Sophie Al-Fayez Blackwood
O vento suave que cortava os campos de Blackwood Hall tinha um aroma único de terra úmida e flores silvestres. Estava me acostumando a esse cenário, tão diferente do que eu conhecera em Londres. Ainda assim, o peso de ser uma forasteira, tanto na casa quanto na vida de Collin, continuava presente.
Os dias tinham passado de maneira peculiarmente tranquila desde nossa cavalgada, e Collin estava... diferente. Ele não era o homem distante que eu imaginava. Havia algo gentil, quase hesitante, por trás de sua fachada. Não podia ignorar os momentos em que nossos olhares se cruzavam durante o jantar, ou quando sua voz baixava em tom involuntário ao falar comigo.
Era difícil decifrá-lo, mas algo nele me intrigava. Ele não me via como uma mulher com limitações. Ele me via.
---
Naquela manhã, fui despertada por Anna, minha camareira, com a habitual diligência.
– Bom dia, milady – disse ela, abrindo as cortinas para deixar a luz entrar. – O conde saiu cedo para uma reunião com o intendente.
Assenti, agradecendo a informação, mas minha mente estava mais ocupada com outro pensamento. Queria explorar os jardins. As palavras de Collin sobre providenciar um espaço mais vivo para Blackwood Hall ainda ecoavam em minha mente.
Após vestir-me, desci as escadas em direção ao lado oeste da propriedade. O jardim era meticulosamente cuidado, mas faltava algo. Cor. Personalidade. Vida.
Percorri os canteiros, tocando de leve as pétalas de rosas perfeitamente alinhadas. A perfeição era sufocante.
– Milady, deseja algo? – A voz vinha de um dos jardineiros, um homem mais velho chamado Thomas, que me observava com curiosidade.
– Na verdade, sim – respondi, sorrindo para ele. – Gostaria de saber se há espaço para um jardim diferente, algo mais... espontâneo.
Ele pareceu confuso por um momento, mas depois assentiu.
– Há um terreno perto do riacho que não usamos há anos. Pode ser um bom lugar para algo assim.
– Mostre-me, por favor.
Thomas me guiou por uma trilha até uma clareira próxima ao riacho, onde o som da água correndo era quase hipnotizante. O terreno era amplo e banhado pela luz do sol.
– Perfeito – murmurei, sentindo uma onda de empolgação crescer em meu peito.
---
Passei o restante da manhã anotando ideias para o novo jardim. Havia flores nativas que poderiam prosperar ali, além de algumas espécies que lembravam minha infância em Londres.
Quando voltei para o salão principal, Collin estava lá, discutindo algo com um homem que reconheci como o intendente da propriedade. Ele levantou os olhos quando entrei, e o leve sorriso em seu rosto foi inesperado.
– Lady Blackwood – disse ele, com a habitual formalidade.
– Lorde Blackwood – respondi no mesmo tom, mas havia um brilho de provocação em minha voz.
O intendente se despediu logo depois, deixando-nos sozinhos.
– Parece que teve uma manhã produtiva – comentou ele, indicando o caderno que eu segurava.
– De fato. Thomas me mostrou um terreno próximo ao riacho. Quero criar um novo jardim lá, algo menos... rígido.
Collin arqueou uma sobrancelha, mas havia curiosidade em seus olhos.
– Um jardim espontâneo?
– Sim. Algo que traga vida para Blackwood Hall, como você disse.
Ele pareceu ponderar por um momento antes de assentir.
– Se precisar de recursos, informe-me.
Seu apoio, embora contido, aqueceu meu coração.
---
Nos dias seguintes, mergulhei no projeto do jardim. Thomas foi uma grande ajuda, assim como alguns dos outros jardineiros. As primeiras mudas começaram a ser plantadas, e o terreno que antes parecia vazio ganhou cor e textura.
Collin passava ocasionalmente para observar o progresso, mas nunca ficava por muito tempo. Ainda assim, sentia sua presença como uma sombra constante, e isso me confortava de uma forma que eu não sabia explicar.
Uma tarde, enquanto estava no jardim, ouvi passos se aproximando.
– Você tem trabalhado muito – disse Collin, sua voz baixa mas audível.
Levantei-me, limpando a terra das mãos.
– Um jardim não se faz sozinho.
Ele riu suavemente, algo raro, mas encantador.
– Parece que está ganhando forma – comentou, observando as flores recém-plantadas.
– Sim, mas ainda há muito a fazer.
Ficamos em silêncio por alguns momentos, apenas observando o trabalho. Então ele se virou para mim, sua expressão mais séria.
– Sophie, por que isso é tão importante para você?
A pergunta me pegou de surpresa, mas não hesitei em responder.
– Porque quero que Blackwood Hall seja um lar, não apenas uma propriedade. E, de certa forma, acho que isso também reflete o que quero para nós.
Ele pareceu absorver minhas palavras, e por um momento, achei que fosse dizer algo significativo. Mas então ele apenas assentiu e se afastou.
---
Naquela noite, durante o jantar, a conversa foi leve, mas algo na atmosfera parecia diferente. Collin estava mais atento, quase como se estivesse tentando entender algo sobre mim que não conseguia expressar em palavras.
Quando ele finalmente se levantou para sair, hesitei antes de falar.
– Collin.
Ele parou, virando-se para mim com uma expressão de curiosidade.
– Sim?
– Obrigada por me permitir criar o jardim.
Ele inclinou a cabeça, um gesto pequeno, mas que parecia carregado de significado.
– Você não precisa me agradecer, Sophie. Blackwood Hall agora também é sua casa.
As palavras eram simples, mas algo nelas mexeu comigo. Talvez fosse a maneira como ele as disse, com uma sinceridade que eu raramente via.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 37
Comments