O Passado

A noite passou lentamente para João. Ele se revirou na cama, a mente agitada e cheia de perguntas sem resposta. Como poderia ter vivido todos aqueles anos sem saber que tinha um irmão? O peso da revelação ainda o pressionava, tornando difícil encontrar conforto em qualquer coisa. Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando para a cidade iluminada. As luzes brilhantes pareciam tão distantes e irreais, assim como a ideia de ter um irmão.

Naquela manhã, depois de uma noite mal dormida, ele decidiu que precisava de respostas. Com o coração acelerado, ele se sentou à mesa para o café da manhã, onde seus pais estavam discutindo algo em voz baixa. Ao entrar, eles pararam e trocaram olhares nervosos. João sabia que o assunto do irmão ainda estava pairando no ar, como uma tempestade prestes a eclodir.

“Precisamos conversar sobre o que você descobriu,” sua mãe começou, a voz hesitante. “Estamos aqui para te ajudar a entender.”

João olhou para eles, a raiva e a confusão misturadas em seu peito. “Como vocês puderam me esconder isso? O que mais vocês não me contaram?” A dor na sua voz era palpável, e ele se sentia como um estranho em sua própria casa.

“Não foi uma decisão fácil para nós, João,” seu pai interveio, a voz grave. “Decidimos que era melhor não te envolver em algo tão complicado quando você era pequeno. Achávamos que, se soubesse, poderia acabar se machucando ainda mais.”

“E agora?” João retrucou, o tom desafiador. “Agora que eu sou mais velho? Agora que eu estou pronto para saber a verdade?”

“Ele se chama Miguel,” sua mãe disse, finalmente revelando o nome que havia sido um segredo por tanto tempo. “Ele foi adotado por outra família, e nós temos algumas informações sobre eles. Podemos ajudá-lo a encontrar Miguel se você quiser.”

As palavras da mãe o atingiram como um soco no estômago. Miguel. Um nome que agora parecia carregar o peso de um mundo inteiro. “Onde ele está? O que aconteceu com ele?” A esperança começou a despontar, misturada com a ansiedade.

“Ele foi adotado por uma família em outra cidade,” seu pai respondeu. “Nós podemos entrar em contato e ver se eles estão dispostos a falar com você.”

João respirou fundo, sentindo um turbilhão de emoções. Ele queria saber mais, mas também se sentia vulnerável. O desejo de descobrir sobre Miguel era forte, mas o medo de como essa descoberta poderia mudar tudo o que ele conhecia era igualmente paralisante.

“Eu… eu preciso de um tempo,” João disse, lutando para encontrar as palavras. “Não sei se estou pronto para isso ainda.”

“Está tudo bem, filho,” sua mãe respondeu suavemente, lágrimas nos olhos. “Estamos aqui para te apoiar, não importa o que você decidir.”

Ele se afastou da mesa, seu coração pesado, e decidiu que precisava de um espaço para pensar. Pegou sua mochila e saiu de casa, sentindo a necessidade de se afastar da pressão que a revelação trazia. O ar fresco do lado de fora foi um alívio, e ele se dirigiu ao parque onde costumava ir para se sentir mais calmo.

Enquanto caminhava, os pensamentos se misturavam em sua mente. Ele se lembrava de quando era criança, as brincadeiras solitárias, a sensação de não se encaixar. Será que Miguel também se sentia assim? O que ele teria vivido? As perguntas continuavam a se acumular, cada uma mais urgente que a anterior.

Sentou-se em um banco e olhou para as árvores que balançavam suavemente com o vento. A vida estava cheia de possibilidades, mas agora parecia cheia de incertezas. Ele puxou o celular do bolso e, sem pensar, digitou o nome de Miguel em uma busca. Várias informações apareceram, mas nada que o ajudasse a encontrar o irmão. Ele se sentiu perdido em um mar de informações, desejando poder ter uma conversa real com a pessoa que compartilhava seu sangue.

Enquanto observava as folhas caindo, Clara apareceu, sua presença iluminando o dia nublado. “Oi, João,” ela disse, com um sorriso suave. “Como você está?”

“Não muito bem,” ele respondeu, sua voz soando mais fraca do que queria. “Eu não sei o que fazer com tudo isso.”

Clara sentou-se ao seu lado, sua expressão solidária. “Você não precisa ter todas as respostas agora. É normal se sentir confuso. Lidar com a verdade sobre sua família não é fácil.”

“Eu só quero entender,” João disse, a frustração tomando conta dele. “Eu quero conhecer Miguel, saber quem ele é e o que aconteceu com ele. Mas ao mesmo tempo, eu tenho medo. E se ele não quiser me conhecer? E se tudo isso for uma grande decepção?”

“João, você não pode controlar o que aconteceu no passado, mas pode decidir o que fazer com isso agora,” Clara respondeu, olhando diretamente nos olhos dele. “Você tem o poder de se conectar com ele, e isso já é um passo importante. Se você não tentar, nunca saberá.”

As palavras dela ressoaram em seu interior, fazendo com que ele refletisse sobre a situação. A coragem que Clara sempre demonstrava parecia estar agora ao alcance dele, mesmo que ele estivesse lutando para encontrá-la.

“Você realmente acha que eu deveria tentar encontrá-lo?” ele perguntou, a esperança começando a brilhar em seu coração.

“Sim, com certeza,” Clara disse com firmeza. “Mas faça isso no seu próprio tempo. Não precisa se apressar. E se você decidir procurar por ele, eu estarei ao seu lado, pronto para te apoiar.”

João sentiu uma onda de gratidão por ter Clara em sua vida. Com ela ao seu lado, a ideia de buscar Miguel parecia menos assustadora. Ele sabia que, independentemente do que acontecesse, não enfrentaria isso sozinho.

Os dois passaram a tarde juntos, falando sobre seus medos e sonhos, e João percebeu que as conexões que ele tinha ao seu redor eram tão importantes quanto descobrir mais sobre sua família. Enquanto o sol começava a se pôr, ele sentiu que estava pronto para dar o próximo passo.

“Ok,” ele disse, mais confiante. “Eu vou procurar por Miguel. Mas quero fazer isso de maneira certa, e preciso de você ao meu lado.”

“Eu estarei com você, João,” Clara sorriu, a luz do sol refletindo em seu rosto. “Vamos enfrentar isso juntos.”

A sensação de alívio se espalhou pelo corpo de João. Ele havia tomado a decisão de buscar Miguel, não apenas por si mesmo, mas também para dar voz ao irmão que nunca conheceu. A jornada estava apenas começando, mas agora ele se sentia mais preparado para enfrentá-la.

Enquanto caminhavam juntos em direção ao futuro incerto, João sabia que tinha o apoio de Clara e, finalmente, a coragem de enfrentar os ecos do passado.

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