Ecos do Passado

Com o ritual de libertação ainda fresco em nossas mentes, o clima em casa parecia mais leve. As sombras que antes nos cercavam começaram a se dissipar, e a sensação de renovação era palpável. Contudo, uma pequena parte de mim ainda se perguntava se realmente havíamos nos livrado da Garota das Sombras ou se sua presença ainda permanecia oculta em algum canto escuro de nossas vidas.

A rotina na escola e em casa voltou ao normal, mas, em noites silenciosas, às vezes sentia um arrepio na nuca, como se estivesse sendo observada. Minha mente tentava me convencer de que era apenas a imaginação, mas algo em meu coração ainda hesitava em descartar a possibilidade de que a Garota pudesse retornar. Para acalmar esses pensamentos, decidi manter um diário, onde poderia expressar tudo o que estava sentindo e as inseguranças que ainda me assombravam.

Uma tarde, enquanto caminhava até a escola, notei um grupo de crianças se reunindo ao redor de uma árvore. Curiosa, me aproximei para ver o que estava acontecendo. Para minha surpresa, encontrei uma cena que me trouxe à mente as histórias que havia ouvido sobre a Garota das Sombras. As crianças estavam contando histórias de terror, e uma delas falava sobre uma figura parecida com a que eu tinha visto. A descrição era tão vívida que imediatamente meu coração disparou. Era como se as palavras das crianças estivessem despertando algo adormecido dentro de mim.

Decidi ouvir mais, sentando-me ao lado de um garoto que parecia ser o narrador principal. “E então,” ele disse, “ela se virou e me olhou. Os olhos eram brancos como a luz da lua, e o vestido era tão escuro que parecia absorver toda a luz ao redor.” A descrição era tão similar à minha experiência que eu quase não consegui conter a respiração. O garoto continuou: “Ninguém sabe de onde ela vem, mas dizem que se você a vê, ela sempre aparece quando você está sozinho.”

As palavras dele ecoaram em minha mente, e não pude evitar a sensação de que aquela história não era apenas uma invenção, mas uma conexão com algo muito mais profundo. Uma parte de mim queria rir da situação, mas outra parte estava aterrorizada. Lembrei-me das nossas cartas queimadas e do ritual de libertação. Poderíamos ter nos despedido da Garota das Sombras, mas a maneira como as histórias eram passadas de uma criança para outra parecia sugerir que sua lenda ainda estava viva.

A conversa entre as crianças prosseguiu, e percebi que, em algum lugar, eu havia perdido o controle da minha própria história. Levantei-me abruptamente, decidida a voltar para casa e me afastar daquela energia negativa. Ao me afastar, porém, um sentimento de frustração tomou conta de mim. Por que eu estava fugindo? Eu já havia enfrentado meus medos e libertado minha família das sombras do passado. Precisava confrontar essa nova onda de incerteza.

Ao chegar em casa, fui diretamente ao meu quarto e abri meu diário. Comecei a escrever sobre o que tinha ouvido, as histórias contadas e a sensação de que, mesmo depois do ritual, a Garota das Sombras ainda estava viva de alguma forma. Era como se ela tivesse se tornado uma parte do nosso legado, um eco de experiências passadas. Escrevi sobre como eu precisava entender melhor essa conexão. Se a Garota das Sombras estava ligada ao nosso medo e solidão, talvez fosse hora de olhar para essas emoções novamente, em vez de tentar enterrá-las.

Naquela noite, enquanto escrevia, ouvi um leve barulho vindo do corredor. Uma sensação familiar de frio percorreu minha espinha. Embora acredite que havia me libertado da Garota, a incerteza ainda pairava. Decidi que, se ela estivesse lá, eu não iria fugir. Com coragem renovada, levantei-me e fui em direção ao som.

No fundo do corredor, a luz da lua iluminava o espaço, e, ao passar pela porta do meu quarto, algo chamou minha atenção. Uma sombra parecia se mover sutilmente, como se estivesse tentando se esconder. Meu coração disparou, mas lembrei-me do ritual. Lembrei-me de como havia decidido enfrentar meu medo.

“Se você está aqui, mostre-se,” disse em voz alta, tentando esconder o tremor na minha voz. “Você não me assusta mais!”

O silêncio que se seguiu parecia ensurdecedor, mas eu não me movi. O que eu esperava? Uma resposta? Uma confirmação de que finalmente tinha o controle? A sombra hesitou e, lentamente, surgiu na luz da lua. Era apenas uma silhueta, mas os olhos brancos se destacavam. O pânico ameaçou me consumir, mas respirei fundo e me lembrei de que havia enfrentado essa figura antes.

“Você é a Garota das Sombras, certo?” perguntei, tentando manter minha voz firme. “Você não precisa mais me assustar. Eu já entendi. Você representa o medo, a solidão, a desconexão. Mas agora estou pronta para seguir em frente.”

Para minha surpresa, a sombra não se moveu, apenas me observou, os olhos brancos fixos nos meus. Havia uma calma estranha no ar, e, por um breve momento, o medo que antes dominava meu coração começou a se dissipar. “Você não precisa mais estar sozinha,” disse, quase em um sussurro. “Eu estive aqui para lembrar você do que precisa enfrentar.”

Em vez de fugir, eu havia escolhido enfrentar a Garota das Sombras. Era uma oportunidade de confrontar tudo o que havia guardado em meu coração. “Você não precisa mais me mostrar o que já sei,” continuei. “Eu quero abraçar a luz e a conexão. Quero ser livre.”

A sombra hesitou e, então, lentamente começou a se dissolver na luz da lua. Era como se ela estivesse aceitando minhas palavras, permitindo que eu tomasse o controle. Em um instante, tudo ficou em silêncio novamente. O frio que antes preenchia o corredor começou a se dissipar, e a sensação de alívio tomou conta de mim.

Voltei para meu quarto, sentindo-me mais leve. A Garota das Sombras não era mais uma entidade a ser temida, mas uma parte da minha jornada de autodescoberta. O que antes era uma sombra aterrorizante agora se transformava em um símbolo de resiliência. Estava pronta para deixar para trás não apenas a figura que havia me assombrado, mas também a solidão que antes me acompanhava.

Com isso, fechei meu diário, um sorriso brotando em meu rosto. A vida estava mudando, e a Garota das Sombras não tinha mais poder sobre mim. O que restava era uma nova história, e eu estava pronta para escrevê-la.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!