A noite parecia viva ao redor de João e Clara. O ar estava fresco e perfumado pelas flores do jardim, mas a sensação que dominava o coração de João era de inquietação. Clara se movia com uma graça sobrenatural, como se estivesse em sintonia com as sombras que os cercavam. Ele a seguia, hesitante, um pé sempre um passo atrás, enquanto ela caminhava em direção ao portão que levava para fora da propriedade.
“Para onde estamos indo?” ele perguntou, tentando esconder a ansiedade em sua voz. O portão de ferro forjado rangeu levemente quando Clara o empurrou, e a noite se abriu diante deles, revelando uma rua deserta e mal iluminada. As luzes da cidade pareciam tão distantes, como estrelas que não podiam ser alcançadas.
“Para um lugar onde você pode ver além do que os seus olhos mostram,” Clara respondeu, olhando para trás, seu sorriso iluminado pela luz da lua. “Eu quero que você entenda o que realmente significa viver.” Havia uma intensidade em seu olhar que o fazia sentir como se estivesse prestes a se lançar em uma aventura, mas não sabia se estava pronto para o que quer que viesse a seguir.
Eles caminharam juntos\, Clara liderando o caminho por entre as sombras\, enquanto João tentava processar as palavras dela. *Viver*? O que isso significava\, de fato? Para ele\, viver significava segurança\, familiaridade. A vida com Clara parecia se afastar da normalidade que ele conhecia.
Ao chegarem a uma pequena praça, Clara parou. A fonte no centro do espaço jorrava água com um som suave, e as sombras das árvores ao redor pareciam dançar com a luz da lua. “Este é um lugar especial,” Clara sussurrou, observando as gotículas da fonte que brilhavam como diamantes sob a luz prateada. “Aqui, você pode deixar ir o que te prende.”
João olhou ao redor, sentindo a tensão do momento. “O que você quer dizer? O que eu preciso deixar ir?” A frustração crescia dentro dele. Clara parecia falar em enigmas, e ele estava cansado de adivinhações.
“Seu medo, suas possessões, seus brinquedos… Tudo isso são âncoras que te prendem. É hora de libertar-se e entender que as verdadeiras riquezas não estão no que você possui, mas nas experiências que você vive.” Clara deu um passo mais perto da fonte, e a água cintilante refletia seu rosto, transformando-a em um espectro místico.
O coração de João disparou. Ele não sabia se estava mais intrigado ou aterrorizado. “Você está dizendo que eu devo me desfazer de tudo o que amo?” A ideia o deixou angustiado. Seus brinquedos, suas memórias, eram partes de quem ele era.
“Não é sobre se desfazer, mas sobre transformação. O que você considera essencial pode ser apenas um reflexo do que você teme perder,” Clara disse, estendendo a mão em direção à fonte. “Venha. Mergulhe as mãos na água e veja o que pode acontecer.”
João hesitou, mas algo dentro dele o puxava. Ele se aproximou da fonte, sentindo o frio da água enquanto mergulhava a mão. O toque era refrescante, e um calafrio percorreu sua espinha. “O que eu deveria ver?” ele perguntou, confuso.
“Feche os olhos,” Clara instruiu. Ele obedeceu, sentindo a água deslizar por seus dedos, criando um vínculo misterioso. O som da fonte se tornou mais alto, quase ensurdecedor, e, de repente, João se viu mergulhado em um turbilhão de imagens.
Memórias começaram a fluir: ele brincando com seus brinquedos, rindo ao lado de seus pais, os sorrisos de seus amigos. Mas, em meio àquelas recordações, imagens perturbadoras começaram a aparecer. Ele viu seu pai gritando, sua mãe chorando, Clara com um olhar vazio e distante, como se estivesse observando tudo de um lugar longe.
Ele abriu os olhos, a água escorrendo de suas mãos. “O que foi isso?” Ele olhou para Clara, que estava observando-o com um olhar profundo. “Eu vi… coisas. Coisas que não queria lembrar.”
“Essas lembranças são parte de você, João. Mas você precisa confrontá-las. O que você viu são as âncoras que o prendem. O medo, a dor… são apenas sombras que precisam ser iluminadas.” A expressão de Clara era séria, quase sombria. “E agora, você tem uma escolha. Você pode continuar vivendo na escuridão ou pode enfrentar seus medos e se libertar.”
Aquelas palavras ecoaram dentro dele. João se sentiu dividido, como se estivesse em uma encruzilhada. A parte de sua mente clamava por segurança, pela familiaridade de sua vida anterior, enquanto outra parte pulsava com a necessidade de aventura e descoberta. Ele olhou para a fonte novamente, e a água refletia o brilho da lua, quase como se estivesse pedindo que ele se entregasse à transformação.
“E se eu não conseguir?” A insegurança o dominava. O que aconteceria se ele não conseguisse enfrentar seus medos?
“Você sempre consegue, João. É isso que a vida é: uma série de escolhas. Você só precisa se permitir experimentar a dor para chegar à cura.” Clara sorriu, um brilho de compreensão em seus olhos. “Vamos juntos.”
A palavra “juntos” trouxe um pequeno consolo. Ele percebeu que, mesmo em meio à confusão, Clara estava ao seu lado. A conexão entre eles, apesar de estranha, se tornava mais forte a cada momento. “Então, o que eu preciso fazer?” Ele respirou fundo, sentindo a determinação crescer dentro dele.
“Vamos voltar para casa. O caminho para a libertação começa com o que você tem em seu coração.” Clara segurou a mão de João, e ele sentiu um calor se espalhar pelo corpo. Ela estava certa. Ele precisava enfrentar seus medos, mas não precisava fazer isso sozinho.
Enquanto caminhavam de volta pela rua deserta, a luz da lua iluminava seu caminho, e a sensação de liberdade começou a substituir a angústia que o acompanhava. Ele sabia que o que vinha a seguir seria difícil, mas estava pronto para enfrentar as sombras, por mais assustadoras que fossem. E, naquele momento, ele começou a entender que a verdadeira aventura estava apenas começando.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 26
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
interessante esta história.
2024-11-26
0