Lembranças do Passado

A casa estava quieta quando João e Clara retornaram, o silêncio pesando no ar como uma névoa espessa. A luz da lua ainda entrava pela janela, criando padrões de sombras que dançavam nas paredes. A transformação que Clara havia mencionado ainda pairava em sua mente, como uma promessa não cumprida. Ele sentia que algo estava mudando, mas a incerteza o deixava inquieto.

“João,” Clara começou, olhando diretamente nos olhos dele. “Você está pronto para enfrentar suas memórias? Para entender o que as âncoras significam realmente?”

Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. A ideia de confrontar o passado o apavorava, mas também havia uma excitação crescente. “Eu não sei se estou pronto, Clara. Minhas lembranças… algumas delas são dolorosas.” Ele hesitou, lembrando-se do rosto de sua mãe quando ela descobriu o que tinha acontecido com seus brinquedos, da raiva e da frustração que sentiu quando percebeu que não poderia voltar atrás.

“Às vezes, a dor é necessária para a cura,” Clara disse suavemente. “Não precisa ser fácil, mas pode ser libertador.” Ela deu um passo à frente, suas mãos se entrelaçando com as dele. O toque dela era quente, e por um momento, ele se sentiu mais seguro.

“Como você sabe tudo isso?” ele perguntou, intrigado pela sabedoria que emanava dela. “Você parece tão… diferente.”

“Eu já passei por isso,” Clara respondeu, sua expressão se tornando mais séria. “A vida me ensinou que é preciso desenterrar as sombras para entender a luz. Eu não posso te mostrar o caminho se você não estiver disposto a olhar.” Seus olhos brilhavam, cheios de uma sinceridade que fazia João se sentir à vontade.

João hesitou, o coração acelerando. Ele sabia que precisava tomar uma decisão, e que não poderia adiar mais. “Ok,” disse ele, sua voz firme. “Vamos fazer isso. Estou pronto para enfrentar o que quer que venha.”

Clara sorriu, um sorriso que misturava orgulho e esperança. “Ótimo. Então, vamos começar.” Ela o conduziu até o sofá da sala, e ele sentou-se, a tensão se acumulando em seus músculos. “Feche os olhos novamente. Vamos revisitar suas memórias.”

Obedecendo, João se deixou levar pela escuridão. O mundo ao seu redor desapareceu, e, em vez disso, ele se viu em um campo vasto, coberto de flores. O sol brilhava intensamente, e o cheiro doce das flores o envolvia. Era uma lembrança da infância, um momento em que tudo parecia simples e bonito.

“Lembre-se desse lugar,” Clara sussurrou. “O que mais você vê?”

Ele começou a andar pelo campo, suas mãos passando pelas flores enquanto a brisa suave acariciava seu rosto. Mas, de repente, o cenário começou a mudar. As flores se apagaram, e as cores vibrantes deram lugar a um céu cinzento. O som do riso infantil se transformou em gritos, e uma sombra começou a se formar à sua frente.

Ele se viu diante de um jovem João, sentado no chão, cercado por brinquedos quebrados. O menino estava em lágrimas, seus olhos cheios de desespero. “Por que isso aconteceu?” ele murmurou, olhando para Clara, que agora estava ao seu lado. “Eu não entendo.”

“Você está vendo o que perdeu,” Clara explicou, seu tom suave. “O que você não entendeu na época.”

João assistiu enquanto seu eu mais jovem tentava juntar os pedaços de um brinquedo quebrado, o desespero em sua expressão era palpável. “Eu queria que as coisas fossem como antes,” ele ouviu o menino dizer, sua voz tremulando de dor.

“E se você pudesse falar com ele?” Clara sugeriu, sua presença ao lado dele reconfortante. “O que você diria?”

João hesitou. O que ele poderia dizer a si mesmo? “Eu diria que está tudo bem sentir dor,” finalmente murmurou. “Que não precisa ter medo de perder. A vida muda, e isso é normal.” Ele sentiu um nó na garganta, as palavras parecendo mais verdadeiras do que nunca.

“Experimente,” Clara incentivou. “Fale com ele.”

Tomando coragem, ele se aproximou do jovem João. “Ei,” ele disse, sua voz saindo suave. “Eu sei que é difícil agora. Mas você vai superar isso. O que você ama sempre ficará com você, mesmo que de maneiras diferentes.”

O menino olhou para ele, os olhos cheios de confusão, mas algo em sua expressão começou a mudar. “Você… sou eu?” ele perguntou, um brilho de esperança começando a surgir.

“Sim,” João confirmou. “E nós somos mais fortes do que pensamos. Às vezes, a vida nos ensina a deixar ir, para que possamos abrir espaço para algo novo.”

O jovem João olhou para ele, a tristeza em seu rosto se dissipando gradualmente. “Você realmente acha que vai ficar tudo bem?” Ele parecia tão vulnerável, e isso fez o coração de João apertar.

“Sim,” ele respondeu, firme. “Vai ficar tudo bem. E você vai crescer. Aprender. E um dia, vai olhar para trás e ver que as lembranças são apenas parte da nossa história.”

No instante em que as palavras deixaram sua boca, o cenário começou a mudar novamente. O campo de flores estava voltando, mas agora havia algo diferente nele: uma sensação de paz e esperança. O jovem João sorriu, as lágrimas em seus olhos se transformando em um brilho de determinação.

“Obrigada,” ele sussurrou, e com isso, o mundo ao seu redor começou a se dissolver.

João sentiu um puxão no coração, como se estivesse deixando uma parte de si mesmo para trás, mas, ao mesmo tempo, uma nova força começava a brotar dentro dele. Ele estava se libertando das âncoras que o prendiam.

Com um salto, ele se encontrou de volta no sofá, Clara ao seu lado, olhando-o com expectativa. “Como você se sente?” ela perguntou.

João respirou fundo, a transformação percorrendo seu corpo. “Foi… incrível,” ele disse, uma nova energia pulsando dentro dele. “Senti como se estivesse deixando uma parte da dor para trás.”

“Isso é só o começo,” Clara respondeu, seus olhos brilhando. “Agora que você confrontou o passado, o próximo passo é entender como isso molda quem você é hoje.”

Ele assentiu, sentindo a determinação crescer. Ele não estava mais apenas fugindo de suas memórias. Agora, ele estava pronto para usá-las como um trampolim para o futuro. As sombras ainda poderiam assombrá-lo, mas ele sabia que tinha o poder de enfrentá-las. E com Clara ao seu lado, ele se sentia invencível.

“Vamos em frente,” ele disse, com um sorriso renovado. “Estou pronto para descobrir o que mais está por vir.”

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