[…] Carregando uma pilha de itens encontrados no navio anterior, como pastas organizadas com anotações, mapas e documentos, relíquias valiosas e até mesmo uma caixinha de moedas de ouro e joias, eles se aproximaram do próximo navio, que era visivelmente menor e exibia sinais de sérios danos.
– Se não afundarmos nesse, não vamos afundar em nenhum outro. – Emi comenta irônica com uma voz hesitante.
Maroon pigarreia. – Capitã, não é meio perigoso, principalmente para a senhorita? – Ele se mexe com desconforto na canoa enquanto mantém-se movimentando o remo.
– Se fosse para afundar, já teria acontecido. – Ela conclui com indiferença.
O navio se erguia diante deles, apresentando uma aparência desgastada e desolada. Suas velas rasgadas pendiam precariamente dos mastros, enquanto a estrutura danificada indicava anos de negligência e abandono.
Eles atracaram a canoa ao lado do navio danificado e subiram a bordo, prontos para explorar os segredos que ele poderia revelar. O som dos passos ressoava pelos corredores sombrios e a pouca luz filtrada pelas fendas dos cascos quebrados iluminava os caminhos.
[…] Conforme exploravam as câmaras do navio, o trio encontrara compartimentos empoeirados e destroços espalhados, tal como o anterior. Entre os destroços, descobriram objetos antigos, como relógios de bolso enferrujados, relíquias banhadas a ouro, canetas com tinta seca e até mesmo um diário solitário.
O diário continha uma série de registros datados, oferecendo uma visão detalhada da vida a bordo. Entre as páginas manchadas de tinta, Aiko encontrou relatos sobre as viagens realizadas pelo navio, descrições das paisagens marítimas e encontros com outros navios e tripulações.
À medida que este era folheado, era visto algumas pistas sutis que poderiam estar relacionadas aos mistérios da embarcação. Havia menções a um "tesouro perdido de Golden Temple" e eventos misteriosos envolvendo ilhas não conhecidas.
– Devemos guardar esse diário para levá-lo também? – Maroon questiona enquanto sobrepõe a caixa com os itens resgatados numa mesa velha.
– Claro. – A capitã acena com um gesto. – Não vamos desperdiçar informações que podem nos servir mais tarde.
– Esse lugar traz um presságio tão deprimente... – Emi ressalta com uma careta, esfregando seus braços numa tentativa de se aquecer.
– Ele apresenta mais danos que o primeiro. – Maroon analisa cético as rachaduras espalhadas.
– Provavelmente sofreu muito no labirinto. Vamos continuar. – Aiko toma a frente para explorar os corredores sombrios e compartimentos abandonados do navio danificado.
Enquanto caminhavam, um cheiro estranho e distinto começou a invadir o ar. A capitã franziu a testa, intrigada, e seguiu o odor, guiada pela sua curiosidade inata. Emi decidiu ficar, o cheiro ignóbil a deixou enjoada, e Maroon pareceu hesitante, confuso com a tomada de decisão sobre ir junto ou ficar com Emi.
– Você pode ficar, Maroon. Seja o que for, não é bom. – Aiko se vira para eles, um sorriso de compreensão atravessando seu rosto.
Maroon suspira com um misto de alívio e apreensão. – Tudo bem, me chame se precisar de ajuda.
– Não vou precisar. – Com um aceno, ela se vira novamente para seguir o odor.
Finalmente, chegou a um aposento isolado, onde o cheiro se tornou mais intenso. Aiko hesitou por um momento, sentindo apreensão sobre o que poderia encontrar. Com cuidado, empurrou a porta rangente - antes bloqueada por dentro com uma cadeira aos pedaços - e entrou.
No centro do aposento, um feixe de luz fraco filtrava-se por uma janela empoeirada, iluminando uma cena macabra. Diante dela, havia um esqueleto deitado numa cama, o corpo de alguém que, à primeira vista, parecia ser o de uma criança encolhida. Este, estava parcialmente coberto por trapos desgastados e empoeirados, enquanto os ossos delicados pareciam frágeis.
"Ao ver essa cena, meu coração se apertou e instintivamente eu cobri minha boca com as duas mãos, uma mistura de emoções tomou conta de mim. Embora eu seja uma mulher geralmente resistente a situações difíceis, quando crianças estão envolvidas, algo dentro de mim se parte. A visão do esqueleto aparentemente pertencente a uma criança despertou memórias dolorosas da minha própria infância difícil. Eu me lembrei das adversidades que enfrentei quando era mais jovem e das batalhas que precisei travar para sobreviver."
Enquanto olhava para o esqueleto, notou-se que nas mãos frágeis, havia um pedaço de papel amarelado e desgastado pelo tempo.
– Ugh... – Ela se aproximou, seu rosto ficando branco e embotado.
Com cuidado, Aiko pegou o papel, sentindo sua textura quebradiça sob seus dedos. Ela desdobrou-o lentamente, revelando uma mensagem escrita com letras trêmulas e desbotadas. Era uma carta, uma mensagem final deixada por alguém que certamente foi importante para o pobre corpo esquecido ali.
"Querido Lore,
Eu escrevo estas palavras com um coração pesado e cheio de temor, pois algo terrível está acontecendo nesse mar perdido onde nos encontramos, você provavelmente previu isto. Sinto-me compelido a alertá-lo e implorar que tome cuidado.
As últimas semanas têm sido assustadoras e perturbadoras. Os tripulantes desta embarcação têm desaparecido um por um, sem deixar rastros, você está ciente disso. O que é ainda mais alarmante, é a melodia estranha e hipnotizante que ressoa no meio da noite nas proximidades, atraindo-nos irresistivelmente. Eu mesmo quase fui uma vítima dessa sedução nefasta, mas consegui escapar por pouco.
Acredito firmemente que o responsável por esses desaparecimentos, pode estar relacionado à figura com sorriso macabro, que eu pude testemunhar momentos antes de nosso navio ser tragado pelo vórtex.
Eu, juntamente com o capitão e alguns dos nossos membros, decidimos embarcar nesta jornada perigosa pelos arredores, na esperança de descobrir a verdade por trás desse monstro que está ceifando as vidas de nossos companheiros. Não posso deixar de sentir o peso da incerteza e do perigo que nos aguardam, mas é minha obrigação enfrentar essa ameaça em nome de todos a bordo, principalmente por você.
Peço-lhe que seja corajoso e cuidadoso, que negue à qualquer custo a influência da melodia hipnotizante se tentar contra você, pois ela é um chamado fatal para todos aqueles que a ouvem. Sei que é difícil compreender tudo isso, especialmente para uma criança como você, mas confio em sua inteligência.
Saiba que meu amor por você é inabalável, e minha maior tristeza é não poder protegê-lo pessoalmente neste momento. Rezo para que, quando essa escuridão se dissipar, possamos nos reunir novamente e encontrar a paz que tanto merecemos. Meu filho, por favor, compreenda que escrevo esta carta com um nó na garganta e com lágrimas nos olhos por ter saído sem ter a chance de vê-lo. Meu maior desejo é que você esteja a salvo, longe dos perigos que nos cercam.
Cuide-se, meu pequeno orgulho. Quero que saiba que os outros tripulantes estão alertas e farão de tudo para protegê-lo se algo acontecer. Porém, caso a situação se agrave e a segurança não possa ser garantida, é de extrema importância que você se tranque no quarto que costumamos ocupar e não saia de maneira alguma. Esse quarto é nosso último refúgio seguro e servirá para mantê-lo protegido até que a situação se acalme. Ore para que, quando essa provação chegar ao fim, possamos voltar à nossa busca incansável para voltar ao mundo exterior e alcançar a felicidade que tanto almejamos.
Com amor e saudade,
Seu pai."
Aiko leu a carta em silêncio, seus olhos percorrendo as palavras com intensidade. Era uma mensagem tocante, ressaltando o amor e preocupação do pai de Lore. Além de mencionar sua viagem em busca de respostas sobre o mal que residia àquele mar tenebroso.
Enquanto dobrava a carta novamente, sua mente se encheu de perguntas. O que aconteceu com os outros tripulantes? O que é essa figura sorridente que o pai do garoto afirma ter visto no vórtice? O que aconteceu nesse navio depois que eles saíram e aparentemente não voltaram mais?
"Embora meu coração estivesse aflito, também senti uma determinação ardente junto da tristeza, mesmo que carregada de incertezas, se acender dentro de mim. O desejo de desvendar os mistérios que cercavam essa criança se tornou ainda mais forte. Prometo a mim mesma que honrarei a memória de Lore, buscando respostas e justiça em sua memória."
– […] Capitã? Está tudo bem? – A voz preocupada de Maroon preenche o ambiente.
– Hum... Sim, está tudo bem. – Ela coloca a carta com cuidado junto ao corpo do pequeno Lore e, como um gesto de respeito ao falecido, retira a boina que usava e a segura delicadamente em suas mãos.
Ao sair do quarto, Aiko se encontrou com Maroon e Emi, que aguardavam no corredor.
– E então? Que odor é esse? Encontrou alguma coisa? – Pergunta a ruiva aflita, mas com uma voz embargada em curiosidade.
Um vislumbre de tristeza passa pelo rosto de Aiko, e ela compartilha. – Encontrei uma carta escrita pelo pai de uma criança que faleceu encima da cama. Ele parecia assustado e alertava sobre algo terrível que estava acontecendo neste mar. Os tripulantes desapareceram um por um, atraídos por uma melodia estranha e hipnotizante que ecoava durante a noite. O pai dele tentou descobrir o que estava matando seus companheiros e partiu em uma jornada com outros membros da tripulação. Ele suspeita que possa ser o mesmo "monstro" que parece ter visto antes do navio ser engolido pelo vórtice.
– Que horror! – Emi arregala os olhos e cobre a boca com uma mão.
– Eles vivenciaram um verdadeiro terror. É uma situação dolorosa... – Lamenta Maroon olhando para o chão, cabisbaixo. – Mas o que poderia ser esse "monstro" antes deles serem engolidos pelo vórtice? – Ele volta a olhar nos olhos de Aiko segundos depois, parecendo intrigado com a informação.
– Eu não sei. Mas não é tudo. – Ela chama a atenção dos dois novamente, que a observam com expectativa, e continua. – O pai pediu especificamente para que a criança se trancasse nesse quarto em caso de perigo. Mas também acrescentou que os outros tripulantes estavam cientes da situação e iriam protegê-lo, ele só deveria se trancar quando as coisas saíssem do controle... – Aiko reprime os lábios.
Emi suspira com melancolia ao pender a cabeça para trás, os olhos transbordando lágrimas. – Deve ter sido horrível.
– Então a senhorita estava certa, capitã. Tem algo muito perigoso rondando essas águas.
Aiko acena em silêncio, consciente de que a situação é grave. Ela olha para Maroon e Emi, esperando que eles compreendam a gravidade da situação e estejam dispostos a enfrentar os desafios que estão por vir.
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Atualizado até capítulo 16
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