Após a revelação com a Garota das Sombras, minha perspectiva sobre o que acontecera em minha infância começou a mudar. Lucas e eu estávamos mais conectados do que nunca, compartilhando uma experiência que poucos poderiam compreender. Aquela sensação de liberdade e aceitação da nossa história nos trouxe um novo ânimo, como se estivéssemos prontos para enfrentar o mundo juntos, mesmo que ainda houvesse incertezas à frente.
Nos dias seguintes, decidimos criar um ritual regular para honrar as lembranças de nossas infâncias. Assim, toda sexta-feira à noite, nos reuníamos em meu quarto para meditar, acender velas e refletir sobre nossas experiências. Durante essas sessões, a conexão com a Garota das Sombras parecia se fortalecer, como se a presença dela se tornasse mais palpável a cada encontro. Às vezes, podíamos sentir a brisa leve ou notar sussurros suaves, como se ela estivesse nos encorajando a continuar a jornada.
Naquela sexta-feira, especificamente, havia algo diferente no ar. Enquanto Lucas e eu nos preparávamos para o nosso ritual, percebi que meu coração estava acelerado. “Você sente isso?” perguntei, olhando para ele. Lucas assentiu, seu olhar sério. “Sim, é como se algo estivesse prestes a acontecer.”
Decidimos iniciar a meditação, e logo a atmosfera começou a mudar. A luz das velas dançava de uma maneira que nunca havia acontecido antes, criando sombras que se estendiam e se contraíam nas paredes. Depois de alguns minutos, uma onda de energia percorreu o quarto. Fui envolvida por uma sensação de calma profunda, mas havia uma tensão subjacente, como se algo estivesse esperando para ser revelado.
Então, à medida que mergulhávamos mais profundamente na meditação, as imagens começaram a surgir em minha mente. Lembrei-me de momentos de minha infância que havia esquecido, como brincadeiras com meus irmãos, tardes passadas no quintal e as risadas que ecoavam entre os jogos. Essas memórias eram quentes e alegres, mas uma parte de mim começou a sentir um peso emocional. As sombras que haviam se acumulado ao longo dos anos eram mais do que apenas lembranças; eram medos não resolvidos e inseguranças que eu carregava.
Quando a meditação chegou ao fim, Lucas olhou para mim com uma expressão preocupada. “Você estava fazendo uma expressão de dor. O que aconteceu?” Ele parecia genuinamente preocupado, e isso me fez pensar. “Eu não sei... talvez seja apenas a intensidade das memórias. Algumas delas não foram muito boas.” Um silêncio pairou entre nós, mas Lucas rapidamente quebrou.
“Vamos fazer algo sobre isso. O que você acha de escrevermos sobre essas memórias? Isso pode nos ajudar a liberar esse peso,” sugeriu ele. A ideia ressoou em mim, e concordei imediatamente. “Sim, acho que isso pode ser muito útil. Precisamos colocar essas experiências para fora e entendê-las melhor.”
Naquela noite, decidimos que cada um de nós escreveria sobre as memórias que mais nos marcaram, tanto as boas quanto as ruins. O objetivo não era apenas escrever sobre os momentos alegres, mas também explorar as sombras que muitas vezes tentamos evitar. Quando peguei meu caderno, a ansiedade me tomou, mas ao mesmo tempo, havia uma expectativa de libertação.
No dia seguinte, enquanto Lucas e eu compartilhávamos nossas histórias, percebi que ele também estava passando por uma transformação. Ele falava sobre suas próprias inseguranças, sobre como o bullying na escola o afetou e o deixou com cicatrizes emocionais. Suas palavras eram carregadas de dor, mas também de força. Ao ouvirmos um ao outro, construímos um espaço seguro, onde pudemos expressar nossas vulnerabilidades sem medo de julgamento.
Com o passar das semanas, nossas reuniões se tornaram um refúgio, um momento em que pudíamos explorar não apenas nossas memórias, mas também as lições que aprendemos com elas. A Garota das Sombras, que antes era uma figura aterrorizante, agora se tornara uma aliada, uma força que nos incentivava a nos libertar das correntes que nos mantinham presos.
Certa noite, enquanto estávamos em meio a mais um ritual, a atmosfera do quarto mudou de novo. Desta vez, a presença da Garota das Sombras era inconfundível. Ela parecia mais clara, mais definida, e em vez de apenas uma silhueta, começamos a ver o contorno de seu vestido bufante, como se ela estivesse se manifestando mais uma vez. Em vez de medo, senti uma profunda gratidão por ela. Era como se ela estivesse ali para nos guiar na cura.
“Garota das Sombras,” chamei suavemente, “nós queremos agradecer por estar conosco. Por nos ajudar a enfrentar nossas memórias e por nos ensinar a entender o que carregamos dentro de nós.” A figura pareceu brilhar, e uma brisa suave encheu o quarto, como se ela estivesse respondendo ao nosso chamado.
Lucas e eu nos entreolhamos, e uma sensação de compreensão mútua preenchia o espaço. “Você quer nos mostrar algo mais?” perguntei. A sombra começou a se mover lentamente, como se estivesse gesticulando, e nós nos sentimos compelidos a segui-la.
A Garota das Sombras nos levou a um lugar que nunca havíamos visto. Era uma visão de nossa infância, mas havia um toque diferente. As risadas ecoavam, as brincadeiras pareciam mais vívidas e a luz do sol brilhava com intensidade. Era como se estivéssemos sendo convidados a lembrar que, apesar das sombras que enfrentamos, a luz sempre estaria presente, mesmo nos momentos mais sombrios.
A cena começou a se dissolver, mas não antes que eu entendesse a mensagem: não importa quão sombrias as memórias possam ser, sempre haverá uma luz para guiá-los. Essa era a essência da Garota das Sombras, não como um símbolo de medo, mas como uma lembrança de que as experiências, boas ou ruins, moldam quem somos e que sempre podemos encontrar paz e cura nas sombras que deixamos para trás.
Com essa nova compreensão, estava pronta para enfrentar os desafios que viriam a seguir. A jornada estava apenas começando, e ao lado de Lucas, eu sabia que qualquer coisa era possível.
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Atualizado até capítulo 22
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