O dia amanheceu com garoa naquela manhã, mas isso não foi impedimento para Mariana arrastar Heitor para ONG, ele bem que tinha gostado de algumas atividades, porém quando soube que hoje teria roda de conversa não se animou. Não queria se abrir e expor sua vida para desconhecidos, mas todos ali na sua frente parecia não entender.
Jaqueline: Vamos Heitor estamos entre amigos, queremos te conhecer melhor.
Heitor olhou a sua volta e viu que tinha gente de mais envolta daquele círculo, e estava se sentindo pressionado a falar.
???: Eu posso começar?
Uma garota jovem levantou a mão, Heitor fixou o olho nela pela primeira vez.
Jaqueline: Está bem Aline, pode falar.
Aline: Olá meu nome é Aline, tenho 15 anos e sou cadeirante desde que me entendo por gente. Sofro de uma doença rara que enfraquece os ossos os deixando fragilizados, essa doença chama-se ossos de vidro. Eu não podia fazer nada como uma garota normal fazia, me sentia discriminada e solitária. Mas desde que venho frequentando a ONG, sinto que finalmente encontrei meu lugar no mundo, uma razão para existir.
Heitor olhou para Mariana que parecia emocionada com as palavras da jovem. Ele então se sentiu encorajado para falar sobre seu problema pela primeira vez, fez um leve aceno com a cabeça para a adolescente que sorriu em resposta.
Heitor: Meu nome é Heitor, tenho 30 anos e sou tetraplégico, tenho pouquíssimo movimento nos dedos, só consigo mover do pescoço para cima. Me sinto preso dentro do meu próprio corpo e isso é agonizante e sobre tudo sufocante, sinto que a cada dia vou morrendo aos poucos. Muitos costumam dizer se o coração ainda bate é porque tem vida, se as funções cerebrais ainda estão em plena atividade ainda tem vida. Porém, ninguém nunca parou para pensar e se a vida não estiver mais na alma? Eu posso respirar, falar, comer, fazer todas as funções fisiológicas isso porque meu corpo está vivo, e a alma? Como fica? Muitos vão apontar o dedo e dizer ele está depressivo, e quem não ficaria vendo sua vida mudar gradativamente de uma hora para outra?
Todos ouviam calados cada palavra do Heitor, era como se ele conseguisse atingir cada um com a dor que pesa em suas palavras. Mariana deixou cair uma lágrima e limpou rapidamente, o grupo fez uma pausa silenciosa. Em seguida outra pessoa começou a falar:
???: Meu nome é Thiago tenho 50 anos e faz 20 anos que sou cadeirante, tinha a idade do Heitor quando sofri um acidente de mergulho, no pulo bati o pescoço no chão e lesionei a medula. Na época eu queria ter morrido porque para mim não fazia sentido algum sobreviver e ocupar um lugar no espaço sem ter os movimentos, sem poder correr, andar, pular e sobre tudo sem poder nadar. Eu precisei chegar no fundo do poço, precisei perder uma pessoa importante na minha vida, para poder dá valor a essa vida que tenho. Eu não posso mais andar? E daí tem tanta gente querendo viver e eu estou vivo. Meu filho morreu aos 5 anos de idade por conta de uma porcaria de bola de gude, não sei como ou onde ele achou isso, ele acabou engasgando e não resistiu. Então eu penso quem deveria ter morrido era eu, me questionei durante anos porquê Deus não me levou e poupou a vida dele, então foi ai que percebi o quanto a vida era única e uma simples bola de gude miserável podia colocar fim nela, o quanto uma lesão na medula não mataria. Mesmo sem está presente meu filho me ensinou tantas coisas e uma delas foi ter força para viver, ele precisou morrer para me mostrar o quanto a vida era importante. Desde esse dia, o dia em que descobrir a vida com outros olhos, ai me dei conta que meu filho era um anjo que Deus colocou na terra para mostrar o quanto viver é grandioso.
Heitor não conseguiu segurar as lágrimas dessa vez, Mariana tentou secar, mas ele fez que não com a cabeça. Ele precisava daquilo, precisava sentir e colocar para fora tudo o que estava acumulado há anos e o quanto as palavras daqueles que estão em volta o ajudou a se libertar de seus temores. Ele sabia que a partir de hoje não tinha como não olhar a vida de outro jeito, ele teve sua segunda chance para viver e são poucos que tem essa oportunidade. Era melhor encarar a situação dessa forma, ou passar os restos de sua vida lamentando por algo sem volta.
Frequentar a ONG estava fazendo bem para Heitor, ele até começou a sorrir mais. A oficina que mais gostava era de literatura, Heitor adorava ler e sobre tudo escrever, já havia publicado alguns livros anos atrás e estava animado para mostrar a Mariana. No escritório/biblioteca Mariana varria com os olhos algumas prateleiras tentando encontrar os livros que Heitor falou que publicou.
Mariana: Senhor você tem certeza que estão aqui? Você não emprestou para alguém eu não estou achando.
Mariana desceu a escada e pisou no chão.
Heitor: Eu não emprestou livros, eu os dou, tenho uma franquia de livrarias. Deve está por aí em algum lugar você que não sabe procurar.
Mariana: Mas tem muitos livros aqui são como procurar agulha em um palheiro.
Heitor: Não tem problema depois eu ligo para livraria e mando deixar na sua casa.
Mariana: Vou esperar hein.
Heitor: Vejo que ficou curiosa para ler meus livros, desde o dia em que falei lá na ONG, que já publiquei alguns.
Mariana: Dizem que a gente conhece melhor a pessoa através das palavras, e o senhor é uma caixinha de surpresas, eu nunca imaginaria que você fosse escritor e tão pouco que tinha uma livraria, sabia que era redator-chefe na revista Marco e que tinha ascensão por literatura, mas nunca que tinha escrito livros.
A conversa com Mariana estava boa e Heitor não viu o tempo passar, só notou que já havia escurecido quando sua mãe bateu na porta da biblioteca.
Teodora: Desculpe incomodar, Mariana tem um rapaz lá fora diz que é seu namorado e veio te pegar.
Heitor encarou Mariana parecia ter mudado suas feições, e falou assim que viu Mariana se levantar da cadeira.
Heitor: Para onde você pensa que vai babá? Não está na hora de ir embora — Olhou para o relógio de parede e falou — Babá ainda faltam 10 minutos.
Teodora: Heitor o que são dez minutos pela amor de Deus, não ligue Mariana seu namorado está lá fora até amanhã.
Mariana: Até amanhã Heitor, até amanhã dona Teodora.
Mariana saiu, Heitor encarou a mãe zangado.
Teodora: O que foi filho por quê está me olhando com essa cara?
Heitor: Francamente mãe, porque você não mandou esse cara pastar? Não está vendo que estávamos ocupado.
Teodora: E eu ia fazer o que com o rapaz enxota-lo de casa? Fracamente, Heitor.
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Atualizado até capítulo 76
Comments
Germana Gomes
aí autora estou começando agora sei que já está concluindo mas bem que ele poderia mexer pelo menos os braços estou emocionada
2024-12-16
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Euridice Neta
Eita está com ciúmes Heitor?
2025-02-09
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Marilena Silva
impossível não se emocionar 🥺
2024-07-22
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