...CHLOE RODRIGUES...
Os dias passaram rápido demais, mas eu não havia encontrado o Miguel na academia, e, sem perceber, me vi decepcionada. Esse sentimento que eu não conseguia explicar direito estava me incomodando, pois afinal de contas, eu não sabia exatamente quem era o Miguel, além do que os tabloides falavam a respeito dele.
Não poderia criar expectativas em cima de uma pessoa da qual eu não conhecia muito bem. Depois de tudo que passei com o Tomás, não poderia permitir que um estranho bagunçasse assim minha vida. Não poderia, de forma alguma, baixar a guarda em relação aos meus sentimentos.
Na escola, estava organizando um trabalho com meus alunos para a feira de ciências. Organizar uma feira dessas com crianças de 6 anos era transformar tudo em uma verdadeira brincadeira. Por mais que eu tivesse controle sobre a turma, as crianças seriam sempre crianças. Cada pequeno naquela sala tinha uma personalidade única.
Enquanto alguns eram retraídos, outros pareciam ter pilhas que não acabavam nunca. Mas tinha que confessar que amava trabalhar com aquela turma. Sabia que em alguns momentos tinha que usar até a reserva da minha paciência, mas no final da aula, quando olhava para cada um daqueles rostinhos e recebia um sorriso de volta, tinha certeza de que todos os dias valiam a pena.
Como professora, alguns alunos me marcavam mais do que outros. Alguns precisavam de mais atenção, enquanto outros eram totalmente independentes, parecendo mini adultos. Estar ali com eles, vendo suas descobertas, compartilhando meus conhecimentos e observando a imensidão de suas imaginações, era muito mais do que gratificante. Era um verdadeiro aprendizado.
Sabia que essa era uma profissão que exigia muito de todas nós que resolvemos exercê-la. Corrigir pequenas atividades, explicar coisas que tínhamos certeza de que nem seus próprios pais conseguiriam explicar, não era fácil, mas fazer o quê? Eu era apaixonada por aquela profissão. Ver cada uma daquelas pessoinhas que passavam por mim desabrochar como uma linda flor, adquirir conhecimentos que sei que levarão para a vida inteira, como aquele comercial de banco falava, não tinha preço.
Sendo professora, era essencial que eu estivesse atenta a cada pequeno sinal que meus alunos me transmitiam. Em um determinado dia, notei uma mudança significativa no comportamento de um aluno em particular, Pietro, que normalmente era muito ativo e raramente permanecia em silêncio por muito tempo. Ao vê-lo tão retraído, inicialmente considerei a possibilidade de ele estar lidando com algum problema de saúde, como uma virose.
Quando a Luísa, minha sobrinha, se tornava quieta e se isolava, minha mãe costumava dizer que isso era um sinal de que ela estava prestes a adoecer. Pietro, por sua vez, era um garoto adorável, sempre comunicativo e esperto, que desempenhava um papel ativo ao ajudar seus amigos e interagindo com todos. Entretanto, em questão de uma semana, o vi se afastar do mundo ao seu redor. Foi nesse momento que decidi usar minhas habilidades de psicóloga para entender melhor a situação.
Esperei que todos saíssem para o intervalo e convidei Pietro para uma conversa particular. Nos sentamos em um cantinho reservado, garantindo que nenhum de seus colegas pudesse nos interromper.
— Como você está, querido?
— Estou bem, tia Chloe!
— Tem certeza, meu amor? Existe algo acontecendo com você que gostaria de compartilhar comigo? Prometo guardar segredo e não vou contar a ninguém, nem que me torturem. — Disse, encorajando-o a abrir-se.
— Tia Chloe, por que os nossos pais precisam se separar? — Ele me perguntou, segurando suas lágrimas com coragem.
Eu tinha descoberto a verdadeira razão dos problemas do Pietro, algo que já era difícil para os adultos lidarem, e imagine para uma criança. Ele estava regredindo na sala de aula devido à provável separação de seus pais. Até aquele momento, a escola não havia sido informada sobre essa situação.
Alguns pais não tinham a percepção de que compartilhar esse tipo de informação, mesmo sendo pessoal, era fundamental para os educadores, especialmente aqueles que lidavam com crianças. Isso permitiria que os professores compreendessem melhor comportamentos atípicos que seus filhos pudessem manifestar na sala de aula e, consequentemente, oferecessem o apoio necessário.
— Meu amor, eu sei que para você seja difícil compreender alguns dos comportamentos dos adultos. Eu não posso explicar a você o motivo da separação de seus pais, mas posso assegurar uma coisa, e essa é a parte mais importante de tudo isso. Eles nunca vão parar de amar você, isso nunca vai mudar. Você vai crescer, se tornar um homem adulto, e seus pais vão continuar amando você. — Essa era a única certeza que eu podia oferecer.
— Mas eu queria que eles continuassem juntos, tia Chloe, não queria que eles morassem em casas diferentes. — Ele disse, ainda com tristeza.
— Eu entendo você, meu amor! Deixe-me explicar uma coisa. Talvez, para o seu papai e sua mamãe, não esteja sendo fácil morar na mesma casa, mesmo com você lá. Às vezes, querido, o carinho que mantém os adultos juntos se acaba, mas o amor que eles sentem por você não muda. Você sempre será a coisa mais importante na vida deles. — Eu disse, tentando confortá-lo.
— Então, por que meu papai não vem mais me ver, tia Chloe? — Ele me perguntou, com uma lágrima escorrendo pelo rosto, que ele enxugou corajosamente.
Eu sabia que ser professora nem sempre seria fácil. Mas, como responder em uma situação como essa? Será que os pais dessa criança não estavam percebendo o que estava acontecendo na vida de seu filho? Eu tinha certeza de que o divórcio nem sempre era simples, especialmente quando envolvia filhos. Mas será que os adultos envolvidos naquela situação estavam lidando adequadamente com a angústia desse garoto?
Terei que conversar com os pais dele sobre isso. Era uma situação delicada, mas minha intervenção era necessária, pois eu era responsável por aquele serzinho maravilhoso durante praticamente o dia inteiro, cinco dias por semana. Nesse momento, o sinal para encerrar o intervalo acabara de tocar. Pedi ao Pietro para aguardar apenas por um minutinho enquanto eu conversava com a outra professora.
— Rejane, você pode levar todos para a sala e liberar a massinha para eles. Assim que eu terminar com o Pietro, vou voltar para a sala de aula.
— Está tudo bem, Chloe! Ele está bem?
Apenas assenti com a cabeça, pois naquele momento não podia entrar em detalhes sobre o que estava acontecendo. Então, voltei para onde o Pietro estava, ainda quieto e com a cabeça baixa.
— Pietro, querido, quanto à sua pergunta sobre seu papai, eu não sei a resposta. Você já tentou perguntar à sua mamãe o motivo?
— Ela não me respondeu, tia Chloe. Ela só disse que ia falar com meu papai sobre isso. — Típica resposta de adulto. Eu já tinha ouvido Nathan, meu irmão, dizer isso algumas vezes à Luísa, minha sobrinha, como forma de evitar uma resposta direta.
— Então, vamos esperar pela resposta da sua mamãe, está certo? Mas posso te assegurar que, embora seja difícil agora, tudo vai melhorar com o tempo. Você sempre será o tesouro mais precioso para eles. Posso te contar um segredo?
— Pode, tia Chloe! — Pietro me olhou curioso.
— A tia Chloe tem uma sobrinha que também estuda aqui, você já deve ter visto ela algumas vezes. E o papai e a mamãe dela também não moram juntos.
Observei meu pequeno aluno, que me olhou com surpresa. No entanto, eu precisava ajudá-lo a entender que o fato dos pais estarem separados não significava que ele não seria mais amado. Olhei para ele com carinho e continuei minha explicação.
— Pois é, meu amor. Mesmo o papai e a mamãe da Luísa não estando mais juntos, eles continuam a amá-la cada dia mais, e a mamãe dela, assim como seu papai, mesmo que não esteja muito presente, tenho certeza de que também a ama muito. E sabe qual é a diferença que existe quando seus papais não estão mais juntos? É que agora você vai ter duas casas para ficar, assim como a Luísa. Ela tem o espaço dela na casa da mãe da tia Chloe, onde o papai dela mora, e ela tem o espaço dela na casa da mamãe dela. Assim será para você também, meu amor!
— E ela é feliz, tia Chloe? — Ele me perguntou de forma esperançosa.
— Sim, meu amor! O mais importante para ela é continuar recebendo o amor que nós, sua família, sentimos por ela. Você gostaria de conhecê-la e conversar com ela? Assim, você pode tirar suas próprias conclusões.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 95
Comments
Meire
Tem pais que merecem a cadeia elétrica, os dois tanto o pai quanto a mãe ele não pensam nos filhos, só no sentimentos deles!
Os filhos que lutem, e isso só piora quando eles encontram e têm filhos outros parceiros, principalmente a mulher que para agradar o homem faz tudo pelo parceiro e filho que nasceram dessa relação!
2025-01-03
1
karvalho Heloiza😍
que capítulo lindo 💞
2025-01-11
0
Joelma Rocha
Que bom a explicação de Chloe para Pietro 👏👏👏 sem causar danos na mente da criança 💖💖💖
2024-03-27
9