XXIV - Controle Perdido

[…] – Segura a minha mão! – Ela se pendura para alcançar a mão do homem que estava suspenso.

Aiko se esforçou para subir o tripulante assustado de volta à segurança, mesmo lutando contra a angústia dentro de si mesma. Emi gemia com o esforço, o homem não mantinha uma forma física à favor da situação, cobrando-se mais que deveria.

Grom segurava seu charuto entredentes enquanto se aproximava o mais rápido que podia, embora a extensão do convés do Ésde também não favoreceu a distância entre eles.

– Só mais um pouco, Emi! – Aiko murmura enquanto veias saltam de seu pescoço e seu rosto enrugava.

A tensão geral parecia dificultar com maestria o cenário. As vozes tentavam minar a confiança, semear dúvidas e questionar a capacidade de todos. E estavam conseguindo se alimentar da fraqueza cada vez mais presente diante do navio encurralado.

No entanto, apesar da influência, a capitã não parecia tão afetada pelas vozes, e sim pela verdadeira tensão entre os membros e a falta de controle sobre a situação. Dentre todos, seu ônus da Akuma no Mi pareceu resistir à esse desafio imposto pelo labirinto. Pelo menos, até no momento.

...[…]...

..."Você sabia de tudo. Eles morreram por culpa sua."...

Uma voz sinistra e penetrante conseguiu encontrar a mente de Aiko, desviando sua atenção e abalando sua determinação. Diferente das vozes anteriores, essa voz parecia emanar da própria tocha vermelha, revelando-se apenas para ela.

"Eu me vi completamente envolvida pelas palavras daquele fogaréu dançante. O que ela queria dizer? O quanto sabia sobre mim? Isso é apenas um teste? Eu senti um arrepio percorrer minha espinha, lutando para resistir à influência perturbadora."

"Merecedora de uma morte lenta, uma verdadeira maldição das ilhas Earth Burning." – A voz incessante se manifesta outra vez.

Enquanto Emi se esforçava sozinha para levantar o homem na amurada, sentia uma necessidade avassaladora de se afastar e lidar com a tormenta interna que estava enfrentando. Como se estivesse hipnotizada, novamente foi chegando próximo da proa, com passos lentos e leves, parecia uma alma lutando contra seus próprios tormentos.

Apesar de estar consciente de que Emi precisava de ajuda para resgatar o tripulante, a mente de Aiko estava tomada por uma confusão sufocante e inquietante. Sentiu-se impotente diante das palavras daquela voz insidiosa, que parecia conhecer seus segredos mais íntimos e suas fraquezas. Uma onda de emoções pareceu a corromper, desde tristeza até a raiva e o medo. Aquela voz parecia conhecer os seus segredos mais sombrios e sua conotação não demonstrou piedade em expô-los. Memórias dolorosas e traumas do passado ressurgiram, ameaçando consumir o controle emocional da capitã.

Com uma voz grave e impaciente, Grom dirigiu-se a Aiko frustrado. – O que diabos você está fazendo, Aiko? Não é hora de se afastar e perder o controle! Estão precisando da nossa ajuda, você não pode simplesmente abandonar tudo agora para ir admirar essa porcaria! – Por fim, ele largou seu charuto e se aproximou para ajudar Emi a levantar o tripulante que estava na amurada.

Aiko sentiu a repreensão de Grom atingi-la, sabendo que ele tinha razão em sua abordagem. Virou-se lentamente para vê-lo ajudar Emi a erguer o homem de volta para a segurança, mesmo ele tremendo incontrolávelmente. Seus olhos vagaram pelo convés uma última vez, antes de voltar a atenção para a tocha rebelde.

"Eles morrerão se dependerem da sua ajuda. Você sabe disso." – A voz sinistra continuava a provocar Aiko, lançando acusações e parecendo zombar de sua integridade.

Ela cerrou os punhos e reprimiu seus olhos enquanto tentava se controlar, a fragilidade que demonstrava agora, tão palpável, a fazia sentir-se uma presa facilmente abátivel, apenas alimentando sua agitação interna.

– Você não... Huh?! – Os olhos da capitã se arregalaram ligeiramente ao se deparar com o que seus olhos capturaram, chamando sua atenção de forma perturbadora.

Ao observar a base da tocha, onde deveria haver o símbolo do vórtice que ela e Maroon encontraram mais cedo, agora havia um único olho vermelho, emitindo a mesma cor intensa do fogo que ardia na tocha.

Aiko sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao encarar aquela manifestação. Era como se estivesse olhando para o reflexo de sua própria dor e perda, como o reflexo de seus olhos. Num instante, uma imagem vívida surgiu diante de seu subconsciente, mostrando uma versão mais jovem de si mesma, perdida entre os destroços de Earth Burning.

Essa visão trouxe de volta todas as lembranças dolorosas e os sentimentos de desamparo que Aiko havia enterrado profundamente dentro de si. Ela se viu novamente, pequena e vulnerável, cercada pela ruína e pela tristeza que a acompanharam ao longo de sua jornada.

– Aiko!... – Uma voz distante a chamava. Aquela voz grave e irritada, era Grom. Ela não podia responder. Estava completamente hipnotizada pelo olho vermelho.

– E-eu não consigo me mexer... – Suas palavras saem com um eco, ela não estava mais encarando a realidade. Novamente, se viu presa em um estado de choque, como nos velhos tempos.

Aiko encontrava-se completamente imersa no transe causado pelo hipnotizante olho vermelho. Ela estava presa em um estado de choque, quase como se estivesse em sonho. Incapaz de se mover, a imagem de seu eu mais jovem perdido continuava a girar em sua mente, trazendo consigo uma enxurrada de emoções que ela havia experimentado naquele período difícil de sua vida.

"Enquanto eu estava catatônica, presa em memórias e emoções, uma figura distinta e amaldiçoada emergiu da escuridão. Era ela..."

– Limite suas emoções ao que limitar o poder confiado à você, Lírio. – Disse-a com sua presença sombria, como uma ilusão bem feita, parecendo contrastar com o transe em que se Aiko se encontrara.

Aquela presença murmurou tentando transmitir uma mensagem para Aiko. No entanto, antes que as palavras pudessem ser compreendidas, ela desapareceu, deixando a garota atordoada e confusa outra vez.

– "Lírio..." […]

Aiko gradualmente começou a recuperar seu estado de consciência, afastando-se do transe hipnótico. Enquanto as imagens e emoções se dissipavam, ela se encontrava diante da tocha vermelha, com a visão da imagem de si mesma mais jovem desvanecendo aos poucos.

"Adotada por um demônio ou controlada por ele?" – A voz novamente se revela com uma conotação zombeteira.

As palavras penetrantes ecoavam em sua mente, alimentando a chama de raiva que crescia dentro dela. Seus olhos tremiam com emoções conflitantes, e seus punhos se fecharam perante ao seu limite.

– CALE-SE! – Em um gesto de fúria, Aiko avançou em direção à tocha vermelha. Segurando sua espada firmemente, ela concentrou sua energia e fez uma rajada de vento com a lâmina, apagando a chama queimante. O vento soprou forte, como se respondesse ao turbilhão de emoções que consumiam Aiko.

Ao canalizar sua energia através da espada, fez com que a rajada de vento cortasse ao meio a tocha, deixando uma grande fenda na parede que a sustentava. Os olhos vermelhos de Aiko brilhavam com uma intensidade impressionante, refletindo a ira que se manifestava dentro dela.

Após o ato, ela respirou fundo, sentindo uma mistura de alívio e exaustão. Tudo se aquietou novamente.

– Aiko! Pelos deuses, garota! – Grom se aproximou, apoiando-a para que permanecesse de pé.

– Eu sinto muito. – Ela observa o convés, os tripulantes parecem estar recobrando suas consciências.

– Eu não sei o que diabos aconteceu enquanto você encarava aquela coisa, mas parece que sua Akuma no Mi foi recarregada e o inferno acabou nesse tempo. – Grom anuncia enquanto observa os olhos de Aiko que agora brilham com seu vermelho intenso.

Um sorriso fraco tomou os lábios de Aiko. Ao escapar um suspiro, ela se endireitou novamente, afastando-se de Grom e caminhando em direção ao convés. Decidiu então certificar-se de que os tripulantes estivessem conscientes e ofereceu ajuda para se levantarem.

Eles pareciam gratos, alguns ainda estavam confusos, conquanto outros pareciam mais aliviados. Emi se enrolava novamente em sua echarpe verde, Maroon limpava seus óculos em silêncio, e Grom zombava de alguns tripulantes enquanto se recostava em um dos corrimões. Aos poucos, a recuperação entre eles foi se mostrando mais presente. Até então.

– C-capitã... – Chama um tripulante que estava próximo a popa do Ésde.

Aiko acompanha a voz do homem e um suspiro involuntário escapa dos seus lábios.

– Lá vem. – Resmunga Grom revirando os olhos, antes de se virar junto dos demais para ver o que estava acontecendo.

Em direção ao Ésde encurralado, um novo vórtice surgiu repentinamente diante deles, avançando ferozmente. Não demorou muito para que o vórtice envolvesse o navio em que estavam, sugando-o para dentro de sua espiral frenética e tumultuosa.

– Segurem-se firme! – Aiko anuncia, e todos seguem seu comando agarrando a qualquer coisa que pudessem encontrar para se manterem firmes enquanto eram envoltos por essa tempestade misteriosa.

Tudo ao redor começou a distorcer e desfocar-se enquanto o navio era arrastado para dentro do vórtice desconhecido.

Antes que a visão desaparecesse completamente, uma figura sorridente surgiu no centro do vórtice. Seu sorriso era enigmático e parecia carregar tanto malícia quanto encanto. No breve instante em que se pôde vê-la, uma sensação de familiaridade misturada com um arrepio de desconhecido se apoderou do lugar, ou melhor, da entrada para uma nova dimensão.

No entanto, assim como rapidamente o vórtice surgiu, ele se dissipou, liberando o Ésde de sua influência vertiginosa. O navio emergiu em um novo cenário, deixando para trás o enigma do sorriso e a incerteza do que aquela figura poderia representar.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!