Não consegui identificar o homem parado na frente da minha casa, mas também não quis ficar muito tempo tentando decifra-lo e acabar sendo pega. Não que Dario fosse me bater, ele nunca tocou em mim. Mas isso geraria mais um conflito entre nós. E quando você só tem um membro na sua família, é melhor evitar odiar essa pessoa.
O jardim da casa se estendia em uma tapeçaria verde de sombras e luzes intermitentes, à medida que os raios da lua filtravam-se através das folhas das árvores. Cada arbusto parecia esconder segredos na escuridão, e eu e Suni nos movíamos entre eles como duas fugitivas da policia, nossos corações batendo em uníssono com a ansiedade que nos consumia.
— Ele não parece estar por perto. Acho que podemos seguir em frente. — Sussurrei para Suni, tentando manter minha voz firme apesar da tensão que se acumulava em meu peito.
Nossos passos eram cuidadosos, cada movimento calculado para evitar fazer barulho. Cada sombra parecia esconder perigos iminentes, e cada folha pisada era um lembrete de que nosso plano poderia ir por agua abaixo a qualquer momento.
Finalmente, alcançamos a segurança relativa do portão dos fundos, e com um suspiro de alívio, empurramos com cuidado para abrir e escapar para fora. O ar noturno envolveu-nos com sua frescura revigorante, mas o alívio foi efêmero diante do perigo que me aguardava.
— Parece que conseguimos escapar! — Suni exclamou, seu rosto iluminado por um sorriso trêmulo.
— Sim, mas não podemos perder tempo. Não sabemos onde ele está. — respondi, sentindo a urgência se apoderar de mim.
O eco de nossos passos ressoava pelas ruas desertas, como um lembrete constante da solidão que nos cercava. À medida que nos aproximávamos da festa, as luzes vibrantes e o barulho pulsante da música eletrônica prometiam uma fuga temporária do peso dos meus problemas. Era como se cada batida do coração fosse uma tentativa desesperada de escapar da realidade sombria que agora me assombrava.
Assim que entramos no local, fomos envolvidas por uma mistura de cores vivas e sons, as pessoas pareciam dançar ao ritmo de sua própria melodia. A energia contagiante da multidão me sugou para seu turbilhão. De um lado casais se pegando sem qualquer pudor, do outro rolava um tipo de jogo que seu desafio é beber cerveja de cabeça para baixo. Festas de irmandades universitárias eram sempre assim? Bem, eu não sei, essa é a minha primeira.
Me joguei na pista de dança com Suni, me entregando aos poucos aquela energia eletrizante. Corpos suados roçavam em mim de vez em quando, era tudo muito novo, mas isso não é uma reclamação, eu estou gostando mesmo de experimentar novas experiencias. Me dou conta que um rapaz alto e forte está me encarando enquanto bebe sua cerveja, ele nem sequer disfarça seu olhar de predador!
Mas a felicidade efêmera que a festa proporcionava logo deu lugar à angústia quando percebi que Suni havia desaparecido. Logo quando eu iria perguntar se ela conhecia o tal rapaz. Não estávamos na festa nem à 30 minutos e minha amiga já tinha me dado um perdido.
O tumulto de rostos desconhecidos ao meu redor se transformou em uma parede impenetrável, e o medo começou a se infiltrar em cada fibra do meu ser.
Lembranças do acidente de carro, que tirou a vida do meu pai e deixou minha mãe desaparecida, ressurgiram dolorosamente em minha mente, como uma ferida que nunca cicatrizava completamente. A sensação de impotência que senti naquela noite assombrava-me como um espectro silencioso, lembrando da fragilidade da vida e da rapidez com que tudo poderia ser arrancado de nós.
Decidi começar minha busca por Suni no interior da casa, onde as pessoas se amontoavam em quartos escuros e corredores estreitos. Ao abrir a porta de um dos quartos, me deparo com uma cena digna de um filme adolescente: Suni e um rapaz se beijando freneticamente, tão envolvidos que mal percebem minha entrada.
Por um momento, considero interromper o momento romântico, mas decido que é melhor não atrapalhar. Com um sorriso travesso nos lábios, dou meia-volta lentamente, fazendo o mínimo de barulho possível para não chamar atenção. No entanto, meus esforços para sair discretamente são em vão quando esbarro em uma pilha de roupas no chão e caio de costas, derrubando uma luminária de mesa no processo.
O barulho ecoa pelo quarto, interrompendo o momento íntimo de Suni e seu acompanhante. Congelo no chão, envergonhada e sem graça, enquanto os dois se separam abruptamente, surpresos com a interrupção inesperada.
— Kaya? O que você está fazendo aqui? — Suni pergunta, sua voz misturando-se com a risada contida do rapaz ao seu lado.
— Ah, eu só estava procurando por você... — gaguejo, incapaz de encontrar uma desculpa convincente para minha presença inoportuna.
O rapaz se levanta, ainda rindo da situação constrangedora.
— Bom senhoritas, acho que vou deixar vocês resolverem isso. Boa sorte, Suni! — diz ele com um sorriso travesso pretendendo sair do quarto.
Percebo que o conheço de algum lugar. Então esse é o famoso Mike, claro, minha amiga estava de olho nele há tempos e eu não aguentava mais ela me enviando fotos dele sempre que ele decidia postar uma no Instagram. Suni me mataria se eu deixasse ele ir embora agora, não posso deixar isso acontecer, me apresso em repreendê-lo antes que ele possa dar mais algum passo.
— Espera aí, você não vai a lugar nenhum! — exclamo, tentando soar firme apesar da minha própria vergonha.
Ele se vira, um sorriso divertido brincando em seus lábios. Pela sua expressão, deve imaginar que vou sugerir algo entre nós três, eca.
— Oh, desculpe, eu só pensei que vocês precisavam de um momento a sós. — Mike levanta as mãos em posição de defesa.
Reviro os olhos, sentindo meu rosto arder de constrangimento.
— Não seja engraçadinho. Só... Fique, por favor. Eu entrei no quarto errado.
Encaro minha amiga, sem saber se devo rir ou pedir desculpas pelo flagra. No final, opto por uma saída rápida e discreta, desejando-lhe uma boa noite antes de sair do quarto e continuar minha busca por diversão na festa, esperando não encontrar mais surpresas embaraçosas pelo caminho.
Desço as escadas em direção à pista de dança, decidida a me perder na música e na multidão. Com um copo de bebida na mão, começo a me mover no ritmo da música, deixando-me levar pelo fluxo da batida. Entre um gole e outro, sinto-me envolvida pela energia pulsante da festa, e logo me vejo dançando sem me importar com mais nada ao meu redor.
À medida que a noite avança e mais álcool entra em meu sistema, minha coordenação começa a falhar. Em um momento de descuido, acabo tropeçando nos meus próprios pés e caindo de cara no chão, para grande diversão dos presentes. A vergonha toma conta de mim, mas o riso que ecoa ao meu redor me impede de levantar com qualquer orgulho.
Envergonhada, tento me levantar com dignidade, mas minhas pernas parecem ter vida própria, e acabo fazendo uma dança desajeitada que arranca risadas de algumas pseudo-piriguetes que estavam por perto.
— Olha só para ela, tão patética. Deve estar desesperada por atenção. — uma delas diz, seus olhos faiscando com malícia enquanto ela aponta na minha direção para suas amigas.
Percebendo que minha dignidade já havia sido lançada pela janela, decido dar o fora da festa. Olho para o relógio e vejo que são quatro da madrugada. Com um suspiro resignado, troco um último aceno com os poucos amigos que fiz naquela festa e ainda restavam de pé e me encaminho para a porta, pronta para encarar a escuridão da noite e toda a incerteza que o futuro me reserva. E, claro, Dario Darkwood.
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Atualizado até capítulo 25
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