lV.

“ — Tia, por que minha mãe não voltou?

— Ela foi pra um lugar muito lindo. Onde somente os anjos podem ir e onde só suas asas são capazes de lhes levar.

A garotinha de olhos grandes e curiosos encarava o céu tão azul e imenso com poucas nuvens, impedindo os raios solares.

— Então, eu quero ir pra lá! Quero ser um anjo, e ficar com mamãe — diz sorridente olhando para a tia.

— Um dia Isabella. Um dia.” — Ela acabou indo primeiro que eu. Câncer. (Alice Cardoso)

ᴄᴀᴘɪ́ᴛᴜʟᴏ ϙᴜᴀᴛʀᴏ: ϙᴜᴀɴᴛᴏ ᴠᴏᴄᴇ̂ ᴇsᴛᴀ́ ᴅɪsᴘᴏsᴛᴀ ᴀ ᴘᴀɢᴀʀ? 

★·.·´¯'·.·★ [  A.E  ]★·.·´¯'·.·★

— Lissa, cuide da Amélia, por favor! Estou indo para o hospital denovo com Edward. Por favor... Cuide bem da minha pequena — pede com dificuldade devido a sua gigantesca vontade de chorar, mas consegue ser clara no pedido durante a ligação.

— Estou a caminho da sua casa. A chave está dentro do vaso azul não é? — diz pegando seus pertences às pressas já saindo de casa trancando com o auxílio da chave.

— Não, não eu mudei. Está no vaso da minha rosa, preciso ir a médica está me chamando. Até logo — desliga entrando na parte traseira do veículo médico e se senta no assento acolchoado.

— Senhorita o estado dele é grave. A frequência cárdio pulmonar não para de cair e os batimentos cardíacos estão cada vez menores. Sinto muito mas devo alertar com antecedência de que ele pode não resistir — a mulher que aparenta ter entorno dos 40 é para Cardoso, sinônimo de sagacidade e vivência.

Logo, se sente a vontade para confiar no diagnóstico dado pela mesma apesar de isto lhe doer profundamente. Ela encara o amigo tão pálido quanto habitualmente é e se entristece vendo que falhou miseravelmente mais uma vez em ajudar ele.

— Consegui estabilizar doutora Rosa — diz um rapaz muito novo e quem aparenta ser enfermeiro.

— Bom trabalho Pedro. A senhorita possui a documentação do rapaz?

— Não senhora... Ele... Perdeu num jogo de poker — diz com um gosto amargo na boca lembrando do ocorrido de mês retrasado.

Alice percebe os olhares que ambos trocaram e dá de ombros. Está muito cansada para pensar em qualquer outra coisa, se não o seu refúgio para onde estava indo pouco antes desse caos se formar. Os profissionais tentam extrair mais informações dela, mas em vão já Cardoso responde superficialmente cortando suas investidas.

“Pobre Amélia. Eu deveria estar sendo sua melhor companhia agora, no entanto, sai na calada da noite rumo à solidão. Que ótima tia eu sou”. A beldade, abaixa sua cabeça de modo que fique pouco acima das suas pernas separadas. Alice está no país da loucura denovo, não para de pensar e só pensa, pensa, pens, pensa e pensa. Sua cabeça começa a doer, então ela leva a mão até a testa pressionando com o dedo do meio, o indicador e o polegar tentando parar de pensar tanto.

Após limpar sua mente de todas as possibilidades do que poderia e não poderia ter feito, a imagem daquele homem de repente aparece em sua consciência. Apesar da situação em que estava, admite mentalmente com desgosto que ele é bonito afinal, mas não parecia ser alguém de boa índole visto o negócio que lidera. Se lembra de ter percebido nele características de um sul-asiático, incluindo suas facetas únicas como os seus olhos profundos e marcantes, trajes de grife e um corte militar padrão. Ainda assim, de alguma maneira ele se destacava dentre os vários homens que tinham na calçada.

Alice decide ligar para a mãe de Edward chamada Dona Minerva que logo atende a ligação com o coração aflito pois o filho tinha novamente desaparecido. A notícia da hospitalização do primogênito lhe afundou em tristeza, muita mágoa e lágrimas partindo o coração daquela que estava ouvido as lamentações.

Há poucas semanas ou dias, Edward passou o final de semana na companhia de Alice, ela se lembra bem. Saíram juntos para a praia, fizeram compras e se divertiram muito na companhia um do outro. Ele ficou todos aqueles dois dias sem encostar um dedo no injetor da droga e parecia outra pessoa! Alguém saudável, bem alimentado e amado como sempre foi. Ele tinha recuperado o resquício de sanidade e saúde mental que possuía antes de afundar nesse mundo. No entanto, a alegria acabou não durando e ele logo se submeteu ao vício no narcótico.

Contemplar o óbito do pai aos 14 anos provável foi o gatilho inicial para a depressão do jovem que desde então evoluiu para vícios. Com o passar dos anos o seu estado se agravou lentamente, evoluiu para ansiedade alta, síndrome do pânico e do impostor até ele sentir a necessidade de extravasar a todo custo.

Foi quando ele foi numa festa com um amigo; ele ofereceu. Edward aceitou. Aceitou firmar um eterno pacto com a droga que como um parasita tiraria tudo que tinha. E tirou, quase tudo. Exceto o amor das pessoas que querem bem ver ele bem. Curado, afinal, o vício é uma doença. Doença esta que se não humilha, destrói, o uso desenfreado das drogas ilícitas tira-lhe os entes queridos que não estão aptos para lidar com tais loucuras das quais essas porcarias nos submetem a cometer.

Ainda assim, Mewton tem alguém para estar ao seu lado independente do que. Ele recebeu pouco amor da mãe que durante toda a juventude serviu de brinquedo para homens com dinheiro que buscavam diversão e prazer mesmo que temporário. Em decorrência disso, não tinha tempo para o filho que estava se afundando cada vez mais no lado obscuro da vida e quando ela percebeu, aos 35 anos (16 anos depois) já era tarde demais. Edward já não queria sua atenção e tampouco seu amor “barato” como ele mesmo chama.

Retornando para o desenrolar da história, ao chegar no edifício próprio para tal situação os médicos encaminham Mewton para a UTI. Lá, eles tratam e cuidam dos hematomas, feridas abertas, machucados e infecções que minuciosamente encontraram. Alice segue na ala de espera, aguardando boas notícias que demoram para vir, essa ausência logo fica cutucando a sua ansiedade exigindo que ela apareça.

O desgaste mental acabou gerando melatonina em excesso fazendo com que Lice adormeça profundamente sonhando com monstros. Eles eram seu reflexo, seu primeiro amor, seu passado, suas inseguranças e defeitos... E algumas coisinhas a mais. O efeito deste pesadelo é tão intenso que ao despertar ela não soube associar o que é real ou do seu imaginário e viu coisas que nunca tinha visto em sã consciência até perceber, que não estava nem um pouco sã.

Esfregando as pálpebras com as costas de suas mãos, ela boceja completamente esgotada. A vida adulta tem o poder de tirar toda e qualquer vontade. Ou pelo menos, é assim que ela pensa.

Se sentindo inquieta como sempre ela se levanta e caminha pelo corredor encarando as paredes brancas mudarem de tom dependendo da ala. Rosa pastel berçário, azul pastel centro cirúrgico, amarelo claro ala de receber soro...

— É bonito — admite parando em frente a uma vidraçaria. Se aproximando, tenta curiosa olhar o seu conteúdo e sorri vendo diversos bebês dormindo profundamente em um sono digno.

Afinal, a luta deles acaba de começar.

— Senhorita, estão lhe procurando — uma gentil morena das madeixas onduladas que despojam sobre seus ombros, se aproxima.

— Ah, obrigada — ajeita a bolsa sobre seu ombro e dá uma última olhada ao berçário.

— Tem desejo de ser mãe? Ou já é? — a jovem que aparenta ter idade semelhante da protagonista questiona curiosa.

— Tenho apenas o vago desejo. Mas, nem todas nós somos aptas — memórias conturbadas de uma infância problemática, comprometem sua resposta.

— Bem, maternidade não é um dom. Algumas parecem destinadas ou coisa do gênero, mas eu discordo. Acredito que tudo se ganha com tempo e paciência.

Alice concorda vagarosamente pensando em como seria caso fosse mãe. E esse pensamento logo a abomina quando considera a hipótese de rejeitar seu filho quando ele vier ao mundo, seria algo muito deplorável para ela rejeitar fruto do seu ventre e de um amor compartilhado. De volta para a recepção, ela toca rapidamente o abdômen e contrai os lábios amarga. Gostaria de ser mãe, no entanto, querer nem sempre é poder.

— Oh! Alice! Meu pobre menino! Pobre Edward! — a senhora de 40 e poucos anos desata em lágrimas assim que Alice toma-te nos braços — sinto tanto por não ter cuidado de meu menino. Deus! Como fui uma vadia burra!

— Tia Minerva! Se poupe de tamanha angústia e se conserve para dar apoio ao seu filho, ele precisa mais do que nunca de todo seu amor. Mesmo que ele ainda se negue a vê-lo — com um sorriso doce, limpa as lágrimas da senhora tão querida.

Desde que a conheceu se prostituindo na boate “Afrodite” por incrível que pareça, Alice simpatizou de primeira com a mais velha. Na época, a garotinha tinha por volta dos seus 9 anos quando viu a mãe do melhor amigo sair da boate rumo à um carro. Lice nunca esqueceu da imagem de uma mulher que não desvaloriza somente seu corpo mas a si mesma quando usa dele como uma oportunidade de ganhar dinheiro. Quando cresceu, ela então percebeu a tristeza e o significado que aquela realidade carregava consigo.

A necessidade torna os seres humanos tão desumanos quanto sua mente possa imaginar. A necessidade lhes submete a todo tipo de trabalho, humilhação e até mesmo a sua própria desumanização.

Enfim, quando completou seus 11 anos Alice Cardoso viu A Sra. Minerva com outros olhos ao cuidar dela em seu dia tão especial. Afinal, a senhora que sofria de dilemas alcoólicos chegou bêbada na festa da garotinha vomitando dentro de qualquer coisa que via em sua frente. Qualquer coisa mesmo. Então, a menina que estava na companhia de sua tia de sangue, pediu licença para cuidar da mais velha e assim fez. Levou ela até o banheiro e segurou seu cabelo para que ela pudesse vomitar e quando o fez, chorou e chorou enquanto a garota tentava lhe consolar.

“Tudo bem errar titia, nos somos seres humanos. É da nossa natureza.” dizia fazendo cafuné na cabeça de Minerva.

Faz pouco mais de meia década que a senhora se dispôs a largar a vida qual levava dispondo do seu tempo e amor para o filho, porém, este já não queria nem mesmo coligação com a progenitora e se emancipou na época com 17 anos, alegando que ela não é capaz de cuidar de si e tão pouco do próprio filho. Ele fez ela assinar (mesmo estando completamente bêbada) o pedido que mais tarde, foi aceito pelo juíz do caso. Quando sóbria e descoberto a manipulação do primogênito, só então deu por si o quão miserável foi na criação do menino estando sempre ausente, lhe renegando todo amor e atenção que tanto precisou.

Consequentemente o Jovem se bate em barreiras tais como o vício em jogos de aposta, estigmas do passado, bebidas alcoólicas e o uso desenfreado das drogas ilícitas que tem acesso. Está com o nome sujo em todos os 8 cassinos da cidade, proibido de entrar em cinco bares e contando a “Afrodite”, três boates cujo acesso é negado assim que visto pelas câmeras da portaria dos edifícios. Além disso, revende as drogas para ganhar dinheiro para compra-lás — um ciclo vicioso e nocivo para sua saúde mental e física.

Pesa menos de 60 Kg, vive tossindo, vomitando, desmaiando por aí, alucinando, causando problemas e arranjando encrencas. E o que dizer das suas faculdades psíquicas? É como um esgoto. A primeira vista parece que não pode piorar, mas quanto mais você limpa, mais sujeira encontra.

Quando estava bêbado e vomitando na casa de Alice como habitualmente ocorria, o garoto chorou e chorou alegando fazer de tudo e mais um pouco para esquecer os abusos, a violência, a falta de amor na infância ou o nazismo ensinado na escola pelos tutores mesmo sua classe tendo de 7 a 8 anos... Ele apenas gostaria de esquecer toda a merda que sua vida é nem que por um segundo, alega que quando está apostando enquanto fuma um cigarro, bebendo e rindo alto ou injetando narcóticos no sangue é como se fosse livre.

Já não estava mais acorrentado a todas as dores sofridas, mas quando se tornou dependente dos vícios se viu submetido a um loop do qual não deseja sair já que no final das contas está feliz. Mesmo que esteja se auto-destruindo. Assim como sua vida e o futuro que planejou como paisagista (carreira na qual é formado com diploma e tudo mais).

Dona Minerva se sentiu mal com muita informação para processar, então teve uma queda de pressão. Agora se encontra de repouso numa sala tomando soro. Alice foi autorizada para ver o seu praticamente irmão então se antecipou em ligar para casa e verificar como estão as coisas por lá antes de ir. Ficou aliviada, Melissa deu boas novas dizendo que Amélia dorme tão profundamente que chega a roncar e a tia da menina teve de rir ao lembrar do ronco de porquinha que a sobrinha emite quando está dormindo profundamente. Se sentindo pouco melhor, apressou-se em ir até o quarto onde Edward se encontra em coma e como a enfermeira enfatizou após os análises e autópsia: é grave.

— Ele vomitou tanto que precisamos de dois baldes! Estou horrorizada Leonard eu nunca vi nada igual. Ele chegou a ter uma overdose e em seguida uma queda brusca dos batimentos cardíacos e consequentemente, do pulso. Por sorte conseguimos reanimar o paciente e agora ele tem alguma porcentagem de vida — a médica na companhia de sua equipe contra como foi examinar e submeter o paciente aos cuidados necessários. Por sorte ou azar, Alice ouviu a conversa passando por um corredor o qual eles não podiam lhe ver, mas ouvir. Ficando quieta, ouviu o proceder do diálogo:

— Gente: abarticulação na perna esquerda, alopécia, ambliopsia, anemia... Ele tem no máximo 35% de chance de sobreviver. E é possível que não viva muito já que... — olha para os lados verificando se ninguém lhes ouve fazendo os calouros olharem para ela com maior curiosidade — ele tentou se matar pouco antes da overdose — contrai o maxilar.

— Estava delirando! Gritava: não preciso de ajuda! Não mais! Viver é uma desgraça! Me matem! Me matem! — relata com atuações e encenações assustando os calouros recém formados, de como Edward teria reagido aos efeitos da morfina + seus transtornos psquícos.

A médica cujo nome “Lydia” está bordado sobre o jaleco branco e o enfermeiro que lhe acompanhou recentemente com o nome “Leonard” também bordado no uniforme, visaram a miséria do paciente como oportunidade para ensinar aos mais novos (e recém chegados) técnicas e termos quando situações parecidas acontecerem.

Alice quem ouvia tudo se não estava desolada, estava transtornada. Não entendeu nem metade dos termos medicinais usados mas imaginou pelo tom de voz que era grave, gravíssimo! E a altura já tinha lágrimas silenciosas deslizarem pela sua face cuja pele está bronzeada. Desesperançosa, caminhou arrastando os pés sem força até a porta cujo número lhe assombrada para sempre “66”. Que conveniente.

— Muito conveniente — se lembra que “666”, é o número da besta e que, 999 (a inversão dos números) foi o número dado por Edward do quanto % a ama, os 1% são pela chatice que vê na melhor amiga.

O coração estava frenético em seu peito; os pulmões faziam certo esforço para puxarem o ar necessário, estava pálida ao tocar na maçaneta e ficou com aparência de doente apenas ao pôr os olhos sobre a figura de Mewton. Pós um pé para dentro, depois o outro e mais um, fechou a porta atrás de si, tudo feito num compasso regrado... Estava transtornada por dentro, um misto de sentimentos e emoções lhes proporcionaram uma crise de ansiedade.

— Alice. Agora não é a hora nem lugar. Se controle! — murmurou com raiva cerrando os punhos sentindo que estavam tremendo mais que o habitual em crises como está.

Deu passos lentos até o leito do companheiro não tirando os olhos de seu rosto — hematomas pela face mostrando uma aparência de quem estava numa briga de rua, a marca da sola do homem ainda está em seu pescoço que é tão branco quanto um palmito, tão magro quanto se lembra e tão triste quanto imaginou. Cardoso se sentou na cadeira perto do leito e pegou na mão enfaixada dele, com cuidado, a levou até o rosto depositando um beijo na área (é claro) limpa.

As lágrimas que haviam cessado devido ao frio que faz no lugar e ao transe causado pela imagem da possível morte de Edward decidiram enfim, aquecer os olhos dela causando ardência e mais e mais gotas de água salgada rolaram pelo seu rosto.

— Eu não posso te perder! Você também não... Por favor, Edward não me deixe — murmurou chorosa e com dificuldade devido à secura da garganta e medo.

Órfã de pai, mãe e tia se viu tão só quanto no dia do funeral da sua mãe. Foi quando provou o gosto amargo da solidão pela primeira vez e tem agora o desprazer de senti-lo novamente.

E em meio a essa avalanche de informações e acontecimentos, se questiona: se Deus é tão bom e misericordioso, por que permite tal dor e sofrimento para aqueles que já sofreram e perderam tanto?

Muito obrigada por ler 💌

Até o próximo capítulo  😉💜

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