Sophie Blackwood
Os primeiros raios do sol invadiram meu quarto enquanto eu ajustava meu vestido frente ao espelho. Desde que começara a ajudar Collin com os assuntos da propriedade, havia uma nova energia em mim. Não era apenas o trabalho no jardim ou os encontros no escritório dele; era algo mais profundo, algo que eu não conseguia definir completamente.
Collin, apesar de sua aparência imponente e personalidade reservada, demonstrava uma sensibilidade que poucos conheciam. A maneira como ele falava sobre sua família, sobre a responsabilidade que carregava, mostrava um homem que protegia o que amava com todas as forças.
Desci para o salão principal, onde encontrei James arrumando os papéis na mesa do corredor.
– Bom dia, James. O Conde já está acordado? – perguntei.
– Ele saiu para os campos logo cedo, milady – respondeu ele, com seu tom característico de eficiência.
Decidi ir até lá. As botas não eram as mais adequadas para caminhar na terra molhada, mas minha curiosidade era maior do que qualquer inconveniente.
Ao me aproximar dos campos, avistei Collin ao longe, conversando com os trabalhadores. Sua figura alta e sólida era inconfundível, mesmo à distância. Ele gesticulava enquanto falava, e os homens ao seu redor assentiam com respeito.
Quando ele me viu, uma expressão de surpresa cruzou seu rosto.
– Sophie? O que faz aqui tão cedo?
– Vim ver como estão os trabalhos – respondi, cruzando os braços e tentando parecer séria.
Ele riu, aquele som grave e raro que fazia algo em meu peito se aquecer.
– Os trabalhos estão indo bem. E você? Não deveria estar no jardim?
– Hoje decidi explorar outros terrenos – brinquei.
Collin balançou a cabeça, mas havia um brilho nos olhos dele que eu não podia ignorar.
– Então venha – disse ele, estendendo a mão.
Olhei para sua mão, hesitante. Era a primeira vez que ele fazia um gesto tão direto. Finalmente, aceitei, e ele me guiou pelo campo, explicando cada detalhe do que estava sendo feito.
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Collin Blackwood
Tê-la ao meu lado no campo foi uma experiência inesperada. Sophie fazia perguntas inteligentes, suas observações sempre pontuais. Sua presença, de alguma forma, suavizava o peso que eu costumava carregar sozinho.
Enquanto caminhávamos, percebi algo diferente nela. Apesar de sua dificuldade em enxergar, ela parecia notar detalhes que outros ignoravam.
– Você tem um dom para isso – comentei, parando para olhar para ela.
– Para o quê? – perguntou, confusa.
– Para ver além do óbvio.
Ela sorriu, um sorriso tímido que iluminou o momento.
– Talvez seja porque eu precise me esforçar mais do que os outros – disse, dando de ombros.
Algo em sua vulnerabilidade me tocou profundamente. Eu queria dizer algo, mas as palavras pareciam presas na garganta.
– Collin?
– Sim?
– Obrigada por me deixar ajudar. Sei que este casamento começou por conveniência, mas... sinto que estou começando a encontrar meu lugar aqui.
A honestidade em suas palavras me desarmou.
– Sophie, você é mais importante para esta casa do que imagina – respondi, finalmente.
Por um momento, ficamos em silêncio, apenas olhando um para o outro. Havia algo naquele momento, algo que eu não conseguia explicar.
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Mais tarde, ao voltarmos para a casa, decidimos compartilhar o chá na biblioteca. Era um dos poucos momentos em que podíamos estar a sós sem interrupções.
Sophie escolheu um livro de poesia e começou a lê-lo em voz alta. Sua voz era suave, mas carregava emoção em cada palavra.
– Você tem talento para isso – comentei, quando ela terminou.
– Para ler?
– Para dar vida às palavras.
Ela corou, e algo dentro de mim se mexeu. Era raro vê-la envergonhada, e isso apenas a tornava ainda mais encantadora.
– Collin, você já leu poesia?
– Não sou exatamente o tipo de homem que lê poesia – admiti, sorrindo.
– Então talvez seja hora de começar – disse ela, entregando-me o livro.
Peguei o volume com hesitação e li o primeiro poema que encontrei. Minhas palavras eram mais rígidas, sem a fluidez natural de Sophie, mas ela me ouviu com atenção, os olhos fixos em mim.
Quando terminei, ela sorriu.
– Nada mal para um iniciante.
Ri, sentindo-me estranhamente à vontade.
– Talvez eu deva deixar a poesia para você.
– Ou talvez possamos aprender juntos – sugeriu.
Havia algo em sua voz, algo tão genuíno, que me fez querer aceitar.
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Nos dias seguintes, passamos mais tempo juntos. Nossas caminhadas pelos campos tornaram-se rotina, assim como as noites na biblioteca. Sophie era uma presença constante e, aos poucos, comecei a perceber o quanto isso significava para mim.
Uma noite, enquanto estávamos no salão principal, uma tempestade começou a se formar lá fora. O vento uivava, e os trovões faziam a casa tremer.
– Parece que será uma longa noite – comentei, observando as janelas.
– Tempestades sempre me fascinaram – disse Sophie, sentando-se perto da lareira.
– Fascinam? – perguntei, sentando-me ao lado dela.
– Sim. Elas são poderosas, imprevisíveis, mas sempre passam.
Sua observação me fez pensar.
– Você é uma mulher surpreendente, Sophie – disse, sem pensar.
Ela olhou para mim, surpresa.
– Por que diz isso?
– Porque você vê o mundo de uma maneira que poucos conseguem.
Ela sorriu, mas havia algo em seu olhar que parecia buscar algo mais.
– E você, Collin? O que vê?
A pergunta me pegou de surpresa.
– Não sei... Acho que nunca realmente parei para pensar nisso.
– Talvez devesse – sugeriu, sua voz suave.
Ficamos em silêncio por um momento, apenas ouvindo o som da chuva. Então, sem aviso, ela estendeu a mão e tocou a cicatriz no meu rosto.
– O que está fazendo? – perguntei, minha voz baixa.
– Tentando entender – respondeu.
Seu toque era suave, quase hesitante, mas não havia pena em seus olhos. Apenas curiosidade e... algo mais.
– Collin, você não precisa se esconder de mim.
Suas palavras me atingiram como um golpe. Por tanto tempo, vivi na sombra da minha própria insegurança, mas Sophie... ela me via de uma maneira diferente.
Sem pensar, segurei sua mão.
– Você é mais forte do que pensa, Sophie – disse, minha voz firme.
– E você é mais bonito do que acredita – respondeu ela, um sorriso suave nos lábios.
Foi nesse momento que percebi que algo estava mudando entre nós. Não era apenas uma aliança de conveniência. Era algo mais profundo, algo que eu não sabia se estava pronto para enfrentar.
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Atualizado até capítulo 37
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