Quando O Amor Acontece
O passeio estava ótimo, só mais um quarteirão e iríamos voltar para casa. Estava bastante ofegante; Billy, Maricota e Estrelinha não andavam, eles praticamente voavam, me arrastando pela rua numa rapidez exagerada, fazendo todos que estivessem na frente abrirem espaço.
Mariana: Ah! Gatinho, agora não!
Falei derrotada, segurando forte as guias antes que Billy se desprendesse. Ele começou a latir, e as outras duas acompanharam, me puxando para o rumo do gato, que se esgueirou e miou, paralisado. Billy continuou a latir, raivoso, para o felino, que correu em disparada e subiu em uma árvore. Os cachorros, me arrastando, correram em direção à árvore, me fazendo desequilibrar e cair de bunda no chão.
Mariana: Billy, você é terrível, um péssimo garoto.
Briguei, furiosa. Tentei levantar, porém fui atacada por lambeijos e balançar de rabos. Estrelinha pulou no meu colo, enquanto Billy se encolhia na grama e brigava com ele. Peguei Maricota nos braços, que estava tremendo. Ela era a menor dos três e quase acabou sendo pisoteada.
Mariana: Vem aqui, garotão!
O chamei. Ele ainda estava desconfiado e veio andando devagar, seus olhos grandes e enviesados me olhavam de rabos de olho. Eu passei a mão na sua cabeça, e só então balançou o rabo.
Mariana: Agora vamos pra casa, e nada de gracinhas, hein? Vocês três, ou vão ficar sem petisco.
Parei na porta da casa do Billy, que latia, dispensando a campainha. Sua dona, assim que abriu a porta, foi recebida com festa. O grandão pulou em cima dela, latindo alegremente.
Joana: Oi, garotão! Como foi o passeio? Se divertiu muito?
O Billy latiu em resposta, então Joana levantou, sorridente.
Joana: Obrigada, Mari, está aqui sua diária.
Ela me entregou o pagamento do dia. Billy pulou em cima de mim; ele, em pé, fica quase do meu tamanho e acaba passando sua língua babada na minha bochecha.
Mariana: Até o próximo passeio, garotão. Tchau, Joana.
Passei a mão acariciando a cabeça do Billy, o mesmo balançava o rabo alegremente.
Joana: Tchau, Mari, obrigada!
Após deixar o grandão na sua casa, fui deixar as meninas Maricota e Estrelinha. Dona Márcia, uma senhorinha de idade, viúva e que tinha como única companhia suas cachorrinhas, sempre que eu ia deixá-las em casa após um passeio, me convidava para entrar.
Márcia: Minha filha, quer entrar para comer um lanchinho? Tá tão magrinha! — Dei uma risada.
Dona Márcia nunca aceitava um não como resposta e sempre tentava me encher de comida toda vez que eu ia na sua casa. A senhora frágil, de 80 anos, acabou me servindo um pedaço enorme de bolo de chocolate.
Mariana: A Estrelinha comeu um pouco de grama, acho que ela está com dor de barriga, é melhor que ela fique sem jantar hoje.
Falei, terminando de comer o último pedaço de bolo e me aprumando para ir embora.
Márcia: Minha filha, você já vai? Tá cedo!
Mariana: Dona Márcia, eu preciso tomar um banho.
Márcia: Tá certo! Aparece aqui mais vezes, você está sumida, só vem agora para pegar minhas meninas para o passeio.
Mariana: Desculpa, dona Márcia, minha vida está uma correria. Eu estou tentando procurar um emprego, e você não imagina quantos "não" eu já levei.
Dona Márcia pegou o pagamento do dia e colocou em minhas mãos, dando tapinhas.
Márcia: Já já você vai encontrar um emprego bacana, tenha fé. Eu vou rezar pra você, minha querida.
Dei um abraço na dona Márcia e me despedi da Maricota e Estrelinha.
Cheguei em casa exausta. O bom de ser Pet Sitter é que já vem incluso uma atividade física. Sedenta, fui direto beber água, minha garganta estava seca. Quando ia sentando no sofá com o copo na mão, ouvi um grito.
Clarissa: Nem ouse encostar esse traseiro sujo no meu sofá limpíssimo, Mariana.
Clarissa berrou da varanda, onde regava as plantas. Ela tinha uma mania terrível de limpeza e um olho biônico para detectar bactérias. Em outras palavras, ela era maníaca por limpeza, e eu a fazia infartar toda vez que ela encontrava pelos em alguma parte do cômodo.
Moro há quase dois anos com minha irmã. Somos companheiras inseparáveis, e nossos pais costumam dizer que somos unha e cutícula. Clarissa é o orgulho da família Vieira, formada em Medicina, a primeira formada de nosso vínculo familiar. Meus pais morrem de orgulho dela, e eu também. Bem estruturada financeiramente, aos 24 anos já havia conquistado seu primeiro carro, e aos 28, conseguiu comprar seu primeiro apartamento.
E eu? Bom... Só sou uma adulta qualquer tentando me encontrar, tentando me descobrir. Após terminar o ensino médio, há três anos, eu estou tentando encontrar algo em que eu seja boa, mas até agora não achei. Enquanto isso, para conseguir me manter, trabalho como Pet Sitter. A princípio, Clarissa achou que eu estava ficando maluca, mas depois aceitou minha escolha, e principalmente quando me viu entusiasmada com o primeiro salário, além de adorar meus clientes.
Mariana: Okay, você ganhou, eu vou tomar um banho.
Depois do banho, fui direto para o computador. Precisava procurar mais clientes. Desde que a Marcela fechou a creche de cachorros e mudou para sua cidade natal, o que me restava era ficar apenas com os cachorros da vizinhança.
Clarissa: Mari, sai desse computador, vem jantar. Eu te falei que não precisa se preocupar com o financeiro por enquanto, eu dou conta.
Clarissa me encarou, fechando a tela do nosso computador. Respirei cansada e me levantei do sofá.
Mariana: Eu sei, Clarissa, mas também não quero abusar da sua hospitalidade. Eu quero ajudar com as contas do mês, mana. As minhas diárias com os passeios não são o suficiente.
Clarissa: Eu te asseguro, tá tudo bem, meu salário no hospital dá para a gente viver confortável.
Mariana: Mesmo assim, eu não quero ser um estorvo pra você carregar.
Clarissa: Para de falar besteira e vem jantar.
Levei uma garfada de macarronada à boca, saboreando o delicioso prato.
Mariana: Hum... Muito bom!
Clarissa: Papai ligou mais cedo.
Falou, tomando um copo de suco.
Mariana: É, ele me ligou. Queria saber se eu já consegui um emprego.
Fitei minha comida desanimada. Papai é aquele tipo de pessoa obcecada por emprego e não pode ver nenhum dos filhos desempregados que já manda correr atrás. Ele não concorda muito com minhas escolhas, porém as respeita, e eu admiro muito seu jeito sensato de ser. Papai é mecânico na nossa cidadezinha Guararema, meu irmão mais velho, Miguel, o ajuda no pequeno negócio da família. Minha mãe é dona de casa, mas faz uns bicos com costura. Somos de uma família simples, mas unidos sempre.
Clarissa: Não desanima, vai dar certo! Vamos encontrar um novo emprego pra você.
Clarissa segurou minha mão solidária, erguendo as sobrancelhas bem feitas, deixando um sorrisinho escapar pelo canto da boca.
Mariana: Não me diga quê? Esse sorrisinho aí... O que você tá aprontando, Clari?
Clarissa: Dando uma olhada nos classificados de hoje, achei um bem bacana. Só não sei se você vai querer.
Mariana: Anda, me conta qual é o tipo de trabalho? Se for de cuidadora, eu vou aceitar na hora. Eu amo animais.
Clarissa: É de cuidadora, só que não é de animais, é de uma pessoa.
Mariana: Uma pessoa, uma criança, então?
Perguntei animada.
Clarissa: Não, é de um homem. Ele é tetraplégico, e a família está procurando uma pessoa para fazer companhia a ele. E o melhor de tudo: não precisa de experiência, olha.
Ela se levantou, pegou o notebook e trouxe em minha direção. Clari abriu um site e apontou para o anúncio. Eu comecei a ler e achei interessante; meus olhos piscaram várias vezes quando vi o salário que estavam pagando.
Mariana: Minha nossa, eles pagam muito bem.
Clarissa: Suponho que você deva tentar, não vai perder nada. Quem sabe você acabe gostando.
Mariana: O salário é bem atraente, o triplo do que eu ganhava por mês. Vou tentar, mas só tem um problema: e se ele quiser ir ao banheiro? Eu vou ter que limpar a bunda dele?
Perguntei, em choque.
Clarissa: Eu não tinha pensado por esse ângulo.
Fiz careta.
Na manhã seguinte, eu estava a todo vapor, um pouco ansiosa e bastante confiante. Peguei uma calça (jeans) preta e uma blusa branca de botões, fiz um rabo de cavalo nos cabelos e calcei um tênis meia. Passei pelo quarto da Clarissa, que ainda estava se arrumando, e bati na porta. Logo ela apareceu, sorridente.
Clarissa: Bom dia, mana! Tá ansiosa, já sei!
Mariana: Um pouco!
Passei por ela, que lutava para fazer escova no cabelo, dei um pulo na cama e caí perto da maleta de maquiagem, apanhando um gloss e contornando minha boca.
Mariana: Clari, você acha que vão gostar de mim a ponto de me contratar?
Perguntei ansiosa pela resposta.
Clarissa: Claro que sim, Mari! Quem seria o maluco de dizer o contrário? Você é o ser humano mais doce... mais especial... que conheço! Não tem como não gostar de você, mana, você é super amigável. Não se preocupa, tenho certeza de que vai conseguir esse trabalho em dois tempos.
Mariana: Você sabe que é a melhor irmã do mundo, não sabe?
Falei, indo abraçar a garota que sempre admirei. Clarissa era a melhor irmã que eu poderia ter, e eu morria de orgulho dela.
Mariana: Eu vim dar tchau. Já estou indo, nos vemos à noite!
Dei um beijinho no ar. Quando ia saindo, Clari chamou minha atenção.
Clarissa: Não vai esperar pela carona? Eu te levo!
Mariana: É que eu não quero me atrasar no meu primeiro dia. Você tá com cara de que vai ter uma briga intensa para poder domar seus fios.
Clarissa: Não é fácil ser cacheada, viu? É um perrengue todas as manhãs.
Saí sorrindo à procura da minha bolsa e, no meio do caminho para o elevador, chamei um táxi. Olhei mais uma vez o endereço e comuniquei ao motorista o destino desejado. Ficava em um bairro nobre da cidade.
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Sentados à mesa numa posição não tão confortável assim, Heitor se via numa cena patética sendo alimentado por sua mãe. Ele estava sem fome, porém conseguiu engolir algumas porções para satisfazer sua mãe. Aquilo era a pior forma de humilhação que um homem barbudo, com seus trinta anos, passava diariamente. A segunda humilhação era ter outro cara passando a mão nas suas partes íntimas para higienizá-lo. Todos os dias ele se perguntava que piada Heitor Martins se tornou. Um homem que tinha o controle de tudo entre as mãos, passou a não conseguir nem controlar os malditos movimentos de seu corpo. Estava sobrevivendo, aprisionado no seu próprio corpo, coberto por frustrações e olhares piedosos de todos ao seu redor.
Heitor estava se tornando um homem solitário e extremamente amargurado, carregava um grande rancor em seu coração e seria capaz de matar seu próprio irmão se conseguisse ter controle de suas pernas novamente. Patrick acabou ficando com tudo que um dia já foi seu: seu cobiçado lugar na redação da revista Marco, o patrimônio da família e, por fim, deu sua cartada final seduzindo sua namorada. Ele nunca ia perdoar Patrick por tanta trairagem.
Heitor ficava indignado pelo pai ter aceitado que Patrick ficasse como editor-chefe da revista, mesmo sabendo que ele não tinha aptidão nenhuma para gerir uma revista daquele porte. Heitor temia que logo mais ele acabaria afundando a Marco, e teria o prazer de esfregar esse feito na cara do pai.
Teodora: Come tudo, filho.
Teodora pediu, limpando a boca de Heitor com o guardanapo. Ele suspirou, entediado.
Heitor: Já estou satisfeito, mãe. Se não for pedir muito, posso me retirar?
Heitor falou, irritado, quando viu seu irmão aparecer na sala de jantar. Patrick já não morava com os pais, porém fazia questão de vir sempre para atormentar Heitor.
Patrick: Calma, irmão, não vai embora antes de eu contar meus feitos, né? Você precisa ver o balancete desse mês. A revista está indo melhor que encomenda. Se eu continuar assim, vou acabar ficando tão, ou melhor, que você, Heitor, no mundo da multimídia.
Ele riu, se vangloriando, puxando a pasta e abrindo. Pegou alguns papéis e deu ao seu pai, que fez um "O" com a boca e logo mostrou um sorriso de orelha a orelha, falando o quanto estava impressionado com aquilo.
Ana: Eu já vou indo, tenho que ir para a escola. Enquanto a você, Patrick, bom trabalho. Se continuar assim, vai ser o novo garoto pródigo do papai.
A campainha tocou. Teodora parecia um pouco nervosa. Ela acariciou a mão de Heitor com ar bastante desconfiado. Logo em seguida, a governanta da família apareceu.
Governanta: Dona Teodora, a moça da entrevista está lá fora.
Heitor rapidamente encarou Teodora, que empalideceu de vez. Ela levantou da cadeira e tentou sorrir, porém uma ruga de preocupação ficou tensionada em sua testa.
Heitor: Que entrevista? Posso saber?
Teodora: Filho, eu contratei outra pessoa para fazer companhia a você, uma assistente pessoal. Dessa vez é uma jovem quase da sua idade. Eu tenho certeza de que você vai gostar.
Heitor: Você não pode ter feito isso! Eu não quero porcaria de babá! Você está me ouvindo, mãe? Pode mandar essa garota ir embora. Eu não preciso de ninguém. Eu posso muito bem ter controle da minha vida ainda. E deixa para passar por cima das minhas ordens quando eu estiver vegetando estirado naquela cama.
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NOTAS DO AUTOR (A)
Olá queridos leitores, esse é meu novo livro espero que possam gostar e se envolver na trama assim como gostaram dos livros publicados anteriormente.
Peço que não esqueçam de deixar seu (like)👍 em cada capítulo e comentar suas opiniões, isso é muito importante para tornar a história visível para outros leitores.
Para estamos pertinhos e sempre ficar por dentro das novidades dos livros me sigam no Instagram.
autora_luh_fics
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Atualizado até capítulo 76
Comments
Euridice Neta
Começando ler em 06/02/2025 e já com ranço desse irmão e anciisa pra ver como Heitor e Mariana vão conviver...
2025-02-09
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Rita Aparecida
Bom estou começando a ler vamos ver o desenrolar da historia
2024-12-06
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SIDY RODRÍGUES
/Brokenheart//Brokenheart//Brokenheart//Brokenheart//Brokenheart/
2024-10-04
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