda e qualquer coisa que venha do mar, me faz
mal, pois sou alérgica.
Uma pessoa que não come peixe, em um país que tem três fronteiras
com o mar? - diz um dos generais.
É o senso de humor da natureza. - responde Jingfei sorrindo.
Oh, querida! O que come, então? - pergunta a esposa de outro
general.
Basicamente arroz, legumes e carne.
Não vamos preparar nada para você agora! O jantar já foi servido!
- diz tia Meirong irritada.
Se meu esposo puder me conceder um favor, você pode, meu esposo? -
fala Jingfei, ironizando as duas últimas palavras.
O marechal deu um leve aceno positivo, com a cabeça e parou de comer
para ouvi-la.
Muito obrigada. - Jingfei endireita as costas para falar claramente e
ser ouvida. - Seu nome é Yun Qian?
Sim, senhora Zhang Jingfei. Em que posso ser útil?
O senhor é muito gentil e não vou sobrecarregar as pessoas na
cozinha, portanto, vou pedir algo bem simples. - Jingfei fala olhando
nos olhos do mordomo, não para intimidá-lo, mas para que ele veja
sua sinceridade. - Tem arroz na cozinha? Um pouco, que não tenha
sido cozido em caldo de peixe?
O mordomo olha para a passagem entre a cozinha e a sala de jantar e lá,
dois rostos ansiosos acenam a cabeça em sinal de positivo e sorriem.
Temos sim, madame. - responde educado o mordomo, mas antes que ele
fale qualquer coisa, um criado chega perto dele e cochicha algo em
seu ouvido. - O cozinheiro diz que tem alguns vegetais cozidos no
vapor, pão com recheio de carne de porco e broto de feijão com
macarrão. Isto a agrada? - lista o mordomo, que simpatizou com a
jovem senhora. - Na mesa temos porco agridoce, se a senhora quiser.
Antes que o mordomo termine a frase, tia Meirong joga um recipiente com
molho de peixe em cima do prato. Todos olham para ela.
Que pena, o porco tem gosto de peixe agora. - diz ela com um sorriso
falso.
Tia Meirong, a senhora tem sérios problemas. Por que causar este
inconveniente aos convidados de seu sobrinho? - pergunta Jingfei
inocente.
A mulher olha para o sobrinho e em seus olhos só há uma pergunta.
Tia Meirong, o que é isso? - pergunta o marechal.
Sem dar resposta, tia Meirong continua a comer, como se nada tivesse
acontecido.
A comida especial de Jingfei é servida e ela se delicia.
Diga ao cozinheiro que eu agradeço a gentileza dele para comigo. A
comida está deliciosa.
O jantar transcorre normalmente, a conversa é dos homens e gira em
torno das investidas dos bárbaros, que insistem em atravessar a
fronteira. Na mesa, ao lado de Jingfei, tem uma tigela com água e em
seu colo um tecido cortado na forma de um quadrado. Uma esposa de um
general, que frequenta a casa sempre e é amiga de tia Meirong,
resolve ser audaciosa e compartilhar os modos tolos da amiga e faz
uma pergunta desagradável.
Senhora Zhang Jingfei, seu vestido não é muito simples para um
jantar de tamanha importância para seu marido? - pergunta a mulher
sorrindo e olhando de lado para a amiga que retribui o sorriso.
A senhora notou? Oh! Eu espero que o imperador nos perdoe se por
acaso comparecermos em algum jantar no palácio.
Você se atreveria a ir ao palácio com um vestido desses? - pergunta
tia Meirong com desprezo.
E o que eu posso fazer? - Jingfei fingindo estar inconsolável
continua. - Já respondi a mensagem do imperador dizendo que, o
tecido da cor que não gosto farei um ornamento para a casa e os
demais vou pensar o que fazer.
O imperador presenteou a senhora? - pergunta a mesma mulher.
Sim. Ele me mandou seis rolos de tecido, mas infelizmente, não
recebi nenhum. - novamente o rosto de tristeza inconsolável. - O que
direi a ele quando me ver com esses vestidos velhos, eu não sei. Tem
alguma idéia, tia Meirong?
Todos os rostos se voltam para a mulher com o rosto vermelho, do outro lado
da mesa. As concubinas se encolhem.
Pela mensagem do imperador, os tecidos se parecem com estes que as
concubinas estão usando e … - Jingfei arregala os olhos. - são
iguais ao que está usando, tia Meirong!
O marechal olha para o rosto inocente de sua esposa e lá no fundo de
sua alma, uma vontade de rir começa a surgir, mas o marechal não
sorri, ele não tem motivos para isso e se recusa a sorrir.
As duas vão devolver os tecidos. - decide o marechal.
A senhora Zhang Jingfei, vai usar roupas usadas? - pergunta outra
esposa de um outro general e que não é amiga de tia Meirong. - Isso
não é adequado. - finaliza ela.
Jingfei agradeceu mentalmente a mulher que a defendeu.
Você pode comprar outros tecidos e deixa que eu explico ao
imperador, se for o caso. - decide novamente o marechal.
Comprar o quê, com três moedas?
Novo voltar de cabeças, parece que os convidados estão em algum jogo de
pergunta e resposta.
Eu lhe dou uma mesada de dez moedas!
Querido esposo, para quem dá essas moedas? Para mim, não é.
O marechal olha para sua tia, um olhar daqueles deve fazer muito mal,
pois tia Meirong não ousa olhar para o sobrinho.
Sobrinho, essa mulher vai desperdiçar seu dinheiro. - tenta
explicar tia Meirong.
Desperdiçar com o quê? Comida, roupas e artigos para a casa? -
indaga Jingfei.
Comida? Você não precisa comprar comida, a cozinha oferece tudo que
você quiser. - explica o marechal, mas ele sabe do que a esposa fala
e assim, olha de novo para a tia. - Tia, explique isso também.
Vê como ela é, não gosta de nada!
Posso ser alérgica a peixes, mas comer a lavagem dos porcos, isso
não quero não. - Jingfei olha séria para o marido e não desvia o
olhar.
Quer fazer sua própria comida?
Esposo, quero fazer minha própria comida, compras roupas e arrumar o
Pavilhão do Sol.
Nesse momento ouve-se um murmúrio e mais um e mais um.
Está morando no Pavilhão do Sol? - pergunta o marechal com o rosto
um pouco aborrecido. - Tia Meirong, tem explicação para isso? Não
disse que ela deveria ficar no pavilhão do lago?
Ela … mas …
Outra casa, esposo?
Aquela casa é para hóspedes e foi descartada a muito tempo, pois
precisa de muitas reformas. - explica o general Ji Liao, o mais velho
de todos os generais e o mais próximo do marechal. - Está vivendo
lá?
Eu arrumei bem a casa e agora é possível viver com certa dignidade.
- explica Jingfei olhando para o homem simpático e com cicatrizes no
rosto, muito mais do que as do marido.
Você pode se mudar para a casa do lago.
Agradeço, esposo, mas agora a casa está muito boa, como eu disse e
já nos acostumamos a ela. O que quero na verdade é de condições
para comprar comida e roupas adequadas para a esposa do senhor
marechal. - e lá está de novo aquele tom de ironia.
Tia, dê a minha esposa, os seis meses de mesada que tirou e daqui
para frente vai me mostrar todo mês a assinatura dela no recibo de
mesada, assim como faz com as concubinas. - a decisão final do
marechal.
Sobrinho, posso passar essa tarefa para o mordomo? Sabe que minhas
pernas doem muito e o pavilhão dela é longe … - choraminga tia
Meirong.
Tudo bem, tia.
Uma pequena vitória de Jingfei e uma grande derrota para tia Meirong.
O jantar é mensal, mas quando o marechal e seus subordinados estão em
alguma missão, o jantar de confraternização não é realizado.
Essa reunião ao redor da comida, foi algo que Zhang Huizong copiou
do avô, que fazia uma refeição mais simples, apenas um guisado de
carne de porco, que os subordinados comiam em cuias feitas de argila,
mas foi assim que o falecido general Zhang conquistou a lealdade
deles. Não foi só com comida, é claro. O velho general era leal a
seus homens, salvou muitos deles em campo de batalha e jamais
colocava a vida dos soldados em segundo plano. Atitude que foi
herdada por seu neto. O que Zhang Huizong não herdou são os bons
modos. Isto é claro, quando se percebe que ele em momento algum,
apresentou a esposa a seus subordinados. Isso não impediu Jingfei de
conversar animada com alguns generais ou capitães sentados próximos.
Quero me desculpar com os convidados. - fala pausadamente Jingfei,
quando um breve silêncio se faz. - Eu estou aqui conversando com os
senhores, mas, na verdade, meu esposo esqueceu de nos apresentar.
Querido esposo, pode fazer as honras?
Zhang Huizong não é afetado pela gentileza ou carinho, foi educado por um
soldado e viveu como um a vida toda, mas sabe que em algum momento
tem que ser educado.
Começando com o general sentado a sua esquerda e é considerado o mais próximo
e amigo, está Ji Liao, um homem de mais de quarenta anos, corajoso,
está na companhia do marechal desde que foi promovido a tenente a
vinte anos atrás, foi salvo pelo marechal diversas vezes e o general
salvou seu amigo, outras várias vezes. Ji Liao é o único que tem
liberdade de falar abertamente sobre qualquer assunto com o marechal
e nesse momento, Ji Liao está pensando em falar com o amigo sobre o
tratamento que está dando a jovem esposa. O general seguinte é Gang
Chaofu, que é um homem da mesma idade do seu colega ao lado, mas
diferente do general Ji Lao que veio de família humilde, Gang Chaofu
é de família nobre, o pai dele foi um dos grandes generais do
imperador anterior, quando uniu o império. Sua bravura não se
questiona, muito menos sua lealdade, afinal ele foi um dos convidados
pelo segundo marechal para abandonar a família Zhang, mas preferiu
ficar, sabe que o grande marechal é muito digno e honrado, e Gang
Chaofu é um homem que vive pela honra. O terceiro general é Quon
Changlian que é um dos mais jovens, solteiro e muito mulherengo. Sua
beleza é conhecida em toda a capital e sua paixão por mulheres
também, assim como sua lealdade ao marechal. O quarto general é
Chen Shoi Ming que é o homem que comanda a cavalaria do exercito do
marechal e da segurança da capital. Homem desconfiado, para ele
todos, com exceção do marechal, não são de confiança e sua
esposa é a mulher que questionou a atitude do marechal de fazer
Jingfei usar a roupas usadas pelas concubinas, seu nome é Chen Mei.
Os oito capitães tem o mesmo nível de lealdade para o marechal, mas
quatro deles são aqueles que fazem uma diferença. O primeiro é
Cheng Yan, o piadista da turma, para ele tudo o que acontece é
motivo para uma boa piada e fez algumas que fizeram Jingfei rir com
gosto. Um homem simpático e gentil, mas quando está em batalha, se
transforma em uma fera, além do que sua altura assusta tanto quanto
o seu humor, o homem mede mais de um metro e noventa de altura e é
puro músculo. O próximo é Xu Yao o subcomandante do general Chen
Shoi Ming e como ele, também é desconfiado. Casado com uma bela
jovem, filha de escriba de leis, tem um belo bebê, que ficou em
casa. O terceiro capitão é Chen He Ming, irmão do general Chen
Shoi Ming, um homem sério com grandes ambições e uma delas é ser
um general no exercito do marechal. Guerreiro formidavel, espadachim
de classe superior, muitos soldados temem cruzar espadas com ele,
mesmo nos treinos, para ele tudo é sério. O último capitão causou
um espanto em Jingfei quando esse lhe foi apresentado, o motivo é
simples, não é um homem, é uma mulher. A capitã Wang Li Jie é a
única mulher em um cargo alto, em todo os exércitos do império,
algo para ser motivo de orgulho, mas para alguns, essa mulher só é
o que é por ter herdado o cargo do pai, que preferiu dar o cargo a
ela do que atrapalhar a vida perfeita do filho mais velho, que se
tornaria conselheiro do imperador, algo que realmente aconteceu. O
pai da capitã queria ser o orgulhoso pai de um conselheiro e ao
mesmo tempo manter a ligação da família com o exército do
marechal e achou a solução perfeita, deu a filha para o exército e
o filho é um dos conselheiros do imperador.
Este é o grupo de pessoas que Zhang Huizong considera como família, que
quando precisa, desabafa e fala de todos os assuntos. É a sua equipe
em que pode confiar, alguns estiveram ao lado do avô e outros
conheceu na academia militar e o acompanharam até agora. Zhang
Huizong tem um carinho muito especial por eles.
Você não acha inadequado de sua parte chamar a atenção de seu
marido em publico? - diz tia Meirong venenosa.
De jeito nenhum! Tenho certeza que as pessoas que estão aqui são
aquelas que meu esposo considera como família e sendo assim,
qualquer conversa pode ser dita na frente de familiares, não
concorda esposo? - o tom irônico, dessa vez não apareceu na voz de
Jingfei.
Desde que você se lembre que alguns assuntos devem ser guardados, os
demais podem e devem ser tratados em família. - o marechal faz uma
pausa e olha ao redor, nos olhos de cada um. - Esses são meus homens
de confiança, minha família. - encerra o marechal cheio de orgulho.
Todos ficam em silêncio, as palavras do marechal tocaram o coração de
todos, mesmo que eles saibam que é isso que aquele grande marechal
sente.
Essa tigela a seu lado, é para beber água o tempo todo? - pergunta
a esposa do general Gang Chaofu, que diferente do marido, prefere ser
leal a tia Meirong e não tem muita honra.
Não senhora, a tigela e a água são para lavar as mãos, durante a
refeição. Não se usa isto aqui?
Não, minha querida. O habito é limpar a boca e as mãos nas mangas.
- diz alegre a esposa do capitão Xu Yao. - Gostei desse seu jeito\,
posso fazer também?
Claro! É melhor do que manchar roupas tão lindas como as nossas!
Esses seus hábitos e essa maneira de falar, adquiriu onde? -
pergunta de novo a esposa do general Gang.
Nas muitas viagens que fiz com minha mãe e avó. - responde simples
Jingfei.
Sim, é verdade, esqueci que é filha de um simples mercador. -
continua a mulher.
Engano seu, senhora. Sou filha da melhor mercadora de todos os
tempos.
Seu pai é o mercador, estou errado? - pergunta desconfiado o general
Chen Shoi Ming.
Meu pai é o mercador simples, como a senhora ali falou, mas a minha
mãe é que era a grande mercadora, a mulher que viajou além do
Grande Mar para fazer grandes negócios, que tinha seu próprio
navio, que conseguiu manter um negócio de compra e venda de
mercadorias com países que o império depois firmou acordos. Essa
era a minha mãe, a maior mercadora que já existiu.
Fala com muito orgulho de sua mãe, senhora Zhang. - fala a capitã
Wang Lie Jie
Ela foi a melhor mãe de todas.
Onde ela está, que não a protegeu de um casamento que não queria?
- alfineta a esposa do general Gang.
Minha mãe afundou junto com seu navio, no dia de uma grande
tempestade e eu nunca falei que não queria esse casamento. Se alguém
sugeriu isso para a senhora, a pessoa está enganada. - responde
Jingfei começando a perder a paciência.
Seu pai se casou novamente e com uma viúva, assim como ele, que
trouxe uma filha. Sua vida deve ter melhorado depois disso, não é?
Afinal, ficar sozinha não é bom. - continua alfinetando a mulher,
depois de um breve silêncio
Porque tantas perguntas, senhora Gang? - pergunta o capitão Xu Yao.
Não se sabe nada dessa mulher …
Dessa mulher? - interrompe o marechal, que até agora apreciava a
conversa dos convidados. - Essa é a maneira que se dirige a minha
esposa?
Desculpe minha esposa, marechal, ela não quis ofender sua família.
- se apressa em contornar a situação o general Gang.
Que seja só preocupação de sua esposa, general, porque a conversa
mais certa que circula por aí é que a esposa do marechal foi
escolhida pelo imperador e a senhora sabe que questionar um desejo do
imperador é um crime, não sabe? - comenta o capitão Cheng Yan.
Todos na sala começaram a falar ao mesmo tempo.
Silêncio. - pede o marechal. - Tia, não foi a senhora que contratou
o procurador de casamentos?
Achei que foi você. O homem veio até aqui se apresentando como
procurador de casamentos e que descobriu uma jovem adequada para o
marechal. Sempre pensei que você, meu sobrinho, é que o contratou.
Então, é verdade. - comenta o capitão Xu Yao.
Devemos ter cuidado com os comentários daqui para frente, para não
aborrecer o imperador. - sugere o general Ji Liao.
Porque o imperador disse que queria comprovar a consumação do
casamento, se foi ele mesmo que arranjou tudo? - pergunta o general
desconfiado Chen Shoi Ming.
Pelas aparências, é simples. - finaliza o general Ji Liao. - Para
ninguém questionar as atitudes do imperador em reconhecer seu filho.
Novo silêncio, o assunto do reconhecimento do filho do imperador gerou
muita dor, muito tempo e a tristeza que o velho general Zhang levou
para o túmulo.
O assunto deve ser esquecido. Tudo está bem, minha esposa é de uma
família que contribuiu muito para o império e isso é o que
importa. - encerra o assunto o marechal que lembrou da tristeza nos
olhos do avô.
O som de cascos de cavalos, deixa todos em atenção. As portas da sala
de jantar se abrem e o mordomo Yun entra.
Senhor marechal, sua presença é solicitada no palácio. O imperador
está morrendo.
Uma notícia que vai mudar o rumo das vidas de muitas pessoas. O marechal
pede que seus subordinados levem as esposas para casa e que se
encontrem com ele no palácio. Sem se despedir de sua esposa, o
marechal parte em direção ao palácio, seguido por sua guarda
pessoal.
Volte para seus aposentos! O jantar terminou! - fala tia Meirong com
desprezo.
Xiuying, isto devia acontecer, digo, a morte do imperador? - pergunta
Jingfei no caminho para a casa.
__ Sim senhora, está tudo caminhando bem.
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Atualizado até capítulo 48
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