A Chegada

A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas pesadas do quarto de João, desenhando formas dançantes no chão de madeira polida. Ele se espreguiçou, tentando espantar os restos do sono enquanto a mente ainda estava envolta em um leve torpor. O cheiro do café fresco misturava-se com o aroma doce de panquecas, o que normalmente o animaria. No entanto, havia um peso diferente no ar, uma tensão que pairava como nuvens escuras prestes a romper. Hoje era o dia em que seus pais trariam uma nova criança para a casa, uma decisão que ele não conseguia compreender completamente.

João já havia ouvido os detalhes da adoção em conversas furtivas entre seus pais. No início, pensou que seria algo divertido, como ter um companheiro de jogos, mas conforme o dia se aproximava, a expectativa deu lugar à ansiedade. A ideia de compartilhar seu espaço, seus brinquedos, e até mesmo a atenção dos seus pais, o incomodava. "E se a criança não gostar de mim?", a dúvida ecoava em sua mente, enquanto ele se preparava para o que estava por vir.

Ao descer as escadas, João encontrou sua mãe em pé na cozinha, com um sorriso radiante no rosto e os cabelos amarrados em um coque desleixado. "Bom dia, amor! Estava pensando em fazer algo especial para receber sua irmã", disse ela, batendo as mãos uma na outra, como se estivesse prestes a fazer mágica. A palavra "irmã" cortou como uma lâmina afiada, e ele sentiu um frio na barriga.

"Mas e se…", começou ele, hesitando. Mas a mãe já estava distante, mexendo a massa das panquecas, seus olhos brilhando com a expectativa. Ele suspirou, sabendo que não havia como voltar atrás. A porta da frente se abriu com um rangido familiar, e o pai entrou, segurando uma caixa envolta em papel colorido. "Olha o que eu trouxe para a sua nova irmã!" exclamou ele, a empolgação evidente em sua voz. João observou, seu peito apertado, enquanto o pai colocava a caixa sobre a mesa.

Quando o carro parou na frente da casa, João sentiu que o mundo ao seu redor havia parado. Seus pais saíram, segurando as mãos de uma menina que parecia tão pequena e frágil, como um pássaro que acabara de sair do ninho. O cabelo castanho claro caía em ondas suaves, emoldurando um rosto que irradiava inocência. Ela sorriu timidamente, e João sentiu um misto de curiosidade e desconforto. Era como se ele pudesse sentir uma presença que não deveria estar ali.

“Essa é Clara”, disse sua mãe, olhando para a nova filha com um amor que parecia transbordar. "Clara, esse é seu irmão, João." A menina olhou para ele, seus olhos castanhos profundos estudando-o com uma intensidade que o fez desviar o olhar. Ele forçou um sorriso, mas a sensação de desconforto só aumentava. Algo na forma como Clara o observava o fazia sentir-se vulnerável, como se ela estivesse a decifrar um segredo que nem ele mesmo conhecia.

Clara entrou na casa, observando tudo com um ar de fascinação, como se estivesse descobrindo um mundo completamente novo. João, por outro lado, se sentia um intruso em seu próprio lar. Enquanto seus pais a acolhiam e a cercavam de carinho, ele se afastou para o canto da sala, a inquietude crescendo dentro de si. O ambiente que antes era familiar agora parecia cheio de sombras, como se a luz tivesse sido drenada.

Ele ouviu risadinhas e sussurros entre seus pais e Clara\, e enquanto observava a cena\, uma onda de possessividade e insegurança o inundou. *"Ela não pode simplesmente vir aqui e tomar meu lugar!"* O pensamento era repetido em sua mente\, e João não sabia como lidar com essa nova realidade.

Clara olhou para ele mais uma vez, e dessa vez, um sorriso travesso apareceu em seus lábios. “Você vai me mostrar onde ficam seus brinquedos?”, ela perguntou, sua voz doce soando como uma música que não ressoava bem em seus ouvidos. A inocência dela era quase palpável, mas algo dentro de João começou a despertar uma desconfiança.

E assim, naquele dia ensolarado que prometia ser o início de uma nova vida, João não sabia que a chegada de Clara marcaria o começo de um jogo muito mais profundo e sombrio do que ele jamais poderia imaginar. As sombras se moviam, e a inocência tinha muitas faces.

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