Algum tempo se passou desde aquele primeiro encontro com a Garota das Sombras. Eu tentei, sem sucesso, me convencer de que tudo não passava de um devaneio infantil, fruto de uma imaginação fértil. No entanto, a verdade, sempre à espreita, se recusava a ser ignorada. O medo ainda me acompanhava como uma sombra silenciosa, mas eu o mantinha em segredo. Afinal, que tipo de criança falava sobre uma entidade sobrenatural que habitava sua casa sem ser chamada de louca? Até meus irmãos, que compartilhavam o mesmo teto, pareciam alheios ao que eu estava vivenciando.
Foi durante um final de semana, em Pembina, na velha casa que costumávamos chamar de “casinha”, que a realidade que eu tentava reprimir se manifestou de maneira ainda mais aterrorizante. A casa em Pembina era pequena e aconchegante, mas sempre teve uma aura estranha. O porão era escuro e úmido, e raramente alguém descia lá sem motivo. Havia algo naquela casa que, mesmo antes de eu conhecer a Garota das Sombras, já me fazia sentir um desconforto inexplicável. E foi ali, naquele lugar que deveria representar conforto e familiaridade, que eu a vi pela segunda vez.
Era uma tarde como qualquer outra, e o som das risadas dos meus irmãos preenchia o ar enquanto eles corriam pela casa. Eu, no entanto, estava em busca de algo no meu quarto, talvez um brinquedo que eu havia perdido. Meu quarto, que dividia com meu irmão, ficava no segundo andar, acessível por uma escada estreita que rangia a cada passo. A casa estava viva com os sons típicos de uma família, mas, de repente, algo mudou. O barulho das brincadeiras diminuiu, e logo o silêncio reinou, o mesmo silêncio inquietante que me envolvia sempre que a Garota das Sombras estava próxima.
Subi a escada sem prestar muita atenção, meus olhos fixos nos primeiros degraus, absorto em pensamentos. Foi quando olhei para cima e a vi. Lá, no topo da escada, parada como uma estátua, a Garota das Sombras me encarava. Seu vestido bufante e antigo era o mesmo que eu havia visto antes, mas desta vez, algo nela parecia diferente. Sua presença era ainda mais intensa, mais real. Ela não se movia, apenas ficava ali, no topo da escada, me observando com aqueles olhos brancos e vazios que contrastavam com a escuridão de sua figura.
Meu corpo congelou instantaneamente. Uma parte de mim queria gritar, correr, pedir ajuda. Mas outra parte, talvez a mais aterrorizada, sabia que ninguém acreditaria em mim, e pior, ninguém poderia me salvar. Ali, no topo da escada, estava algo que não pertencia ao nosso mundo, algo que desafiava a lógica e a razão. E dessa vez, eu não estava apenas paralisado pelo medo. Eu estava com raiva.
Uma onda de fúria percorreu meu corpo. Como aquela coisa ousava invadir minha vida, minha casa, minha mente? O medo deu lugar a uma coragem irracional, e antes que eu percebesse o que estava fazendo, subi as escadas correndo, na direção dela. Eu queria enfrentá-la, fazer com que ela desaparecesse para sempre. Mas, à medida que eu avançava, algo terrível aconteceu. Seus olhos, aqueles dois orbes brancos, nunca se desviaram de mim, mas seu corpo começou a se mover.
Ela não caminhava como uma pessoa normal. Não levantava os pés. Em vez disso, seu corpo deslizava pelo chão, como se fosse feito de névoa, flutuando com uma graça perturbadora. Virou-se lentamente, sem qualquer esforço, e começou a se afastar pelo corredor que levava aos quartos do segundo andar. Eu não sabia o que fazer. A raiva que me impulsionou a subir as escadas rapidamente se transformou em uma sensação de impotência. O que eu esperava fazer? Como uma criança poderia enfrentar algo que claramente não era deste mundo?
Quando finalmente alcancei o topo da escada, ela já havia desaparecido. O corredor estava vazio, como se nunca houvesse estado lá. Eu corri para os quartos, abrindo portas, olhando em cada canto, esperando encontrá-la escondida em algum lugar. Mas, mais uma vez, ela havia sumido. Era como se a própria casa tivesse engolido sua presença, deixando-me com nada além do eco do meu coração acelerado e da dúvida crescente em minha mente.
Aquela noite, eu não disse nada a ninguém. Meus irmãos continuaram brincando, meus pais se prepararam para o jantar, e a vida seguiu seu curso normal, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Mas eu sabia que a Garota das Sombras ainda estava lá, em algum lugar, observando, esperando o momento certo para aparecer novamente. O segundo encontro foi diferente do primeiro. Não foi apenas uma aparição estática; foi um movimento, uma interação, e isso me deixou mais apavorado do que eu poderia admitir.
Algo dentro de mim mudou naquela tarde. O medo havia evoluído. Ele não era mais apenas o temor de ver a Garota das Sombras. Agora, era o medo do que ela queria. Por que ela continuava aparecendo para mim? O que ela esperava de mim? Essas perguntas martelavam minha mente enquanto eu tentava continuar minha rotina de criança normal. Mas a normalidade, eu sabia, já não existia mais.
As escadas, que antes eram apenas um caminho entre os andares, agora se tornaram um local de tensão. Cada vez que eu precisava subir ou descer, meus olhos procuravam por qualquer sinal dela, qualquer sombra que pudesse anunciar sua presença. Mas ela nunca aparecia quando eu estava preparado. Era sempre quando eu estava distraído, quando meu guarda estava abaixado, que ela surgia, como se soubesse exatamente quando me pegar de surpresa.
Eu não estava sozinho naquela casa, mas, ao mesmo tempo, sentia como se estivesse isolado em um mundo que só eu conseguia ver. E o pior de tudo? Eu sabia, com uma certeza que me arrepiava, que esse não seria o último encontro.
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Atualizado até capítulo 22
Comments
pEyt
Essa autora nunca decepciona! 👏
2024-10-23
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