A Nova Realidade

Collin Blackwood

A presença dela era como uma sombra que eu não sabia se acolhia ou temia. Sophie Al-Fayez Blackwood tinha mais coragem do que qualquer dama que eu já conhecera. Não era apenas pela maneira como se portava — um misto de graça contida e determinação —, mas pela honestidade desarmante de suas palavras.

O comentário sobre os jardins ecoava em minha mente enquanto eu revisava os documentos acumulados sobre a administração das terras. “Falta vida.” Essas palavras, ditas com a delicadeza de quem entende as sutilezas da natureza, expuseram algo que eu vinha ignorando: a ordem impecável de Blackwood Hall era uma extensão da minha própria necessidade de controle.

Desde o acidente que deformou parte do meu rosto, controlar tudo ao meu redor tornou-se uma obsessão. Não era apenas sobre a propriedade, mas sobre proteger o que restava da minha dignidade, minha posição e, principalmente, minha autonomia. E agora havia Sophie, com seus olhos atentos e seus julgamentos diretos, forçando-me a reconsiderar partes de mim que eu preferia manter intocadas.

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Na manhã seguinte, decidi sair para cavalgar. Montar sempre foi minha forma de clarear a mente, e o estábulo era um dos poucos lugares onde eu podia ser apenas Collin, e não o conde. Quando cheguei, porém, encontrei Sophie.

Ela estava com uma égua castanha, acariciando gentilmente o focinho do animal. Vestida com um traje simples, mas elegante, parecia mais à vontade do que eu imaginava possível.

– Lady Blackwood – chamei, mais como um aviso de minha presença do que como um cumprimento.

Ela se virou, um sorriso ligeiro nos lábios.

– Lorde Blackwood – respondeu no mesmo tom formal, mas havia um brilho de provocação em seus olhos. – Espero não estar invadindo seu espaço.

– De forma alguma – menti. Era uma surpresa encontrá-la ali, e eu ainda não sabia o que pensar sobre isso. – Você monta?

Ela hesitou por um momento.

– Não com frequência. Meu pai achava perigoso, então minhas lições foram limitadas.

– Isso pode ser corrigido – ofereci, antes mesmo de perceber que estava falando. – Blackwood Hall tem cavalos bem treinados. Podemos providenciar aulas para você.

Seus olhos brilharam, e por um momento, vi algo quase infantil em sua expressão: entusiasmo.

– Eu adoraria – disse ela, acariciando novamente a égua. – Sempre achei fascinante a liberdade que deve ser sentir o vento no rosto enquanto cavalga.

Liberdade. Uma palavra que parecia seguir Sophie como uma sombra.

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Decidi acompanhá-la em uma pequena introdução à montaria. Escolhi Titan, meu cavalo de guerra aposentado, para me acompanhar, enquanto Sophie montava Ginger, uma égua dócil e obediente.

No início, ela parecia nervosa, mas logo mostrou uma naturalidade surpreendente. Mesmo com sua visão limitada, Sophie era cuidadosa, prestando atenção às minhas instruções.

– Está indo bem – elogiei, enquanto caminhávamos lado a lado pelo campo.

Ela sorriu, mas não disse nada. Por algum tempo, cavalgar ao seu lado foi... confortável. Era como se o peso da formalidade tivesse desaparecido, deixando espaço para algo mais simples e autêntico.

Quando voltamos ao estábulo, Sophie desmontou com a ajuda de um cavalariço. Sua expressão era de pura satisfação.

– Obrigada, Collin – disse ela, e percebi que era a primeira vez que ela usava meu nome sem título.

Assenti, sentindo algo estranho em meu peito. Talvez fosse satisfação, ou talvez fosse algo mais complicado.

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De volta à mansão, fui direto ao meu escritório. O impacto que Sophie estava tendo em minha vida me preocupava mais do que eu gostaria de admitir. Desde o acidente, eu me acostumara a manter todos à distância, mas ela parecia atravessar essas barreiras com uma facilidade desconcertante.

Antes de me concentrar nos papéis, abri uma gaveta e tirei um pequeno espelho que mantinha guardado ali. O reflexo me encarou com a mesma severidade de sempre: a pele marcada por cicatrizes irregulares do lado esquerdo do rosto, lembranças vívidas de um incêndio durante a guerra.

Havia aprendido a suportar os olhares de pena ou horror, mas a presença de Sophie me fazia desejar algo que eu há muito tempo renegara: aceitação. Não como conde, mas como homem.

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Naquela noite, durante o jantar, Sophie estava mais falante do que de costume. Ela contou sobre sua infância em Londres, histórias leves que arrancaram risadas discretas de mim.

– Nunca pensei que um conde risse tão facilmente – provocou ela, inclinando levemente a cabeça.

– E eu nunca pensei que uma dama pudesse ser tão perspicaz – respondi, sem me importar com a provocação.

Nos olhos dela, vi algo que parecia ser orgulho. E naquele momento, percebi que Sophie não era apenas minha esposa por conveniência. Ela era minha aliada, alguém que podia desafiar minhas ideias e, ao mesmo tempo, me oferecer consolo.

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Mais tarde, enquanto caminhava pelos corredores silenciosos de Blackwood Hall, passei pela porta do quarto de Sophie. Por um momento, considerei bater, mas hesitei. Ela era minha esposa, mas o vínculo que estávamos construindo era frágil, como um fio fino de seda.

Em vez disso, continuei caminhando até o meu próprio quarto. Sentado à beira da cama, olhei novamente para as cicatrizes que me definiam há anos. Talvez, com o tempo, Sophie fosse a única pessoa que poderia me ajudar a enxergar além delas.

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