"Eu era inteira, até meu bem mais precioso e puro ser tirado violentamente do meu ser. Agora, serei eternamente a metade. Incompleta. - Alice Cardoso (a cega que muito viu)

Capítulo dez: espinhos.

Ficando imóvel ignorando todo o discurso inicial feito pela chefe, Lice fica em transe encarando a face visivelmente alegre de Kim.
Finalmente ela percebe como sua fisionomia mudou. As características de sua face estão mais másculas, sombrancelhas mais grosseiras, lábios mais carnudos, nariz pouco empinado e moldado; suas bochechas estão mais rosadas também. Seu corpo se tornou mais atrativo ao olhar curioso e indecente de quem assim prefere ver. Algo nele, mudou.
De cara fechada, a mesma vai até seu lugar e se senta numa cadeira perto da que sua chefe de sentaria. Decide não comprimento o convidado recebendo um olhar surpreso da chefe visto que, ela costuma ser bastante receptiva.
- Hum... Alice? - chama a atenção da mesma que lhe olha com seus olhos de oblíqua dissimulada. Tal como ela mesma se caracteriza como a modesta Capitu, protagonista dum romance que tanto admira.
- Perdão - diz sem remorso algum e se levanta encarando sem qualquer comoção o homem a sua frente, põe as mãos atadas a frente de si - é um prazer imenso receber vossa senhoria na Editora Halley. Somos referência em autores autônomos e líricos cujo objetivo é se expressarem através da sua escrita. Espero que o senhor veja o quão competente somos e que essa parceria... - olha para a patroa esperando uma aprovação, recebendo um aceno frenético para que dê continuidade - seja de benefício ambíguo.
A mesma força um sorriso de lábios dóceis e se senta pegando o papel a sua frente. Precisa se distrair. Precisa. Olhou demais para aquelas íris castanhas ardentes perigosas. Não marrom carvalho imovel, qual apenas faz presença. Mas sim, marrom como a tora de madeira que se incendeia lentamente sob a fogueira incontrolável.
- Aprecio profundamente o trabalho que fazem aqui. Por isso, minha empresa visa que vocês foram a melhor das opções entre as Editorias para firmar uma parceria de mínimo 3 anos - diz olhando fixamente para a nega que se recusa a lhe retribuir o gesto.
Ambos se sentam a mesa para discutir a negociação. Logo, a mais velha de ambos percebe a tensão que paira no ar. Principalmente quando surpreendentemente Alice lhe dá uma alfinetada e ele lhe retribui próximo da intensidade; se encararam de maneira tão profunda que ela acreditou fielmente que iriam se matarem ali na sala.
A reunião foi breve. A proposta foi dada e agora ele enfim saiu da sala. Ambas devem decidir antes que ele deixe o edifício, já que, a empresa em que Kim Taehyung trabalha tem pressa em firmar a parceria e em segredo, a Editoria Halley enfrenta dificuldades financeiras. Alice não sabe e se depender da também amiga, não descobrirá tão cedo.
- E então? Acha promissor a parceria? - Diz com cautela analisando as reações da amiga. Está realmente surpresa com sua mudança repentina de humor.
- Não acho viável. Quantia de rendimento geral baixo, fama não muito promissora. Não fui com a cara daquele sujeito, não gostei do jeito dele. A empresa tem um nome estranho - dispara raivosa encarando os papéis sobre a Empresa Fênyx ( uma agência de investimento tendo diversas parcerias com firmas de veículos automobilísticos e anúncios que promovem a cultura).
- Amiga, me conta o que diabos está acontecendo. Vocês só faltaram se matarem durante a reunião! Estou pasma - diz segurando as mãos da colega de trabalho que imediatamente as toma para si no impulso.
- Jully se eu pudesse eu pegaria aquele homem pelo pescoço e torceria igual uma galinha - diz se levantando mantendo os olhos fixos nas íris verdes curiosas - passe minha proposta para Rosália ela concerteza apreciaria!
- Mas a proposta foi dada a você! Não a nossa melhor escritora de contos infantis. Eles querem uma escritora como você e não como ela - diz desgostosa vendo a outra andar pela sala impaciente.
- Ele é meu ex-namorado, meu maldito ex-namorado - vai até a extensa vidraçaria encarando como os edifícios vão desde o chão até suas pontas tocarem o céu e dispara frustada - íamos ficar noivos. Eu soube, ele iria me pedir em casamento mas simplesmente do dia para a noite mudou completamente comigo. Foi se tornando mais frio e distante, até mesmo agressivo - encara as mãos cujos dedos são pálidos, inconformada - até que eu soube. Ele me traiu com uma amiga minha. Então eu terminei, vagabundo - murmura o xingamento por último e se vira para a supervisora - Ahh! Eu não posso, não posso nem olhar na cara dele que tenho vontade de lhe encher de socos! - diz com a voz pouco esganiçada cerrando os punhos - ele foi minha primeira vez de tudo e a última também. A verdade é que eu nunca mais fui a mesma depois dele Jully.
A mais nova se senta no lugar onde ele estava, sem reparar e bate a cabeça na mesa frustada não se importando com a dor. Nenhuma será tamanha comparada a que sentiu quando foi deixada pelo seu suposto grande amor.
- Aí, Lice... Eu sinto tanto - a loirinha vai até a amiga se sentando ao seu lado, lhe abraça com ela ainda na mesma posição que esconde seu rosto - já entendi, não tem problema... Outras oportunidades virão não é mesmo? Está tudo bem.
Nega faz menção de se levantar e a colega se afasta lhe dando espaço, ela suspira frustada e olha para a amiga.
- Já vou indo, preciso... Você sabe - pega a bolsa pondo a alça sobre o ombro - desculpa por... Jogar isso em você assim, eu não queria - abaixa o olhar arrependida.
- Alice está tudo bem nós somos amigas faz muito tempo é normal desabafarmos uma com a outra - diz sorridente - melhoras pra você - por estar acostumada com o jeito da amiga, decide lhe dar o espaço que acha conveniente.
Sem querer prolongar a conversa, Alice acena se despedindo e sai lentamente da sala sentindo que mais uma vez está fugindo não somente do problema mas também de si mesma. Ao sair e olhar para os lados faz cara feia vendo o culpado desta conversa que particularmente acha ter sido desnecessária. Ela rapidamente o ignora e caminha em passos rápido para sua sala.
- Vai continuar fugindo de mim? - diz presunçoso vendo a mesma se afastar. Quando ele diz, ela para imediatamente e se vira com os olhos avermelhados pelo choro que segura deixando ele sem reação.
- Você foi embora da minha vida pela mesmo porta em que entrou. Não vem querer bancar de bom samaritano agora - diz num tom elevado devido a distância logo dando-lhe as costas.
Chegando em sua sala, ela se permite afundar na cadeira de seu escritório e abaixar a cabeça dentre seus braços que estão sobre a mesa. Só precisa de alguns minutos para poder respirar fundo e não deixar que sua negatividade tome conta de si.
- Alice, podemos conversar? - uma voz masculina ecoa de fora da sala da nega mas ela responde prontamente.
- Não. Não podemos - diz alto por preguiça de levantar a cabeça e se encolhe mais.
- Eu... Por favor, me desculpe - diz a voz falha irritando a mesma.
- Pelo o que? Faça me o favor... Vai embora Taehyung - levanta o rosto com raiva encarando a porta com os olhos queimando em ódio mesmo sabendo que ele não possa ver.
Um longo silêncio toma posse do ambiente e ela presume que ele foi embora podendo abaixar a cabeça voltando a pensar em tudo que aconteceu desde que Edward ficou em coma, até o momento que se encontra.
- Ah! Edward! - Murmura frustada arrastando o braço até a bolsa pendurada na cadeira.
Lice se lembra que tem de ligar para a mãe do melhor amigo e se condena por ter esquecido. Precisa urgentemente de notícias dele para poder ficar em paz consigo mesma. Ao pegar o telefone, vê várias ligações perdidas de dona Minerva e poucos segundos após procurar onde retornar duas ligações, recebe outra da mais velha e atende.
- Alice! Ah, Alice! - A voz chorosa e cheia de soluços se faz um alerta para preta.
A mesma fecha as pálpebras com força sentindo a dor invadir seu peito. Um pressentimento horrível lhe toma e fica sem saber como continuar naquela ligação.
- Tia Minerva - clama carinhosa - o qua aconteceu? Por favor, me diz
- Meu bebê entrou em cirurgia faz 2 horas, duas horas! Meu coração já não aguenta de tanta agonia e dor. Ele teve uma convulsão foi algo assustador... Eu estava do lado na hora... Aí! Filha, você não pode vir fazer companhia para sua tia? - mal consegue dizer devido a tamanha dor em imaginar o pior mas, Alice entende.
Ela já estava arrumando a alça da bolsa sobre o ombro de modo que o acessório ficasse na lateral do seu corpo, ela se levanta enquanto a mais velha ainda fala e pressente uma crise de ansiedade a caminho. O que é péssimo. Lice obviamente concorda em marcar presença e desliga.
"Deus, por favor não deixa acontecer com meu bestie. O que será de mim sem ele? Sei que ele já fez e faz muita merda... Mas ele merece uma... Décima quinta chance? Ai, eu nem tenho argumentos. Mas, eu te peço do fundo do meu coraçãozinho pra não deixar ele ir".
Após uma pequena prece, ela vai até a porta e ao abrir na pressa saindo na mesma velocidade, se bate com o corpo de alguém e pede perdão se afastando. No entanto, ao ver quem é faz cara feia e mentalmente retira seu pedido.
- Não tenho tempo pra você. Nem agora, nem amanhã. Achei que já tinha ido embora - diz de mal humor trancando seu escritório dando as costas para o indivíduo cuja presença se tornou indesejável não somente em seu cotidiano, mas, em sua vida.
- Você vai me ouvir - prensa a menor contra a porta e ao se virar, ela lhe olha com desdém e escapa dele indo em direção ao elevador - Alice Cardoso! Porra! - Esbraveja com raiva indo atrás dela.
- Vai pro inferno Taehyung seu maldito do caralho - grita o mesmo que corre atrás de si.
- Para de fugir de mim, me ouve - pega a mesma pelo braço e ela automaticamente lhe retribui com um tapa na cara.
A mesma o encara arfando e se assusta ao ver a marca que suas mãos causaram na face pálida do mesmo. Está tão vermelha que lhe lembra uma pimentão do reino.
- Nunca. Nunca mais ponha suas mãos imundas em mim - aponta para ele o indicador alertando pela última vez.
A mesma lhe dá as costas e anda rápido até o elevador apertando o botão para o térreo. Fica lá parada encarando as mãos de sentindo culpada, mas, sabia que era necessário. Não pode admitir que ele lhe persiga deste modo e invada não somente seu espaço pessoal, mas, seu ambiente de trabalho. Ela pega com as mãos trêmulas no celular e liga para Jully lhe avisando da saída de emergência que precisa fazer. A colega entende e autoriza. Aliviada, Alice desliga se sentindo pouco melhor. Durante os poucos segundos que demoram para que a caixa metálica chega, ela se atenta em se virar e ver se ele ainda estava lá. Apenas para garantir que ele já tinha ido, no entanto, não acha o mínimo necessário ou viável então se mantém firme de braços cruzados.
- Eu não vou embora. Tudo bem, me desculpe por ter te tocado - ele começa a falar e a mesma respira fundo expirando com raiva cortando-lhe a fala.
- Por que caralhos você não me deixa em paz? Me erra! Me esquece! Finge que eu nunca existi na porra da sua vida - explode de raiva gritando plenos pulmões com o mesmo, já não suporta mais aquela situação.
- Por que eu ainda te amo desgraça então dá pra me escutar nesse caralho? Acha que foi fácil? Jura? Acha que eu queria te trair? Eu não queria! Eu não queria Alice eu nunca quis fazer essa merda com você - grita de volta fazendo a mesma dar um passa para trás e ao perceber, ele foi lentamente diminuindo seu tom de voz - você é a mulher da minha vida e eu me senti um merda pelo o que eu fiz. Eu... Eu comecei a agir daquela maneira por que a puta da sua amiga me disse que podia estar grávida. A desgraçada me fez assumir durante esses 3 anos um filho que não era meu! Que não era meu - grita claramente puto deixando a mesma incrédula. Era muita informação.
Ambos ficam de encarando. Dois machucados, duas pessoas de coração partido e mente cansada arfando quase que silenciosamente. Estão fartos de carregarem o peso de todos nas costas sem necessidade alguém, no entanto, achando que é o melhor. Alice desvia o olhar do ex-companheiro sentindo que irá ceder e encara as portas metálicas se abrirem, encara o chão pensando no que fazer e como não encontrou uma reposta no seu coração decidiu seguir sua mente que lhe mandou entrar. A mesma se encosta na parede espelhada e o encara ficar ali em pé, tão vulnerável lhe olhando com o olhar implorando para que não vá. Ela se recusa a lhe olhar e encara sua direita pensando que iria lhe distrair daquela onda de informações.
- Eu não terminei - ele diz ao entrar no elevador e ficar tão próximo que a mesma arregala as orbes o olhando.
A mesma se afasta para manter uma distância segura e encara a porta se fechar. "Nao se engane. Não olhe nos olhos dele. Não faça isso. Alice Cardoso pelo amor de deus... Não..."
- Foi possível fazer o teste somente nesse ano, que é o que a lei permite. Que o bebê esteja com no mínimo 3 para ser realizado o teste. Eu fiz sem ela saber e descobri que eu não era o pai. Foi um alívio, não vivíamos na mesma casa e eu toquei minha vida da maneira que pude. Não consegui me envolver com mais ninguém, era uma tortura pensar que eu estava a ponto de viver meu felizes para sempre e ver que ele foi destruído por alguém que dizia partilhar do desejo de nós ver felizes juntos... Eu fiquei destruído - diz também não aguentando olhar a ex-companheira diretamente em suas íris azuis.
Sem saber o que dizer Alice se encara no espelho e tenta arrumar o cabelo como maneira de distração. Toda a dor acumulada do passado quer voltar de uma vez e ela não pode se permitir sofrer desta maneira. Já está passando por muita coosa ao mesmo tempo e mais essa pode lhe trazer novamente para o poço sem fundo que está tentando sair faz muito tempo.
Kim que estava de cabeça baixa, ao levantar o olhar e olhar para frente, vendo através do espelho consegue enxergar que ela está ao seu lado arrumando suas madeixas cacheadas. Somente então ele repara em como ela mudou; pálida, olhar cansado e corpo magro. Não é a mesma Alice tão cheia de vida que conheceu. Não é a mesma. E concerteza, nunca mais será.
Mas, porque as pessoas mudam?
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