Sophie Al-Fayez
A primavera avançava rapidamente, trazendo com ela uma vibração renovada para Blackwood Hall. Era como se o próprio solo, antes contido e sombrio, estivesse começando a responder aos toques cuidadosos de minhas mãos e à minha visão de algo mais vivo e acolhedor. Ainda assim, a casa parecia guardar seus segredos, e um dos mais profundos era Collin.
Ele era uma enigma constante, uma presença sólida e confusa ao mesmo tempo. Apesar de sua fachada inabalável, os momentos de vulnerabilidade que ele deixava escapar diziam mais do que qualquer palavra. E, de alguma forma, eu queria descobrir quem ele realmente era, o que estava escondido sob aquela armadura de silêncio e cicatrizes.
Naquela manhã, decidi visitar novamente o jardim. Sabia que a presença de Collin pairava na casa como uma sombra; ainda assim, sentia que nossa convivência estava avançando. Ele não era o mesmo homem distante de antes, e isso me dava esperanças de que talvez houvesse algo mais entre nós.
– Senhora Sophie – chamou Thomas, o jardineiro-chefe, enquanto apontava para uma área próxima ao lago. – Estamos quase terminando a plantação de margaridas aqui. Queria saber se a senhora deseja ajustar algo.
– Não, Thomas. Está perfeito – respondi com um sorriso.
Enquanto Thomas continuava seu trabalho, caminhei lentamente pelo terreno. Minhas mãos tocavam as pétalas das flores, e eu sentia a textura da vida nova brotando sob meus dedos. Essa conexão com o jardim me dava uma sensação de controle, algo que parecia escapar em outros aspectos da minha vida, especialmente no que dizia respeito ao meu casamento.
Ao longe, ouvi passos pesados e reconheci imediatamente quem se aproximava. Collin tinha uma presença que não podia ser ignorada, mesmo quando ele tentava se mover em silêncio.
– Bom dia, Sophie – ele disse, sua voz profunda quebrando a tranquilidade do momento.
– Bom dia, Collin – respondi, virando-me para encará-lo.
Ele estava com um chapéu que sombreava parte de seu rosto, mas mesmo assim, pude ver o olhar avaliador em seus olhos.
– Está inspecionando meu progresso? – perguntei, erguendo uma sobrancelha.
– Na verdade, estava curioso para ver o que mantém você tão ocupada – respondeu ele, cruzando os braços.
– E o que acha?
Ele olhou ao redor, absorvendo o cenário.
– Parece que você trouxe vida a um lugar que estava adormecido há muito tempo.
Havia sinceridade em suas palavras, e isso me pegou desprevenida.
– Obrigada – disse, com um sorriso suave. – E você? Como está lidando com seus próprios desafios?
Collin ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse minha pergunta.
– Estou lidando – respondeu finalmente, desviando o olhar.
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A tarde foi preenchida com reuniões administrativas e cartas que precisavam ser respondidas. Collin havia mencionado que sairia para inspecionar algumas terras na periferia da propriedade, e sua ausência deixava a casa estranhamente vazia.
Decidi passar algum tempo na biblioteca, um dos poucos lugares em Blackwood Hall que me oferecia um refúgio verdadeiro. Enquanto percorria as prateleiras em busca de algo interessante, minha mão esbarrou em um livro pequeno e desgastado. Era um diário, aparentemente abandonado.
Curiosa, abri o livro e comecei a ler. As primeiras páginas estavam repletas de anotações sobre a guerra, e, pelo estilo da escrita, percebi que pertenciam a Collin.
“8 de julho – As tropas avançaram hoje. Perdi mais homens do que esperava. Cada vida pesa em meus ombros, e ainda assim, não há tempo para lamentar. As cicatrizes que carrego no corpo são um lembrete constante do inferno que vivemos, mas as do coração são infinitamente mais profundas.”
Meu coração apertou ao ler as palavras, e uma onda de emoção me envolveu. Fechei o diário, sentindo que estava invadindo algo profundamente pessoal.
Quando Collin retornou mais tarde, tentei agir naturalmente, mas ele percebeu minha inquietação imediatamente.
– O que houve? – perguntou, sua expressão séria.
– Nada – respondi rapidamente, desviando o olhar.
Ele não parecia convencido, mas não insistiu.
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Naquela noite, enquanto jantávamos, a atmosfera entre nós era carregada. Havia tantas coisas não ditas, tantas perguntas que pairavam no ar, mas nenhuma parecia encontrar voz. Finalmente, decidi romper o silêncio.
– Collin, há algo que preciso perguntar.
Ele ergueu o olhar, atento.
– O que aconteceu na guerra?
Sua expressão endureceu, e por um momento, achei que ele fosse se recusar a responder.
– Por que quer saber? – perguntou, sua voz baixa e controlada.
– Porque acho que é importante. Não apenas para mim, mas para você também.
Houve um longo silêncio antes que ele finalmente falasse.
– A guerra não é algo que pode ser explicado em poucas palavras, Sophie. É um lugar onde a humanidade se perde, onde o pior de nós emerge. Perdi amigos, homens que confiavam em mim. E, no final, perdi uma parte de mim mesmo.
Havia tanta dor em suas palavras que, por um momento, senti vontade de tocá-lo, de confortá-lo. Mas sabia que isso não seria bem recebido.
– Obrigada por compartilhar isso comigo – disse suavemente.
Ele assentiu, mas não respondeu.
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Mais tarde, enquanto estava em meu quarto, refleti sobre tudo o que havia acontecido naquele dia. Meu casamento com Collin havia começado como uma conveniência, mas agora parecia que algo mais estava se desenvolvendo.
Havia tantas camadas nele, tantas cicatrizes que precisavam ser curadas. E, de alguma forma, sentia que também havia algo em mim que precisava ser curado.
Decidi que, independentemente do que acontecesse, faria o possível para ajudá-lo a encontrar a paz que ele tanto parecia desejar.
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Atualizado até capítulo 37
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