A carruagem que está atrás da madrasta é o verdadeiro interesse de
Isa, que deixa a mulher falando sozinha e circunda a carruagem. Isa
sempre teve interesse na história dos países asiáticos e aquele
lugar parece ter muitas semelhanças interessantes, como a carruagem.
A carruagem é simples, isso demonstra que a família não tem muitas
posses, mas se viaja com uma, pode ter alguma posição social de
destaque, já que Isa sabe, através das memórias de Jingfei, que a
plebe viaja a pé.
A carruagem é simples, de madeira crua, sem pinturas que identifique a
origem da família, parecendo óbvio que os pais de Jingfei alugaram
uma para essa viagem. É óbvio também, que a família não quer
chegar na mansão do marechal a pé. Os cavalos parecem cansados e
velhos, muitas moscas ao redor das orelhas e o servo que guia a
carruagem é velho e cansado, como os cavalos.
Junto a eles, está um grupo de soldados, que pela memória deixada pela
original Jingfei, é a escolta do marechal a sua esposa. Parecem
cansados, mas não são velhos. Parecem que desgostam da missão.
Senhora Liang Shuchun, não podemos nos atrasar. O marechal partirá
daqui a dois dias para a fronteira das terras bárbaras e ele espera
por sua esposa, para a cerimônia de reconhecimento. - diz o
entediado capitão que lidera a escolta.
Senhor capitão, como pode ver minha enteada sofreu um acidente, mas
já iremos nos refazer e retomaremos a viagem. - responde solicita a
mulher.
Liang Shuchun é uma bela mulher de cinquenta e dois anos, com uma vasta
cabeleira negra e muitos fios brancos, um olhar de lince, repuxados
para os lados e um sorriso falso que exibe sempre. Essa mulher tem
uma filha, que viaja junto com a família, que é fruto do seu
primeiro casamento. O primeiro marido, infelizmente ou não, morreu
de maneira misteriosa em um dia de chuva, afogado em uma poça de
água. Liang Shuchun esperou por um bom tempo até achar alguém
conveniente para se casar e achou o senhor Liang Yongliang, um
mercador de especiarias, com potencial a se tornar um nobre em breve.
Viúvo e com uma filha que já tinha passado da idade de se casar,
mas com uma fortuna razoável, que é muito conveniente para Liang
Shuchun e a filha.
O senhor Liang Yongliang é um homem de sessenta anos, casou com sua
primeira esposa muito tarde, mas já tinha um nome no mundo dos
mercadores quando o casamento aconteceu. Sua aparência é muito
simples, assim como suas vestimentas, seu rosto tem os sinais da
idade e do trabalho duro que teve em sua vida toda até esse momento,
mas os olhos brilham muito, ainda mantém acesa a chama de caçador
de boas oportunidades, assim como essa que caiu em seu colo, quando o
primeiro marechal procurava por uma esposa e um seu amigo leal o
apresentou a esse procurador, pois sabia da ansiedade do amigo em
casar a filha, que estava envelhecendo e solteira. O procurador do
marechal apreciou a beleza da jovem filha do mercador e o casamento
por procuração foi realizado, a duas semanas atrás e agora todos
vão para a mansão do marechal, na capital, para que ele conheça
finalmente sua esposa e a esposa conheça seu marido.
Casamentos por procuração são comuns nesse continente, assim como os pais
arranjarem os casamentos ideais para os filhos e para as famílias.
Liang Yongliang queria muito que sua filha se casasse, já estava se
tornando motivo de piadas por ter uma filha de dezoito anos ainda
solteira, sendo que a maioria de seus amigos e conhecidos, que tinham
filhas, já as haviam casado com quatorze ou quinze anos, mas sua
filha continuava solteira. Ele acha que a culpa é da mãe de
Jingfei, que a ensinou a ler e assim a menina preferia passar horas
lendo do que frequentar as reuniões de senhoritas, para arranjar um
marido ou quando aparecia algum pretendente, esse logo desistia, pois
a menina é mais esperta do que alguns deles. Liang Yongliang foi só
se desesperando enquanto o tempo passava. Agora ele está feliz, não
só casou sua filha, ex solteirona, como a casou com o primeiro
marechal, que é nada mais nada menos do que o comandante supremo dos
exércitos do imperador e será reconhecido como filho do imperador e
logo se tornará príncipe do império Jinhai, sem contar que, para
entregar sua filha, Liang Yongliang recebeu uma valorosa fortuna, que
vai alavancar mais ainda seus negócios e mais ainda, recebeu o
titulo de Mercador do Império, esse titulo dá a ele a prioridade
nas compras e vendas de mercadorias. Tudo bem que não é só ele que
tem esse titulo, mas agora faz parte desse seleto grupo e quer
aproveitar isso ao máximo e em breve poderá ter outra casa, como
sua atual esposa quer, terá uma carruagem com os símbolos de sua
família e o prestigio que sempre achou seu de direito. Esse velho
ambicioso, em muitos momentos, se esquece que seus negócios só
estão nesse patamar devido a sua primeira esposa, Liang Mei, que era
mercadora também, juntamente com a mãe e que conhecia os lugares
mais lucrativos para adquirir as especiarias e outros produtos que
vendia pelo dobro do preço, enquanto ele era só um medíocre
mercador que batalhava muito, mas não conseguia nada. Quando a
esposa faleceu, teve que assumir os negócios sozinho, não podia
contar com a sogra, que com a morte da única filha, desgostou dos
negócios e nunca mais ajudou. Liang Yongliang assumiu os negócios e
consegui acabar com ele, não totalmente, mas está em uma situação
que beira a falência, no entanto, o grande Céu o ajudou quando
encontrou o procurador de casamentos e casou a filha encalhada, agora
tem uma boa fortuna e uma tola visão que isto o levará ao topo.
Para encerrar a apresentação da família Liang, temos Liang Lanfen, essa
é uma jovem de dezessete anos. Alguns dirão que caminha leve e
solta para a solteirice, mas a mãe agora tem planos de casar a filha
com algum nobre, afinal, a enteada é a esposa do primeiro marechal e
a mulher acha que poderá frequentar a corte e assim conhecer um bom
partido para a filha. Liang Lanfen é bonita, tem belos olhos, que
brilham como joias, uma boca pequena e um rosto delicado. Lembra uma
serpente de tão venenosa que é, mas ninguém sabe disso e os que a
vêm, se encantam com sua doçura. Essa é a família de Liang
Jingfei, que agora se chama Zhang Jingfei.
Depois de limpa e com roupas novas, a jovem esposa embarca novamente na
carruagem e todos voltam ao caminho da capital, local da residência
do marechal.
O que essa mulher faz nos seguindo, mãe? - pergunta Liang Lanfen.
Jingfei, quem é essa mulher?
Tia Shuchun, essa mulher me salvou de morrer afogada e quero levá-la
para ser minha serva particular.
O que? Você está louca! O marechal vai dar a você dezenas de
servas e você quer levar uma que achou na estrada? - o pai está
nervoso, não quer abalar uma amizade, que mal começou, com o genro.
- Mande-a embora agora!
Não, claro que não. Ela salvou minha vida, vou dar a ela uma boa
vida junto a mim. - responde ousada Jingfei.
Quem é ela? Você ao menos sabe alguma coisa sobre ela? - pergunta a
madrasta, aborrecida com mais essa ousadia.
Sei o suficiente.
E a família dela, onde está? - continua perguntando a madrasta.
Ela é órfã, vive de vender plantas medicinais.
Marido, estou cansada de tentar ensinar sua filha, não aguento mais.
- desaba Liang Shuchun nos ombros do marido.
Calma, esse problema não será mais nosso. - Liang Yongliang sorri
para a esposa e depois se vira para a filha. - Leve-a com você e
depois explique a seu marido.
Tudo bem. Pode deixar.
Que modos são esses? - pergunta Liang Yongliang, que nunca ouviu a
filha falar assim.
Estou tonta e minha cabeça dói. Vou dormir um pouco para descansar.
- diz Jingfei desviando do assunto.
A viagem vai durar mais três ou quatro horas e Jingfei decidiu que vai
ficar longe dessas pessoas nesse tempo.
Com a cabeça encostada na parede acolchoada da carruagem, Isa observa a
paisagem. Não é diferente de tantas outras que já tenha visto, é
a mesma imensidão de terra cultivada, o gado espalhado pelo pasto,
as pessoas com enxada nas costas envergadas pelo cansaço. Tudo igual
ao seu planeta. O céu é azul, as nuvens brancas como algodão, o
sol brilha no céu e o mesmo cheiro gostoso das flores na beira da
estrada. Tudo igual, mas diferente. Isa pensa na coincidência de
vida que tem com Jingfei, as mesmas mães amorosas, que mesmo
trabalhando duro, tinham tempo para elas, para demonstrar o amor que
tinham pelas filhas. Avós tão amorosas quanto as mães, avós que
ensinaram coisa incríveis sobre o mundo, que despertou a curiosidade
nas netas de querer saber muito mais sobre tudo. A mesma coincidência
na perda, na solidão e no abandono. Outra coincidência, é que Isa
também foi para um casamento útil para a família, assim como
Jingfei. Isa espera que dê tudo certo para Jingfei. Espera um pouco!
Quem está no corpo de Jingfei é Isa! Com essa constatação, Isa
reformula seu pensamento.
__ Espero que tudo dê certo para mim e que eu volte em segurança para
casa.
Isa volta a olhar a paisagem, o chocalhar da carruagem não é agradável,
está mais para solavanco, mas, mesmo assim, Jingfei consegue dormir
um pouco.
Última parada na Estrada dos Comuns, é em uma estalagem bem agradável, que
está acostumada a receber nobres e mercadores que passam com
frequência por ali, que é uma rota para os portos. Algumas horas
para um bom banho e uma boa refeição, um momento para uma conversa
rápida também.
Xiuying, essa garota tem muitas coisas em comum comigo. Você sabia?
Sim, mas é só uma coincidência.
Foi o que pensei. - Jingfei olha para a mesa onde está a família
Liang. - Eles sempre a trataram assim? Eles se sentam juntos e ela
longe, como se não fosse parte da família.
Muitas vezes e em algumas ela fica para trás, não viaja com eles.
Bela família. - Jingfei sorri quando vê o olhar de espano de
Xiuying. - Ei, calma. Isso é pura ironia. Beleza familiar é algo
que essa gente não exala. Um pai que vendeu a filha e que vai gastar
o dinheiro com uma pessoa que não é sua filha. Isso é nojento.
Eles terão o próprio destino, não se preocupe.
Sabe de alguma coisa?
Não vejo o futuro.
Que pena. Isso seria útil para nós.
Está preocupada, Jingfei?
Um pouco. - Jingfei suspira. - Xiuying, o casamento será consumado?
Será.
E você fala com essa calma! O que eu vou fazer? Eu … bem … você
sabe …
Você não é virgem, mas Jingfei é.
Shshsh! Quer que o mundo saiba?
Aqui, como em seu planeta, a virgindade é muito valorizada. É a
honra de uma família inteira.
Mulher, mulher! Não falo sobre isso! Estou falando da noite de
nupcias! - essa última frase, Jingfei sussurrou.
Eu também não sei. Talvez nada aconteça, muitos homens, nesse tipo
de casamento, levam meses para consumar o casamento.
Meses? Tem alguma coisa errada nessa sua informação.
Essa é uma atitude muito comum por aqui.
Não questiono seu conhecimento, mas eu compartilho as memórias de
Jingfei e ela esteve reunida com o procurador de casamentos, que a
informou que o imperador quer a consumação o mais rápido possível.
Parece que o imperador acha que o filho vai arranjar desculpas para a
não consumação. - considera Xiuying.
Isso parece claro. Um homem que quer ser reconhecido como filho, a
única condição é ser casado e de repente, assim do nada, o tal
homem é presenteado com uma esposa, que ele não quer. Lógico que o
imperador quer uma consumação rápida!
Não se exalte. Estão nos observando.
Quem? Aquela bruaca? Me poupe!
Bruaca? O que é isso?
Uma pessoa que não merece atenção. Voltando ao assunto. Será que
se eu falar com o marechal, poderemos fazer isso mais para frente.
Algo assim, como dois anos para frente!
O costume é de alguns meses, mais do que isso, o homem rejeitou a
esposa. Isso nós não queremos, não é?
Droga! Eu não conheço o tal marechal!
Fique calma, talvez ele também não queira a consumação imediata.
__ Que o Céu a ouça.
O jantar termina, um pequeno repouso, porque no dia seguinte, por mais
três horas, estarão na Estrada Imperial até os grandes portões da
capital do império, a Cidade do Sol. Depois, por uma bela rua
arborizada, até a mansão do primeiro marechal Zhang Huizong.
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Atualizado até capítulo 48
Comments
Tani
Atualiza, atualiza, atualiza! Por favor, autora, não nos deixe esperando.
2024-03-30
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