Após o encontro no porão, uma nova sensação de determinação preenchia meu ser. A Garota das Sombras havia se tornado mais do que uma figura aterrorizante do meu passado; ela agora representava uma ponte entre as experiências que me moldaram e a pessoa que eu desejava me tornar. Lucas e eu trocamos olhares, a adrenalina pulsando em nossas veias enquanto nos preparávamos para descobrir mais sobre aquelas memórias ocultas.
Caminhamos de volta para o andar de cima, o ambiente agora parecia mais leve, quase vibrante. Enquanto explorávamos os cômodos da casa, cada um contava uma história, revelando pedaços de nosso passado que eram ao mesmo tempo nostálgicos e dolorosos. Mas havia algo diferente no ar. Uma energia pulsante parecia acompanhar nossos passos, e a sensação de que estávamos sendo observados se tornava cada vez mais forte.
“Você acha que a Garota das Sombras está realmente nos guiando?” Lucas perguntou, seus olhos brilhando com curiosidade e um leve temor.
“Talvez,” respondi, considerando o que eu havia aprendido até agora. “Parece que ela não está aqui para nos assustar, mas para nos ajudar a entender. Cada encontro que tivemos, cada memória, é parte de algo maior.”
À medida que caminhávamos, decidimos nos sentar na sala de estar, onde muitos de nossos momentos familiares haviam acontecido. A sala ainda tinha o cheiro do passado, como se o tempo tivesse parado ali. As paredes estavam decoradas com fotos emolduradas de nossos aniversários, férias e momentos felizes, mas também havia fotos que não reconhecia — imagens de uma infância que, de alguma forma, havia sido marcada pela presença da Garota das Sombras.
“Olhe para isso,” disse Lucas, apontando para uma foto em particular. Era uma imagem de minha família reunida no quintal, todos sorrindo, mas ao fundo, havia uma sombra indistinta que me fez sentir um arrepio. “Você já viu isso antes?”
“Não,” murmurei, inclinando-me mais perto da imagem. “Mas isso… isso não é a primeira vez que vejo essa sombra.” Uma onda de lembranças obscurecidas começou a surgir em minha mente, repleta de momentos que eu havia reprimido.
“Você está bem?” Lucas perguntou, notando minha expressão perturbada.
“Sim, apenas… sinto que estou começando a lembrar de coisas que pensei que tinha esquecido. Algo mais sobre a Garota das Sombras,” respondi, esforçando-me para organizar meus pensamentos. “Ela estava presente em muitos momentos que não percebi na época.”
Lucas se acomodou ao meu lado, atento. “Então, o que você acha que precisamos fazer agora?”
“Precisamos revisitar esses momentos,” sugeri, sentindo a ansiedade crescer em meu peito. “Talvez devêssemos começar por aquela vez… quando a vi pela primeira vez na casa nova. Havia algo que eu não entendi sobre ela na época, algo que estava escondido atrás do medo.”
Assim, começamos a rememorar. Eu fechava os olhos e tentava me transportar de volta àquele dia. A imagem se tornava vívida: o dia estava ensolarado, e eu estava ansiosa para jogar Minecraft. A visão da Garota das Sombras era ainda mais clara agora; seus olhos brancos, o vestido bufante, e a maneira como parecia estar tão absorta em seus próprios pensamentos. Por que eu nunca perguntei a ela o que queria?
“Lembre-se de como você se sentiu naquele momento,” Lucas disse suavemente, puxando-me de volta ao presente. “O que você queria saber?”
Eu respirei fundo, tentando entender as emoções que surgiam à tona. “Eu queria entender por que ela estava ali. E, de certa forma, queria saber por que eu estava tão assustada.”
“E se isso for parte da resposta? A Garota das Sombras pode ter sido uma representação do que você sentia na infância,” Lucas ponderou, sua voz calma. “Talvez ela simbolizasse suas inseguranças, seus medos.”
As palavras dele ressoaram em minha mente. Eu tinha medo do desconhecido, de perder a segurança que minha família proporcionava. E a presença dela, embora assustadora, também poderia ser vista como uma forma de confrontar esses medos.
“Precisamos ir ao quintal,” declarei de repente, a ideia se formando em minha mente. “É onde tudo começou. A primeira vez que eu realmente a vi. Se eu puder me conectar a esse momento, talvez eu consiga entender melhor o que ela representa.”
Lucas concordou e, juntos, saímos para o quintal que antes havia sido nosso playground. As lembranças inundaram meu ser, e eu podia quase sentir a energia da criança que eu havia sido. O espaço era menor do que eu lembrava, mas o sentimento de liberdade ainda permanecia. Era como se os ecos de risadas infantis ainda dançassem nas brisas que sopravam.
Fiquei em silêncio, observando o céu. A sombra de uma nuvem passou, e em um instante, tudo ficou mais sombrio. Eu sabia que a Garota das Sombras poderia estar perto. “Você está aqui, não está?” sussurrei, o coração acelerado. “Se você puder me ouvir, por favor, mostre-se.”
Uma brisa fria acariciou meu rosto, e a sombra que eu conhecia tão bem começou a se formar à minha frente. Ela surgiu de maneira fluida, como se tivesse emergido da própria terra. Seus olhos brancos brilharam com uma intensidade que eu nunca tinha visto antes, e, pela primeira vez, não sentia medo. Havia uma calma, uma certeza de que estávamos prontos.
“Por que você está aqui?” perguntei, minha voz firme. “O que você deseja de mim?”
A Garota das Sombras inclinou a cabeça, e suas feições pareciam suavizar. Um sussurro ecoou no ar: “Lembre-se do que você é. A luz está sempre na sombra.”
As palavras ecoaram em minha mente, e uma epifania começou a se formar. Não era apenas sobre o medo e a escuridão. Era sobre aceitar as partes de mim que não compreendia. Uma parte de mim desejava escapar, mas a outra queria entender. “A luz?” murmurei, começando a compreender.
“Sim,” a voz etérea continuou, agora mais clara. “Você carrega a luz dentro de si. Enfrente suas sombras e abra seu coração. Só assim você encontrará a paz.”
Senti uma onda de coragem inundar meu corpo. Com Lucas ao meu lado, percebi que essa jornada não era apenas sobre confrontar o medo, mas sobre se conectar com as partes mais profundas de quem eu sou. “Nós estamos prontos,” declarei. “Estamos prontos para descobrir.”
A Garota das Sombras sorriu — uma expressão sutil, mas cheia de significado. Com um movimento fluido, ela começou a se afastar, e nós a seguimos. Enquanto ela nos guiava, o horizonte se iluminava, e a verdadeira jornada de autodescoberta estava apenas começando.
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Atualizado até capítulo 22
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