Mamãe?

Traição é uma palavra forte, que carrega muito ressentimento e dor embutidos nela. Traça caminhos perigosos e desconhecidos, passando por cima de você como um tanque de guerra sem nenhuma piedade. A traição de um amigo, magoa, a de um namorado pode te dilacerar, mas o que dizer sobre a traição vinda da sua própria família? Da única mulher que por tanto tempo foi motivo da sua aflição, desespero em encontrá-la? Traição de mãe, simplesmente pode te matar, como um tiro seco. É assim que sinto agora.

— Isso não pode ser... — murmuro, incrédula. —Não pode ser verdade.

O som que sai dos meus lábios está carregado de dúvidas, envolvendo todo o ambiente em um jogo sinistro de mentiras.

— Kaya. — é tudo que sai dos lábios vermelhos dela por um momento. — Minha filha querida... — a sua voz embarga e ela engole em seco, tentando se recompor. — Sou eu, sua mãe. Você não tem ideia de quanto tempo eu aguardei por esse momento, de ter você voltando para mim.

Ela sai detrás do capo, que fuma seu charuto despreocupado, e vem na minha direção com certa pressa, sem perder a compostura o seu salto ecoa na sala. Ninguém diz nada, os homens apenas observam o dramático mundo das mulheres.

— Como você cresceu! Você já é uma mulher agora, minha pequena bambina. Linda, bella, bella. — tinha esquecido do seu sotaque, ela segura meus ombros e só aí Vince me solta. — Nunca mais vamos nos separar, eu prometo a você querida. — finaliza com um beijo na minha testa, seus olhos marejados.

— Minha pequena? — minha voz sai com desprezo. — O que tudo isso significa? Que você largou sua a filha por anos para seguir um sonho erótico e se tornar mulher de mafioso? — inclino a cabeça para indicar que eu notei a enorme pedra de diamante em seu dedo.

— Cuidado com suas palavras, criança. — a voz rouca do capo preenche o ambiente. Ele solta a fumaça do charuto pesado. — Como é dramático esse reencontro, verdadeira cena de novela. — ele rir. — Vocês nos dêem privacidade nessa reunião de famiglia, levem as sacolas para os aposentos da senhorita Leone. — aponta para os homens atrás de mim com o seu charuto.

Os homens obedecem imediatamente, recolhendo as sacolas e deixando a sala com uma reverência discreta ao capo. Sinto-me presa em um turbilhão de emoções conflitantes enquanto observo minha mãe se aproximar, seus olhos cheios de lágrimas e seu sorriso forçado tentando transmitir felicidade.

— Kaya, meu amor, você não pode imaginar como esperei por este dia. — ela murmura, sua voz embargada pela emoção. — Só queria que você entendesse que tudo que fiz foi para proteger você, para garantir um futuro melhor. Você é minha filha, meu tesouro mais precioso.

Sinto um nó se formar em minha garganta enquanto tento processar suas palavras. A sensação de traição ainda queima em meu peito, mas há também uma parte de mim que deseja acreditar nas boas intenções de minha mãe. Será que ela realmente fez tudo isso por mim, ou há algo mais por trás de sua decisão de se juntar à máfia?

— Eu entendo que você possa estar confusa, querida. — ela continua, sua mão gentilmente acariciando meu rosto. — Mas você precisa confiar em mim. Eu farei de tudo para protegê-la, para garantir que você tenha uma vida digna e segura.

Eu quero acreditar nela, quero acreditar que minha mãe tem boas intenções, mas há uma voz dentro de mim que continua sussurrando alertas de perigo.

— Eu não sei se posso confiar em você. — admito, minha voz vacilante. — Não quando você nos abandonou. Eu pensei que estivesse morta! Que aquele monstro tivesse... — vacilo, minha voz treme, todo meu corpo reage aos sentimentos presos no meu peito. — Feito coisas bem pior do que te matar.

Minha mãe nega com a cabeça e me abraça com força, suas lágrimas molhando minha pele enquanto ela murmura palavras de conforto. Por um breve momento, sinto-me envolvida por sua ternura, mas a sombra da desconfiança ainda paira sobre nós, ameaçando separar o vínculo frágil.

Enquanto nos afastamos do abraço, nossos olhares se encontram, e sei que há muito mais a ser dito entre nós.

— É, pelo visto temos muita roupa suja a ser lavada nessa noite. — o capo tira uma caixa ornamentada em madeira de uma gaveta e guarda o charuto. — Sente-se Kaya, sinta-se em casa. — ele indica um dos sofás de seu enorme escritório e levanta.

Minha mãe me conduz até o assento, sentando ao meu sem conseguir desgrudar os olhos de mim nem por um segundo.

— Sabe, quando sua mãe me fez esse pedido, para trazer você até aqui, imaginei que esse reencontro fosse diferente.

 Ele não olha para nós duas, ao invés disso vai até um pequeno bar e começa a preparar um whisky com gelo.

— A vida nos reserva surpresas, não é mesmo? — ele diz, enquanto derrama o líquido âmbar em um copo cristalino. — E parece que o destino nos trouxe até aqui, reunindo mãe e filha depois de tanto tempo. Mas vamos ao que interessa. — Ele se vira para nós, segurando o copo de whisky. — Você deve estar se perguntando por que a trouxemos até aqui, Kaya. E a resposta é simples: precisamos da sua ajuda.

— Agora não, Vittorio! Ela acabou de chegar, não despeje tudo isso na minha criança de uma vez só. — minha mãe é rápida ao interromper o homem em nossa frente.

— Entendo sua preocupação, Elena, mas a situação é urgente e não podemos nos dar ao luxo de esperar. — Vittorio responde com um tom firme, mas ao mesmo tempo respeitoso em direção à minha mãe.

— Mas não é justo jogar tudo isso sobre ela de uma vez. Ela precisa de tempo para processar tudo, para se ajustar a essa nova realidade. — Minha mãe parece desesperada, seus olhos procuram os meus em busca de compreensão.

"Claro, mais uma pessoa que julga fraca."

— Elena, minha querida, entendo seu instinto maternal, mas precisamos agir rapidamente. Não adiar isso nem por mais um segundo. — Vittorio insiste, sua expressão séria e autoritária revela a gravidade da situação.

Enquanto os dois discutem, sinto e a necessidade de entender o que está acontecendo me dar coceira. Tudo isso é tão surreal, tão distante da vida que eu conhecia antes. E então eu lembro das palavras de Vince no carro, me alertando para não demonstrar fraqueza e é aí que eu decido que também não quero adiar isso.

— Chega! Me contem tudo agora mesmo, eu aguento.

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Anonymous

Anonymous

Força, menina Kaya!

2024-03-10

1

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