Capítulo 2

Lorenzo recebeu a notícia de que os novos internos haviam chegado, mas não sentiu qualquer motivação para conhecê-los. Sua mente estava completamente focada no caso de Lia, uma menina de quatro anos que seria submetida a uma cirurgia delicada em poucas horas.

Enquanto se dirigia à sala de traumas, entrou no elevador e percebeu a presença de uma jovem deslumbrante encostada na parede. Cabelos loiros caíam de forma despreocupada sobre seus ombros, e sua pele clara contrastava com o uniforme azul-claro.

— Bom dia. — Lorenzo cumprimentou com a voz baixa, mais por educação do que por interesse.

— Bom dia.

O silêncio se instalou entre eles, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Zoe, distraída, não se deu conta de que estava dividindo o espaço com o tão falado Doutor Slogan.

Ao chegarem ao segundo andar, seguiram juntos para a mesma direção. Assim que Lorenzo entrou na sala, entregou o prontuário de Lia ao atendente, sem sequer notar que Zoe estava logo atrás dele. Mas ela percebeu imediatamente o nome no prontuário e, sem hesitar, se pronunciou:

— Você é o Doutor Slogan? — perguntou, confusa e curiosa.

Ele ergueu as sobrancelhas, analisando-a rapidamente antes de responder:

— Sou eu. De parte de quem?

— Zoe... Zoe Becker.

— Becker... hã.

— Então, sou a interna responsável pela...

— Desculpe, estou ocupado. — interrompeu bruscamente, sem paciência.

— Eu só queria discutir sobre Lia.

— Estou ouvindo.

— Precisamos levá-la para fazer a tomografia, mas eu não conseguia te encontrar.

— Agora você encontrou.

— Certo... – e começou a explicar.

Ele apenas assentiu, e Zoe saiu da sala logo em segudia, contendo a frustração. Lorenzo era claramente um homem difícil: autoritário, impaciente e pouco disposto a ouvir qualquer coisa que não viesse de si mesmo.

Na emergência, Carolaine avistou Zoe com uma expressão desconcertada e foi até ela.

— Está tudo certo?

— Aquele homem é insuportável! — Zoe cochichou, irritada.

— Que homem?

— O Doutor Slogan.

— Aquele gato?

— Melhor ele não ouvir isso. — Zoe respondeu com uma risadinha nervosa.

De volta ao quarto de Lia, Zoe encontrou a menina dormindo. Ela se aproximou, acariciando os fios macios do cabelo da criança, enquanto seus pensamentos divagavam. O momento foi interrompido pela entrada inesperada de Lorenzo, que parecia ainda mais apressado.

Algum tempo depois, eles levaram Lia para a tomografia e, após o exame, começaram os preparativos para a cirurgia. Zoe, sendo interna, ainda não participaria ativamente do procedimento, mas assistiria da sala de observação, ansiosa para aprender.

O plantão era longo — 48 horas —, e apenas oito tinham se passado. Exausta, Zoe juntou-se aos colegas no corredor onde as camas de descanso estavam.

— O primeiro plantão é sempre o pior. — Kira reclamou, se jogando em uma das camas.

— Nem me fale. — Carolaine concordou, esfregando os olhos.

Marcel entrou, segurando uma bandeja com copos de café.

— Café? — perguntou, dando duas batidinhas na porta.

— Eu quero! — Zoe respondeu, apressada. — Obrigada.

— Vocês viram o Stefan? — Kira perguntou, pegando um dos cafés.

— Deve estar procurando alguém para atender. — Carolaine deu de ombros.

Depois de pegar seu café e um livro, Zoe foi para a sala de observação, onde acompanharia a cirurgia. Carolaine a seguiu, e as duas assistiram juntas ao procedimento, que correu sem complicações.

Lorenzo, por sua vez, notou Zoe na sala superior enquanto realizava a cirurgia. Por um breve instante, sentiu uma pontada de culpa por não permitir que ela ajudasse. Ele sabia bem como era frustrante ser um interno novato.

Após a operação, Lorenzo lavou as mãos e foi informar aos pais de Lia que tudo tinha corrido bem. No caminho de volta, encontrou Zoe encostada na parede do corredor.

— Oi.

— Oi. — respondeu ela, sem emoção.

— Me desculpe por não ter permitido que você participasse.

— Está tudo bem. Fico feliz que tudo tenha dado certo. Agora, com licença.

— Ah, claro.

Assim que Zoe se afastou, Marcel apareceu com um sorriso provocador.

— Que cara é essa?

— É a minha cara normal. — Lorenzo respondeu seco.

— Sei... Mas e a novata, hein? Ela é gata.

— Pensei que você fosse gay.

— Sou, mas isso não me impede de reconhecer quando uma mulher é gostosa.

Marcel saiu rindo, divertindo-se com a própria provocação. Lorenzo ficou parado por um instante, tentando processar o comentário. Mas, no fundo, a confusão que sentia não era por Marcelo. Era por Zoe.

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