Primeira Noite

A noite caía como um véu escuro sobre a casa, e o silêncio era quase ensurdecedor. João estava deitado em sua cama, os olhos fixos no teto. A luz fraca do abajur projetava sombras nas paredes, fazendo os objetos familiares parecerem ameaçadores. O cheiro de panquecas ainda pairava no ar, misturado com a nova essência de Clara que invadia todos os cômodos, mas agora não trazia conforto; ao contrário, fazia seu estômago revirar.

Ele se virava de um lado para o outro, tentando encontrar uma posição que o deixasse mais relaxado, mas sua mente estava agitada. A chegada de Clara havia mudado a dinâmica da casa de forma que ele ainda não conseguia entender. Enquanto seus pais estavam ocupados em dar-lhe boas-vindas, João se sentia cada vez mais excluído, como se estivesse sendo gradualmente apagado de sua própria vida. As risadas e conversas ecoavam pelo corredor, e o som da nova vida em sua casa parecia ecoar como uma condenação.

O relógio na parede marcou a meia-noite\, e o sono ainda não havia chegado. João se levantou\, decidindo ir até a cozinha para beber um copo d'água. Ao descer as escadas\, ele hesitou ao passar pelo quarto de Clara\, onde a porta estava entreaberta. A luz da sala iluminava levemente o espaço\, e ele pôde ver a silhueta da menina\, envolta em cobertores\, com os olhos fechados. *“Por que estou tão nervoso? É apenas uma criança”\,* pensou ele\, mas o frio na barriga não diminuía.

Assim que chegou à cozinha, encheu um copo d'água, mas não conseguiu se livrar da sensação de que algo não estava certo. Um leve ruído atrás de si fez seu coração disparar, e ele se virou rapidamente, mas não havia ninguém. O silêncio da casa era tão pesado que parecia quase palpável. Ele tomou um gole d'água e decidiu voltar para o quarto, mas, ao passar pelo corredor, uma brisa fria pareceu soprar em sua nuca, e uma voz sussurrou seu nome.

"João..."

Ele congelou, o copo quase escorregando de suas mãos. A voz era suave, quase musical, e parecia vir do quarto de Clara. Com a curiosidade superando o medo, ele se aproximou da porta. "Clara?" chamou ele, mas sua própria voz soou estranha e hesitante. Quando olhou novamente, a porta se abriu lentamente, como se uma força invisível a estivesse puxando.

Ele entrou no quarto, a luz fraca destacando os brinquedos espalhados pelo chão e os desenhos coloridos nas paredes. Clara estava sentada na cama, com os olhos grandes e brilhantes. "Você não devia estar aqui, João", disse ela, com um sorriso que parecia mais um enigma do que uma saudação. "É hora de brincar."

"Brincar? Agora?" perguntou ele, a incredulidade na voz. "É tarde. Devíamos estar dormindo." Sua mente tentava racionalizar a situação, mas algo em Clara o deixava inquieto. Havia uma aura ao redor dela, como se ela estivesse consciente de algo que ele não compreendia.

"Mas eu não quero dormir," Clara insistiu, sua voz baixa e quase sedutora. "Venha, vamos nos esconder. Você já brincou de esconde-esconde com alguém que não está aqui?"

O coração de João acelerou. *O que ela quer dizer com isso?* Ele hesitou\, a dúvida se enraizando dentro dele. "Não\, eu... não sei do que você está falando." Clara sorriu novamente\, mas agora havia uma faísca de algo sombrio em seus olhos. Era como se ela estivesse brincando com a linha tênue entre o real e o imaginário.

"Então, vamos brincar agora," disse Clara, levantando-se da cama com uma graça inquietante. "Eu conto até dez, e você se esconde. Mas lembre-se, se você não se esconder bem, pode ser que eu te encontre… de verdade."

João ficou paralisado por um momento. *Isso não é normal*\, pensou. Mas o sorriso de Clara o atraía\, e ele se sentiu compelido a aceitar o desafio\, uma parte de si querendo acreditar que era apenas uma criança tentando se divertir. Ele se afastou\, buscando um lugar onde pudesse se esconder. O armário parecia a melhor opção.

Enquanto se agachava no fundo do armário, a adrenalina subia, mas logo foi substituída por um frio aterrador. Clara começou a contar, sua voz ecoando suavemente pela escuridão. "Um… dois… três…"

João tentava não pensar na situação. Ele fechou os olhos, contando os segundos, mas cada número parecia se estender por uma eternidade. O silêncio da casa foi interrompido apenas pela voz de Clara, e à medida que ela contava, algo na atmosfera mudou. Era como se as sombras na sala crescessem, se estendendo em direção a ele.

"Dez! Pronto ou não, lá vou eu!" A voz de Clara foi seguida por um silêncio inquietante. João ficou em silêncio absoluto, o coração disparado, sentindo-se como um animal encurralado.

Os segundos se arrastavam, e então o silêncio foi quebrado novamente. Clara estava lá, mas a forma como ela se movia parecia estranha, quase como se estivesse flutuando. Ele ouviu passos leves se aproximando do armário, e uma sensação de pavor tomou conta dele. Era como se Clara soubesse exatamente onde ele estava, como se tivesse olhos nas costas.

"João… onde você está?" A voz dela estava mais baixa agora, mais ameaçadora. Ele sabia que deveria sair, mas o medo o paralisava. Como uma marionete, ele não conseguiu resistir ao impulso de abrir a porta do armário.

E quando fez isso, a escuridão da noite e a luz da sala se encontraram de maneira abrupta. Clara estava diante dele, um sorriso largo no rosto, mas seus olhos brilhavam com um mistério profundo que fez João sentir um calafrio. Ele percebeu, naquele momento, que havia algo muito mais sinistro em sua nova irmã do que ele poderia imaginar. A inocência que ela exibia era uma máscara, e por trás dela, as sombras estavam apenas começando a se revelar.

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