Capítulo 11 O retorno a cidade natal

Um homem cambaleia, tentando correr, se afastar do palácio. As ruas

estão desertas, a notícia de que um grupo de pessoas tentou matar o

novo imperador, se espalhou e a recomendação é para que todos

fiquem em suas casas. O homem mal se aguenta em pé, tem um ferimento

muito profundo no abdômen, parece ser fatal. Por mais duas ruas, ele

aguenta firme, tem ordens de relatar o que aconteceu. Um outro homem,

todo de preto e um pano cobrindo metade do rosto, o espera.

__ Vocês falharam. - não é uma pergunta, é uma afirmação.

O homem da província Mar de Jade Verde, se ajoelha, coloca as mãos no

chão e oferece seu pescoço. O homem em pé não vacila e corta a

cabeça do homem que não fala nada, sequer solta um murmúrio de

dor. O homem de preto olha ao redor e com outros quatro, pulam no

telhado e vão embora, pulando a enorme muralha que cerca a Capital

Imperial.

A carruagem entra pelo portão secundário e para na entrada do

Pavilhão do Sol, Jingfei desce e corre para dentro, não há tempo a

perder, sabe que a capitã vai obedecer ao marechal e este vai

ordenar que a guarnição parta imediatamente, sem esperar por

Jingfei ou Lin Ehuang.

 A senhora não vai esperar pelos soldados designados pelo marechal? -

pergunta Jia.

 Não, isso é apenas uma distração. Enquanto eu espero por eles, a

capitã partirá. - explica Jingfei.

Jingfei tem uma roupa de rapaz, que usava quando passeava pelo cais, para ver

os navios, ainda bem que trouxe, pensa ela se olhando no espelho.

Parece mesmo um jovem senhor. Xiuying e Jia já tem esse tipo de

roupa, são uteis quando precisam ir no mercado, na parte mais

perigosa. Todas as três, trançaram seus cabelos e colocaram um

prendedor neles no alto da cabeça. Na verdade, Jingfei quer se

parecer com um jovem servo e não como um jovem senhor, então troca

a blusa com Jia, que tem uma outra de reserva. Estão prontas.

Ao lado da carruagem, estão os quatro cavalos já selados. São

robustos, mas doceis. Montadas e Jia segurando o quarto cavalo pelas

rédeas, as mulheres saem pelo portão secundário e a todo galope,

vão em direção ao portão principal da capital.

Jingfei, rapidamente, combinou com Lin Ehuang de se encontrarem no portão

principal, teve uma leve intuição que a guarnição passaria por

ali, uma hora depois que ela saiu do palácio.

 Senhora Zhang. - cumprimenta a concubina.

 Concubina Lin Ehuang. - responde Jingfei. - A senhora só tem um

cavalo?

 O imperador me deu esse, mas Xiuying insistiu em vir junto, para me

proteger.

 Xiuying? - Jingfei olha para o lado, para a “sua” Xiuying,

pedindo uma explicação, mas se lembra da explicação que recebeu

na Sala de Espera. - Tudo bem, temos um cavalo a mais, ela pode usar

ele.

Lin Ehuang não se espantou com a outra Xiuying, também se lembrou da

explicação e apenas olha para o lado e sorri para sua companheira

de acidente com o raio. A concubina Lin Ehuang também teve a ideia

de usar uma vestimenta masculina, assim como sua serva e as cinco

mulheres aguardam a chegada da guarnição.

Por longos dez minutos, as cinco mulheres esperaram e finalmente, virando

a esquina de uma rua, surge a guarnição comandada pela capitã Wang

Li Jie. A guarnição é composta por trinta soldados, um auxiliar da

capitã e a própria capitã, um total de trinta e dois, mas contando

com as cinco mulheres e o conselheiro das Ciências e Magias, junto

de seu auxiliar, que vem correndo em seu cavalo cinza, chegamos com a

soma de trinta e nove pessoas nessa guarnição.

 Capitã Wang, desculpe o atraso! - fala o conselheiro Yang.

A capitã o olha com um certo ar de divertimento no rosto.

 Está tudo bem, conselheiro Yang, estamos no horário. - a capitã

volta sua atenção para a mulher a seu lado, montada em um garanhão

marrom. - Senhora Zhang, receio que aborreceu um pouco o senhor

marechal. - comenta sorrindo a capitã.

 Por quê?

 Acho que ele esperava que a senhora não fosse tão esperta assim. -

termina a capitã sorrindo mais ainda.

Jingfei também sorri, sua intuição estava certa, o marechal queria que ela

ficasse esperando pelos soldados e quando chegasse no portão, a

capitã já teria partido. O marechal é esperto, mas parece que

Jingfei é um pouco mais, essa é a conclusão que a capitã chega e

com isso, ela sorri mais ainda, imaginando o rosto de desgosto do

marechal.

A Estrada Imperial é longa, ela é uma continuação da rua de mesmo

nome dentro da capital e segue por vários quilômetros até a

bifurcação norte, que é a estrada que Jingfei conhece bem, pois é

a mesma que usaram para chegar na capital, é uma estrada secundária,

por ela se chega ao litoral e depois mais quatro horas, ou mais, até

a entrada da Cidade Mar Azul, que é a sede da província Mar de Jade

Azul. Essa província, faz parte de um grupo de cinco províncias do

litoral leste, exatamente as que atacaram o imperador. São elas, Mar

de Jade Azul, Mar de Jade Verde, Mar de Jade Amarelo, Mar de Jade

Branco e por último a província do Mar de Jade Negro. Nunca ninguém

questionou os nomes das províncias, mas a escolhas foram feitas e

assim seja. Essas províncias são as mais ricas do império, o

comércio marítimo é muito rico nelas, tudo que é comercializado

no império passa por ali, por isso são províncias muito povoadas,

só Mar de Jade Azul tem mais de trinta mil habitantes e na sede, Mar

Azul, moram dez mil pessoas. O desembarque de mercadorias, assim como

o embarque, é constante e trabalho não falta, por esse motivo,

muitos migraram do interior da província para a sede.

Como em todo lugar, para se chegar até o litoral, é preciso descer a

serra. Apesar das boas condições da estrada, todo cuidado é pouco.

De um lado, a parede da serra e do outro lado, o precipício e no

fundo dele, árvores e pedras, que causariam muita dor para quem

caísse.

A capitã está com pressa, o imperador está indignado com o que

aconteceu e quer respostas, por isso a cavalgada é rápida e não

tem parada para descanso. A capitã avisou as mulheres sobre isso,

mas Jingfei respondeu por todas.

 O que estamos esperando? Vamos!

Para chegar a capital, saindo de Mar Azul, demora cerca de seis a oito

horas, em uma velocidade normal, mas para descer, como todo santo

ajuda, leva-se cerca de quatro a cinco horas. Quando a torre de

observação da cidade é avistada, a capitã, olhando a posição

das estrelas, conclui que demoraram menos de três horas para

chegarem.

A cidade está as escuras, não há movimento no porto e aquela cidade

não para, sempre tem um navio chegando ou partindo.

 Existe algo de muito estranho. - comenta a capitã.

Continuam a cavalgar, agora um pouco mais lentos, os homens com as lanternas

continuam a frente, iluminando por onde passam.

Jingfei sente um calafrio percorrer todo o seu corpo, como um mau

pressentimento. O pressentimento ruim, não foi fruto da imaginação,

como pensou Jingfei, pois logo na rua principal avistam os primeiros

corpos e começam a sentir o cheiro ruim de carne podre.

 Armem-se! Não se deixem pegar desprevenidos! Senhoras, fiquem no

meio da guarnição, assim serão melhores protegidas! Vamos

soldados! - a capitã percebeu, é obvio, que alguma coisa aconteceu.

Aquela rua é uma subida, que vai até a casa do governador e é lá que a

capitã quer ir primeiro, para colher alguma informação, mas logo

na entrada o cenário é macabro. Nos portões altos estão os corpos

de algumas mulheres e no muro algumas cabeças empaladas em estacas

“enfeitam” esses muros.

 Senhora Zhang, conhece alguns deles?

 Capitã, eles são membros da família do governador. Pai, mãe e até

o avó, o antigo governador. Os outros são seus conselheiros, mas é

estranho …

 Estranho como?

 Olhe capitã, são todos velhos, digo, são as pessoas mais velhas da

cidade.

 Sim, eu percebi, mesmo nas ruas, os corpos são de velhos e velhas,

mas onde estão os outros?

Sentindo uma dor no peito, Jingfei vira o cavalo e está prestes a sair em

disparada, quando a capitã a detém.

 Onde vai?

 Minha avó é uma mulher velha!

A capitã solta as rédeas do cavalo e Jingfei galopa como louca em

direção a casa da avó, seguida por suas servas e um soldado,

liberado pela capitã.

A casa da avó de Jingfei fica do outro lado da cidade e é bem

afastada. É uma bela casa, fruto de toda uma vida de trabalho duro

como mercadora na empresa que herdou do marido e junto com a filha,

transformou uma empresa de classe seis e uma de classe um. Xu Xiao

Jing é o exemplo de uma mulher lutadora, que não queria ver o

trabalho do marido em outras mãos ou ver sua filha sendo obrigada a

se casar para ter um futuro seguro, como queriam os outros parentes,

não para Xu Xiao Jing que trabalhou muito, se esforçou e lutou

contra todos para ter seu sucesso, mas a morte prematura de sua filha

tirou dela o gosto pela vida e depois disso, com o coração

arrasado, se refugiou em sua casa e não saia para nada. Na casa tem

apenas o servo leal de muitos anos, Cinek, um estrangeiro, mas mais

leal que muitos de seus servos conterrâneos.

A casa está em chamas, Jingfei viu de longe. A casa feita da mais pura

madeira e cara, está agora sendo devorada pelo fogo e ali no portão

de entrada, balançando na ponta de uma corda, está o corpo sem vida

de Xu Xiao Jing. Jingfei desce do cavalo e olha para cima, olha para

o rosto azulado da querida avó, que a ensinou a fazer quase tudo que

sabe, a outra parte, foi a mãe quem ensinou. Seus olhos estão

abertos e transmite um horror, como se no momento em que foi morta,

se assustasse com algo. Jingfei está tão absorta com as lembranças

de sua vida, que envolvia aquela mulher ali pendurada, que não ouvia

os gritos de Jia e Xiuying, só quando sentiu uma dor no braço é

que voltou a realidade e viu Cinek com um pedaço de madeira e que a

atingiu no braço, que começa a sangrar. Cinek está com aquele

mesmo olhar de Liang YongLinag.

 Cinek, o que aconteceu aqui? Cinek, acorde!

Jingfei grita, fala, mas não há resposta, Cinek levanta a madeira, pronto

para outro ataque, mas Jingfei se esquiva e no mesmo instante, pega

um pedaço de madeira também. No próximo movimento de Cinek,

Jingfei o acertou no figado e o homem de quase dois metros de altura

balança para um lado, mas não desiste, avança novamente sobre a

jovem que um dia carregou no colo e que fazia sua sobremesa favorita

sempre que a menina pedia, mas agora ele não se lembra de nada

disso, só sabe que a voz na sua cabeça pede para que mate qualquer

um que interferir e é isso que vai fazer.

Jingfei vê perto do muro da casa, uma espada e sabe, que assim como o pai,

Cinek não vai parar. Um novo ataque, Cinek coloca toda a sua força

nesse golpe, mas Jingfei se esquiva novamente e o ataca, fazendo um

ferimento profundo no abdômen, mas Cinek não para, mesmo que o

sangue esteja escorrendo por suas pernas, Cinek avança. Outro golpe

poderoso e Jingfei com lágrimas nos olhos, acerta o coração de

Cinek, seu tio das terras além do mar. O homem abaixa os braços e

por segundos, Jingfei pode ver a surpresa e o reconhecimento nos

olhos de Cinek, mas já é tarde demais, o tio morreu. Quando o corpo

cai, desta vez é imediato a saída da fumaça escura. Isso assusta

Jingfei que se afasta um pouco, bem a tempo de ver o muro desabar e

levar junto o corpo da avó e do leal servo. A casa queima até o

chão, não sobrou nada, nenhuma lembrança.

 Não dei a ela um enterro digno.

 Ela está no lugar que sempre amou. - comenta Jia.

 Sua avó vai ficar muito triste se você perder sua vida aqui. -

avisa Xiuying.

 Do que você está falando?

 Deles, senhora. Lá, no final da rua. - diz Xiuying apontando.

No final da rua um grupo de pessoas andam vagarosamente, olhos

esbugalhados e fixos a frente. Essa frente é o lugar onde estão

Jingfei e as outras.

 Melhor correr, a senhora não acha? - sugere Xiuying.

 Onde está o soldado? - pergunta Jia. - Ele não deveria estar aqui?

Não há tempo para se preocupar com isso. Mesmo a habilidade de Isa no

jiu-jitsu, na capoeira e a habilidade de Jingfei com a espada, não

podem salvá-las agora, se resolverem ficar, o grupo é muito grande,

talvez umas vinte pessoas, então Jingfei e suas servas, montam em

seus cavalos e galopam rápido, por uma rua lateral, ela conhece o

bairro e sabe onde a rua vai terminar, perto da casa do governador.

Na próxima rua que entram, avistam o cavalo do exército e ao lado

dele, o corpo sem vida do soldado, que foi decapitado.

Enquanto isso, Lin Ehuang está na frente de sua casa. É um lugar simples, a

mãe não é uma boa mercadora, ocupa o último lugar na Ordem de

Mercadores, mas apesar de tudo, aquele lugar, é seu lar. Lin Ehuang

entra na casa, enquanto Xiuying fica no portão e vê que tudo está

quebrado, mas não há sinal da mãe e dos irmãos menores.

Lin Ehuang é a filha mais velha e a única do primeiro casamento da mãe,

que depois se casou mais duas vezes. O segundo marido morreu no mar,

assim com muitos marinheiros, deixando a senhora Lin Lin sem nada e

com dois filhos. Casou uma terceira vez e dessa vez parece que

encontrou sua alma gêmea. O homem é um canalha de primeira, faz

qualquer coisa para ter lucro e sucesso, atitude muito parecida com a

de Lin Lin. Os irmãos do segundo casamento fugiram de casa para se

alistarem no exército imperial, ficou na casa os dois menores de

oito e nove anos e Ehuang. A beleza da filha, fez Lin Lin pensar em

como ter vantagem com isso e logo apareceu a oportunidade, com a

presença do procurador de casamentos, que procurava uma concubina

para presentear o príncipe herdeiro e Lin Lin não perdeu a

oportunidade, vendeu a filha por uma boa quantia e o marido fugiu com

o dinheiro, mas agora isso não importa, porque a casa está vazia,

ninguém está lá.

Saindo da casa, Lin Ehuang ouve o barulho de cascos de cavalos e estão

rápidos.

__ Ehuang! Vamos, eles são muitos! Vamos! - grita Jingfei.

Olhando para o lado, Lin Ehuang vê um grupo com pedaços de pau e olhos

vazios correndo e não pensou duas vezes, montou em seu cavalo,

acompanhada de sua Xiuying e seguiu na mesma direção de Jingfei.

As cinco mulheres cavalgam firmes e rápidas em direção ao centro da

cidade, onde esperam encontrar com a guarnição e uma proteção,

mas uma surpresa as aguarda.

A capitã Wang Li Jie é muito experiente, está no exército a muitos

anos. Quando completou dezessete anos, o pai a mandou no lugar do

irmão mais velho, que tinha aspirações para ser um funcionário

publico, trabalharia com os conselheiros, havia até passado na

grande prova para isso, mas um chamado do imperador poderia por fim

ao sonho do irmão e do pai, que sentia muito orgulho do filho mais

velho. Com a mente fantasiando o futuro brilhante do filho mais velho

e seu outro filho tendo somente dez anos, a opção que sobrou foi a

filha, que poderia ser uma cozinheira, camareira ou outra coisa

qualquer, algo útil que uma mulher no exército pode ser. O velho

Wang não sabia nada sobre sua filha, sobre a menina que se sentia

mal por ser tratada como uma coisa e não uma pessoa, que viu no

exército sua chance de mostrar do que é capaz e quando foi sua vez

de escolher um local para trabalhar, escolheu ser soldado, para

espanto e risos de todos, mas Wang Li Jie mostrou sua capacidade e

força, em dez anos se tornou capitã e de total confiança do

marechal, fazendo parte da família que o marechal muito preza. O

irmão promissor? Preso, por desvios de verbas públicas.

O centro da cidade está um caos. Fogo e destruição em toda parte,

pessoas com olhos esbugalhados rondam a guarnição e a capitã

reorganiza todos para um contra ataque. Aquelas pessoas ouvem uma voz

que diz para matar todos que surgirem na cidade e é isso que estão

fazendo.

Quando Jingfei e sua companheira chegam no centro da cidade, não há

segurança, existe ali uma luta desigual, em número e ferocidade.

 O que faremos, senhora? - pergunta Jia.

 Lutar é a única opção, não acham?

A capitã Wang e seus soldados lutam bravamente, mas eles estão

cercados. Quando saíram da casa do governador, que está toda

destruída por dentro, a capitã e os soldados desceram a rua até

chegar na praça central, ali os corpos dos velhos foram jogados,

enquanto o conselheiro analisa os corpos, um dos soldados vê uma

figura andando em sua direção e ele mal tem tempo de gritar e um

machado acertou sua testa, mas o auxiliar do conselheiro viu e

gritou. Isto alertou a guarnição, mas também chamou a atenção

dos moradores em transe, que seguiram na direção de onde a pessoa

está gritando.

Os moradores em transe caminham em direção a guarnição e logo os

cercam. Eles têm nas mãos tudo o que conseguiram para usar como

arma, coisas como enxada, foice, martelos, machados, facas e tudo

mais. Eles não tem medo de morrer e um ferimento não os detém.

Isso a capitã já percebeu, mas não está com nenhuma idéia na

mente, só o que pensa é em como achar uma saída e rápido.

Paradas na frente da casa do governador, as cinco mulheres observam a cena na

praça. O círculo está se fechando, isto significa que em breve

todos os soldados estarão mortos.

Jingfei olha ao redor, tentando achar uma maneira de afastar os moradores,

mas o grupo que as perseguia aparecem na outra extremidade da rua,

elas também estão cercadas. Por alguns instantes, três mulheres

pensam que o fim chegou, duas delas apenas olham para o rosto de Lin

Ehuang, nesse instante a jovem concubina se lembra de algo.

 Podemos usar a água?

 Do que está falando, concubina Lin?

 Senhora Zhang, não temos tempo, apenas me sigam!

Dez metros antes da calçada do porto, existe um poço e instalado nele,

há uma bomba d'água. Li Ehuang encaixa uma mangueira no bocal da

bomba. A mangueira foi um presente de um capitão estrangeiro, que

teve seu navio avariado em uma tempestade e o governador autorizou o

conserto do navio e o capitão em agradecimento deu vários presentes

a cidade e entre os presentes, veio a mangueira de tecido envernizado

que é usado para apagar incêndios nos navios ou nas redondezas.

Sabendo de seu uso e que o jato de água sai forte o suficiente para

derrubar uma pessoa, Lin Ehuang segura a mangueira e pede ajuda das

outras e direciona a mangueira em direção ao grupo que cerca a

guarnição. O jato de água sai violento e os primeiros moradores

caem ou são jogados para o lado e uma abertura é feita, por onde os

soldados estão saindo correndo, muitos deles feridos, infelizmente

uma outra parte ficou, são os que estão mortos. A capitã, mesmo

ferida nas costas, lidera a saída dos soldados. Os moradores ficam

confusos por instantes, mas logo se reorganizam, mas agora eles

perderam a vantagem. A luta continua, o jato de água afasta os

moradores, mas eles se levantam e continuam a atacar e por mais que

eles sejam feridos, os moradores se levantam para continuarem a

lutar.

 Precisamos sair daqui! - grita Jingfei. - A água não vai ajudar

muito!

A capitã está ferida e seu corpo começa a enfraquecer, perdeu muito

sangue, os soldados começam a se cansar, algo tem que ser feito e

rápido.

De repente uma explosão no meio dos moradores, que são lançados para

o alto, dessa vez para não levantarem mais. Outra explosão mais a

frente e outra e mais outra. Os moradores não se abalam, os que

podem ficar em pé, ficam e atacam. A quantidade de moradores

diminuiu, mas ainda são muitos. Em certo momento a capitã é ferida

novamente e um morador está prestes a decapitar a capitã quando

Jingfei aparece e empurra para longe o homem de olhos esbugalhados e

quando ele levanta para contra-atacar, Jingfei o acerta no peito.

Conhece aquele homem, ele é um dos vendedores da praça, um bom

homem.

As explosões foram provocadas pelo conselheiro, com mais uma de suas

invenções. Em um pote pequeno, ele armazenou pólvora e lacrou a

tampa, no meio da tampa tem um pavio que ele acende e lança onde

quer, no caso, jogou na multidão que massacrava a guarnição.

Jingfei afasta a capitã do meio da luta e fica a sua frente, com uma espada

em punho, fazendo o melhor possível para permanecer viva e a ajudar

os demais.

O som de uma trombeta é ouvido e os moradores param, todos eles apenas

param. Seus rostos se voltam em um mesmo movimento para o norte da

cidade. Alguns dos moradores se dirigem pela alameda do porto, em

direção aos armazéns e o outro grupo segue pela colina da casa do

governador. Em algum lugar da cidade, o fogo queima uma casa, a

fumaça começa a subir para os céus e gritos de horror são

ouvidos, são gritos infantis.

 São crianças! - falam juntas Jia e a concubina Lin Ehuang.

Quando Lin Ehuang faz menção de correr até o lugar em chamas, percebe os

moradores, mas eles não olham para ela, apenas caminham em direção

ao norte e com isso Lin Ehuang corre até a casa. Na verdade não é

uma casa, é um galpão onde guardam feno e o galpão está queimando

muito, não há mais o que fazer, até os gritos não são ouvidos

mais. Lin Ehunag se ajoelha e chora, pensa que os irmãos menores

podiam estar presos ali. A serva de Lin Ehuang, a outra Xiuying,

tenta consolar a jovem que chora por não ter conseguido salvar os

irmãos.

No porto, os soldados se recuperam e se reagrupam. A capitã está se

recobrando e apoiada em um soldado dá as ordens para a retirada.

 Reúnam os cavalos, achem todos eles! Verifiquem os feridos e os

mortos! Vamos sair daqui agora!

Os moradores continuam a subir a colina e o outro grupo pega algumas

coisas nos armazéns, Jingfei os observa e em certo momento, resolve

subir a colina para ver para onde estão indo e quem os chamou e lá

no alto, em frente a casa do governador, está uma carruagem sem

cavalos, toda preta e um homem de longos cabelos pretos, segura nos

braços Liang Lan Fen que veste um robe transparente e nada mais,

seus olhos estão como os de outras pessoas, mas um sorriso não

natural está em seu rosto e o homem a beija e acaricia. Jingfei quer

se aproximar mais e vai subindo a colina entre os moradores que não

olham para ela. A uma distancia razoável, Jingfei para e chama a

irmã, que não se move, continua agarrada ao corpo do homem que tem

um olho só, o outro olho está fechado e costurado no rosto. Das

duas laterais da boca, saem duas cicatrizes que vai até a orelha. Um

dia ele foi bonito, mas agora o rosto dele assusta, mas Liang Lan Fen

continua agarrada a ele, que a acaricia. Jingfei a chama de novo,

nesse momento, Lin Ehuang chega.

__ Senhora Zhang, vamos, aqui não é seguro!

Elas estão cercadas, todos os moradores estão naquele lugar, basta que

aquele homem diga algo, que as duas vão morrer.

O homem olha para elas e sorri, tira um pote pequeno de sua manga e

atira na direção das duas. Jingfei se protege com os braços e

Ehuang vira as costas. Um cheiro de absinto enche o ar. Jingfei sabe

que aquilo é um veneno poderoso, mas não está se importando,

conhece o antídoto.

Um novo som de trombeta e os moradores começam a se movimentar

novamente, todos caminham em direção ao norte, para a província

vizinha, Mar do Jade Verde. O homem, acompanhado de Liang Lan Fen e

outras mulheres, entra na carruagem que sobe em linha reta, até uma

altura razoável e depois voa para longe.

Tudo isso aconteceu durante a madrugada e agora o sol está no auge no

céu, a capitã Wang acha que passa das doze horas. Das trinta e nove

pessoas, entre civis e soldados, restam quatorze pessoas, as cinco

mulheres estão feridas, mas bem e o conselheiro está bem, mas não

foi visto, está andando atrás de evidencias para poder compreender

o que está acontecendo, enfim contando com a capitã, vivos estão

sete soldados. O relatório da capitã será extenso.

Aproveitando a luz do dia, Jingfei vai até a casa do pai, não que queira olhar

para guardar na lembrança, não isso. Quando o casamento foi

anunciado, o pai disse que não deveria considerar mais aquela como

sendo sua casa e se por acaso o marido a expulsar de casa, que ela

deveria procurar um bordel, pois homem algum se interessaria por ela.

Ela não foi expulsa e mesmo assim, não considera aquela casa como

sua. Jingfei veio atrás do dinheiro que o pai ganhou com seu

casamento, vai ser mais útil para ela.

A casa está em pé ainda, por dentro a destruição não é muita.

Esta é a casa que viveu por dezoito anos, lugar onde foi feliz até

o dia que soube da morte da mãe. Antes a casa era a extensão de

Liang Mei, tudo na casa era parte de sua personalidade, cada jarro,

cada detalhe que fazia a casa ser um lar. Andando pelos corredores e

entrando nas salas, Jingfei vai lembrando dos momentos de felicidade,

parece até que ouve seu riso com as brincadeiras entre ela e a mãe.

Agora a casa tem as cores e o cheiro da nova dona, nada mais ali

lembra Liang Mei, a lembrança só está viva no coração de sua

filha.

Ela para por um instante, não há motivo para lágrimas, a casa não é

dela, não mais. As lembranças são o único tesouro que a mãe

deixou para ela e isso está bem guardado no coração. O objetivo

aqui é outro e andando entre os objetos quebrados, Jingfei acha o

cofre na parede e a chave que o abre, ainda está no mesmo lugar. A

quantia dentro do cofre, é boa, duzentas moedas de ouro, uma

fortuna. Jingfei sorri, seu valor é alto, o pai valorizou a filha ao

menos uma vez na vida.

Para voltar para a praça, Jingfei resolve caminhar pela alameda entre o

porto e os armazéns. Duas coisas chamam sua atenção, uma é que

não tem nenhum navio ancorado e a segunda é que os armazéns estão

todos vazios.

Jingfei achou o antídoto na casa do pai, estava junto das coisas da mãe,

que o pai empacotou em um quarto velho, vai dar uma parte para a

concubina Lin Ehuang, mas é preciso ficar atenta, o antídoto causa

reações diferentes nas pessoas. Achou também as ervas que ajudam

quando sente os sinais da alergia, vai ser útil, pensa ela.

Na praça ocorre uma pequena discussão entre a capitã e o conselheiro

que insiste que a soldado vá na carroça, para não forçar seus

ferimentos.

 Eu sou a comandante dessa guarnição e vou no meu cavalo!

Capitã Wang é uma soldado experiente, valente, destemida e quase ninguém

compete com ela em teimosia.

 Está bem, senhora Zhang? Soube pela concubina Lin, que as duas foram

alvos de um homem estranho, que jogou veneno nas duas.

 Estou bem, o antidoto estava na casa do meu pai e já tomei, vou dar

uma dose para a concubina Lin agora mesmo.

 Senhora Zhang, esse antídoto é tão ruim para a saúde quanto o

veneno, sabe disso, não sabe? - comenta o conselheiro Yang.

 Vai ficar tudo bem. - responde Jingfei sorrindo. - E agora capitã,

vamos para Jade Verde?

 Senhora Zhang, olhe a sua volta! Tenho seis soldados que ainda estão

em pé, oito feridos e dezesseis mortos! Não tenho a menor condição

de liderar uma expedição até a próxima província!

 Peço a senhora capitã que me permita prosseguir nessa expedição.

Muitas coisas ainda estão sem respostas e se a próxima província

foi atacada como esta, precisamos confirmar, não acha? - fala o

conselheiro Yang.

 Concordo com o conselheiro Yang, é preciso levar respostas ao

imperador, se não os sacrifícios foram todos em vão. - Jingfei faz

uma pausa. - Quero acompanhar o conselheiro.

 A senhora não pode! O imperador …

 Disse que devíamos ver o que aconteceu aqui e na província vizinha,

para que ele possa traçar planos de segurança.

Capitã Wang é teimosa, mas Zhang Jingfei parece ser mais. Sem mais

discussões, a guarnição outrora de trinta e nove pessoas, agora se

dividiu e uma parte, composta com cinco mulheres, um conselheiro e

seu auxiliar, vão em direção a Mar do Jade Verde e a outra parte

volta para a capital.

É preciso saber que as cinco províncias antes eram um reino, o Reino

do Jade Celestial. Um reino pobre, governado por um homem cruel e

ganancioso, que cobrava altos impostos para saciar sua fome de luxo e

prazeres. Um dia, um imperador que ansiava tornar único o

continente, fez uma oferta pacífica ao Reino do Jade Celestial, mas

o arrogante rei se recusou e enfrentou o bisavô do atual imperador

de Jinhai e perdeu. Seus exércitos se entregaram, o comandante vendo

que seria uma carnificina contra seus soldados, decidiu que a

rendição era o melhor a fazer. O rei, covarde, tentou fugir levando

parte de seu tesouro, mas o povo viu naquele momento que poderia

viver melhor sob o domínio do império Jinhai do que com fome, sob o

poder do rei. Em um julgamento, onde o povo foi o juiz, advogado de

acusação e o carrasco, o rei cruel foi executado na forca. Quando

os homens do império chegaram, nada puderam fazer, o povo fez sua

própria justiça. Assim o reino acabou e no lugar surgiram as

províncias.

A cidade Mar Azul já era a capital do antigo reino, se tornou a sede

da província, agora Mar de Jade Verde era antes uma grande aldeia,

não tinha muitos comércios e a pobreza era o ponto principal.

Quando a administração passou para o império Jinhai, a cidade

floresceu e se tornou famosa por suas várias pousadas e por ter um

clima quase sempre ameno, pois fica situada em um vale, com muitas

montanhas ao redor, que reduz em muito as altas temperaturas do

litoral. Jade Verde não fica no litoral, propriamente dito, fica nas

montanhas, mas foi construída uma estrada que liga a sede ao porto,

que tem o mesmo nome. Diferente de Mar Azul, o comércio não é sua

base central, a região é agrícola, a província vive das vendas do

que produz, mas o porto é útil para o transporte desses produtos.

O pequeno grupo acaba de atravessar os limites da província e agora

estão na Estrada Principal, ligação direta com a sede, em mais

dois dias, chegarão na cidade.

Durante o percurso, o que veem são as plantações. Quilômetros e

quilômetros de milho, trigo e arroz. As primeiras casas que avistam,

estão em chamas. Nos pastos vazios, estão corpos e mais corpos. No

céu só se pode ver os abutres voando.

Na primeira cidade, resolvem não parar. No portão principal está, o

que deve ter sido o administrador, enforcado e acompanhado por vários

outros idosos. O portão aberto, revela que uma noite de horror se

passou por ali, os corpos estão espalhados por todos os lados e o

cheiro é quase insuportável.

Por mais meio dia, o grupo cavalgou pela estrada e finalmente chegam em

Jade Verde. Não existe outro cenário. Aquela cidade que antes

fervilhava de pessoas, pois tem um dos maiores mercados de rua de

todas as províncias, mas agora, ninguém grita oferecendo suas

hortaliças ou frutas, só existe o silencio.

 Não adianta entrar. A única coisa que vamos ver, é mais pessoas

mortas. - comenta Lin Ehuang.

 Isso pode ser verdade, mas, mesmo assim, quero ver algumas coisas

antes. - fala o conselheiro Yang.

Olhando para o outro lado da cidade, Jingfei avista as torres que auxiliam

com a descarga dos navios.

 O senhor se importa se formos até o porto? Tem algo que quero ver. -

informa Jingfei.

 Seja cautelosa, senhora, por favor.

As cinco mulheres vão em direção ao porto, distante meia hora.

 Jia, pensei que ficaria. - comenta Xiuying.

 Sim, sua conversa com o auxiliar do conselheiro parecia seria.

 Senhora Zhang, entrar naquela cidade, seria ver mais do que temos

visto até agora, ou seja, mais corpos e sinceramente, não quero ver

mais. - todas olham para ela com ar de desconfiança. - É verdade!

 E sua conversa? Não pararam por um minuto sequer!

 Xiuying, eu estava apenas especulando. Queria saber se o conselheiro

tem mais daquelas armas. - Jia olha para as outras. - Aquilo pode ser

útil, vocês sabem.

 O conselheiro ainda tem mais?

__ Infelizmente, senhora Zhang, o conselheiro só tem mais duas.

Todas soltam um suspiro de tristeza, aquela arma pode afastar o perigo, com

certeza.

O porto Jade Verde não é grande como o da província vizinha, mas é

grande o suficiente para receber quatro grandes navios mercantes e

algumas embarcações menores.

 O que foi senhora Zhang?

 Xiuying, vamos até os armazéns, preciso verificar uma coisa.

O cenário não é diferente, várias pessoas estão mortas pelas

imediações do porto. Os armazéns ficam um ao lado do outro, com

portas altas para facilitar a entrada das mercadorias. Jingfei desce

do cavalo e abre a primeira porta e depois vai até a segunda,

terceira, quarta porta e todos estão iguais.

 O que procura, senhora?

 Xiuying, você não está vendo?

 Não vejo nada, senhora.

 Pois isto é que é estranho. Um porto que nessa hora do dia deveria

estar cheio de pessoas, mas a maioria está morta pelas ruas e os

navios não estão ancorados e o mais estranho é que as mercadorias

também não estão aqui.

 Salteadores? - arrisca Jia.

 Acho que não, afinal todos os jovens estão em transe. - explica Lin

Ehuang.

 Isso está cada vez mais estranho. - finaliza Jingfei.

Um barulho no final da rua, chama a atenção das cinco mulheres.

 O que foi isso? Mais pessoas em transe? - pergunta Jia, já com medo.

 Vamos, com cuidado, ver o que é. - sugere Jingfei.

No final da alameda, um sexto armazém, um bem maior e distante dos

outros, alguns moradores estão carregando carroças com tudo que tem

dentro do armazém. A carroça não tem jumento ou cavalo, que

originalmente é usado para puxar a carroça, entretanto, as pessoas

são encarregadas de puxar no lugar dos cavalos e outros carregam na

cabeça todo tipo de mercadoria, fardos grandes ou pequenos.

 O que eles carregam? - pergunta Jia.

 Acho que é peixe. - responde Jingfei com uma careta.

 Estão levando para onde? - o conselheiro Yang pergunta. Ele acabou

de chegar e viu as mulheres caminhando, com cuidado, em direção ao

armazém e resolveu se juntar a elas.

 Será bom saber, conselheiro?

 Senhora Lin Ehuang, será essencial saber, afinal poderemos ver o

líder ou lideres disso tudo.

 Podemos segui-los, o que o senhor acha?

 Segui-los? Senhora Zhang, acho isso muito difícil, eles podem nos

atacar quando quiserem.

 Só se não souberem de nós.

 Senhora Zhang, eu sou um velho. Tenho mais de sessenta anos e a

senhora viu o que acontece com os velhos.

 Mas …

 Senhora Zhang, reconheço a necessidade de informações e com isso ,

acabei de ter uma ideia. - o conselheiro se afasta e volta instantes

depois. - Vejam! Coloco essa manta, cubro o rosto e com o chapéu de

palha, posso enganar bem. - explica satisfeito o conselheiro Yang.

 Vamos todos usar o chapéu, será um bom disfarce. - sugere Lin

Ehuang.

 Certo! Vamos achar alguma coisa para carregar e segui-los.

 Sem os cavalos? - pergunta Jia.

 Você vê algum animal por perto?

 Sabe alguma coisa sobre isso, senhora Zhang?

 Conselheiro, parece que quando os moradores entram em transe, os

animais fogem.

 Foi o que pensei também. - conclui o conselheiro Yang.

Devidamente disfarçados e com caixas vazias na cabeça, o grupo anda em direção

ao último da longa fila de pessoas em transe. As pessoas parecem

saber para onde vão e por dois dias sem parar, andaram através da

província Mar de Jade Verde.

 Conselheiro, estamos cansadas. Quando essas pessoas descansam? -

pergunta Jia.

 Acredito que não há descanso. - responde o homem exausto.

 Será que não é por isso que matam os velhos e as crianças

menores? - pergunta Lin Ehuang.

 Talvez, mas os velhos podem caminhar bem, carregando coisas. Deve ser

outra coisa. - responde Jingfei olhando os corpos na beira da

estrada. - Conselheiro, essas pessoas estão caindo de exaustão, mas

ninguém para ou ajuda.

 Parece que isso não é importante, quero dizer, que aconteça perdas

pelo caminho. - responde o conselheiro Yang se aproximando, já que

Jingfei e Ehuang estão mais afastadas. - Os que ainda podem

caminhar, apenas pegam a mercadoria e continuam a caminhar.

Quando eles começaram a acompanhar aquelas pessoas, os sete eram os últimos

da fila, agora muitos se juntaram depois deles. A estrada está

tomada por este cortejo macabro, as pessoas com olhares vazios e

esbugalhados, um ritmo de andar igual, como soldados em marcha,

feridos e fedendo. Nos dois dias de caminhada, atravessaram metade da

província e se encaminham para a fronteira de limites com a

província Mar de Jade Amarelo.

O grupo se separou, formaram duplas. Jingfei e Ehuang andam na

retaguarda, as duas Xiuying no lado esquerdo e os três restantes,

Jia, o conselheiro e seu auxiliar, um pouco mais a frente, mas não

muito longe. Jingfei e Ehuang acelera o passo para alcançar o

conselheiro e fazem sinal para que as duas Xiuying se aproximem

também.

 Conselheiro, não podemos caminhar mais, estamos quase no nosso

limite e pelo pouco que sei sobre essa província, estamos nos

limites da fronteira com Jade Amarelo. Não podemos voltar? - fala

Jingfei cansada.

 Eles não param e pela direção em que estamos caminhando, vão

passar por Jade Amarelo, depois Jade Branco e Jade Negro …

 Não precisamos seguir adiante. - fala Jia. - Ouvi um dos soldados

dizendo que o segundo marechal enviou uma guarnição para Jade

Branco e Jade Negro, por que ficam na área de sua responsabilidade.

Talvez eles tragam informações daquelas províncias e nós não

precisamos seguir adiante.

Todos ficam em silêncio, pensando no que farão a seguir. É certo que a

segunda guarnição também trará notícias iguais as deles, mas o

conselheiro quer ver mais, algo que explique como as pessoas ficam em

transe. Já Jingfei e Ehuang querem saber o que aconteceu com os

irmãos, as duas viram muitas crianças ali, mas são crianças

maiores, talvez nove ou dez anos de idade, entretanto, nenhuma delas

são os irmãos de Ehuang.

O cortejo continua caminhando. Os feridos graves vão caindo ao longo

da estrada e ficam lá para morrer. Os que estão cansados, apenas

desmaiam para não acordar mais. Nenhuma pessoa solta um gemido, a

caminhada é silenciosa. O som da trombeta corta o silêncio e todos

param.

 O que foi agora? - pergunta Jia.

Todas aquelas pessoas já estão na província Mar de Jade Amarelo. Aquela

é a estrada para a sede da província, mas parece que as pessoas não

vão para lá. No lado esquerdo da estrada está a praia, e assim

como em Jade Verde, a sede da província também não é no litoral,

fica mais para o interior, aos pés de uma montanha, ali na praia,

fica o porto e de onde estão, os sete avistaram os mastros de

navios.

 Então foi para cá que trouxeram os navios. - diz Jingfei.

Novamente

o som da trombeta, dois sons distintos dessa vez e as pessoas começam

a passar suas mercadorias para o próximo a sua frente.

 Apenas imitem. Parece que vão guardar tudo em algum lugar por aqui.

- sugere o conselheiro Yang.

Jingfei saiu da formação. Passou sua caixa a frente e puxou a pessoa da

frente para trás e assim eles continuam a passar as mercadorias,

mesma coisa fizeram os outros. Jingfei vai em direção de algumas

árvores e se esconde atrás delas e observa o porto lá embaixo. Sua

barriga roncou de fome, mas não há mais carne defumada para comer,

isso é que tem alimentado a todos nesses dias, faz parte da bagagem

dos soldados, que a capitã cedeu a eles, entretanto Jingfei não

pensa muito nisso, o que a está intrigando é que os navios no porto

são navios cargueiros e estão sendo carregados com tudo que aquelas

pessoas trouxeram, no porto estão ancorados quatro grandes

cargueiros.

 Resta saber agora, senhora Zhang, para onde vão esses navios. -

comenta o conselheiro Yang que se aproximou dela. - Tem muita coisa

para carregar.

 Sim, mas lá ao longe o senhor pode ver aqueles dois navios? - aponta

Jingfei para dois navios que se afastam. - Aqueles devem ter sido

carregados e estão a caminho do destino deles e não deve ser por

aqui, pelo menos não perto.

 Podemos ir embora agora? - pergunta Jia com muito medo.

Estão prontos para saírem, quando vêm quatro pessoas caminhando no

sentido contrário das pessoas em transe e eles se movimentam

livremente, conversam entre si e até estão sorrindo.

 Quem são eles? - pergunta Ehuang.

Os quatro passam, parecem verificar se todas as mercadorias estão sendo

passadas para frente. A fila é grande e os quatro desaparecem na

multidão.

 São pessoas que não estão em transe. - observa o conselheiro Yang.

 Que roupas são aquelas que usam? Não são uniformes conhecidos.

 Talvez, senhora Zhang, sejam os invasores …

 Invasores?

 Temos que sair daqui! Agora! - fala assustada Jia.

 Jia tem razão. Se existem pessoas que não estão em transe,

significa que podem nos agredir ou o pior. - fala Xiuying.

Dessa vez não ficaram pensando, afinal o grupo é composto por pessoas sem

formação militar e lutar contra soldados armados, não é uma

opção. Andando por entre as árvores, conseguem se afastar um

pouco, mas logo vêm os quatro soldados voltando e eles fingem

estarem em transe de novo. Depois dos soldados passarem, continuam

andando entre as pessoas, andam e andam, a fila parece não ter fim.

 Vejam! Aqueles não são os soldados do segundo marechal? - chama a

atenção de todos o auxiliar do conselheiro.

Mantendo-se escondidos atrás das pessoas, eles vêm os soldados do império

sendo escoltados por seis soldados vestidos como os outros, que eles

viram antes. De novo, não quiseram parar para pensar, continuaram

andando e dessa vez entram na floresta, para descansar um pouco.

 Não temos montaria para sair daqui! -Jia está com muito medo.

 Calma, Jia, vamos sair daqui. Apenas fique calma. - diz Jingfei. -

Conselheiro Yang, não é uma coisa aleatória o que está

acontecendo. Existe alguém responsável por isso. É o que acha,

também?

 Senhora Zhang, os resultados das minhas observações devo passar

somente ao imperador …

 O quê? O senhor está doente? Nós estamos aqui, vimos a mesma coisa

que o senhor viu. Passamos pelos mesmos perigos e o senhor só vai

falar sobre suas observações com o imperador? - desabafa Jingfei.

 Desculpe, senhora Zhang, mas a senhora veio por que quis. Essa é

minha missão para o imperador.

 Tudo bem, senhora Zhang. - interrompe Lin Ehuang. - É o dever dele,

o nosso era descobrir alguma coisa sobre nossos irmãos, não foi

isso?

 Verdade concubina Lin, verdade. - diz Jingfei se acalmando. - O que

observamos até agora é que aquele homem em Mar Azul não é o

líder, mas tem um harém que forma quando as pessoas entram em

transe e minha irmã foi uma das escolhidas.

 As crianças menores de seis anos, são todas mortas, assim como os

velhos acima de sessenta e cinco anos, pelo que observei. - completa

Lin Ehuang.

 Como vocês têm tanta certeza do que estão dizendo? - pergunta o

conselheiro Yang.

 Olha conselheiro, eu sou uma pessoa de um pensamento só, afinal sou

de capricórnio, certo? - começa comentando Jingfei.

 Capri … o quê?

 Não importa, o que é importante, conselheiro, é que a minha regra

é a seguinte, ou você está comigo ou não está. Simples assim.

Certo? Suas informações são para o imperador e as nossas são para

nossa consciência. O senhor entendeu?

 Entendi.

Xiuying, as duas, se afastaram um pouco em busca de frutas para todos comerem

e na volta veem os soldados livres subindo pela encosta.

 Senhoras, vamos sair daqui! Vimos alguns soldados livres subindo a

encosta e estão vindo para cá.

 Onde esteve, Xiuying?

 Senhora Zhang está com fome e fui pegar frutas, mas o mais

importante é sair daqui antes que nos achem!

 Certo, eu agradeço pela atenção e vamos andando.

A volta foi silenciosa, não havia mais troca de observações,

conversas sobre o ambiente ou qualquer assunto que pudesse

transformar a caminhada em algo mais agradável, afinal a estrada

estava vazia agora, todas as pessoas em transe ficaram para trás.

Teriam agora dois a três dias de caminhada até Jade Verde e de lá

mais dois dias até Mar azul e finalmente chegariam na Capital

Imperial. Uma pausa para um descanso e observar ao redor.

 Não deveríamos conversar com o conselheiro Yang?

 Sobre o quê? Os assuntos dele, devem ser conversados com o

imperador.

 Senhora Zhang, na ida fazíamos muitas observações junto dele,

agora acho que ele está tão sozinho.

 Concubina Lin, você é muito bondosa, mas como já dizia minha mãe,

a gente paga pelo que fala. Não é verdade? Toda aquela petulância

o levou a isso, nós não fizemos nada.

 É, você tem razão nisso. - sorri a concubina Lin.

 Vamos aproveitar esse momento tranquilo e a sós, para colocar nossas

conversas em dia.

 Que conversas?

 Concubina Lin, você é a outra garota atingida pelo raio?

Sim, eu sou. - responde a concubina Lin olhando em volta, mas Jia, que é

a única que desconhece o assunto, está muito na frente, conversando

com o auxiliar do conselheiro Yang.

 Meu nome é Isabela, mas todos me chamam de Isa.

 Prazer. Meu nome é Ângela. - responde a concubina estendendo a mão.

 Posso fazer uma pergunta?

 Claro.

 Você aceitou rápido o pedido de Xiuying, por quê?

 Não sei bem. - Ângela olha ao redor tristemente. - Talvez seja por

eu ter uma vida vazia e sem nenhuma perspectiva para o futuro, que

resolvi salvar o futuro de alguém.

 Essa é uma maneira bem virtuosa de ver as coisas. Você é mesmo

alguém com um grande coração.

 Por quê? Sua justificativa foi qual?

 Talvez porque minha vida também seja vazia e eu quero viver algo que

não seja aquela minha vida. - Isa olha para o horizonte com olhos

tristes também. - Xiuying disse que salvaremos o mundo aqui e a

Terra, que somos fortes o suficiente para isso. - Isa sorri. - Eu

quero muito ver isso. Há muito tempo eu desacredito que seja capaz

de alguma coisa a não ser ter pena de mim mesma. Uma vencedora, como

Xiuying diz? Eu quero ver.

 Parece que temos muita coisa em comum, acho que na mesma quantidade

que temos com Jingfei e Ehuang.

 Concordo plenamente. Essas duas sofreram o mesmo que nós, com

relação a nossas famílias e tudo mais.

 Você acredita em destino?

 Não sei. Por quê?

 Coincidências demais nessa história toda e eu não acredito em

coincidências. Acredito que algo está nos guiando para nosso

destino.

 E não é o de salvar dois mundos?

 Talvez. - concubina Lin olha para o céu azul sem nuvens e sorri. -

Será só isso? Eu me pergunto as vezes.

 Se você perguntar a Xiuying, talvez ela responda, porque tenho

certeza que ela conhece o futuro.

 Também acho isso, mas Xiuying nunca responde. Só diz que …

 Está tudo bem. Tudo de acordo. Acertei?

As duas sorriem.

 Você acha que elas são gêmeas?

 Não, não são mesmo. Parece que ela se dividiu, para facilitar o

trabalho.

 Eu não lembro dessa informação, mas era Xiuying que conversava

comigo, isso tenho certeza.

 Sim e provavelmente, como a que estava comigo fez, falou muita coisa

naquele momento que nos surpreendeu.

 Você não ficou assustada?

 Não. - Jingfei sorri e completa a frase. - Na verdade, fiquei um

pouco assustada.

 Eu também.

As duas sorriem. Olham juntas para o horizonte, para as montanhas com o

pico embranquecido pela neve. As duas sentem uma certa nostalgia de

uma infância cheia de risos e amor.

 Senhoras, vamos apressar o passo. Estamos chegando no local que

deixamos os cavalos. - alerta Xiuying.

Os cavalos estão no mesmo lugar em Jade Verde, embora estivessem

soltos, nenhum deles se distanciou muito e a presença deles vai

ajudar muito com o tempo de viagem.

Vinte dias depois de saírem da capital, sete pessoas retornam. Cansadas,

surpreendidas pelas coisas que viram, com ferimentos e um mal-estar

causado pelo antídoto, mas estão em casa de novo.

Capítulos
1 Capítulo 1 - O Reino das Águas
2 Capítulo 2 Um tiro perfeito, na direção errada
3 Capítulo 3 A Sala de Espera
4 Capítulo 4 O Caminho é longo
5 Capítulo 5 A festa de casamento
6 Capítulo 6 A nova casa
7 Capítulo 7 O jantar em família
8 Capítulo 8 O Imperador está morto! Viva o novo Imperador!
9 Capítulo 9 O futuro imperador
10 Capítulo 10 A Coroação
11 Capítulo 11 O retorno a cidade natal
12 Capítulo 12 Estamos de volta!
13 Capítulo 13 Momentos complicados
14 Capítulo 14 O palácio imperial
15 Capítulo 15 Uma concubina preferida
16 Capítulo 16 De volta a mansão Zhang
17 Capítulo 17 Um jantar para diversão dos convidados.
18 Capítulo 18 A convivência do casal dragão
19 Capítulo 19 As maravilhas de um bom relacionamento
20 Capítulo 20 O rumor
21 Capítulo 21 O aniversário de casamento
22 Capítulo 22 A Peregrinação
23 Capítulo 23 A terra treme
24 Capítulo 24 A terra treme e o palácio sangra
25 Capítulo 25 - Parte 1 - A terra treme, mas a esperança é sem fim
26 Capítulo 25.I – Parte 2 A terra treme, mas a esperança é sem fim
27 Capítulo 25.II – Parte 3 A terra treme, mas a esperança é sem fim
28 Uma vida e um sonho
29 O imperador e sua amada
30 A Sabedoria de Lin Ehuang
31 Um jantar muito divertido
32 Um corte no tempo – Os irmãos Tian
33 Um corte no tempo e um lugar para os irmãos Tian
34 Um corte no tempo e o alimento de Tian Long
35 As dificuldades de se governar
36 Conhecendo um ao outro e um convite
37 De volta a Jade Azul
38 Muitas aventuras do casal dragão
39 Um corte no tempo para os sonhos
40 Os Bárbaros
41 O Ataque
42 Os Bárbaros e a coragem
43 A volta para casa
44 O Festival do Fim do Outono
45 A despedida
46 Um continente desunido
47 Observações: Fim do primeiro Livro
48 Observações 2ª Parte
Capítulos

Atualizado até capítulo 48

1
Capítulo 1 - O Reino das Águas
2
Capítulo 2 Um tiro perfeito, na direção errada
3
Capítulo 3 A Sala de Espera
4
Capítulo 4 O Caminho é longo
5
Capítulo 5 A festa de casamento
6
Capítulo 6 A nova casa
7
Capítulo 7 O jantar em família
8
Capítulo 8 O Imperador está morto! Viva o novo Imperador!
9
Capítulo 9 O futuro imperador
10
Capítulo 10 A Coroação
11
Capítulo 11 O retorno a cidade natal
12
Capítulo 12 Estamos de volta!
13
Capítulo 13 Momentos complicados
14
Capítulo 14 O palácio imperial
15
Capítulo 15 Uma concubina preferida
16
Capítulo 16 De volta a mansão Zhang
17
Capítulo 17 Um jantar para diversão dos convidados.
18
Capítulo 18 A convivência do casal dragão
19
Capítulo 19 As maravilhas de um bom relacionamento
20
Capítulo 20 O rumor
21
Capítulo 21 O aniversário de casamento
22
Capítulo 22 A Peregrinação
23
Capítulo 23 A terra treme
24
Capítulo 24 A terra treme e o palácio sangra
25
Capítulo 25 - Parte 1 - A terra treme, mas a esperança é sem fim
26
Capítulo 25.I – Parte 2 A terra treme, mas a esperança é sem fim
27
Capítulo 25.II – Parte 3 A terra treme, mas a esperança é sem fim
28
Uma vida e um sonho
29
O imperador e sua amada
30
A Sabedoria de Lin Ehuang
31
Um jantar muito divertido
32
Um corte no tempo – Os irmãos Tian
33
Um corte no tempo e um lugar para os irmãos Tian
34
Um corte no tempo e o alimento de Tian Long
35
As dificuldades de se governar
36
Conhecendo um ao outro e um convite
37
De volta a Jade Azul
38
Muitas aventuras do casal dragão
39
Um corte no tempo para os sonhos
40
Os Bárbaros
41
O Ataque
42
Os Bárbaros e a coragem
43
A volta para casa
44
O Festival do Fim do Outono
45
A despedida
46
Um continente desunido
47
Observações: Fim do primeiro Livro
48
Observações 2ª Parte

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