O dia seguinte chegou, trazendo uma nova luz para a vida de João. O encontro com Miguel havia reavivado nele uma sensação de esperança que ele não sentia há anos. No entanto, por mais que estivesse animado com a nova conexão, os ecos do passado ainda o assombravam. Os sentimentos conflitantes sobre sua família biológica e a adoção de Miguel permaneciam em sua mente, como sombras que não se dissipavam facilmente.
Enquanto se arrumava para o dia, a imagem de seus pais o invadiu. Ele se lembrava de suas conversas evasivas sobre a adoção, das emoções contidas que seus pais exibiam sempre que o assunto surgia. A curiosidade sobre o que realmente aconteceu na infância de Miguel e o motivo de sua adoção persistia em sua mente. Era hora de descobrir mais.
Após o café da manhã, João decidiu que precisava enfrentar seus pais. A conversa estava há muito tempo adiada, e ele não poderia ignorar o que precisava ser dito. A ideia de questioná-los sobre Miguel e sua própria história causava uma mistura de nervosismo e determinação. Ele se sentou à mesa da cozinha, onde seus pais costumavam se reunir, sentindo o peso do momento.
“Precisamos conversar,” ele começou, tentando esconder a apreensão na voz. “Sobre a adoção de Miguel e o que aconteceu quando ele foi adotado.”
Os rostos de seus pais se tornaram sérios, e um silêncio denso pairou no ar. Seu pai, que sempre foi a figura autoritária, foi o primeiro a quebrar o silêncio. “João, isso é um assunto delicado. Você tem que entender que decidimos proteger você e sua irmã de algumas verdades difíceis.”
“Proteger? Ou esconder?” João retrucou, a frustração brotando. “Eu preciso saber, preciso entender o que realmente aconteceu. Miguel é meu irmão e quero saber mais sobre ele. Ele sempre soube que tinha um irmão mais velho. Por que vocês nunca me contaram a verdade?”
Sua mãe suspirou, uma expressão de dor e remorso nos olhos. “Não era nossa intenção machucar você, meu filho. A adoção de Miguel foi uma decisão difícil. Nós estávamos preocupados com a sua segurança emocional e não queríamos que você se sentisse rejeitado.”
João sentiu uma onda de raiva e tristeza. “Mas eu me senti rejeitado! Sempre soube que havia algo que vocês não estavam me contando, e agora, sabendo que Miguel sempre soube de mim, isso só aumenta a minha dor.”
“Queremos que você saiba que Miguel foi adotado porque não havia outra escolha na época. Ele precisava de um lar, e nós sentimos que era a coisa certa a fazer,” seu pai disse, sua voz um pouco mais suave.
“Mas e a minha história? E as minhas perguntas? E se isso nunca tivesse acontecido, vocês teriam me mantido no escuro para sempre?” João perguntou, o desespero transparecendo em suas palavras.
Sua mãe olhou para ele, os olhos cheios de lágrimas. “Eu sinto muito, filho. Nunca quis que você se sentisse assim. Nós devíamos ter sido mais abertos com você. A adoção de Miguel não foi uma escolha fácil, e nós estávamos lutando com muitas emoções.”
João respirou fundo, tentando processar tudo. Ele queria acreditar que havia amor e cuidado nas ações de seus pais, mas a dor da falta de comunicação e a sensação de traição ainda estavam frescas em sua mente. “Eu só quero ser parte da vida de Miguel agora. Quero conhecê-lo e estar presente. Ele é meu irmão, e não quero perder essa oportunidade.”
“Então faça isso,” seu pai disse, a voz mais firme. “Abrace essa nova conexão. Aprenda sobre ele e deixe essa relação crescer. Isso é o que você realmente deseja, não é?”
João assentiu, percebendo que precisava deixar o passado para trás. A verdade, por mais dolorosa que fosse, não poderia ser um obstáculo em seu caminho para a reconexão com Miguel. Ele se sentiu aliviado por finalmente ter uma conversa honesta, embora as respostas não fossem totalmente satisfatórias.
Depois dessa conversa, João se sentiu mais forte. Ele pegou seu celular e enviou uma mensagem para Miguel, sugerindo que eles se encontrassem novamente. Miguel respondeu rapidamente, animado para vê-lo.
O encontro foi agendado para o dia seguinte, e João estava ansioso. Ele planejou levar Miguel ao cinema para assistirem a um filme que ambos estavam ansiosos para ver. Era uma forma de aprofundar a amizade, de construir memórias e, principalmente, de solidificar a relação que estavam formando.
Na tarde do encontro, enquanto se preparava, João se sentiu inquieto. Ele não sabia o que esperar, mas a expectativa o consumia. Ao chegar ao cinema, ele avistou Miguel na fila para comprar pipoca, seu rosto iluminado pelo sorriso que João agora conhecia bem.
“Oi, João!” Miguel acenou, sua energia vibrante contagiando o ambiente. “Estou tão feliz que você veio!”
“Eu também! Estou animado para ver este filme,” João respondeu, sentindo a tensão se dissipar enquanto eles conversavam sobre o que esperavam da história.
Durante o filme, as risadas e os sustos compartilhados reforçaram a conexão entre eles. A experiência estava cheia de momentos espontâneos, desde as reações exageradas ao terror no filme até as risadas incontroláveis nas cenas cômicas. Cada momento parecia criar uma camada a mais na nova relação que estavam formando.
Após o filme, eles foram a uma sorveteria próxima. Enquanto se sentavam para comer seus sorvetes, Miguel olhou para João, a curiosidade brilhando em seus olhos.
“Posso te perguntar algo, João?” Miguel disse, hesitante.
“Claro! O que você quiser,” João respondeu, encorajando o irmão a se abrir.
“Como você se sente em relação a tudo isso? A nossa conexão, a adoção… tudo isso,” Miguel perguntou, a sinceridade em sua voz.
João ponderou a pergunta. Era uma questão complexa, mas ele sentia que havia avançado muito desde o primeiro dia que se encontraram. “Sinceramente, é uma montanha-russa. Ao mesmo tempo que estou animado por ter você na minha vida, eu sinto uma dor pelo que eu não sabia. Mas estou disposto a deixar o passado para trás e focar no futuro que podemos construir juntos.”
Miguel sorriu, os olhos brilhando com compreensão. “Eu também sinto isso. Às vezes, me pergunto como seria se tivéssemos crescido juntos. Mas agora que nos encontramos, estou ansioso para descobrir isso.”
A conversa fluiu naturalmente, e a atmosfera leve os envolveu. Com cada palavra, João sentiu que as barreiras que antes existiam estavam lentamente se desvanecendo. Ele percebeu que estava começando a ver Miguel não apenas como um irmão perdido, mas como um amigo e parceiro para compartilhar experiências de vida.
Enquanto o sol começava a se pôr, lançando uma luz dourada ao redor deles, João sentiu que a nova relação estava apenas começando. Ele estava determinado a fazer parte da vida de Miguel, a construir uma conexão que se baseasse em amor, compreensão e apoio mútuo. E assim, enquanto sorver seu sorvete, uma sensação de paz tomou conta de João. O passado poderia ter suas cicatrizes, mas o futuro que se desenhava à sua frente era brilhante e cheio de promessas. Ele estava pronto para cada passo do caminho.
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Atualizado até capítulo 26
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