XXIII - A Tocha Vermelha

– Nas cordas da guitarra, a prisão eu vos sinto...

Sentimento que consome, um vazio que não minto.

Eu anseio escapar, por voar além das fendas,

O silêncio é mortal, opressão em meras lendas.

E assim, a guitarra solitária nos guiará,

Para além dos caminhos que nos fazem hesitar.

Vivendo a vida, doce como uma fruta vermelha. – Diz ela enquanto encara o morango sobre a amurada.

Sua acidez natural, reflexo que se espelha.

Vamos juntos, embarcar... no real desconhecido,

E encontrar a liberdade, trilhando esse domínio.

Saboreie, delicie, aproveite o quanto puder.

Riscos, emoções, uma experiência qualquer.

...[…]...

Emi, com sua guitarra em mãos, encontrava-se imersa em um momento de serenidade e tranquilidade no meio do silêncio assombroso do labirinto. Enquanto tocava suavemente as cordas, suas notas musicais ecoavam pelo ambiente, criando uma atmosfera reconfortante e acalentadora enquanto ela inspirava-se em uma simples fruta vermelha que descansava sobre a amurada.

Sua música parecia transcender as paredes opressivas do labirinto, trazendo um breve alívio para a tensão que envolvia a equipe. As notas suaves e melódicas criavam uma sensação de paz e esperança, permitindo que todos temporariamente se desconectassem do perigo iminente e encontrassem um momento de escape.

[…] – Ei, se não conseguirmos sair desse labirinto, pelo menos vamos morrer com uma espécie de música dedicatória. – Zomba um dos tripulantes entre seu trio.

– Foi para nós ou para o morango que ela pegou para comer e decidiu se inspirar? – O segundo questiona enquanto observa Emi degustar a fruta.

– Tanto faz. Vamos morrer de qualquer jeito. – O outro retruca com um tom desanimado e preguiçoso.

– Vira essa boca, moleque! – A testa de Grom se franze antes de um suspiro pesado. – Mas devo admitir, até que você melhorou muito, gaita. – Grom observa Emi e acentua com afeto suas últimas palavras.

– Devo considerar que deixei de ser uma gaita irritante então? – Ela sorriu divertida antes de lamber os lábios.

– Não, não, não, também não precisa exagerar. Isso é impossível mudar, e nem chegou tão longe assim. – Ele retruca com um sorriso de soslaio.

Os tripulantes pareciam descontraídos enquanto compartilhavam aquele breve momento, todos juntos no convés. Aiko, por outro lado, permanecia no seu posto solitário, sem se deixar levar por essa ou qualquer outra distração.

"Eu tinha consciência de que a tripulação contava comigo para encontrar a saída e conduzi-los em segurança de volta à rota principal. O pensamento de falhar e deixar todos presos no labirinto me deixava inquieta. Eu saí da rota, era minha responsabilidade encontrá-la novamente."

Apesar dos desafios e da pressão, ela se mantinha focada em encontrar a entrada para a rota dos corais azuis. Não permitiria que o labirinto conseguisse o que tanto almejava; levá-la a desistência. As fendas emitiam uma luz alaranjada agora, o sol estava se pondo. Horas se passaram e o Ésde parecia seguir em uma rota infinita apenas com vias disponíveis à boreste.

...[…]...

Conquanto o Ésde continuava a avançar pelo corredor, uma nova descoberta capturou a atenção de todos. À frente, eles avistaram uma parede adornada com uma tocha solitária, mas desta vez a chama que a envolvia era de um vibrante vermelho. Não havia mais saída.

– O que?... Outra tocha? – Aiko se afasta do leme e caminha em frente, com intriga estampada em seu rosto.

– Sua preocupação é a tocha?! Estamos presos, não tem como avançar e nem voltar para trás! – Grom murmura com raiva.

– Eu gostaria se você pudesse parar de lembrar o que está nítido para todos. – Ela se vira abruptamente em direção a Grom, com uma voz áspera. – Maroon. – Continuou seu caminho antes de chamar a atenção do tripulante que se aproximou com um aceno.

– Talvez devemos nos preparar para mais alguma artilharia, capitã. – Era tudo o que Aiko gostaria de ouvir, confirmando suas suspeitas.

Era incomum encontrar outra tocha com uma chama de cor diferente das demais. A chama, dessa vez vermelha, parecia pulsar com uma energia intensa, emitindo uma luminosidade quente e cativante.

Aiko, curiosa e determinada a investigar o significado por trás da tocha, aproximou-se cautelosamente da parede. Ela examinou de perto, observando cada detalhe e buscando pistas que pudessem levar a respostas sobre sua natureza e propósito, sem ousar tocá-la.

– Será que todas tochas dispostas aqui são peças para armadilhas? – A capitã pergunta para Maroon que se juntou a inspeção minuciosa.

– É uma pergunta intrigante. Não sei se deveríamos arriscar à descobrir. – Ele faz uma pausa momentânea enquanto ainda analisa a tocha com chamas dançantes. – No entanto...

Aiko observa a expressão do tripulante que se ajeita, tomando uma postura ereta e rígida. – Vejo que não temos escolha além de tentar. – Ele examina as paredes rochosas à volta, e o caminho de via única atrás da popa do navio.

– Entendido. – A capitã suspira enquanto se vira para o convés, envolvendo uma mecha atrás da orelha antes de encontrar os olhos dos tripulantes confusos. – Peço para que se mantenham atentos ao redor, daremos um jeito de sair daqui.

– Quanta perda de tempo. – Grom acende um charuto enquanto se afasta do convés.

...[…]...

Aiko retornou à luz da tocha e verificou se poderia haver algum mecanismo secreto ou compartimento escondido, buscando por qualquer indício de que pudesse revelar informações relevantes para a equipe. Passou os dedos suavemente pela superfície, investigando se havia alguma inscrição, marca ou símbolo que pudesse ser relevante.

Após uma análise minuciosa, notou-se uma pequena inscrição na base da tocha. Com cuidado, ela limpou a sujeira acumulada e revelou um símbolo enigmático, uma espécie de espiral entrelaçada com runas antigas ao redor dela. Era evidente que aquilo não era apenas uma decoração comum.

– Isso te lembra alguma coisa? – Aiko se vira para Maroon que sorri como resposta.

– Um vórtice. – Ele diz compartilhando a mesma conclusão da capitã. E com uma reação tão rápida quanto, Maroon franziu o cenho e puxou violentamente Aiko para o lado.

Diante de um ataque repentino com a ponta de um coral familiar - e afiado - o evento pegou a todos de surpresa, mas graças aos reflexos rápidos de Maroon, a capitã foi puxada para trás, evitando uma perfuração sangrenta em suas costas.

– Perdoe-me pela falta de delicadeza, capitã. – Ele se curva rapidamente ao se redimir.

Respirando fundo, ela rapidamente se recompôs e sorriu vagamente. – Não se preocupe, eu estou bem.

"Enquanto o cenário ficava mais sombrio ao nosso redor, a tocha vermelha começou a exibir uma agitação inquietante. Suas chamas dançavam de maneira frenética, projetando sombras distorcidas nas paredes do labirinto, intensificando a escuridão que nos cercava. De repente, as lamparinas espalhadas pelo Ésde começaram a apresentar esse mesmo comportamento e o mesmo padrão de movimentos, como se estivessem possuídas por alguma força oculta."

– O que significa isso?! – Um dos tripulantes diz com voz acanhada. Todos pareciam aturdidos com a nova mudança variante do labirinto.

O momento de silêncio pairava no ar mesmo diante da agitação do fogo. Qualquer coisa poderia acontecer em uma situação tão difícil de ser compreendida como essa.

Foi então que, de repente, as paredes do labirinto começaram a vibrar com uma energia desconhecida. Um murmúrio suave e inquietante começou a emergir, crescendo gradualmente em intensidade. As vozes surgiam das profundezas das paredes, ecoando pelo labirinto e penetrando nos ouvidos dos tripulantes.

Os sussurros eram perturbadores, quase como se fossem um chamado vindo de outra dimensão. Eles variavam em tom e cadência, criando uma cacofonia de vozes indistintas e assustadoras. Algumas pareciam choramingar, outras sussurravam palavras ininteligíveis, enquanto outras ainda emitiam risos sinistros.

..."Desistam... Rendam-se à ele... Não conseguirão fugir e não vão vencer […]"...

As vozes ecoavam pelos corredores do labirinto, criando uma atmosfera opressiva e persistente. Os tripulantes sentiam o frio percorrer suas espinhas, e as expressões recaídas em suas faces demonstravam que estavam deixando-se levar pelas vozes murmurantes.

..."Felizmente nessa situação, isso não é algo novo para mim."...

– Lembrem-se do treinamento! – Aiko levantou a voz, fazendo-se ecoar pelo grande corredor escuro. – Treinamos não apenas o físico, mas o mental também. Serão derrubados se permitirem ser vencidos pelo alheio, é esse o fim que desejam?

– A-a capitã está certa. Não podemos... – Balbucia um dos tripulantes que luta contra as vozes invasoras em sua cabeça. – ...Não podemos nos deixar vencer!

Veias saltam da testa de Grom e ele grunhe, buscando por um charuto. – Eu não vou esperar essa situação me enlouquecer.

Os tripulantes pareciam lutar para não se renderem as vozes, abafando os ouvidos numa tentativa frustrada de afastar as vozes que pareciam presas ao cérebro de cada um. Até mesmo Maroon, antes impassível, agora demonstra dificuldade em se manter lúcido.

– Isso é irritante. – Grom comenta após tragar seu charuto, entre todos, ele era o único que conseguia manter alguma serenidade em meio às vozes diversas.

– Você está bem?! – Aiko questiona enquanto percebe o suor escorrer da testa do velho ferreiro.

Ele balança o charuto em sugestão, demonstrando a razão da calmaria. – Não se preocupe comigo. Cuide de si mesma, Aiko. Precisamos encontrar uma saída.

Ela assentiu em concordância, mesmo sentindo uma sensação de inquietação, manteve-se firme. Com um suspiro, decidiu voltar em direção a proa, onde supostamente estaria a tocha vermelha solitária.

"Meu coração estava disparado enquanto eu passei pelo convés e percebi que as vozes sinistras estavam começando a exercer uma influência perturbadora sobre eles. A crescente inquietação dentro de mim se mostrou presente enquanto os olhares deles se tornavam vazios e suas expressões se distorciam, revelando que estavam sendo afetados de alguma forma."

Observei a grande tocha na parede e meu cenho se franziu ligeiramente. – Seja o que você for, sua festa acaba aqui, não vai tirar a sanidade dos meus companheiros! – Ela examinou o convés superior e encontrou uma garrafa d'água cheia. Estava disposta a destruir a chama vermelha.

Com pressa, foi subindo os degraus dispostos para a proa, e seus dedos apertaram-se sobre a tampa da garrafa, desrosqueando-a com praticidade. A chama parecia mais viva com a aproximação de Aiko, e mesmo com a garrafa aberta em mãos, ela fez uma pausa enquanto seus olhos avermelhados encontravam a cor chamativa da tocha.

"P-por que eu não consigo apagar o fogo?..." – Ela pensa consigo mesma enquanto tenta lutar contra a rigidez do próprio corpo.

– A-AIKO! – O grito urgente de Emi corta o transe da capitã.

– Huh?! – Ao seguir o grito da ruiva, a cena revelou a razão da urgência na voz de Emi.

Antes que Aiko pudesse intervir e mediar a situação, um dos tripulantes perdeu o equilíbrio e quase caiu da amurada. Emi, mesmo com dificuldade em se manter diante das vozes, agiu rapidamente, estendendo a mão para puxá-lo de volta. Grom estava longe, e não conseguiria chegar à tempo de subir o rapaz.

Aiko, consciente da urgência da situação, correu em direção a Emi e ao tripulante em perigo.

...O terror tomou conta do convés....

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