A Primeira Perda

O sol nasceu timidamente no dia seguinte, filtrando a luz através das cortinas do quarto de João, como se hesitasse em iluminar a casa onde tudo havia mudado tão rapidamente. Ele acordou com uma sensação de confusão e um pouco de medo, lembrando-se do encontro noturno com Clara. Os detalhes estavam embaçados, mas a sensação de que algo estava errado permanecia cravada em sua mente. Levantou-se lentamente, tentando se convencer de que o que aconteceu fora apenas um sonho.

Ao descer as escadas\, o cheiro de café fresco e torradas queimadas invadiu suas narinas. Sua mãe estava na cozinha\, distraída\, enquanto seu pai lia o jornal à mesa. O clima parecia normal\, mas João sabia que nada voltaria a ser como antes. Quando entrou na cozinha\, notou a ausência de Clara. *Onde ela estará agora?* O pensamento não era reconfortante. A última coisa que ele queria era se deparar novamente com os mistérios dela.

“Bom dia, João! Clara ainda está dormindo. Ela teve um dia cheio ontem,” disse sua mãe, com um sorriso no rosto. Havia uma leve preocupação na voz dela, mas João não sabia se era por causa da nova filha ou por causa de alguma coisa que ele não conseguia identificar. Ele se serviu de um copo de suco e sentou-se à mesa, sua mente ainda divagando.

“Você se lembrou de chamar Clara para o café da manhã?” perguntou o pai, sem olhar para cima do jornal. João engoliu em seco, pensando que talvez não fosse uma boa ideia incomodá-la. A curiosidade e a desconfiança se entrelaçavam dentro dele, criando um nó em seu estômago. Afinal, quem era realmente Clara?

Após o café, a família decidiu fazer uma visita ao parque. O céu estava azul, e as árvores dançavam suavemente ao vento. Mas João não conseguia desfrutar do momento. Ele observava Clara brincar com outras crianças, seu riso ecoando pelo ar, enquanto ele se mantinha à margem. Era como se um muro invisível o separasse do resto do mundo.

A brincadeira parecia mágica; Clara se destacava, atraindo a atenção de todos, enquanto João se sentia cada vez mais invisível. Ele decidiu se afastar, procurando um lugar onde pudesse ficar sozinho por um momento. O parquinho, cheio de risos e gritos de felicidade, parecia sufocante. Sentou-se em um banco afastado, tentando ignorar a sensação de solidão que o envolvia.

Quando olhou para o lado, notou que Clara estava se afastando do grupo, sua expressão mudando de alegria para uma leve concentração. Intrigado, João se levantou e seguiu a menina, curioso para descobrir o que estava fazendo. Clara se dirigiu a uma área mais isolada do parque, onde um pequeno lago refletia o céu claro. A beleza do lugar contrastava com a inquietação que crescia dentro dele.

Ao se aproximar, viu que Clara estava se agachando na beira do lago, seus dedos delicadamente tocando a superfície da água. Ela parecia tão inocente, tão perdida em seu próprio mundo. Mas algo naquela cena não parecia certo. Ele hesitou, observando-a em silêncio.

“Clara!” chamou ele, a voz soando mais firme do que se sentia. A menina virou-se, um sorriso divertido nos lábios. “O que você está fazendo aqui sozinha?” ele perguntou, tentando esconder a preocupação.

“Eu só queria ver os peixes,” ela respondeu, apontando para a água. Mas quando olhou novamente para o lago, Clara deu um passo à frente, quase como se estivesse prestes a se inclinar mais para baixo. O coração de João disparou, e ele correu até ela. “Cuidado!” gritou, agarrando o braço dela para evitar que ela caísse.

Os olhos dela brilharam com uma mistura de surpresa e diversão. “Você não precisa se preocupar, João. Eu sei nadar,” disse Clara, mas João podia sentir que algo mais estava acontecendo. O brilho de seus olhos tinha uma profundidade estranha, como se ela soubesse de algo que ele não entendia.

“Vamos voltar para as outras crianças,” sugeriu ele, sua voz tensa. A ideia de Clara se afastar dele o deixava inquieto. Não conseguia entender por que a presença dela o deixava tão nervoso. Não era normal.

Mas antes que pudesse se mover, Clara puxou a mão dele, olhando diretamente em seus olhos. “Você tem algo que eu quero, João,” disse ela, e a frieza de suas palavras o atingiu como uma rajada de vento gelado. O que ela queria? A pergunta ecoou em sua mente, mas antes que pudesse questioná-la, Clara se virou e começou a caminhar de volta.

A tarde se desenrolou, mas a sombra daquela conversa ficou pairando entre eles. Quando voltaram para casa, a atmosfera estava diferente. Algo tinha mudado, e João não sabia o que era.

Ao chegar, ele percebeu que seu quarto estava diferente. Uma sensação de vazio o envolveu quando se deu conta de que seus brinquedos não estavam mais onde os deixara. O que havia acontecido? Ele começou a procurar freneticamente por toda parte, mas os brinquedos que antes ocupavam sua prateleira agora tinham desaparecido.

“Pai! Mãe!” gritou ele, sua voz tingida de pânico. Seus pais apareceram na porta, preocupados com a agitação dele. “Meus brinquedos sumiram! Todos eles!”

A expressão no rosto de sua mãe mudou rapidamente, enquanto seu pai olhava para ele, confuso. “João, você tem certeza de que não os guardou em outro lugar? Eles devem estar por aqui.”

Mas João sabia que não era possível. Ele se lembrava exatamente de onde os tinha deixado. Olhando para Clara, que estava sentada calmamente no sofá, seu olhar parecia distante, como se não estivesse ouvindo. “Clara, você pegou meus brinquedos?” perguntou ele, sentindo o nó se apertar em seu estômago.

Ela virou a cabeça lentamente, um sorriso enigmático nos lábios. “Você não precisa de todos eles, João. Você tem que aprender a compartilhar.” O que Clara queria dizer com aquilo? A frieza de sua voz cortou como uma lâmina.

Naquela noite, enquanto a casa mergulhava na escuridão, João se deitou em sua cama sem conseguir relaxar. A ausência de seus brinquedos o deixava inquieto, mas a sensação de que havia algo mais, algo ameaçador, pairava no ar. A nova vida com Clara estava se revelando mais complicada e sombria do que ele jamais poderia imaginar.

E no fundo de sua mente\, uma pergunta assombrava-o: *o que mais ela poderia estar planejando?*

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