A determinação de Miguel em contatar sua mãe biológica se transformou em um foco intenso. Nos dias seguintes, eles dedicaram cada momento livre a planejar a abordagem. Conversaram sobre as possíveis perguntas, os sentimentos que poderiam surgir e o que esperavam encontrar ao longo do caminho. Enquanto Miguel se preparava para dar o primeiro passo, João se sentia envolvido na jornada, ainda que com um peso emocional crescente.
Finalmente, na manhã de um sábado ensolarado, Miguel decidiu que era hora de agir. Ele havia encontrado um número de telefone em um dos registros e, após uma longa discussão sobre a maneira mais adequada de se apresentar, sentou-se com João na sala, o coração batendo forte. “Você está comigo, certo?” perguntou Miguel, olhando nos olhos de João.
“Claro que sim,” João respondeu, apoiando a mão no ombro do irmão. “Estou aqui para o que você precisar.”
Com um profundo suspiro, Miguel pegou o telefone e discou o número. O som do toque ecoou pela sala, e o silêncio pesado parecia preencher cada canto. João sentia a tensão no ar, como se cada toque fosse um reflexo da ansiedade de Miguel. Finalmente, uma voz atendeu do outro lado.
“Alô?”
A voz soava familiar, mas Miguel hesitou, as palavras travadas em sua garganta. “O-oi. Meu nome é Miguel… eu sou seu filho.”
A resposta foi um silêncio chocante que se arrastou por longos segundos, como se a realidade da declaração estivesse impactando ambos os lados da linha. João podia ver a expressão de Miguel mudar de expectativa para um misto de nervosismo e insegurança. Finalmente, a voz na outra extremidade respondeu, baixa e hesitante.
“Miguel? É você mesmo? Eu… eu não esperava ouvir de você.”
“Eu sei que isso é inesperado,” Miguel disse, sua voz firme, mas trêmula. “Eu só queria entender um pouco mais sobre você. Eu tenho muitas perguntas.”
A conversa que se seguiu foi uma mistura de emoções e revelações. Miguel ficou surpreso ao descobrir que sua mãe, Clara, não apenas lembrava dele, mas tinha pensamentos e sentimentos profundos sobre sua adoção. Ela havia enfrentado desafios imensos e, por um momento, parecia que o passado estava finalmente se alinhando com o presente.
“Eu sempre quis que você tivesse uma vida melhor do que a que eu poderia oferecer,” Clara disse, sua voz embargada. “Fui forçada a tomar a decisão mais difícil da minha vida. Mas sempre pensei em você, Miguel.”
Enquanto Miguel falava com Clara, João se sentiu um pouco deslocado, mas ao mesmo tempo, sentia que fazia parte daquele momento íntimo. Ele podia ver a conexão entre eles se formando através das palavras. O coração de Miguel estava se abrindo, e João desejou que essa conexão fosse real.
“Eu gostaria de te conhecer,” Miguel disse, suas palavras carregadas de esperança. “Se você estiver disposta, eu gostaria de me encontrar com você.”
Clara hesitou, e a expectativa na sala aumentou. João segurou a mão de Miguel, um gesto silencioso de apoio. “Eu quero saber mais sobre você e a nossa história. Não precisamos fazer isso sozinhos,” ele lembrou Miguel, incentivando-o a continuar.
“Sim, eu quero isso também,” Clara respondeu, finalmente concordando. “Estou disposta a me encontrar com você. Mas preciso de um tempo para me preparar. Essa é uma decisão importante para nós dois.”
O coração de Miguel parecia disparar. Ele tinha a chance de se reconectar com sua mãe, e mesmo que houvesse um caminho a percorrer, sentia que estava começando a se libertar de algumas das incertezas que o haviam atormentado.
A conversa se estendeu por mais alguns minutos, repleta de promessas e vulnerabilidades. Ao final da chamada, Miguel parecia mais leve, mas João sabia que a jornada estava longe de terminar. O que começara como uma busca por respostas estava se transformando em algo muito mais profundo.
“Você conseguiu, Miguel! Estou tão orgulhoso de você,” João exclamou, envolvendo Miguel em um abraço apertado.
“Obrigada,” Miguel respondeu, ainda em estado de choque. “Mas isso é só o começo. Eu não sei o que esperar dessa reunião.”
Nos dias que se seguiram, Miguel e João se concentraram em se preparar para o encontro. Eles decidiram que queriam que o momento fosse especial, uma chance de se reconectar e curar as feridas do passado. Miguel começou a fazer uma lista de perguntas que gostaria de fazer a Clara, e João o ajudou a organizar seus pensamentos.
Mas, à medida que a data do encontro se aproximava, um novo sentimento começou a invadir o coração de João. Ele estava feliz por Miguel, mas também sentia uma pontada de insegurança. O que aconteceria se a presença de Clara mudasse a dinâmica entre eles? E se Miguel quisesse passar mais tempo com ela e menos com ele? Esses pensamentos o incomodavam, mas ele sabia que não poderia permitir que suas inseguranças ofuscassem o momento significativo que Miguel estava prestes a vivenciar.
No dia do encontro, a ansiedade estava palpável. Miguel estava nervoso, mas determinado. Ele se vestiu com cuidado, e João notou que havia uma nova energia em seu irmão, uma mistura de expectativa e medo.
“Vamos fazer isso,” Miguel disse, segurando o celular com força. “Eu só quero que tudo corra bem.”
“Vai dar tudo certo, eu prometo. Lembre-se de que estarei ao seu lado, não importa o que aconteça,” João respondeu, tentando transmitir a confiança que Miguel precisava.
Eles se encontraram em um café, um lugar neutro, onde a atmosfera era tranquila. Quando Clara chegou, Miguel ficou paralisado por um instante, observando a mulher que o havia trazido ao mundo. A semelhança era impressionante, mas também trazia uma avalanche de emoções.
“Oi, Miguel,” Clara disse, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas. “Você está tão crescido.”
Miguel hesitou, as palavras na ponta da língua. “Oi, mãe,” ele finalmente respondeu, a palavra soando estranha e reconfortante ao mesmo tempo.
João ficou um pouco afastado, observando a interação entre os dois. Ele percebeu que havia um misto de alegria e dor em cada olhar, como se ambos estivessem se permitindo sentir a presença um do outro após tanto tempo.
A conversa começou devagar, com perguntas tímidas e respostas cautelosas. Mas à medida que avançavam, a conexão entre mãe e filho parecia crescer. João se sentou em silêncio, deixando que o momento se desenrolasse, maravilhado com a força emocional que estava diante dele.
“Eu sempre quis saber como você estava,” Clara disse, sua voz tremendo. “E que tipo de pessoa você se tornaria.”
Miguel sorriu, mas havia uma tristeza em seus olhos. “Eu gostaria de ter você por perto. Às vezes, sinto que falta algo, uma parte da minha história.”
Clara assentiu, as lágrimas escorrendo pelo rosto. “E eu lamento muito por isso. A vida não foi fácil para mim, e tomei decisões difíceis. Mas eu nunca deixei de pensar em você. Eu o amo, Miguel.”
Ouvindo aquelas palavras, João sentiu seu coração apertar. Ele sabia que a reconciliação entre Miguel e Clara era um passo significativo, mas também sentia uma profunda tristeza por sua própria situação. O que ele teria que fazer para que sua própria história de vida fosse reconhecida? Em meio à felicidade de Miguel, ele não podia ignorar as próprias perguntas e inseguranças que ainda o perseguiam.
Enquanto o encontro continuava, João decidiu que era hora de ser honesto com seus próprios sentimentos. Quando houve uma pausa na conversa, ele tomou coragem e falou: “Clara, eu sou João. O irmão de Miguel.”
Os olhos de Clara se iluminaram, e um sorriso surgiu em seu rosto. “João! É um prazer conhecê-lo. Miguel fala muito sobre você.”
“Eu… estou aqui para apoiar o Miguel, e também gostaria de entender mais sobre a nossa história. Eu tenho muitas perguntas sobre a nossa família,” João disse, com um leve tremor na voz.
Clara olhou para ele, a compreensão em seus olhos. “Entendo. A vida de vocês dois é mais complicada do que eu poderia imaginar. Estou disposta a compartilhar o que puder.”
O diálogo se desdobrou, e enquanto os três conversavam, João percebeu que, de alguma forma, estava se tornando parte daquela história. Ele poderia não ter as mesmas memórias de Miguel, mas sua própria jornada e as dúvidas que trazia consigo eram igualmente válidas.
A tarde avançou, e as revelações começaram a surgir. João e Miguel ouviram sobre os desafios que Clara enfrentou, suas esperanças e sonhos, e como a vida a levou a decisões dolorosas. Cada palavra parecia aproximá-los mais, e o peso da dor do passado começava a ser aliviado.
Quando o encontro finalmente chegou ao fim, Clara olhou para os dois com um sorriso melancólico. “Estou tão feliz por ter conhecido vocês. Espero que possamos continuar a nos encontrar e construir um relacionamento. É hora de fazer novos começos.”
Miguel assentiu, a gratidão brilhando em seus olhos. “Eu adoraria isso. Não quero que você se sinta fora de nossas vidas.”
João sentiu um calor no peito ao ver a determinação de Miguel. Ele sabia que as coisas não seriam perfeitas, mas a possibilidade de um novo começo estava ali,
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Atualizado até capítulo 26
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