O dia seguinte começou com uma neblina leve que pairava sobre a cidade, quase como um véu sobre as incertezas que habitavam o coração de João. Ele acordou com o eco da conversa do jantar ainda ressoando em sua mente. Miguel estava radiante, cheio de otimismo, mas João não conseguia escapar das correntes pesadas que o prendiam ao seu passado. A vida com Clara havia reaberto uma ferida que ele pensava já estar cicatrizada, e ele se perguntava se conseguiria realmente confiar nela.
Naquela manhã, enquanto se preparava para o colégio, João olhou-se no espelho e viu um reflexo de alguém que precisava mudar, alguém que não podia se deixar dominar por inseguranças. Ele vestiu uma camiseta que Miguel havia escolhido para ele, uma de suas favoritas, e decidiu que enfrentaria o dia, não importa o que acontecesse.
Ao chegar ao colégio, Miguel já estava lá, ansioso para contar aos amigos sobre o jantar com Clara. João observou enquanto o irmão se iluminava, rodeado por seus colegas, e se sentiu um pouco isolado. Ele não tinha certeza de como compartilhar suas próprias preocupações e, com isso, o seu sentimento de estar sendo deixado de lado cresceu.
Durante a aula de história, João se perdeu em pensamentos. O professor falava sobre a Revolução Francesa, mas tudo o que ele conseguia pensar era na revolução que estava acontecendo em sua própria vida. Os ecos das palavras de Clara ainda ressoavam em sua mente: "Estou aqui para adicionar à nossa família." Mas como isso funcionaria na prática? Como ele poderia se sentir à vontade com essa nova dinâmica?
Após a escola, Miguel sugeriu que eles fossem ao parque, um lugar que sempre tinha sido um refúgio para os dois. “Vamos praticar um pouco de basquete! Eu preciso liberar essa energia!” Miguel exclamou, sua animação quase contagiante. João concordou, sentindo que um pouco de atividade física poderia ajudá-lo a clarear a mente.
No parque, a quadra de basquete estava cheia de jovens jogando e rindo, e logo Miguel se juntou a um grupo que o convidou para um jogo. João observou, inicialmente hesitante, mas logo decidiu se juntar a eles. Ele precisava se distrair, e a adrenalina do jogo poderia ser a resposta.
Enquanto a partida avançava, João começou a se sentir mais solto. As cestas que fazia se tornaram um impulso de confiança, e por alguns momentos, ele se esqueceu de suas preocupações. Mas, quando um dos jogadores adversários fez um comentário sobre a presença de Clara em suas vidas, a alegria de João rapidamente se dissipou. “Ah, então vocês finalmente encontraram a mamãe de vocês! Espero que ela não se lembre de vocês!” O riso que se seguiu deixou João furioso, e uma onda de emoções o invadiu.
“Ei! Não fala assim dela!” João gritou, sua voz cortando o ar e atraindo a atenção de todos. Ele não queria que ninguém zombasse de Clara. Ela era a mãe que eles haviam desejado, mesmo que fosse uma estranha em suas vidas.
Miguel rapidamente tentou acalmá-lo. “Calma, João. É só brincadeira!” Mas a raiva de João não se dissipou. Ele se sentia como se estivesse defendendo um tesouro que todos estavam prontos para desprezar.
João deixou a quadra, respirando pesadamente enquanto se afastava. Ele não podia mais suportar a sensação de que sua família estava em perigo. Ele queria acreditar que Clara era uma boa pessoa, mas e se ela não fosse? E se, no final, ela deixasse tudo que construíram para trás?
Sentado em um banco do parque, João olhou para o céu, tentando encontrar alguma clareza em seus pensamentos confusos. A brisa suave lhe trouxe lembranças da infância, quando tudo parecia mais simples. Ele se lembrava das noites em que sonhava em ter uma família completa, mas agora que isso estava ao alcance, sentia-se paralisado.
Miguel finalmente se juntou a ele, seu semblante preocupado. “Desculpa, João. Eu sei que você se importa com ela. Mas você precisa entender que as pessoas fazem piadas sem pensar. Não precisamos levar isso a sério.”
“Mas eu não consigo! Como posso simplesmente ignorar?” João respondeu, a frustração transbordando. “Ela não é uma estranha, Miguel! É a nossa mãe. E se ela se afastar de novo? E se isso tudo acabar em dor?”
Miguel hesitou, percebendo a profundidade da insegurança do irmão. “Olha, eu também tenho meus medos. Não sei o que vai acontecer, mas não podemos deixar essas dúvidas nos separarem. Clara é uma chance para nós. E se não der certo? Nós sempre teremos um ao outro, certo?”
João ponderou essas palavras. Ele não queria que suas inseguranças arruinassem o que poderia ser uma nova e maravilhosa fase em suas vidas. Ao mesmo tempo, a luta interna ainda persistia, uma tempestade de sentimentos que ele não sabia como controlar.
Naquela noite, enquanto se preparava para dormir, João decidiu que precisava fazer algo. Ele se levantou e pegou seu caderno, onde costumava anotar seus pensamentos e ideias. Escrever sempre o ajudou a organizar suas emoções. Com a caneta em mãos, ele começou a escrever uma carta para Clara, expressando suas preocupações, medos e esperanças.
“Querida Clara,” começou ele, hesitante. “Desde que você voltou, tenho sentido uma confusão enorme. Por um lado, quero que você faça parte de nossas vidas, mas por outro, não consigo deixar de lado as inseguranças que me atormentam. Eu temo perder a conexão com Miguel, com você, e com o que já construímos como irmãos. Eu não quero que o passado nos defina, mas ele ainda pesa sobre mim.”
Enquanto escrevia, as palavras começaram a fluir, como se finalmente estivesse colocando para fora tudo o que o atormentava. Ele não sabia se teria coragem de entregar a carta, mas sentiu que precisava escrever. Quando terminou, olhou para o papel e percebeu que estava pronto para enfrentar os desafios que viriam, mesmo que o caminho não fosse claro.
E assim, adormeceu, um pouco mais leve, com a esperança de que, apesar das incertezas, a verdade poderia ser compartilhada e a confiança poderia crescer, tanto em Clara quanto em si mesmo. No dia seguinte, ele decidiria se entregaria ou não a carta, mas por enquanto, ele havia dado o primeiro passo em direção à cura de suas inseguranças. A batalha interna ainda estava longe do fim, mas talvez houvesse um caminho à frente, e isso o encorajava.
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Atualizado até capítulo 26
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