Ynara...
Faz dois dias que minha avó está internada, os médicos diagnosticaram um agravamento no seu quadro, que necessita de cirurgia urgente. Ela entrou para uma extensa fila de espera, cheguei a discutir com o médico, porém, não tem o que fazer, pois existem mais pessoas com o mesmo problema aguardando na fila de espera.
Passei a noite como acompanhante, mas não preguei os olhos.
Estou desesperada, não posso perder a minha única família, ontem cheguei a ir até um banco para tentar pegar um empréstimo, mas não tenho nada em meu nome como garantia.
Acordo bem cedo, deixo minha avó aos cuidados das enfermeiras e vou direto para o trabalho, com a mesma roupa que fui ontem.
Ao chegar, guardo a minha bolsa na salinha e aproveito para passar uma base e apagar as olheiras.
Trabalho o dia todo com o pensamento distante, estava ajudando no caixa hoje, pois foi folga da outra menina.
No horário de almoço sempre revesamos, eu a outra moça do caixa ficamos.
Duas mulheres muito elegantes entram na loja. Fico preocupada, e peço internamente que não sejam como as do outro dia.
— Boa tarde, em que posso ajudar?
A mulher mais velha, me olha de cima em baixo, mas não é um olhar com arrogância. Ela é tão fofa, que dá vontade de apertar sua bochecha.
— Eu quero um vestido para um jantar de negócios! Mas nada muito elegante...
Nunca havia visto uma mulher tão fina e elegante como essa. É uma senhora de seus 70 e poucos anos, voz suave, delicada e muito educada. Não é como as metidas a ricas, que tem passado por aqui.
Mostro-lhes os vestidos, ela escolhe dois e a leva até o provador.
— Querida, eu gostei desse! — diz entregando-me. — Mas está um pouco largo na cintura!
O vestido que escolheu é o mais caro da loja.
— As costureiras foram almoçar, mas posso ver para a senhora! — digo educadamente.
A mulher parece me analisar e concorda.
Vamos para o provador, ela coloca o vestido e noto seus olhares em mim pelo espelho, parecia me analisar.
— Querida, está tudo bem?
— Está sim! Por que?
— Sua blusa está toda molhada!
Ao olhar na minha blusa, meus seios estão vazando, entro em desespero, pois as madames que frequentam aqui, ficam procurando motivos para levar reclamação para a chefe! E agora mais do que nunca, não posso ser demitida.
— Droga! Me desculpe senhora, eu...
— Se acalme, não tem porque ficar assim! Pode ir se trocar, eu espero aqui!
Rapidamente vou me trocar, por sorte, havia mais uma troca de roupas no meu armário.
Fico com muita vergonha.
Ao voltar, mais uma vez me desculpo e digo que isso não vai mais acontecer.
— Não sei a categoria de mulheres que frequentam esse estabelecimento, menina! No meu caso, acima de tudo sou mulher e sei que isso acontece ou como no meu caso já aconteceu algum dia!
A mulher insiste, em ficar sentada próxima de mim, enquanto faço os ajustes no vestido.
— Qual o seu nome, menina?
— Ynara!
— O meu é Yolanda! Quantas anos tem, Ynara?
— 23!
...Caramba, estou me sentindo num interrogatório!...
— E o seu filho? Tem quanto tempo?
— Meu... meu filho?
— Sim! Não amamenta?
Meus dias tem sido tão difíceis, que seguro para não chorar, mas mesmo assim, algumas lágrimas rolam por meu rosto e rapidamente as seco.
— Desculpe, falei algo errado? Não quis ser inconveniente! É só que estou entediada, gosto de conversar!
— Tudo bem! Minha gravidez foi complicada! Meu bebê tinha má formação e a médica avisou que talvez não conseguisse seguir com a gravidez e que se chegasse a nascer, teria graves problemas de saúde! Ao completar a vigésima semana, tive as contrações, meu menino nasceu, deu um pequeno suspiro e morreu em meus braços! — digo com o olhar fixo no nada.
— Eu sinto muito! História muito triste, menina!
— Minha vida daria um livro, mas não com um final feliz!
— Pelo que vejo, a perda é recente?
— Sim! Tem três semanas!
— E por que está trabalhando?
— Eu preciso do dinheiro, senhora Yolanda! Eu tive três dias de luto, foram os três dias mais dolorosos de toda a minha vida, mas agora, preciso seguir em frente! A dor de perder um filho, não passa, é algo inexplicável, difícil de superar. Na verdade, acredito que seja insuperável! Mas amei cada segundo, desde que soube que ele se formava dentro de mim, eu vivi a maternidade, aproveitando cada segundo dela! Agora estou aprendendo a conviver com a dor...
A mulher seca algumas lágrimas que caem de seus olhos assim como eu.
— Não compreendo! Não te deram o remédio para secar o leite?
— No hospital, algumas enfermeiras, me deram a sugestão de doar o meu leite! Não fazia ideia de que isso era possível e nem mesmo que existia esse negócio de banco de leite materno! Mas me disseram, que eu poderia salvar a vida de outros bebês com o meu leite! Além de ter mães que não conseguem produzir leite, tem alguns bebês que nascem com problemas de distúrbio genético, meu leite poderia ajudar essas pessoas! Inicialmente, eu disse que pensaria, pois estava muito abalada, com meu coração em pedaços! Após os três dias de luto, um estalo na minha cabeça, fez eu perceber que talvez a doação de leite materno, fosse o certo a se fazer! De alguma forma, eu e meu bebê, estariamos ajudando outras pessoas e isso faria dele um heroí! Após a realizção de exames, para confirmar que estava bem de saúde, a psicóloga veio falar comigo, queria ter certeza de que isso não me faria mal, que não afetaria o meu psicológico, a minha saúde metal! Estava doendo sim, mas a alegria de poder ajudar outras crianças, graças ao pouco tempo que passou por esse mundo, me fortaleceu de alguma forma!
— Menina, que história! Que coração grandioso você tem!
— Que isso, apenas faço o que é certo! É gratificante ajudar o nosso próximo, mesmo não tendo muito o que oferecer!
— Mas o pouco, se torna muito, quando se é feito de bom coração!
Sorrio fraco.
— Está pronto!
A mulher experimenta o vestido e dessa vez fica perfeito em seu corpo.
Assim que terminamos, voltamos para o caixa, as outras vendedoras já haviam voltado, então passo o vestido para a mulher.
— Vocês recebem por comissão, minha querida?
— Sim!
A senhora, faz sinal para a outra mulher que a acompanhava, ela coloca sobre a mesa uma pasta, diz que ali tem o valor do vestido. Não compreendo, por qual motivo a mulher não utiliza cartão de crédito. A caixa, fica ao meu lado me ajudando a conferir nota por nota.Estava passando cinco mil reais do valor, a outra caixa fez sinal para eu ficar quieta.
...... Até parece que vou ficar quieta! Preciso de dinheiro sim, mas não será passando a perna nos outros que vou conseguir isso!......
— Está certo senhora... — dizia a minha colega.
— Na verdade, não está não! — digo. — Está passando cinco mil reais!
A garota olha-me com o maxilar cerrado.
Pego a quantia e entrego para a mulher, ela agradece e vai embora.
— Nossa, como voce é idiota Ynara! Podíamos dividir o dinheiro...
— Se gosta de passar a perna nos outros, o problema é seu, mas isso é roubo! Sou pobre sim, mas não sou ladra, nem nunca serei!
Vou para a sala onde fica os nossos armários almoçar.
O dia foi exaustivo.
Passo em casa, tomo um banho e vou para o hospital.
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Atualizado até capítulo 114
Comments
Graça Barbosa
tadinha isso sim é sofrimento 😢
2024-12-09
1
Gedna Feitosa Gedna
Acho que foi um teste que a senhora fez com ela
2025-01-21
0
Gedna Feitosa Gedna
Pessoas honestas fazem assim, pois se vc ficasse com o que não é seu vc perderia muito mais.
2025-01-21
1