-Meu pai decidiu me trancar quando um dos cirurgiões começou a sugerir explanar essa ideia para outros cientistas, que seria revolucionário. Então ele matou o médico e me escondeu do resto do mundo.
-Sinto muito. -Digo e é verdade.
-Como o senhor se chama?
-Tyler. Tyler Morgan e você?
-Lucy White. Está doendo muito?
-O quê? -Olho para ela para entender do que está falando e ela encara fixamente meu ombro ferido. -Ah, isso? -Aponto para a ferida. -Foi só de raspão, estou acostumado, é o meu trabalho.
-Matar pessoas? Ou só meu pai?
-Pessoas, mas só as que merecem.
Ela acente com a cabeça e o silêncio se instala no interior do carro, até chegarmos ao condomínio fechado onde moro. Minha casa é a última de todas, a mais afastada e também a maior do condomínio, com a fachada em pedra escura e muitas árvores ao redor. Estaciono o carro na garagem e desço do carro, abro a porta e ofereço a mão para ajudar Lucy a descer.
-Onde estamos? -Lucy me olha temerosa.
-Na minha casa.
-Porque estamos aqui?
-Porque eu não poderia ir para um hotel do jeito que estou. -Aponto para meu corpo ensanguentado, sei que não é essa a resposta que ela quer.
Seguimos em silêncio até o interior da casa, estou completamente confuso e perdido com a presença de outra pessoa. Ninguém nunca vem aqui. Caminhamos pelo hall de entrada e levo a menina para um dos quartos de hóspedes nunca usados.
-Você pode dormir aqui. No banheiro tem alguns roupões de banho, devem ser mais quentes que essa blusa. -Involuntariamente olho para as pernas brancas e nuas na minha frente.
-O senhor pode me dar algo para comer? -Ela encara os dedos entrelaçados e sua voz soa baixa e desesperada.
-É claro, vista-se e me encontre na cozinha. Descendo as escadas, você vai no sentindo contrário de onde viemos.
Desço as escadas e caminho em direção ao banheiro do térreo, preciso lavar a ferida, a dor é lancinante e já escorreu sangue demais. Sentado no tampo do vaso sanitário, faço a higiene da ferida com gase e soro fisiológico, depois passo álcool para esterilizar e dou alguns pontos do meu jeito mesmo, cubro com alguns bandaids e pronto.
Quando chego na cozinha, Lucy já espera por mim, de pé ao lado da ilha de mogno escuro, encarando os próprios pés descalços.
-Pode se sentar, se quiser. -Caminho em direção a geladeira e tiro tudo o que tem dentro, queijos, salames, azeitonas, frutas, congelados, qualquer coisa que ela possa comer. -Tem de tudo aí, fique à vontade, coma o quanto quiser.
-Posso fazer chocolate quente? -Ela pega um morango e coloca na boca, fechando os olhos ao apreciar o sabor. Por que isso pareceu tão sensual?
-Pode.
-O senhor também quer?
-Não precisa me chamar de senhor, Lucy. Meu nome é Tyler, eu já disse à você.
-Desculpe. Quer chocolate quente, Tyler?
-Não, estou bem. Obrigado.
Ela pega alguns ingredientes na bancada e começa a preparar a bebida, se atrapalhando um pouco com a cozinha moderna. Eu observo tudo com atenção, seus movimentos pequenos e carregados de tensão. Ela ainda não fez muitas perguntas sobre seu destino, talvez tenha medo da resposta... Mas algo sobre ela me fascina, passou anos trancada em uma jaula e agora está aqui na minha frente, tentando parecer forte e corajosa e falhando miseravelmente...
-Posso fazer uma pergunta? -Ela não se vira pra mim, continua mexendo o chocolate no fogão.
-Pode.
-O que você vai fazer comigo? -Continua focada na sua bebida no fogo e não me encara.
-Vou levá-la ao Capo. Ele quem decidirá o que vai acontecer com você.
-Então o dinheiro do meu pai, foi roubado desse tal de Capo?
-Sim.
-Eu não queria morrer, Tyler. Antes da jaula eu tinha uma vida, amigos, planos... -Ela finalmente se vira pra mim. -Por favor, não deixa eles me matarem, eu juro que ninguém nunca saberá de nada.
-Não cabe a mim menina, sinto muito.
Ela caminha em direção a cristaleira de vidro e retira duas canecas e serve o chocolate quente, jogando alguns marshmallows dentro.
-Toma, eu fiz demais, desculpa. -Ela me entrega uma das canecas.
-Lucy... -Olho para a bebida na minha frente e tento organizar as palavras. -Sinto muito de verdade que esteja passando por isso. Mas eu sou só o cara que cumpri as ordens.
-E eu sou só a chave do cofre. -Ela sorri ironicamente. -Seu chocolate vai esfriar. -Sentando-se sobre um dos bancos em frente a ilha, Lucy bebe seu chocolate quente e come alguns pães e bolos, com o olhar mais triste que já na vida.
Eu me sinto culpado. A verdade é essa, eu sempre tento ser o mais sincero e honesto possível comigo mesmo, principalmente quando se trata de sentimentos. Afinal, com o trabalho que exerço, não posso me dar ao luxo de ter sentimentos, preocupações ou relações mal resolvidos, precisa estar tudo em ordem dentro da minha mente, caso contrário, enlouqueço. Mas a questão é: Por que me sinto culpado? A culpa não é minha, estou só seguindo ordens, nunca nenhum de nós imaginaria esta situação. O único culpado é o maldito White! E o que eu posso fazer pra ajudar essa menina? Charles nunca permitiria que ela ficasse viva, talvez ele até permita, caso alguém queira comprá-la como esposa... Mas já não é mais tão nova, deve ter uns 26, 27 anos. Geralmente compradores ou leiloeiros optam por mulheres muito mais jovens. Não há o que fazer.
-Está bom? -Ela pergunta me encarando.
-O quê? -Estava tão perdido nos meus devaneios que nem me dei conta de que já tomei praticamente todo o chocolate, Lucy me olha intrigada. -Sim, está. -Respondo, por fim.
-Tyler, posso te fazer outra pergunta?
-Diga, menina. -Reviro os olhos impaciente, amanhã isso acaba.
-Você pode me levar lá fora?
-Por que quer ir lá fora?
-Eu gosto da natureza, gosto de ver carros, pessoas, casas, qualquer coisa que não se pareça com aquela jaula e aquele porão.
-Vai passar frio lá fora. -Mais uma vez olho pra suas pernas nuas que o roupão não foi capaz de cobrir e seus pés pequenos descalços.
-Não me importo!
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Atualizado até capítulo 110
Comments
teti andrade
Que ele faça alguma coisa pra salvar ela
2025-03-15
7
Arlete Fernandes
Ele não vai deixar notarem ela já está se preocupando demais!!
2025-03-25
0
New Biana2
o amor vem do nada
2025-03-19
0