" Quando fui diagnosticada com depressão, estava sob muita pressão psicológica. Quando fui diagnosticada com síndrome de pânico, fiquei completamente em pânico. Quando fui diagnosticada com síndrome do impostor, não me senti digna de mais nada. Quando fui diagnosticada como ser humano: me senti desumanizada". - Alice Cardoso (lamentações e choros de uma degenerada).

Capítulo cinco: chorar é tudo que lhe resta? Você é patética

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— Por que você é assim Edward?...Porra! Se não tivesse enchido o cu de heroína não estaria assim — desata em lágrimas afundando o rosto sobre as mãos pálidas para cobrir sua face desolada.
A literata decide se permitir ao luxo de ter seu pré-luto. Faz uma curta pausa e encara o amigo que está mais pálido que o habitual e os batimentos cardíacos tendo a frequência cada vez menores. Estava com esperanças que iam se esvaindo lentamente ao se dar conta da dura realidade. Edward estava morrendo lenta e dolorosamente. Alice sabe que enfim chegou a hora, pois mesmo após tratamentos pagos por ela, os profissionais (e até não profissionais) não conseguiram tirar o Jovem Edward Mewton do universo das drogas ilícitas. E nem mesmo o próprio teve tal capacidade. Que culpa tem aquele que ajuda, mas o necessitado não aceita? Nenhuma eu respondo. Alice como a intelectual que é logo dissipa o sentimento de culpa sabendo que deu o melhor de si para salvar o amigo. Talvez sua ida seja o começo de um início próspero; pensou positivo, mesmo que o fim seja trágico.
Em meio ao turbilhão de pensamentos, imagina que apenas as lembranças doces de que ele deixou vomitando em seu sapato favorito, roubando comida no meio da madrugada de sua casa, sumindo por uma semana e dado como desaparecido mais vezes do que a Blink pediu o álbum solo da Jisoo (Perdão, não pude resistir) não pudessem sumir da sua memória. Que não sumam, como a alegria que Alice tinha há poucas horas quando iria para seu jardim secreto.
Enfim, a vida é feita de escolhas e Edward escolheu as dele. Agora Alice precisa seguir em frente sem seu melhor amigo, porém não único, afinal como disse um sábio (ou sábia) : quem tem livros, jamais estará sozinho.
Não aguentando ver o melhor amigo naquele estado, a mulher sai do quarto hospitalar; abatida e apática com os glóbulos brancos avermelhados assim como seu nariz, lábios umedecidos e traços faciais de quem estava chorando muito. Em passos morosos e arrastados sai do edifício; esquecendo-se de Dona Minerva. Sem visão de um futuro onde haja Ed nele, a esperança de achar uma cura que lhe fizesse esquecer de vez a heróina se esvai.
Indo para o estacionamento, Lice revira distraída seus pertences dentro de sua bolsa da marca Coco Chanel branca cujas correntes são douradas, enfim achando seu manuscrito. Ela o abre trêmula e lê mentalmente a dedicatória feita para seu companheiro de aventurar "Obrigada por me inspirar a viver. Espero que ainda possamos passar muitas noites rindo de filmes de comédia e fofocando sobre a vida dos outros. Eu te amo muito Edward Mewton". Numa inspiração pesada, expira o ar dos pulmões expelindo lágrimas e mais lágrimas. Sentindo fraqueza nas pernas, se senta na calçada no canto do estacionamento dobrando as pernas duma maneira que lembra as montanhas, montes estes que ela apoia sua testa se permitindo gritar.
Grita plenos pulmões de raiva, de tristeza e de todo e qualquer sentimento negativo. A dor rasga seu peito duma maneira que lhe falta ar, devido ao horário (01:02) não há ninguém no estacionamento se não três ou cinco carros vazios, então ela não se preocupa em parecer tão, louca quanto é ou tao desesperada quanto está. Em meio a uma crise de falta de ar ela começa a se abanar falando mantras de consolo, para se acalmar e para se dar as esperanças que ainda existem, mas a angústia lhe cegam de ver.
— Mas que diabos! Diabos! Maldito seja você daí de cima, que me condena e me amaldiçoa. Sem um amor, sem pais, sem dignidade ou liberdade me acorrentou não só a vida, mas a mim mesma! Que vivo numa constante prisão! Está me ouvindo? Você falhou — agora tomada pelo ódio, grita chorosa para o céu azul Royal repleto de pontos brancos brilhantes e uma lua minguante que destaca a chona.
— Porra! Eu só queria ser feliz! Só queria poder amar! Me amar! Eu me odeio para caralho, sou uma sem valor uma qualquer. Não tenho nada do que me orgulhar se não ter autopiedade para não tirar minha vida. Vida está tomada pela dor e angústia... Não durmo direito faz anos, ouço vozes de agouro e agonia em momento de calmaria... Se Deus é tão bom por que não me toma em seus braços? Eu não aguento mais viver — mesmo sussurrando, encontra dificuldades por estar vagida. Após um período de mais lamentações, mais choros e alguns possíveis cortes no braço Alice cessa as expressões de tristeza olhando apática para o luar.
Imóvel, mal respira e não assimilando as ideias que sua mente perturbada lhe proporcionam, não acreditaria nem em seus sonhos mais loucos que: numa milésima fração de segundos já não iria conseguir enxergar seu arredor como neste exato momento. Como o instinto humano manda, ela começa a se debater em desespero sentindo que lhe carregam nos braços. Grita plenos pulmões e rapidamente tem a voz silenciada por um pano (ao menos limpo) com um forte aroma. No entanto, não é forte o suficiente para abate-lá então esteve consciente durante toda a ação. Ela pôde sentir sobre seu corpo, pares de mãos e uma outra que tenta lhe amarrar e imobiliza-lá as pressas. Sem tardar Alice é jogada num acolchoamento limitado, em relação ao espaço, logo presume estar no banco traseiro de um carro fazendo com que o pânico cresça dentro de si.
Ela está sendo sequestrada. "Por quê?" "Quem?" "Será este o livramento tão aguardado?" "Será uma morte trágica!" "Mais e Amélia? E Melissa?" Essas são poucas das dezenas de perguntas que ela se fez mentalmente, ainda se debatendo, não ouviu a advertência dada pelos sequestradores para melhorar o seu comportamento.
Alice se cansa não somente de gritar mas também de chorar noite e dia, dia e noite como vem chorado. Está exausta psicologicamente e já não se importa com sua vida quanto um dia se importou. Então cede e inspira ansiosa expirando com força o ar de seus pulmões. Foi diagnosticada faz poucas semanas com ansiedade alta (e mais alguns probleminhas da cabeça) a doença que apenas ignora e lhe deixa se curar. Alice sendo Alice. Ignorando todos seus problemas para solucionar os dos outros.
Na mente perturbada de Alice Cardoso ela não tem problemas. Não tem uma possível depressão nem síndrome do Pânico ou nada do que chama de "dar nome as coisas." Ela crer ter uma singularidade única onde sente o que ninguém sente, fala o que poucos dizem e se esforça mais que o necessário. Leva isso pelo lado bom mesmo que sofra muito durante dias para poder num único momento, ter um sorriso genuíno nos lábios. Ser escritora como ela diz "tenho bastante tempo para pensar, ficar triste, deprimida e angustiada escrevendo sobre o amor e como ele é uma droga." Isto é engraçado, afinal, Alice se apaixonou uma única vez e por ter o coração quebrado pelo indivíduo nunca mais se arriscou no amor pelo simples e simbólico medo. Medo este, que não a impediu de viver sentimentos sinônimos do amor, mas de viver amando e sendo amada.
Saindo um pouco da vida pessoal da protagonista, ei-de-dar continuidade ao evento em questão. O caminho segue num percurso demorado e de pouca movimentação. Eles não falam, não se mexem e Alice suspeita da possível morte súbita de ambos simultaneamente. O que seria burrice vindo de alguém com 119 de QI então, descartou a hipótese imediatamente. Ela acaba adormecendo pelo cansaço que foi tamanho já que ao despertar está amarrada com as mãos para trás e sentada numa cadeira. Ela olha ao redor desesperada, pulmões se inflamando e secando, lábios ressecados, suor excessivo e coração cujos batimentos estão acelerados... Seria esse o fim de Alice? Ou apenas uma pequena viagem para o País da heroína?
Bem, talvez não. Sendo iluminada apenas por uma luz sobre sua cabeça, ela fecha os olhos com medo da escuridão ao seu redor. Se vai morrer, que seja breve, pensou.
— Alice, abra os olhos — uma voz não muito distante e máscula ecoa pela mente da mulher. Ela ergue as pálpebras, atordoada reconhecendo a voz e se assombra vendo que o lugar em que está, agora é perfeitamente iluminado. Ela está em um quarto. Que de assustador só tem quem também está nele: o dono da boate. Ele se sentou sobre um sofá sem braços escorados na janela, encarando a paisagem de fora esquece brevemente de Alice. Mas, não dura muito.
— Perdão, lhe devo explicações. — se vira olhando para a mesma que continua com a boca semi aberta devido ao espanto — Alice, a verdade é que esse teu amigo está fudido. Ele está devendo 50 mil aos bares da cidade, mais 10 em jogo e a dívida que você quitou ontem foi só uma parcela das 10 que ele está devendo até o talo — diz franco e desgostoso vendo que suas pupilas dilatam Alice abaixa a cabeça encarando o chão incrédula.
Sabia das artimanhas e encrencas de Ed, no entanto, não imaginava que fosse tamanha. Ela com certeza não pode pagar isso não tem dúvidas!
— Eu te chamei porque o Edward é um pau no cu. Não sabe ter um diálogo sensato e está sempre... Enfim, sendo ele — se levanta e fica de pé com as mãos no bolso das calças sociais pretas que está usando.
— Eu não tenho como pagar isso! Nem nos meus sonhos mais loucos e... Espera, por que você me sequestrou? Ficou louco? — ela deixa escapar a última frase e se arrepende imediatamente ao ver que a expressão de poucos amigos que o homem já mantinha se fixa.
— Sei que você não tem condições financeiras o suficiente já chequei sua conta bancária e tudo mais — diz como se fosse algo comum o que realmente choca a mulher.
— Isso é invasão de privacidade! Meu Deus! eu já não estou tendo um dia bom e ainda isso... Por favor, não me faça mal, eu só quero ir para casa — implora já chorosa olhando para os próprios pés.
— Mulher por favor, me deixe acabar meu monólogo! — Franze a testa não aguentando o drama — enfim, a família dele também não está apta. Tudo que lhe resta é pagar com a vida até porque ele não é criança e sabe a merda que se envolveu. Fui ao hospital que ele está e realmente, ele não tem muito tempo de vida — anda pelo quarto falando e pensando em voz alta — tudo que resta a ele é morte.
— Não diga bobagens! — esbraveja o olhando com ódio — você não tem dimensão da merda que eu estou passando agora, s-se eu perder Edward também eu... Esqueça, você não entenderia. Escute senhor — ele para de andar ao ouvir o tratamento lhe proposto.
— "Senhor" é uma palavra muito forte. Não tenho ao menos 30 anos — afirma como se fosse óbvio e Lice acena negando com a cabeça impaciente.
— Então como te chamo? - pergunta da boca para fora.
— Kim está ótimo. Por favor, prossiga — volta a se sentar onde Alice lhe encontrou com o olhar e ele então lhe encara como uma águia.
— Se Edward morrer, a dívida se vai com ele? — hesita antes de dizer a palavra sinônimo de morte.
— Se você quiser, sim. Posso fazer esse favor, pensar que estaremos livres dele é um argumento válido. Prossiga — cruza as pernas, apoia o cotovelo na coxa e então põe o rosto sobre a mão direita prestando atenção nas reações da preta.
Mesmo mantendo uma clara muralha entre ambos, Kim não pôde deixar de se admirar pelas feições da mesma. Mesmo seu coque estando bagunçado, alguns cachos caem levemente como luvas ao rosto fino da mesma, ele repara em seus lábios, suas unhas bem feitas, o vestido preto que realça sua melanina e seu torso, consequentemente o busto. Mas ainda assim, precisa se mandar como o profissional de negócios que é.
Alice não está muito atrás, a primeira vista é claro o olhar do desconhecido era sombrio agora se torna sedutor, reconhece que ele possui um corpo esculpido por deus e que os trajes usados realçam perfeitamente a ideia. O corte de cabelo mesmo que padrão é como se somente por se ele ganhasse um destaque único. "Amaldiçoados sejam os hormônios" pensam de maneira análoga.
— Mas se ele viver, então será morto? Não parece muito justo — murmura a última frase chateada.
— Sim. E não pude deixar de ouvir seu murmurar, mas é sim justo. Afinal a vida é feita de escolhas — ela se adianta como se fosse automático e completa sua frase junto a ele "e uma hora você é obrigado a escolher o que quer seja certo ou errado." ambos se encaram estranhando — ora, aprecia a literatura brasileira senhorita?
"Sabe meu extrato bancário, deveria saber disto também". Pensa irônica e mordisca o lábio inferior segurando o riso se forçando a desmancha-lo.
— Sim... Enfim — raciocina de imediato que não pode prolongar este diálogo, pois tem uma sobrinha para cuidar e profissionais de saúde mental para procurar (para Edward é claro) — pode me soltar por favor? Essas cordas machucam...
— Questões de segurança. Não se preocupe já estamos acabando. — confere no relógio banhado a ouro puro perfeitamente preso em seu pulso esquerdo — bem, ainda que Edward morra o prejuízo dele certamente vai ficar então alguém precisa pagar. E este alguém será você.
— É o quê? — Grita de imediato no susto — perdão, trabalhar para você?
— Sim. Ela pensa e repensa. A ideia de trabalhar com este homem é certamente loucura e suicídio.
Afinal, tem um emprego fixo na editora com um contrato de 5 anos, que só expira no final deste ano (ou será renovado, ainda não decidiu) trabalhar em dois lugares não seria viável. O trabalho de uma escritora e leitora ávida toma todo o tempo necessário (e às vezes) desnecessário de Cardoso, ela não se permite ser privada ou limitada disto. Mas se não o fizer, teme o que podem fazer consigo ou pior: com Amélia. Ainda na tarde de ontem enquanto a garotinha brincava com suas bonecas, seu irmão ligou e gentilmente pediu para que simplesmente ficasse com ela por dois meses. Dois meses. O irmão do meio teve uma emergência financeira e foi voando (literalmente) para os Estados Unidos sem previsão de volta. Um ótimo pai como podem testemunhar, sempre tão presente na vida da filha (alerta de ironia).
Agora Alice tem um amigo problemático, uma criança para cuidar e sua carreira para gerir. Não daria conta de mais um trabalho do qual não faz ideia do que seja, e se lembrando que ele é dono de uma boate sexista onde vende narcóticos, não pode esperar o melhor emprego de todos. Mas, a depende do salário valeria apena se pôr ao risco?
— O que eu faria? — se remexe na cadeira claramente desconfortável a princípio com a vigilância constante do homem.
— Ou seria garçonete da Afrodite, ou dançarina de pole dance, mas pela sua cara, você não leva o menor jeito — ela logo faz questão de afirmar frenética — presumi. Então você seria garçonete por 1 ano até quitar a dívida. Não vai ganhar salário já que não está lá para lucrar. Um motorista te busca, leva e guia não tem como o que se preocupar. — avalia cada mínimo movimento.
Garçonete não parece ser tão ruim quanto pensou e imaginou. E bom, não tem muita escolha já que não tem noção do que irá lhe ocorrer se recusar. Tampouco a Edward caso ele sobreviva (e tomara que sim) se não conseguir quitar a dívida. Com a saúde debilitada que está agora, é impossível ele nem sequer pensar em sair da cama. Não tem jeito.
— Tudo bem, eu aceito. Onde assino?
— Um momento — ele estende o antebraço até a cômoda próxima, onde tira um papel sobre uma prancheta e em seguida pega uma caneta de escritório — vou te desamarrar para que possa assinar. Não faça nenhuma burrice ou vai se arrepender — se levanta deixando os itens sobre o sofá.
— Não vou. Prometo. — Observa ele se aproximar e seus músculos reagem ficando tensos e rígidos pelo medo.
Ele fica atrás da cadeira em que está e desamarra se inclinando o suficiente para ela poder sentir o cheiro de seu perfume. Ela reconhece o cheiro por já ter sentido o mesmo aroma durante um evento de perfumaria onde pedaços de papéis eram borrifados com o perfume. Cartier. Custando entorno de 3.000 reais, é evidente que ele seja de altíssima qualidade é um fato inegável. Sendo usado pelo homem intitulado Kim então, faz jus a tamanha fama!
— Eu daria um milhão de dólares, para saber no que você esta pensando agora — sussurra ao pé do ouvido de Alice quando termina de lhe desamarrar. A confissão lhe causa espanto, toma os braços para o colo e massageia os pulsos inquieta.
— Aqui — estende para ela os itens. Ele está indiferente. Será que ouviu mal? Começa a torcer para que sim apesar de que, no fundo, saiba que ouviu tão claramente quando a água é transparente.
— Obrigada — pega os itens tocando acidentalmente na mão do mesmo e por mínimo que tenha sido o contato, como uma adolescente, foi o suficiente para lhe deixar eufórica por dentro.
Um tremor pelas mãos a impede de escrever e logo fica com raiva. Isso acontece com frequência, no entanto ainda é uma frustração para a literata, Kim não se demora para reparar e fica curioso.
— Por que está tremendo? — soa como intimidadora sua pergunta tão simples.
— Não é nada de mais, já já passa — fala atropelando as palavras umas nas outras e se amaldiçoa mentalmente.
A mesma se obriga a escrever, mas o tremor aumenta então larga a caneta sobre a prancheta frustrada e expira raivosa.
— Desculpa, apenas me dê alguns segundos — pede com a fala ansiosa e pouco gaga.
Sem dar atenção, Kim a ignora indo até o outro lado do cômodo. Ele pega uma cadeira e se põe diante da escritora a sua frente se sentando sem desviar o olhar.
— Posso? — ele lhe estende a mão.
Lice está com elas atadas sobre a prancheta e não consegue desviar o olhar dos olhos dele. Agora tão perto, percebe a beleza de suas íris castanhas escuras e em como cada detalhe do seu rosto parece ter sido minuciosamente trabalhado.
De repente, ele virou sinônimo de beleza. Não mais, de medo.
Por quê?
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