"Eu sou o ser e não ser. Já existi mas agora não existo. Sou a sua esperança que como uma fênix planejou, mas, jamais renasceu." - Alice Cardoso (gritos de uma muda)

Capítulo onze: mau agouro.

- Seus olhos - chama a atenção dela - eles não são mais os mesmos - ela faz uma expressão confusa - eles não tem mais o mesmo brilho... - olha para a pessoa ao seu lado ao invés do reflexo dela.
- Eles viram muita coisa que já não podem desver - diz amarga terminando um rabo alto de cavalo ajeitando com as mãos os fios rebeldes.
O silêncio se faz novamente companheiro de ambos. Ambos se voltam para as portas metálicas e encaram os números irem do maior para o menor.
- Eu não disse nada da boca pra fora... Falei tudo de coração, incluindo o eu te amo - olha para baixo sem saber para onde olhar.
- Sinto muito - o olha pela primeira vez em tempos, e ele ergue a cabeça com uma expressão facial de incógnita - não posso dizer o mesmo - ambos se encaram profundamente procurando a verdade não dita.
No entanto, ambos não encontram essa verdade oculta. Pois, ela não está e existe apenas uma, ele a ama e ela não. Pelo menos, não mais.
As portas se abrem e Alice é a primeira a sair sendo acompanhada por Kim Taehyung já que, para ele a conversa ainda não havia acabado.
- Espero que você siga sua vida e seja verdadeiramente feliz - murmura olhando ao redor do grande salão pouco interessada.
- Eu não consigo, não sem você Alice. Eu ainda te amo muito, me deixa reconquistar o seu amor - implora já não aguentando mais a olhando nos olhos.
- Eu não posso me deitar ao lado de alguém me traiu. Não posso confiar em alguém em quem não confio. Não posso beijar uma boca beijada por outra enquanto era minha. Não posso tocar num corpo que se encaixava perfeitamente ao meu e que decidiu se entrelaçar com o de outra - para e diz o encarando nos olhos.
Ao ver uma lágrima escorrer do olho esquerdo dele, mesmo a sua expressão não aparente sinal de choro, mais lágrimas caem inevitavelmente. Com toda a sua compaixão Alice limpa as lágrimas de Taehyung e ele toma sua mão depositando um suave e carinhoso beijo nas costas de sua mão pálida, devido ao frio do edifício. O mesmo abre as pálpebras que fechou com força querendo que aquele momento fosse apenas um pesadelo ruim. Porém, ele sabe que aquilo é a sua dura e fria realidade. Alice sussurra que precisa ir e ele prontamente acena que não, não permite que ela lhe deixe novamente.
- Você não vai entender agora mas, foi necessário tudo isso acontecer para que algo melhor viesse para ambos ou pelo menos, é nosso que eu prefiro acreditar. Não que foi um mal desnecessário que nós fez sofrer tanto - trás a mão lentamente de volta para si e encara o mesmo olhar desolado para a mesma.
Se afastando lentamente, ela movimenta os lábios dizendo um "adeus" silencioso, e então segue seu caminho com um pequeno sorriso. No fim das contas como presumiu, tudo isto ter acontecido foi necessário para que pudesse sorrir agora. O pensamento lhe conforta, e lhe acompanha até o percurso que dirigiu para chegar no hospital; o sentimento lhe abandonou na porta.
O caminho foi um pouco turbulento, trânsito? Não, dores? Incômodos? Quase. A melhor resposta seria... Auto-tortura psicológica; passou se não todo a maior parte do percurso pensando se fez as melhores escolhas e após algumas lágrimas solitárias derramadas, concluiu terem sido as melhores decisões, para que, ambos já não sofram mais.
Ao chegar no hospital, foi diretamente para o banheiro e lavou o rosto. Precisa parar aquelas lágrimas insistentes sem motivos "Por que diabos estou chorando? Que raiva!." pensou frustada enquanto olhava seu reflexo no espelho. Uma jovem-mulher cansada e até mesmo, exausta.
Enxugando o rosto com alguns pedaços de papel higiênico, afasta todos os pensamentos negativos que estão querendo tomarem posse de sua mente e pensa no quanto a mais velha precisa de apoio, precisa dela. Inteira. Completa. Não faltando nada de nada. E assim se dispôs ao procurar Sra. Minerva na ala em que o amigo está hospitalizado. Ela se sentou ao lado da mais velha que chorava agarrada ao seu paninho. Paninho bordado por ela mesma com a imagem do Santo Antônio estampado, rezava com toda fé cabível de que o filho iria se recuperar e de que tudo daria certo. Sua oração não foi interrompida pela aparição repentina da mais nova, pelo contrário, Alice se juntou a ela silenciosamente em uma oração pessoal sua.
Quando já não tem mais a quem recorrerem, ambas usam de sua fé como bengala para lhes dar o suporte necessário.
- Obrigada, filha você estar comigo faz eu me sentir melhor - diz com seu olhar de mãe afetuosa e carinhosa apesar de seus glóbulos estarem avermelhados devido a irritação de tanto chorar.
- É o mínimo que posso fazer pelo Edward ou que possamos no momento... Vai dar tudo certo! - Estampa um sorriso abraçando a mais velha que retribui concordando.
Ambas esperam pacientemente 2 horas de uma cirurgia delicada e complicada compartilhando momentos íntimos que tiveram com o mesmo que louco, amável Edward Mewton. Contam, por exemplo, quando ele alegou (claramente bêbado) ter se casado e realmente, o infeliz estava de papel passado e tudo! Foi um choque e tanto a mãe quanto a melhor (e única) amiga dele ficaram entristecidas pela pobre menina que teria de aguentar as dificuldades e o desgaste que é cuidar dele, no entanto, no dia seguinte ela apareceu aos berros na casa dele e na presença de Alice e da mãe do garoto, lhe estapeou alegando que teria lhe traído não tendo nem dois dias de matrimônio.
E ele ria e ria doido devido a heroína que injetou não fazia nem meia hora, a droga ilícita estava a todo vapor em suas veias trabalhando para que ele funcionassem completamente fora das suas faculdades mentais. A menina tirou a aliança e lhe atirou com força o fazendo de alguma maneira desconhecida, cair como uma folha soprada pelo vento, ele bateu a cabeça e perdeu a consciência assustando todas. Pobre menina! Não sabia que havia se casado com um louco, apesar de que, burra é ela não? Ora, perdão o linguajar, mas, Edward não aparenta o mínimo de decência nem exerce atos que dão a entender; é um cafajeste de carteirinha! E ela alegou arrependida que tinham se casado sendo que se conheciam a apenas semanas! Semanas! "É o fim dos tempos minha filha, o fim!" Dona Minerva lástima a Alice o ocorrido enquanto a mais nova se segurava para não rir.
Apesar de toda sua má-fama e males causados, ambas concordam plenamente que Edward lhes gerou boas gargalhadas com suas bobagens e acontecimentos loucos. "É um bom menino. Só tá perididin no mundão" dizia Dona Carmem vizinha de Minerva e também confidente, viu o menino crescer e enfrentar o falecimento do pai (câncer no pâncreas) e a mãe entrar na prostituição; ela dizia "Esse sofre visse zinha, cuida-te da tua cria ou vai é se perder. Cuida-te!" Dizia com seu típico sotaque alertando a colega quando lhe via passar. Quem disse que ela lhe dava moral? Dava coisa nenhuma! Ignorava com direito a cara feia e tudo mais... Pagando hoje centavo por centavo sendo ignorada pelo próprio filho, vida que gerou do próprio ventre e abandonou em vida.
- Oh! Doutor! Como está meu menino? - Diz com a voz rouca da exaustão, ouviu barulhos de passo e ao olhar cheia de esperança para a porta viu o então médico cirurgião que comandava a equipe. Estavam tentando reanimar ele e ao conseguir, foi obrigatório fazer a cirurgia no joelho, fígado e estômago; a coisa estava assombrosa, disse ele mais tarde em surdina.
- Senhora, Senhorita... Preferem a boa ou a má notícia primeiro? - Diz com ar de poucos amigos fazendo ambas se levantaram para que possam melhor lhe olhar nos olhos.
- A boa! Preciso de conforto e consolo! - Diz aparentando angústia e desespero tanto na face como na voz. Seja o que for, quando mãe pega pra sofrer não há quaisquer Santo, Deus e crença que lhe acalme até saber que o filho está mesmo bem.
- A boa é que teu pouco antes da cirurgia ficou lúcido... Falou pouquíssimo zinha' mal deu pra ouvir. No que entendi disse os números 1357 e 9. Me lembro perfeitamente e até anotei! Parecia importantíssimo - diz procurando no olhar de ambas algo que lhe tirasse a curiosidade.
- Ora! E isso lá é boa notícia seu doutor? - Minerva pergunta desolada.
- Tia, e como é! Deve ser a combinação daquela caixinha onde ele guarda cartas e papéis... Vi ele pôr números parecidos com os que o Sr. Doutor dissera agora. Deve haver alguma para que você, eu ou nós possamos ler - deduz tocando o queixo forçando a mente para se lembrar de quaisquer outro detalhe falhando.
- A má notícia... - O atuante de medicina vindo do interior para a capital, cruza as mais na frente do corpo e abaixa a cabeça antes de levanta-lá como se procurasse força - ele não resistiu. Sinto muitíssimo, teu' fio' já tava era nas últimas senhora Minerva... Sinto muito! Há quem lhe envenene os ouvidos, mas era bom menino. Oh, se era! Uma pena ter ido assim. Tão novo e tão cheio de sonho - dava as condolências, como se fosse íntimo.
Foi um agouro, Dona Minerva não se aguentou mais em pé e desmaiou alí mesmo caindo durinha no chão. Foi um tal de Deus nos acuda; e acudiu. Os médicos rapidamente ampararam a senhora lhe levando para um quarto, horas depois quando recuperou a consciência acordou aos choros e berros "Quero meu filho! Meu deus! Por quê me tirou meu bebê?" gritava chorosa com duas enfermeiras de prontidão tentando lhe acalmar. Foi um luto sem fronteiras...
De imediato, Alice não pôde reagir, estava tão em choque quanto a mãe do garoto. No entanto, pediu para que pudesse ver o corpo do amigo pedido que foi firmemente negado afinal não era parente de sangue. Ficou duvidosa, não era possível! Não podia? Teria como? Ficou sentada se remoendo, não conseguia acreditar. Não poderia! Não podia! Não iria! Saiu de lá as pressas se sentindo sufocada, quase asfixiada naquele lugar esbranquiçado e sem vida com cheiro de remédio e enfermidade.
Nem encostou no carro, saiu e foi andando desassociado o real do imaginário estava confusa e frágil que até mesmo o próprio vento, se pudesse lhe tomaria nós braços e levaria ela para longe; não duvi-dai. Ela seguiu por caminhos estreitos, atalhos e vielas. Pensou na sobrinha e ainda tem tempo de degustar um pouco do seu amargo luto. Quando deu por si chegou no seu refúgio tão necessitado e amado por si mesma: a praia. Imensidão de mar e oceano azul esverdeado que é infinito mo horizonte tendo fim apenas a olho nu. O sol brilhava e poucas famílias estavam presentes afinal, aquela era uma área de risco e pouquíssima frequentada, as famílias que ela via enquanto descia as ruidosas escadas de madeira estavam bem longe do seu campo de visão.
Caminhou pela areia tirando os saltos que tanto amaldiçoava com raiva e ódio, não pelos pobres calçados mas pela situação. Rezou reza braba para que o amigo não morresse e ele morreu, implorou a tudo que é santo e divindade pra' ele não morrer e morreu; sua fé ficou abalada.
Ao chegar afastada da margem que as ondas chegavam no seu limite, recuou alguns passos com o pensamento proibido que começa com "S" e se afastou, se sentou na areia e encarou o mar. Uma, duas, cinco, dez, onze e várias outras vieram depois destas lágrimas de agora, um choro silencioso; sem voz nem som, somente dor. Só sentimento. Seu coração está em frangalhos, falhou miseravelmente em salvar o companheiro de vida e perde agora toda sua fé em tudo e todos quem acreditava poder salvar o amigo. Eram mentirosos! Vigaristas! Barganhadores! Imorais! Condenou. Condenou muito-lhes até a alma! Mulher em fúria é bicho sem tamanho.
Se encolheu toda. Magra e pálida sem se importar com os espasmos devido ao frio e pelos arrepiados, deixou que as lágrimas seguissem seu curso e servissem de fator umidecedor para a areia. Seu líquido cristalino salgado se funde a areia densa se tornando em poucos segundos, algo inexistente. Segurando a cabeça com ambas mais sentindo ela doer intensamente, grita plenos pulmões abaixando a cabeça. Era seu coração, estava doendo e muito. Não conseguia mais segurar e conter toda aquela dor, estava cada vez mais e mais insuportável. Tirou o casaquinho preto formal lhe deixando de lado sentindo que lhe faltava ar, a sensação não passava; ofega com força e velocidade não suportando mais absolutamente nada.
As vozes que assombram sua mente lhe auto depressiando, tomam formato e cor aparecendo diante de seus olhos. Ela olha assutada em direção ao mar vendo seu padrasto de pé em sua frente e recua sentada para trás; pupilas arregaladas, ar preso no pulmão, é ele. E então ao lado dele vê também sua mãe, ao lado dela vosso pai tão querido assim como sua tia morta. Feminicidio. O culpado jamais pagou o preço. Vê também a distorcida imagem de Kim Taehyung na forma de um monstro (reconheceu devido a aliança), seus medos, inseguranças e tormentos agora não possuem mais somente voz como também presença.
Eles são reais. Sempre foram. Sempre serão?
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