Collin Blackwood
A manhã estava envolta em um nevoeiro que fazia Blackwood Hall parecer um cenário de sonho. A umidade se agarrava às árvores, e o ar tinha um frescor que só os primeiros dias de primavera podiam oferecer. Levantei cedo, como de costume, decidido a evitar as distrações que vinham me atormentando desde que Sophie chegou.
Minha vida sempre foi simples em sua complexidade: administrar a propriedade, proteger meu legado e manter as pessoas à distância. Agora, essa mulher, com sua visão limitada e uma determinação que rivalizava com a minha, parecia estar mudando tudo.
Passei a mão pelos papéis em minha mesa, tentando me concentrar nos números que precisavam ser analisados, mas a imagem dela no jardim, ajoelhada e com as mãos sujas de terra, continuava a me distrair.
Thomas, o jardineiro, mencionara que Sophie passara horas lá ontem. Ela havia liderado os trabalhadores com uma precisão que impressionava, apesar de sua visão limitada. Algo nela me intrigava. Era como se sua determinação em transformar o terreno fosse uma metáfora para algo maior, algo que eu não conseguia alcançar.
Quando finalmente desci para o café da manhã, encontrei Sophie já à mesa. Ela estava elegante, como sempre, mas havia um brilho em seus olhos que parecia diferente.
– Bom dia, Collin – disse ela, com um sorriso discreto.
– Bom dia, Sophie – respondi, sentando-me na ponta da mesa. – Espero que tenha descansado depois de ontem. Thomas me disse que você trabalhou bastante.
Ela deu de ombros, como se não fosse nada demais.
– O trabalho no jardim me dá energia. É satisfatório ver algo ganhar vida.
Houve um silêncio confortável enquanto os criados serviam o café.
– E você? – perguntou ela, interrompendo meus pensamentos. – O que planeja fazer hoje?
– Negócios da propriedade – respondi, de maneira vaga.
Ela arqueou uma sobrancelha, visivelmente insatisfeita com a resposta.
– Sempre negócios?
– Sempre – confirmei.
Ela parecia prestes a dizer algo, mas se conteve, optando por um leve sorriso antes de desviar o olhar.
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Passei a maior parte da manhã revisando os livros de contabilidade da propriedade e discutindo os preparativos para a colheita com o intendente. A rotina era monótona, mas segura. Era algo que eu podia controlar, ao contrário da presença de Sophie, que trazia uma energia que eu não sabia como lidar.
Por volta do meio-dia, decidi verificar o jardim. Queria entender o que a fazia dedicar tanto tempo e esforço a ele.
Quando cheguei, encontrei Sophie supervisionando os trabalhadores. Ela estava de pé, com um vestido simples que parecia quase prático demais para uma dama de sua posição, mas que não diminuía sua elegância.
– Você realmente não sabe descansar, não é? – comentei, anunciando minha presença.
Ela se virou, sorrindo ao me ver.
– E você realmente não sabe fazer elogios, não é?
Ri baixo, algo que parecia cada vez mais natural na presença dela.
– Acho que ambos temos nossas limitações.
Ela voltou a atenção para o jardim, indicando uma área onde novas mudas estavam sendo plantadas.
– O que acha? – perguntou, claramente buscando minha opinião.
Observei por um momento antes de responder.
– Está... diferente. Menos estruturado do que o resto da propriedade.
– Isso é exatamente o que quero – disse ela, parecendo satisfeita com minha resposta. – Não quero algo que siga padrões rígidos. Quero algo que pareça vivo, como se sempre tivesse estado aqui.
Houve algo em suas palavras que me tocou. Talvez porque, de certa forma, elas também descreviam Sophie.
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Quando voltei ao meu escritório, percebi que estava me tornando dependente da presença dela. Era uma ideia desconfortável, mas não podia negá-la.
Meu olhar caiu sobre o espelho que ainda estava em minha gaveta. Peguei-o e encarei meu reflexo. As cicatrizes eram uma lembrança constante do que eu havia perdido na guerra. E agora, havia Sophie, que parecia enxergar além delas de uma maneira que ninguém mais conseguia.
Antes que pudesse afundar ainda mais nesses pensamentos, uma batida na porta interrompeu meu devaneio.
– Entre – disse, colocando o espelho de volta na gaveta.
Era Henry, meu primo e o único membro da família com quem ainda mantinha contato regular. Ele entrou com um sorriso irônico, como sempre.
– Collin, você está cada vez mais difícil de encontrar – comentou, sentando-se sem ser convidado.
– Não estou exatamente escondido, Henry – respondi, tentando manter meu tom casual.
– Bem, achei que deveria vir ver como está sua nova vida de casado.
Revirei os olhos, mas ele continuou.
– Ouvi dizer que sua esposa é... peculiar.
– Sophie é uma mulher excepcional – retruquei, surpreso pela intensidade em minha própria voz.
Henry me encarou por um momento antes de sorrir.
– Isso é bom de ouvir, primo. Talvez ela seja exatamente o que você precisa.
Não respondi, mas suas palavras ficaram comigo muito depois de ele sair.
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Naquela noite, encontrei Sophie na biblioteca. Ela estava sentada em uma poltrona, com um livro no colo e uma expressão serena no rosto.
– Posso me juntar a você? – perguntei, surpreendendo a mim mesmo.
Ela levantou os olhos, parecendo igualmente surpresa, mas assentiu.
Sentei-me na poltrona ao lado dela, e por um momento, ficamos em silêncio.
– Collin – começou ela, depois de algum tempo. – Por que nunca fala sobre o que aconteceu na guerra?
A pergunta era direta, mas sua voz tinha uma suavidade que tornava impossível ignorá-la.
– Porque não há nada que valha a pena ser dito – respondi, tentando encerrar o assunto.
Mas ela não desistiu.
– Eu discordo. Acho que há muito que vale a pena ser dito, mesmo que seja doloroso.
Olhei para ela, e em seus olhos, vi algo que raramente via nas pessoas: compreensão.
– Você é insistente, sabia? – comentei, tentando aliviar a tensão.
– E você é teimoso.
Ri baixinho, e por um momento, o peso de minhas cicatrizes pareceu diminuir. Talvez, apenas talvez, Sophie fosse exatamente o que Henry dissera: alguém que eu precisava.
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Atualizado até capítulo 37
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