Um homem cambaleia, tentando correr, se afastar do palácio. As ruas
estão desertas, a notícia de que um grupo de pessoas tentou matar o
novo imperador, se espalhou e a recomendação é para que todos
fiquem em suas casas. O homem mal se aguenta em pé, tem um ferimento
muito profundo no abdômen, parece ser fatal. Por mais duas ruas, ele
aguenta firme, tem ordens de relatar o que aconteceu. Um outro homem,
todo de preto e um pano cobrindo metade do rosto, o espera.
__ Vocês falharam. - não é uma pergunta, é uma afirmação.
O homem da província Mar de Jade Verde, se ajoelha, coloca as mãos no
chão e oferece seu pescoço. O homem em pé não vacila e corta a
cabeça do homem que não fala nada, sequer solta um murmúrio de
dor. O homem de preto olha ao redor e com outros quatro, pulam no
telhado e vão embora, pulando a enorme muralha que cerca a Capital
Imperial.
A carruagem entra pelo portão secundário e para na entrada do
Pavilhão do Sol, Jingfei desce e corre para dentro, não há tempo a
perder, sabe que a capitã vai obedecer ao marechal e este vai
ordenar que a guarnição parta imediatamente, sem esperar por
Jingfei ou Lin Ehuang.
A senhora não vai esperar pelos soldados designados pelo marechal? -
pergunta Jia.
Não, isso é apenas uma distração. Enquanto eu espero por eles, a
capitã partirá. - explica Jingfei.
Jingfei tem uma roupa de rapaz, que usava quando passeava pelo cais, para ver
os navios, ainda bem que trouxe, pensa ela se olhando no espelho.
Parece mesmo um jovem senhor. Xiuying e Jia já tem esse tipo de
roupa, são uteis quando precisam ir no mercado, na parte mais
perigosa. Todas as três, trançaram seus cabelos e colocaram um
prendedor neles no alto da cabeça. Na verdade, Jingfei quer se
parecer com um jovem servo e não como um jovem senhor, então troca
a blusa com Jia, que tem uma outra de reserva. Estão prontas.
Ao lado da carruagem, estão os quatro cavalos já selados. São
robustos, mas doceis. Montadas e Jia segurando o quarto cavalo pelas
rédeas, as mulheres saem pelo portão secundário e a todo galope,
vão em direção ao portão principal da capital.
Jingfei, rapidamente, combinou com Lin Ehuang de se encontrarem no portão
principal, teve uma leve intuição que a guarnição passaria por
ali, uma hora depois que ela saiu do palácio.
Senhora Zhang. - cumprimenta a concubina.
Concubina Lin Ehuang. - responde Jingfei. - A senhora só tem um
cavalo?
O imperador me deu esse, mas Xiuying insistiu em vir junto, para me
proteger.
Xiuying? - Jingfei olha para o lado, para a “sua” Xiuying,
pedindo uma explicação, mas se lembra da explicação que recebeu
na Sala de Espera. - Tudo bem, temos um cavalo a mais, ela pode usar
ele.
Lin Ehuang não se espantou com a outra Xiuying, também se lembrou da
explicação e apenas olha para o lado e sorri para sua companheira
de acidente com o raio. A concubina Lin Ehuang também teve a ideia
de usar uma vestimenta masculina, assim como sua serva e as cinco
mulheres aguardam a chegada da guarnição.
Por longos dez minutos, as cinco mulheres esperaram e finalmente, virando
a esquina de uma rua, surge a guarnição comandada pela capitã Wang
Li Jie. A guarnição é composta por trinta soldados, um auxiliar da
capitã e a própria capitã, um total de trinta e dois, mas contando
com as cinco mulheres e o conselheiro das Ciências e Magias, junto
de seu auxiliar, que vem correndo em seu cavalo cinza, chegamos com a
soma de trinta e nove pessoas nessa guarnição.
Capitã Wang, desculpe o atraso! - fala o conselheiro Yang.
A capitã o olha com um certo ar de divertimento no rosto.
Está tudo bem, conselheiro Yang, estamos no horário. - a capitã
volta sua atenção para a mulher a seu lado, montada em um garanhão
marrom. - Senhora Zhang, receio que aborreceu um pouco o senhor
marechal. - comenta sorrindo a capitã.
Por quê?
Acho que ele esperava que a senhora não fosse tão esperta assim. -
termina a capitã sorrindo mais ainda.
Jingfei também sorri, sua intuição estava certa, o marechal queria que ela
ficasse esperando pelos soldados e quando chegasse no portão, a
capitã já teria partido. O marechal é esperto, mas parece que
Jingfei é um pouco mais, essa é a conclusão que a capitã chega e
com isso, ela sorri mais ainda, imaginando o rosto de desgosto do
marechal.
A Estrada Imperial é longa, ela é uma continuação da rua de mesmo
nome dentro da capital e segue por vários quilômetros até a
bifurcação norte, que é a estrada que Jingfei conhece bem, pois é
a mesma que usaram para chegar na capital, é uma estrada secundária,
por ela se chega ao litoral e depois mais quatro horas, ou mais, até
a entrada da Cidade Mar Azul, que é a sede da província Mar de Jade
Azul. Essa província, faz parte de um grupo de cinco províncias do
litoral leste, exatamente as que atacaram o imperador. São elas, Mar
de Jade Azul, Mar de Jade Verde, Mar de Jade Amarelo, Mar de Jade
Branco e por último a província do Mar de Jade Negro. Nunca ninguém
questionou os nomes das províncias, mas a escolhas foram feitas e
assim seja. Essas províncias são as mais ricas do império, o
comércio marítimo é muito rico nelas, tudo que é comercializado
no império passa por ali, por isso são províncias muito povoadas,
só Mar de Jade Azul tem mais de trinta mil habitantes e na sede, Mar
Azul, moram dez mil pessoas. O desembarque de mercadorias, assim como
o embarque, é constante e trabalho não falta, por esse motivo,
muitos migraram do interior da província para a sede.
Como em todo lugar, para se chegar até o litoral, é preciso descer a
serra. Apesar das boas condições da estrada, todo cuidado é pouco.
De um lado, a parede da serra e do outro lado, o precipício e no
fundo dele, árvores e pedras, que causariam muita dor para quem
caísse.
A capitã está com pressa, o imperador está indignado com o que
aconteceu e quer respostas, por isso a cavalgada é rápida e não
tem parada para descanso. A capitã avisou as mulheres sobre isso,
mas Jingfei respondeu por todas.
O que estamos esperando? Vamos!
Para chegar a capital, saindo de Mar Azul, demora cerca de seis a oito
horas, em uma velocidade normal, mas para descer, como todo santo
ajuda, leva-se cerca de quatro a cinco horas. Quando a torre de
observação da cidade é avistada, a capitã, olhando a posição
das estrelas, conclui que demoraram menos de três horas para
chegarem.
A cidade está as escuras, não há movimento no porto e aquela cidade
não para, sempre tem um navio chegando ou partindo.
Existe algo de muito estranho. - comenta a capitã.
Continuam a cavalgar, agora um pouco mais lentos, os homens com as lanternas
continuam a frente, iluminando por onde passam.
Jingfei sente um calafrio percorrer todo o seu corpo, como um mau
pressentimento. O pressentimento ruim, não foi fruto da imaginação,
como pensou Jingfei, pois logo na rua principal avistam os primeiros
corpos e começam a sentir o cheiro ruim de carne podre.
Armem-se! Não se deixem pegar desprevenidos! Senhoras, fiquem no
meio da guarnição, assim serão melhores protegidas! Vamos
soldados! - a capitã percebeu, é obvio, que alguma coisa aconteceu.
Aquela rua é uma subida, que vai até a casa do governador e é lá que a
capitã quer ir primeiro, para colher alguma informação, mas logo
na entrada o cenário é macabro. Nos portões altos estão os corpos
de algumas mulheres e no muro algumas cabeças empaladas em estacas
“enfeitam” esses muros.
Senhora Zhang, conhece alguns deles?
Capitã, eles são membros da família do governador. Pai, mãe e até
o avó, o antigo governador. Os outros são seus conselheiros, mas é
estranho …
Estranho como?
Olhe capitã, são todos velhos, digo, são as pessoas mais velhas da
cidade.
Sim, eu percebi, mesmo nas ruas, os corpos são de velhos e velhas,
mas onde estão os outros?
Sentindo uma dor no peito, Jingfei vira o cavalo e está prestes a sair em
disparada, quando a capitã a detém.
Onde vai?
Minha avó é uma mulher velha!
A capitã solta as rédeas do cavalo e Jingfei galopa como louca em
direção a casa da avó, seguida por suas servas e um soldado,
liberado pela capitã.
A casa da avó de Jingfei fica do outro lado da cidade e é bem
afastada. É uma bela casa, fruto de toda uma vida de trabalho duro
como mercadora na empresa que herdou do marido e junto com a filha,
transformou uma empresa de classe seis e uma de classe um. Xu Xiao
Jing é o exemplo de uma mulher lutadora, que não queria ver o
trabalho do marido em outras mãos ou ver sua filha sendo obrigada a
se casar para ter um futuro seguro, como queriam os outros parentes,
não para Xu Xiao Jing que trabalhou muito, se esforçou e lutou
contra todos para ter seu sucesso, mas a morte prematura de sua filha
tirou dela o gosto pela vida e depois disso, com o coração
arrasado, se refugiou em sua casa e não saia para nada. Na casa tem
apenas o servo leal de muitos anos, Cinek, um estrangeiro, mas mais
leal que muitos de seus servos conterrâneos.
A casa está em chamas, Jingfei viu de longe. A casa feita da mais pura
madeira e cara, está agora sendo devorada pelo fogo e ali no portão
de entrada, balançando na ponta de uma corda, está o corpo sem vida
de Xu Xiao Jing. Jingfei desce do cavalo e olha para cima, olha para
o rosto azulado da querida avó, que a ensinou a fazer quase tudo que
sabe, a outra parte, foi a mãe quem ensinou. Seus olhos estão
abertos e transmite um horror, como se no momento em que foi morta,
se assustasse com algo. Jingfei está tão absorta com as lembranças
de sua vida, que envolvia aquela mulher ali pendurada, que não ouvia
os gritos de Jia e Xiuying, só quando sentiu uma dor no braço é
que voltou a realidade e viu Cinek com um pedaço de madeira e que a
atingiu no braço, que começa a sangrar. Cinek está com aquele
mesmo olhar de Liang YongLinag.
Cinek, o que aconteceu aqui? Cinek, acorde!
Jingfei grita, fala, mas não há resposta, Cinek levanta a madeira, pronto
para outro ataque, mas Jingfei se esquiva e no mesmo instante, pega
um pedaço de madeira também. No próximo movimento de Cinek,
Jingfei o acertou no figado e o homem de quase dois metros de altura
balança para um lado, mas não desiste, avança novamente sobre a
jovem que um dia carregou no colo e que fazia sua sobremesa favorita
sempre que a menina pedia, mas agora ele não se lembra de nada
disso, só sabe que a voz na sua cabeça pede para que mate qualquer
um que interferir e é isso que vai fazer.
Jingfei vê perto do muro da casa, uma espada e sabe, que assim como o pai,
Cinek não vai parar. Um novo ataque, Cinek coloca toda a sua força
nesse golpe, mas Jingfei se esquiva novamente e o ataca, fazendo um
ferimento profundo no abdômen, mas Cinek não para, mesmo que o
sangue esteja escorrendo por suas pernas, Cinek avança. Outro golpe
poderoso e Jingfei com lágrimas nos olhos, acerta o coração de
Cinek, seu tio das terras além do mar. O homem abaixa os braços e
por segundos, Jingfei pode ver a surpresa e o reconhecimento nos
olhos de Cinek, mas já é tarde demais, o tio morreu. Quando o corpo
cai, desta vez é imediato a saída da fumaça escura. Isso assusta
Jingfei que se afasta um pouco, bem a tempo de ver o muro desabar e
levar junto o corpo da avó e do leal servo. A casa queima até o
chão, não sobrou nada, nenhuma lembrança.
Não dei a ela um enterro digno.
Ela está no lugar que sempre amou. - comenta Jia.
Sua avó vai ficar muito triste se você perder sua vida aqui. -
avisa Xiuying.
Do que você está falando?
Deles, senhora. Lá, no final da rua. - diz Xiuying apontando.
No final da rua um grupo de pessoas andam vagarosamente, olhos
esbugalhados e fixos a frente. Essa frente é o lugar onde estão
Jingfei e as outras.
Melhor correr, a senhora não acha? - sugere Xiuying.
Onde está o soldado? - pergunta Jia. - Ele não deveria estar aqui?
Não há tempo para se preocupar com isso. Mesmo a habilidade de Isa no
jiu-jitsu, na capoeira e a habilidade de Jingfei com a espada, não
podem salvá-las agora, se resolverem ficar, o grupo é muito grande,
talvez umas vinte pessoas, então Jingfei e suas servas, montam em
seus cavalos e galopam rápido, por uma rua lateral, ela conhece o
bairro e sabe onde a rua vai terminar, perto da casa do governador.
Na próxima rua que entram, avistam o cavalo do exército e ao lado
dele, o corpo sem vida do soldado, que foi decapitado.
Enquanto isso, Lin Ehuang está na frente de sua casa. É um lugar simples, a
mãe não é uma boa mercadora, ocupa o último lugar na Ordem de
Mercadores, mas apesar de tudo, aquele lugar, é seu lar. Lin Ehuang
entra na casa, enquanto Xiuying fica no portão e vê que tudo está
quebrado, mas não há sinal da mãe e dos irmãos menores.
Lin Ehuang é a filha mais velha e a única do primeiro casamento da mãe,
que depois se casou mais duas vezes. O segundo marido morreu no mar,
assim com muitos marinheiros, deixando a senhora Lin Lin sem nada e
com dois filhos. Casou uma terceira vez e dessa vez parece que
encontrou sua alma gêmea. O homem é um canalha de primeira, faz
qualquer coisa para ter lucro e sucesso, atitude muito parecida com a
de Lin Lin. Os irmãos do segundo casamento fugiram de casa para se
alistarem no exército imperial, ficou na casa os dois menores de
oito e nove anos e Ehuang. A beleza da filha, fez Lin Lin pensar em
como ter vantagem com isso e logo apareceu a oportunidade, com a
presença do procurador de casamentos, que procurava uma concubina
para presentear o príncipe herdeiro e Lin Lin não perdeu a
oportunidade, vendeu a filha por uma boa quantia e o marido fugiu com
o dinheiro, mas agora isso não importa, porque a casa está vazia,
ninguém está lá.
Saindo da casa, Lin Ehuang ouve o barulho de cascos de cavalos e estão
rápidos.
__ Ehuang! Vamos, eles são muitos! Vamos! - grita Jingfei.
Olhando para o lado, Lin Ehuang vê um grupo com pedaços de pau e olhos
vazios correndo e não pensou duas vezes, montou em seu cavalo,
acompanhada de sua Xiuying e seguiu na mesma direção de Jingfei.
As cinco mulheres cavalgam firmes e rápidas em direção ao centro da
cidade, onde esperam encontrar com a guarnição e uma proteção,
mas uma surpresa as aguarda.
A capitã Wang Li Jie é muito experiente, está no exército a muitos
anos. Quando completou dezessete anos, o pai a mandou no lugar do
irmão mais velho, que tinha aspirações para ser um funcionário
publico, trabalharia com os conselheiros, havia até passado na
grande prova para isso, mas um chamado do imperador poderia por fim
ao sonho do irmão e do pai, que sentia muito orgulho do filho mais
velho. Com a mente fantasiando o futuro brilhante do filho mais velho
e seu outro filho tendo somente dez anos, a opção que sobrou foi a
filha, que poderia ser uma cozinheira, camareira ou outra coisa
qualquer, algo útil que uma mulher no exército pode ser. O velho
Wang não sabia nada sobre sua filha, sobre a menina que se sentia
mal por ser tratada como uma coisa e não uma pessoa, que viu no
exército sua chance de mostrar do que é capaz e quando foi sua vez
de escolher um local para trabalhar, escolheu ser soldado, para
espanto e risos de todos, mas Wang Li Jie mostrou sua capacidade e
força, em dez anos se tornou capitã e de total confiança do
marechal, fazendo parte da família que o marechal muito preza. O
irmão promissor? Preso, por desvios de verbas públicas.
O centro da cidade está um caos. Fogo e destruição em toda parte,
pessoas com olhos esbugalhados rondam a guarnição e a capitã
reorganiza todos para um contra ataque. Aquelas pessoas ouvem uma voz
que diz para matar todos que surgirem na cidade e é isso que estão
fazendo.
Quando Jingfei e sua companheira chegam no centro da cidade, não há
segurança, existe ali uma luta desigual, em número e ferocidade.
O que faremos, senhora? - pergunta Jia.
Lutar é a única opção, não acham?
A capitã Wang e seus soldados lutam bravamente, mas eles estão
cercados. Quando saíram da casa do governador, que está toda
destruída por dentro, a capitã e os soldados desceram a rua até
chegar na praça central, ali os corpos dos velhos foram jogados,
enquanto o conselheiro analisa os corpos, um dos soldados vê uma
figura andando em sua direção e ele mal tem tempo de gritar e um
machado acertou sua testa, mas o auxiliar do conselheiro viu e
gritou. Isto alertou a guarnição, mas também chamou a atenção
dos moradores em transe, que seguiram na direção de onde a pessoa
está gritando.
Os moradores em transe caminham em direção a guarnição e logo os
cercam. Eles têm nas mãos tudo o que conseguiram para usar como
arma, coisas como enxada, foice, martelos, machados, facas e tudo
mais. Eles não tem medo de morrer e um ferimento não os detém.
Isso a capitã já percebeu, mas não está com nenhuma idéia na
mente, só o que pensa é em como achar uma saída e rápido.
Paradas na frente da casa do governador, as cinco mulheres observam a cena na
praça. O círculo está se fechando, isto significa que em breve
todos os soldados estarão mortos.
Jingfei olha ao redor, tentando achar uma maneira de afastar os moradores,
mas o grupo que as perseguia aparecem na outra extremidade da rua,
elas também estão cercadas. Por alguns instantes, três mulheres
pensam que o fim chegou, duas delas apenas olham para o rosto de Lin
Ehuang, nesse instante a jovem concubina se lembra de algo.
Podemos usar a água?
Do que está falando, concubina Lin?
Senhora Zhang, não temos tempo, apenas me sigam!
Dez metros antes da calçada do porto, existe um poço e instalado nele,
há uma bomba d'água. Li Ehuang encaixa uma mangueira no bocal da
bomba. A mangueira foi um presente de um capitão estrangeiro, que
teve seu navio avariado em uma tempestade e o governador autorizou o
conserto do navio e o capitão em agradecimento deu vários presentes
a cidade e entre os presentes, veio a mangueira de tecido envernizado
que é usado para apagar incêndios nos navios ou nas redondezas.
Sabendo de seu uso e que o jato de água sai forte o suficiente para
derrubar uma pessoa, Lin Ehuang segura a mangueira e pede ajuda das
outras e direciona a mangueira em direção ao grupo que cerca a
guarnição. O jato de água sai violento e os primeiros moradores
caem ou são jogados para o lado e uma abertura é feita, por onde os
soldados estão saindo correndo, muitos deles feridos, infelizmente
uma outra parte ficou, são os que estão mortos. A capitã, mesmo
ferida nas costas, lidera a saída dos soldados. Os moradores ficam
confusos por instantes, mas logo se reorganizam, mas agora eles
perderam a vantagem. A luta continua, o jato de água afasta os
moradores, mas eles se levantam e continuam a atacar e por mais que
eles sejam feridos, os moradores se levantam para continuarem a
lutar.
Precisamos sair daqui! - grita Jingfei. - A água não vai ajudar
muito!
A capitã está ferida e seu corpo começa a enfraquecer, perdeu muito
sangue, os soldados começam a se cansar, algo tem que ser feito e
rápido.
De repente uma explosão no meio dos moradores, que são lançados para
o alto, dessa vez para não levantarem mais. Outra explosão mais a
frente e outra e mais outra. Os moradores não se abalam, os que
podem ficar em pé, ficam e atacam. A quantidade de moradores
diminuiu, mas ainda são muitos. Em certo momento a capitã é ferida
novamente e um morador está prestes a decapitar a capitã quando
Jingfei aparece e empurra para longe o homem de olhos esbugalhados e
quando ele levanta para contra-atacar, Jingfei o acerta no peito.
Conhece aquele homem, ele é um dos vendedores da praça, um bom
homem.
As explosões foram provocadas pelo conselheiro, com mais uma de suas
invenções. Em um pote pequeno, ele armazenou pólvora e lacrou a
tampa, no meio da tampa tem um pavio que ele acende e lança onde
quer, no caso, jogou na multidão que massacrava a guarnição.
Jingfei afasta a capitã do meio da luta e fica a sua frente, com uma espada
em punho, fazendo o melhor possível para permanecer viva e a ajudar
os demais.
O som de uma trombeta é ouvido e os moradores param, todos eles apenas
param. Seus rostos se voltam em um mesmo movimento para o norte da
cidade. Alguns dos moradores se dirigem pela alameda do porto, em
direção aos armazéns e o outro grupo segue pela colina da casa do
governador. Em algum lugar da cidade, o fogo queima uma casa, a
fumaça começa a subir para os céus e gritos de horror são
ouvidos, são gritos infantis.
São crianças! - falam juntas Jia e a concubina Lin Ehuang.
Quando Lin Ehuang faz menção de correr até o lugar em chamas, percebe os
moradores, mas eles não olham para ela, apenas caminham em direção
ao norte e com isso Lin Ehuang corre até a casa. Na verdade não é
uma casa, é um galpão onde guardam feno e o galpão está queimando
muito, não há mais o que fazer, até os gritos não são ouvidos
mais. Lin Ehunag se ajoelha e chora, pensa que os irmãos menores
podiam estar presos ali. A serva de Lin Ehuang, a outra Xiuying,
tenta consolar a jovem que chora por não ter conseguido salvar os
irmãos.
No porto, os soldados se recuperam e se reagrupam. A capitã está se
recobrando e apoiada em um soldado dá as ordens para a retirada.
Reúnam os cavalos, achem todos eles! Verifiquem os feridos e os
mortos! Vamos sair daqui agora!
Os moradores continuam a subir a colina e o outro grupo pega algumas
coisas nos armazéns, Jingfei os observa e em certo momento, resolve
subir a colina para ver para onde estão indo e quem os chamou e lá
no alto, em frente a casa do governador, está uma carruagem sem
cavalos, toda preta e um homem de longos cabelos pretos, segura nos
braços Liang Lan Fen que veste um robe transparente e nada mais,
seus olhos estão como os de outras pessoas, mas um sorriso não
natural está em seu rosto e o homem a beija e acaricia. Jingfei quer
se aproximar mais e vai subindo a colina entre os moradores que não
olham para ela. A uma distancia razoável, Jingfei para e chama a
irmã, que não se move, continua agarrada ao corpo do homem que tem
um olho só, o outro olho está fechado e costurado no rosto. Das
duas laterais da boca, saem duas cicatrizes que vai até a orelha. Um
dia ele foi bonito, mas agora o rosto dele assusta, mas Liang Lan Fen
continua agarrada a ele, que a acaricia. Jingfei a chama de novo,
nesse momento, Lin Ehuang chega.
__ Senhora Zhang, vamos, aqui não é seguro!
Elas estão cercadas, todos os moradores estão naquele lugar, basta que
aquele homem diga algo, que as duas vão morrer.
O homem olha para elas e sorri, tira um pote pequeno de sua manga e
atira na direção das duas. Jingfei se protege com os braços e
Ehuang vira as costas. Um cheiro de absinto enche o ar. Jingfei sabe
que aquilo é um veneno poderoso, mas não está se importando,
conhece o antídoto.
Um novo som de trombeta e os moradores começam a se movimentar
novamente, todos caminham em direção ao norte, para a província
vizinha, Mar do Jade Verde. O homem, acompanhado de Liang Lan Fen e
outras mulheres, entra na carruagem que sobe em linha reta, até uma
altura razoável e depois voa para longe.
Tudo isso aconteceu durante a madrugada e agora o sol está no auge no
céu, a capitã Wang acha que passa das doze horas. Das trinta e nove
pessoas, entre civis e soldados, restam quatorze pessoas, as cinco
mulheres estão feridas, mas bem e o conselheiro está bem, mas não
foi visto, está andando atrás de evidencias para poder compreender
o que está acontecendo, enfim contando com a capitã, vivos estão
sete soldados. O relatório da capitã será extenso.
Aproveitando a luz do dia, Jingfei vai até a casa do pai, não que queira olhar
para guardar na lembrança, não isso. Quando o casamento foi
anunciado, o pai disse que não deveria considerar mais aquela como
sendo sua casa e se por acaso o marido a expulsar de casa, que ela
deveria procurar um bordel, pois homem algum se interessaria por ela.
Ela não foi expulsa e mesmo assim, não considera aquela casa como
sua. Jingfei veio atrás do dinheiro que o pai ganhou com seu
casamento, vai ser mais útil para ela.
A casa está em pé ainda, por dentro a destruição não é muita.
Esta é a casa que viveu por dezoito anos, lugar onde foi feliz até
o dia que soube da morte da mãe. Antes a casa era a extensão de
Liang Mei, tudo na casa era parte de sua personalidade, cada jarro,
cada detalhe que fazia a casa ser um lar. Andando pelos corredores e
entrando nas salas, Jingfei vai lembrando dos momentos de felicidade,
parece até que ouve seu riso com as brincadeiras entre ela e a mãe.
Agora a casa tem as cores e o cheiro da nova dona, nada mais ali
lembra Liang Mei, a lembrança só está viva no coração de sua
filha.
Ela para por um instante, não há motivo para lágrimas, a casa não é
dela, não mais. As lembranças são o único tesouro que a mãe
deixou para ela e isso está bem guardado no coração. O objetivo
aqui é outro e andando entre os objetos quebrados, Jingfei acha o
cofre na parede e a chave que o abre, ainda está no mesmo lugar. A
quantia dentro do cofre, é boa, duzentas moedas de ouro, uma
fortuna. Jingfei sorri, seu valor é alto, o pai valorizou a filha ao
menos uma vez na vida.
Para voltar para a praça, Jingfei resolve caminhar pela alameda entre o
porto e os armazéns. Duas coisas chamam sua atenção, uma é que
não tem nenhum navio ancorado e a segunda é que os armazéns estão
todos vazios.
Jingfei achou o antídoto na casa do pai, estava junto das coisas da mãe,
que o pai empacotou em um quarto velho, vai dar uma parte para a
concubina Lin Ehuang, mas é preciso ficar atenta, o antídoto causa
reações diferentes nas pessoas. Achou também as ervas que ajudam
quando sente os sinais da alergia, vai ser útil, pensa ela.
Na praça ocorre uma pequena discussão entre a capitã e o conselheiro
que insiste que a soldado vá na carroça, para não forçar seus
ferimentos.
Eu sou a comandante dessa guarnição e vou no meu cavalo!
Capitã Wang é uma soldado experiente, valente, destemida e quase ninguém
compete com ela em teimosia.
Está bem, senhora Zhang? Soube pela concubina Lin, que as duas foram
alvos de um homem estranho, que jogou veneno nas duas.
Estou bem, o antidoto estava na casa do meu pai e já tomei, vou dar
uma dose para a concubina Lin agora mesmo.
Senhora Zhang, esse antídoto é tão ruim para a saúde quanto o
veneno, sabe disso, não sabe? - comenta o conselheiro Yang.
Vai ficar tudo bem. - responde Jingfei sorrindo. - E agora capitã,
vamos para Jade Verde?
Senhora Zhang, olhe a sua volta! Tenho seis soldados que ainda estão
em pé, oito feridos e dezesseis mortos! Não tenho a menor condição
de liderar uma expedição até a próxima província!
Peço a senhora capitã que me permita prosseguir nessa expedição.
Muitas coisas ainda estão sem respostas e se a próxima província
foi atacada como esta, precisamos confirmar, não acha? - fala o
conselheiro Yang.
Concordo com o conselheiro Yang, é preciso levar respostas ao
imperador, se não os sacrifícios foram todos em vão. - Jingfei faz
uma pausa. - Quero acompanhar o conselheiro.
A senhora não pode! O imperador …
Disse que devíamos ver o que aconteceu aqui e na província vizinha,
para que ele possa traçar planos de segurança.
Capitã Wang é teimosa, mas Zhang Jingfei parece ser mais. Sem mais
discussões, a guarnição outrora de trinta e nove pessoas, agora se
dividiu e uma parte, composta com cinco mulheres, um conselheiro e
seu auxiliar, vão em direção a Mar do Jade Verde e a outra parte
volta para a capital.
É preciso saber que as cinco províncias antes eram um reino, o Reino
do Jade Celestial. Um reino pobre, governado por um homem cruel e
ganancioso, que cobrava altos impostos para saciar sua fome de luxo e
prazeres. Um dia, um imperador que ansiava tornar único o
continente, fez uma oferta pacífica ao Reino do Jade Celestial, mas
o arrogante rei se recusou e enfrentou o bisavô do atual imperador
de Jinhai e perdeu. Seus exércitos se entregaram, o comandante vendo
que seria uma carnificina contra seus soldados, decidiu que a
rendição era o melhor a fazer. O rei, covarde, tentou fugir levando
parte de seu tesouro, mas o povo viu naquele momento que poderia
viver melhor sob o domínio do império Jinhai do que com fome, sob o
poder do rei. Em um julgamento, onde o povo foi o juiz, advogado de
acusação e o carrasco, o rei cruel foi executado na forca. Quando
os homens do império chegaram, nada puderam fazer, o povo fez sua
própria justiça. Assim o reino acabou e no lugar surgiram as
províncias.
A cidade Mar Azul já era a capital do antigo reino, se tornou a sede
da província, agora Mar de Jade Verde era antes uma grande aldeia,
não tinha muitos comércios e a pobreza era o ponto principal.
Quando a administração passou para o império Jinhai, a cidade
floresceu e se tornou famosa por suas várias pousadas e por ter um
clima quase sempre ameno, pois fica situada em um vale, com muitas
montanhas ao redor, que reduz em muito as altas temperaturas do
litoral. Jade Verde não fica no litoral, propriamente dito, fica nas
montanhas, mas foi construída uma estrada que liga a sede ao porto,
que tem o mesmo nome. Diferente de Mar Azul, o comércio não é sua
base central, a região é agrícola, a província vive das vendas do
que produz, mas o porto é útil para o transporte desses produtos.
O pequeno grupo acaba de atravessar os limites da província e agora
estão na Estrada Principal, ligação direta com a sede, em mais
dois dias, chegarão na cidade.
Durante o percurso, o que veem são as plantações. Quilômetros e
quilômetros de milho, trigo e arroz. As primeiras casas que avistam,
estão em chamas. Nos pastos vazios, estão corpos e mais corpos. No
céu só se pode ver os abutres voando.
Na primeira cidade, resolvem não parar. No portão principal está, o
que deve ter sido o administrador, enforcado e acompanhado por vários
outros idosos. O portão aberto, revela que uma noite de horror se
passou por ali, os corpos estão espalhados por todos os lados e o
cheiro é quase insuportável.
Por mais meio dia, o grupo cavalgou pela estrada e finalmente chegam em
Jade Verde. Não existe outro cenário. Aquela cidade que antes
fervilhava de pessoas, pois tem um dos maiores mercados de rua de
todas as províncias, mas agora, ninguém grita oferecendo suas
hortaliças ou frutas, só existe o silencio.
Não adianta entrar. A única coisa que vamos ver, é mais pessoas
mortas. - comenta Lin Ehuang.
Isso pode ser verdade, mas, mesmo assim, quero ver algumas coisas
antes. - fala o conselheiro Yang.
Olhando para o outro lado da cidade, Jingfei avista as torres que auxiliam
com a descarga dos navios.
O senhor se importa se formos até o porto? Tem algo que quero ver. -
informa Jingfei.
Seja cautelosa, senhora, por favor.
As cinco mulheres vão em direção ao porto, distante meia hora.
Jia, pensei que ficaria. - comenta Xiuying.
Sim, sua conversa com o auxiliar do conselheiro parecia seria.
Senhora Zhang, entrar naquela cidade, seria ver mais do que temos
visto até agora, ou seja, mais corpos e sinceramente, não quero ver
mais. - todas olham para ela com ar de desconfiança. - É verdade!
E sua conversa? Não pararam por um minuto sequer!
Xiuying, eu estava apenas especulando. Queria saber se o conselheiro
tem mais daquelas armas. - Jia olha para as outras. - Aquilo pode ser
útil, vocês sabem.
O conselheiro ainda tem mais?
__ Infelizmente, senhora Zhang, o conselheiro só tem mais duas.
Todas soltam um suspiro de tristeza, aquela arma pode afastar o perigo, com
certeza.
O porto Jade Verde não é grande como o da província vizinha, mas é
grande o suficiente para receber quatro grandes navios mercantes e
algumas embarcações menores.
O que foi senhora Zhang?
Xiuying, vamos até os armazéns, preciso verificar uma coisa.
O cenário não é diferente, várias pessoas estão mortas pelas
imediações do porto. Os armazéns ficam um ao lado do outro, com
portas altas para facilitar a entrada das mercadorias. Jingfei desce
do cavalo e abre a primeira porta e depois vai até a segunda,
terceira, quarta porta e todos estão iguais.
O que procura, senhora?
Xiuying, você não está vendo?
Não vejo nada, senhora.
Pois isto é que é estranho. Um porto que nessa hora do dia deveria
estar cheio de pessoas, mas a maioria está morta pelas ruas e os
navios não estão ancorados e o mais estranho é que as mercadorias
também não estão aqui.
Salteadores? - arrisca Jia.
Acho que não, afinal todos os jovens estão em transe. - explica Lin
Ehuang.
Isso está cada vez mais estranho. - finaliza Jingfei.
Um barulho no final da rua, chama a atenção das cinco mulheres.
O que foi isso? Mais pessoas em transe? - pergunta Jia, já com medo.
Vamos, com cuidado, ver o que é. - sugere Jingfei.
No final da alameda, um sexto armazém, um bem maior e distante dos
outros, alguns moradores estão carregando carroças com tudo que tem
dentro do armazém. A carroça não tem jumento ou cavalo, que
originalmente é usado para puxar a carroça, entretanto, as pessoas
são encarregadas de puxar no lugar dos cavalos e outros carregam na
cabeça todo tipo de mercadoria, fardos grandes ou pequenos.
O que eles carregam? - pergunta Jia.
Acho que é peixe. - responde Jingfei com uma careta.
Estão levando para onde? - o conselheiro Yang pergunta. Ele acabou
de chegar e viu as mulheres caminhando, com cuidado, em direção ao
armazém e resolveu se juntar a elas.
Será bom saber, conselheiro?
Senhora Lin Ehuang, será essencial saber, afinal poderemos ver o
líder ou lideres disso tudo.
Podemos segui-los, o que o senhor acha?
Segui-los? Senhora Zhang, acho isso muito difícil, eles podem nos
atacar quando quiserem.
Só se não souberem de nós.
Senhora Zhang, eu sou um velho. Tenho mais de sessenta anos e a
senhora viu o que acontece com os velhos.
Mas …
Senhora Zhang, reconheço a necessidade de informações e com isso ,
acabei de ter uma ideia. - o conselheiro se afasta e volta instantes
depois. - Vejam! Coloco essa manta, cubro o rosto e com o chapéu de
palha, posso enganar bem. - explica satisfeito o conselheiro Yang.
Vamos todos usar o chapéu, será um bom disfarce. - sugere Lin
Ehuang.
Certo! Vamos achar alguma coisa para carregar e segui-los.
Sem os cavalos? - pergunta Jia.
Você vê algum animal por perto?
Sabe alguma coisa sobre isso, senhora Zhang?
Conselheiro, parece que quando os moradores entram em transe, os
animais fogem.
Foi o que pensei também. - conclui o conselheiro Yang.
Devidamente disfarçados e com caixas vazias na cabeça, o grupo anda em direção
ao último da longa fila de pessoas em transe. As pessoas parecem
saber para onde vão e por dois dias sem parar, andaram através da
província Mar de Jade Verde.
Conselheiro, estamos cansadas. Quando essas pessoas descansam? -
pergunta Jia.
Acredito que não há descanso. - responde o homem exausto.
Será que não é por isso que matam os velhos e as crianças
menores? - pergunta Lin Ehuang.
Talvez, mas os velhos podem caminhar bem, carregando coisas. Deve ser
outra coisa. - responde Jingfei olhando os corpos na beira da
estrada. - Conselheiro, essas pessoas estão caindo de exaustão, mas
ninguém para ou ajuda.
Parece que isso não é importante, quero dizer, que aconteça perdas
pelo caminho. - responde o conselheiro Yang se aproximando, já que
Jingfei e Ehuang estão mais afastadas. - Os que ainda podem
caminhar, apenas pegam a mercadoria e continuam a caminhar.
Quando eles começaram a acompanhar aquelas pessoas, os sete eram os últimos
da fila, agora muitos se juntaram depois deles. A estrada está
tomada por este cortejo macabro, as pessoas com olhares vazios e
esbugalhados, um ritmo de andar igual, como soldados em marcha,
feridos e fedendo. Nos dois dias de caminhada, atravessaram metade da
província e se encaminham para a fronteira de limites com a
província Mar de Jade Amarelo.
O grupo se separou, formaram duplas. Jingfei e Ehuang andam na
retaguarda, as duas Xiuying no lado esquerdo e os três restantes,
Jia, o conselheiro e seu auxiliar, um pouco mais a frente, mas não
muito longe. Jingfei e Ehuang acelera o passo para alcançar o
conselheiro e fazem sinal para que as duas Xiuying se aproximem
também.
Conselheiro, não podemos caminhar mais, estamos quase no nosso
limite e pelo pouco que sei sobre essa província, estamos nos
limites da fronteira com Jade Amarelo. Não podemos voltar? - fala
Jingfei cansada.
Eles não param e pela direção em que estamos caminhando, vão
passar por Jade Amarelo, depois Jade Branco e Jade Negro …
Não precisamos seguir adiante. - fala Jia. - Ouvi um dos soldados
dizendo que o segundo marechal enviou uma guarnição para Jade
Branco e Jade Negro, por que ficam na área de sua responsabilidade.
Talvez eles tragam informações daquelas províncias e nós não
precisamos seguir adiante.
Todos ficam em silêncio, pensando no que farão a seguir. É certo que a
segunda guarnição também trará notícias iguais as deles, mas o
conselheiro quer ver mais, algo que explique como as pessoas ficam em
transe. Já Jingfei e Ehuang querem saber o que aconteceu com os
irmãos, as duas viram muitas crianças ali, mas são crianças
maiores, talvez nove ou dez anos de idade, entretanto, nenhuma delas
são os irmãos de Ehuang.
O cortejo continua caminhando. Os feridos graves vão caindo ao longo
da estrada e ficam lá para morrer. Os que estão cansados, apenas
desmaiam para não acordar mais. Nenhuma pessoa solta um gemido, a
caminhada é silenciosa. O som da trombeta corta o silêncio e todos
param.
O que foi agora? - pergunta Jia.
Todas aquelas pessoas já estão na província Mar de Jade Amarelo. Aquela
é a estrada para a sede da província, mas parece que as pessoas não
vão para lá. No lado esquerdo da estrada está a praia, e assim
como em Jade Verde, a sede da província também não é no litoral,
fica mais para o interior, aos pés de uma montanha, ali na praia,
fica o porto e de onde estão, os sete avistaram os mastros de
navios.
Então foi para cá que trouxeram os navios. - diz Jingfei.
Novamente
o som da trombeta, dois sons distintos dessa vez e as pessoas começam
a passar suas mercadorias para o próximo a sua frente.
Apenas imitem. Parece que vão guardar tudo em algum lugar por aqui.
- sugere o conselheiro Yang.
Jingfei saiu da formação. Passou sua caixa a frente e puxou a pessoa da
frente para trás e assim eles continuam a passar as mercadorias,
mesma coisa fizeram os outros. Jingfei vai em direção de algumas
árvores e se esconde atrás delas e observa o porto lá embaixo. Sua
barriga roncou de fome, mas não há mais carne defumada para comer,
isso é que tem alimentado a todos nesses dias, faz parte da bagagem
dos soldados, que a capitã cedeu a eles, entretanto Jingfei não
pensa muito nisso, o que a está intrigando é que os navios no porto
são navios cargueiros e estão sendo carregados com tudo que aquelas
pessoas trouxeram, no porto estão ancorados quatro grandes
cargueiros.
Resta saber agora, senhora Zhang, para onde vão esses navios. -
comenta o conselheiro Yang que se aproximou dela. - Tem muita coisa
para carregar.
Sim, mas lá ao longe o senhor pode ver aqueles dois navios? - aponta
Jingfei para dois navios que se afastam. - Aqueles devem ter sido
carregados e estão a caminho do destino deles e não deve ser por
aqui, pelo menos não perto.
Podemos ir embora agora? - pergunta Jia com muito medo.
Estão prontos para saírem, quando vêm quatro pessoas caminhando no
sentido contrário das pessoas em transe e eles se movimentam
livremente, conversam entre si e até estão sorrindo.
Quem são eles? - pergunta Ehuang.
Os quatro passam, parecem verificar se todas as mercadorias estão sendo
passadas para frente. A fila é grande e os quatro desaparecem na
multidão.
São pessoas que não estão em transe. - observa o conselheiro Yang.
Que roupas são aquelas que usam? Não são uniformes conhecidos.
Talvez, senhora Zhang, sejam os invasores …
Invasores?
Temos que sair daqui! Agora! - fala assustada Jia.
Jia tem razão. Se existem pessoas que não estão em transe,
significa que podem nos agredir ou o pior. - fala Xiuying.
Dessa vez não ficaram pensando, afinal o grupo é composto por pessoas sem
formação militar e lutar contra soldados armados, não é uma
opção. Andando por entre as árvores, conseguem se afastar um
pouco, mas logo vêm os quatro soldados voltando e eles fingem
estarem em transe de novo. Depois dos soldados passarem, continuam
andando entre as pessoas, andam e andam, a fila parece não ter fim.
Vejam! Aqueles não são os soldados do segundo marechal? - chama a
atenção de todos o auxiliar do conselheiro.
Mantendo-se escondidos atrás das pessoas, eles vêm os soldados do império
sendo escoltados por seis soldados vestidos como os outros, que eles
viram antes. De novo, não quiseram parar para pensar, continuaram
andando e dessa vez entram na floresta, para descansar um pouco.
Não temos montaria para sair daqui! -Jia está com muito medo.
Calma, Jia, vamos sair daqui. Apenas fique calma. - diz Jingfei. -
Conselheiro Yang, não é uma coisa aleatória o que está
acontecendo. Existe alguém responsável por isso. É o que acha,
também?
Senhora Zhang, os resultados das minhas observações devo passar
somente ao imperador …
O quê? O senhor está doente? Nós estamos aqui, vimos a mesma coisa
que o senhor viu. Passamos pelos mesmos perigos e o senhor só vai
falar sobre suas observações com o imperador? - desabafa Jingfei.
Desculpe, senhora Zhang, mas a senhora veio por que quis. Essa é
minha missão para o imperador.
Tudo bem, senhora Zhang. - interrompe Lin Ehuang. - É o dever dele,
o nosso era descobrir alguma coisa sobre nossos irmãos, não foi
isso?
Verdade concubina Lin, verdade. - diz Jingfei se acalmando. - O que
observamos até agora é que aquele homem em Mar Azul não é o
líder, mas tem um harém que forma quando as pessoas entram em
transe e minha irmã foi uma das escolhidas.
As crianças menores de seis anos, são todas mortas, assim como os
velhos acima de sessenta e cinco anos, pelo que observei. - completa
Lin Ehuang.
Como vocês têm tanta certeza do que estão dizendo? - pergunta o
conselheiro Yang.
Olha conselheiro, eu sou uma pessoa de um pensamento só, afinal sou
de capricórnio, certo? - começa comentando Jingfei.
Capri … o quê?
Não importa, o que é importante, conselheiro, é que a minha regra
é a seguinte, ou você está comigo ou não está. Simples assim.
Certo? Suas informações são para o imperador e as nossas são para
nossa consciência. O senhor entendeu?
Entendi.
Xiuying, as duas, se afastaram um pouco em busca de frutas para todos comerem
e na volta veem os soldados livres subindo pela encosta.
Senhoras, vamos sair daqui! Vimos alguns soldados livres subindo a
encosta e estão vindo para cá.
Onde esteve, Xiuying?
Senhora Zhang está com fome e fui pegar frutas, mas o mais
importante é sair daqui antes que nos achem!
Certo, eu agradeço pela atenção e vamos andando.
A volta foi silenciosa, não havia mais troca de observações,
conversas sobre o ambiente ou qualquer assunto que pudesse
transformar a caminhada em algo mais agradável, afinal a estrada
estava vazia agora, todas as pessoas em transe ficaram para trás.
Teriam agora dois a três dias de caminhada até Jade Verde e de lá
mais dois dias até Mar azul e finalmente chegariam na Capital
Imperial. Uma pausa para um descanso e observar ao redor.
Não deveríamos conversar com o conselheiro Yang?
Sobre o quê? Os assuntos dele, devem ser conversados com o
imperador.
Senhora Zhang, na ida fazíamos muitas observações junto dele,
agora acho que ele está tão sozinho.
Concubina Lin, você é muito bondosa, mas como já dizia minha mãe,
a gente paga pelo que fala. Não é verdade? Toda aquela petulância
o levou a isso, nós não fizemos nada.
É, você tem razão nisso. - sorri a concubina Lin.
Vamos aproveitar esse momento tranquilo e a sós, para colocar nossas
conversas em dia.
Que conversas?
Concubina Lin, você é a outra garota atingida pelo raio?
Sim, eu sou. - responde a concubina Lin olhando em volta, mas Jia, que é
a única que desconhece o assunto, está muito na frente, conversando
com o auxiliar do conselheiro Yang.
Meu nome é Isabela, mas todos me chamam de Isa.
Prazer. Meu nome é Ângela. - responde a concubina estendendo a mão.
Posso fazer uma pergunta?
Claro.
Você aceitou rápido o pedido de Xiuying, por quê?
Não sei bem. - Ângela olha ao redor tristemente. - Talvez seja por
eu ter uma vida vazia e sem nenhuma perspectiva para o futuro, que
resolvi salvar o futuro de alguém.
Essa é uma maneira bem virtuosa de ver as coisas. Você é mesmo
alguém com um grande coração.
Por quê? Sua justificativa foi qual?
Talvez porque minha vida também seja vazia e eu quero viver algo que
não seja aquela minha vida. - Isa olha para o horizonte com olhos
tristes também. - Xiuying disse que salvaremos o mundo aqui e a
Terra, que somos fortes o suficiente para isso. - Isa sorri. - Eu
quero muito ver isso. Há muito tempo eu desacredito que seja capaz
de alguma coisa a não ser ter pena de mim mesma. Uma vencedora, como
Xiuying diz? Eu quero ver.
Parece que temos muita coisa em comum, acho que na mesma quantidade
que temos com Jingfei e Ehuang.
Concordo plenamente. Essas duas sofreram o mesmo que nós, com
relação a nossas famílias e tudo mais.
Você acredita em destino?
Não sei. Por quê?
Coincidências demais nessa história toda e eu não acredito em
coincidências. Acredito que algo está nos guiando para nosso
destino.
E não é o de salvar dois mundos?
Talvez. - concubina Lin olha para o céu azul sem nuvens e sorri. -
Será só isso? Eu me pergunto as vezes.
Se você perguntar a Xiuying, talvez ela responda, porque tenho
certeza que ela conhece o futuro.
Também acho isso, mas Xiuying nunca responde. Só diz que …
Está tudo bem. Tudo de acordo. Acertei?
As duas sorriem.
Você acha que elas são gêmeas?
Não, não são mesmo. Parece que ela se dividiu, para facilitar o
trabalho.
Eu não lembro dessa informação, mas era Xiuying que conversava
comigo, isso tenho certeza.
Sim e provavelmente, como a que estava comigo fez, falou muita coisa
naquele momento que nos surpreendeu.
Você não ficou assustada?
Não. - Jingfei sorri e completa a frase. - Na verdade, fiquei um
pouco assustada.
Eu também.
As duas sorriem. Olham juntas para o horizonte, para as montanhas com o
pico embranquecido pela neve. As duas sentem uma certa nostalgia de
uma infância cheia de risos e amor.
Senhoras, vamos apressar o passo. Estamos chegando no local que
deixamos os cavalos. - alerta Xiuying.
Os cavalos estão no mesmo lugar em Jade Verde, embora estivessem
soltos, nenhum deles se distanciou muito e a presença deles vai
ajudar muito com o tempo de viagem.
Vinte dias depois de saírem da capital, sete pessoas retornam. Cansadas,
surpreendidas pelas coisas que viram, com ferimentos e um mal-estar
causado pelo antídoto, mas estão em casa de novo.
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Atualizado até capítulo 48
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