Ecos Do Passado

Collin Blackwood

A manhã trouxe consigo uma neblina densa, cobrindo os campos de Blackwood Hall como um manto pesado. Caminhei até a janela do meu escritório, observando o mundo lá fora com a mente inquieta. As palavras de Sophie na noite anterior ainda ecoavam em minha cabeça.

– O que aconteceu na guerra?

Nunca gostei de revisitar esse capítulo da minha vida, mas havia algo na maneira como ela perguntou que me desarmou. Não foi curiosidade banal ou compaixão vazia. Havia sinceridade em seus olhos, um desejo real de entender.

Ainda assim, abrir-me para ela era um risco. A guerra deixou cicatrizes em mim, tanto físicas quanto emocionais, e não eram apenas as que marcavam meu rosto. Havia dores que eu carregava sozinho, e preferia manter assim.

Peguei minha bengala e caminhei até o lado oeste da propriedade, onde os campos começavam a florescer novamente. Thomas e sua equipe tinham feito um trabalho admirável ao lado de Sophie, mas hoje não vim inspecionar as plantações. Precisava de ar. Precisava pensar.

Enquanto atravessava o terreno, avistei Sophie ao longe, ajoelhada perto de um canteiro. Ela estava concentrada, os cabelos presos de forma desajeitada, com algumas mechas soltas balançando ao vento.

– Trabalhando cedo, milady? – perguntei, aproximando-me.

Ela se virou, surpresa, e um sorriso suave apareceu em seus lábios.

– Bom dia, Collin. Não consegui dormir, então achei que vir aqui seria mais produtivo.

Eu me sentei em um banco próximo, observando-a em silêncio. Sophie tinha uma maneira peculiar de fazer as coisas. Apesar de sua visão limitada, ela se movia com uma determinação que era quase inspiradora.

– Por que este jardim é tão importante para você? – perguntei finalmente.

Ela parou por um momento, pensativa.

– Porque ele representa algo maior – respondeu, ajeitando a terra ao redor de uma flor recém-plantada. – Quando eu era mais jovem, meu pai costumava dizer que a vida é como um jardim. Você colhe o que planta, mas também precisa cuidar, proteger e nutrir o que cresce.

Havia uma sabedoria em suas palavras que me deixou desconcertado.

– E o que você espera colher aqui? – indaguei.

– Esperança – respondeu simplesmente.

Essa palavra pairou no ar entre nós, pesada e significativa.

---

Ao retornar para a casa, encontrei o mordomo, James, à minha espera no corredor principal.

– Milorde, uma carta chegou esta manhã – disse ele, entregando-me o envelope lacrado.

Reconheci o selo imediatamente. Era de Sir Richard Hawthorne, um velho amigo da família que eu não via há anos. Abrindo o envelope, li rapidamente as palavras formais que ele escrevera.

"Caro Collin,

Espero que esta carta o encontre bem. Ouvi rumores sobre seu casamento recente e gostaria de parabenizá-lo. Contudo, é com preocupação que escrevo para informá-lo sobre alguns movimentos recentes nas terras próximas à sua. Parece que há interesses financeiros em jogo que podem impactar suas propriedades. Precisamos discutir isso com urgência.

Com os melhores cumprimentos,

Sir Richard Hawthorne."

Dobrei a carta e a guardei no bolso. Isso era exatamente o que eu não precisava agora.

Mais tarde, durante o jantar, decidi compartilhar a notícia com Sophie.

– Recebi uma carta de Sir Richard hoje – comecei, cortando um pedaço de carne.

Ela olhou para mim com curiosidade.

– Quem é ele?

– Um velho amigo da família. Parece que há alguns problemas surgindo nas terras ao redor de Blackwood Hall.

– Que tipo de problemas?

– Interesses financeiros. Especulação de terras. Ainda não tenho todos os detalhes, mas precisarei lidar com isso em breve.

Ela assentiu, pensativa.

– E como posso ajudar?

Essa pergunta me pegou de surpresa.

– Não acho que isso seja algo com que você precise se preocupar – respondi, talvez mais bruscamente do que pretendia.

Sophie franziu a testa, mas não insistiu. Ainda assim, havia algo em seu olhar que me dizia que ela não estava satisfeita com minha resposta.

---

Nos dias seguintes, as coisas começaram a se mover rapidamente. Recebi outra carta, desta vez de um advogado representando um grupo de investidores. Eles estavam interessados em adquirir uma parte das terras de Blackwood Hall, alegando que eram subutilizadas.

Fiquei furioso. Essas terras pertenciam à minha família há gerações. Não permitiria que fossem tomadas por especuladores gananciosos.

Chamei James ao meu escritório.

– Envie uma resposta a esses investidores. Diga-lhes que Blackwood Hall não está à venda, nem nunca estará.

James assentiu e saiu para cumprir minhas ordens.

Enquanto isso, Sophie continuava sua rotina no jardim, aparentemente alheia ao tumulto que estava se formando. No entanto, eu sabia que ela estava ciente. Sophie era mais perspicaz do que eu lhe dava crédito.

Naquela noite, enquanto revisava alguns documentos no meu escritório, ouvi uma batida leve na porta.

– Entre – disse, sem levantar os olhos dos papéis.

Sophie entrou, trazendo consigo uma bandeja com chá.

– Achei que você poderia precisar disso – disse ela, colocando a bandeja na mesa.

– Obrigado – respondi, surpreso com o gesto.

Ela se sentou na poltrona em frente à minha mesa, observando-me enquanto eu trabalhava.

– Você parece tenso – comentou.

– É porque estou – admiti, esfregando as têmporas.

Sophie inclinou-se para frente, os olhos fixos nos meus.

– Collin, você não precisa carregar isso sozinho.

Eu ri, um som seco e sem humor.

– E quem mais carregaria, Sophie? Estas terras são minha responsabilidade. Esta casa é minha responsabilidade.

– Eu sou sua esposa – disse ela, a voz firme. – Isso significa que sua carga também é minha.

Suas palavras me pegaram de surpresa. Olhei para ela, realmente olhei, e pela primeira vez percebi o quanto ela era forte.

– Muito bem – disse finalmente. – Se você insiste em ajudar, então talvez haja algo que possa fazer.

E, assim, começamos a trabalhar juntos.

---

Os dias seguintes foram intensos. Sophie provou ser uma aliada valiosa, com ideias práticas e uma capacidade surpreendente de análise. Suas sugestões para lidar com os investidores foram perspicazes, e comecei a perceber que minha esposa era muito mais do que eu havia imaginado.

Ainda assim, havia momentos em que me pegava olhando para ela, perguntando-me o que fiz para merecer alguém como Sophie em minha vida.

Uma noite, enquanto estávamos sentados no salão após o jantar, decidi contar-lhe mais sobre Sir Richard e a história de Blackwood Hall.

– Richard era um amigo próximo de meu pai – comecei. – Ele esteve ao nosso lado durante alguns dos momentos mais difíceis.

Sophie ouviu atentamente, absorvendo cada palavra.

– E você confia nele? – perguntou ela.

– Sim, confio. Mas também sei que ele tem seus próprios interesses.

Ela assentiu, pensativa.

– Então, precisamos estar preparados para o que quer que venha a seguir.

Seu otimismo era contagiante, e, pela primeira vez em muito tempo, senti uma centelha de esperança.

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