Os dias que se seguiram ao meu primeiro encontro com a Garota das Sombras foram marcados por uma estranha sensação de inquietação. Nossa casa, antes um refúgio de segurança, agora parecia cheia de segredos. Mesmo durante os momentos mais simples do cotidiano, como brincar com meus irmãos ou ver meus pais preparando o jantar, eu não conseguia me livrar da sensação de que algo estava errado, como se houvesse uma presença constante nas sombras, observando cada movimento.
A casa nova era maior que a anterior, o que deveria ser motivo de alegria para todos nós, crianças. Havia mais espaço para explorar, mais lugares para se esconder durante nossas brincadeiras, mais janelas pelas quais o sol da tarde entrava, aquecendo o ambiente. Mas agora, cada canto parecia esconder uma ameaça invisível. Cada corredor parecia mais longo, cada sala mais vazia, e o silêncio, que antes era reconfortante, agora era opressor.
Logo percebi que o silêncio era um elemento-chave na presença dela. Sempre que a casa estava em seu momento mais quieto, era quando eu sentia aquela estranha tensão crescer dentro de mim. Quando a TV estava desligada, quando meus irmãos não faziam barulho, e quando minha mãe parava de cantarolar baixinho enquanto cozinhava, era como se o próprio ambiente ficasse mais denso, como se algo estivesse esperando, à espreita, nas sombras.
Comecei a evitar o quarto dos meus pais. Não conseguia passar pela porta sem lembrar da visão daquela figura escura sentada na beira da cama, me observando. Só de pensar em voltar lá, meus músculos se retesavam, e o medo voltava a apertar meu peito. Meus pais não entendiam por que eu havia parado de brincar no segundo andar, ou por que eu evitava entrar no quarto deles quando eles me chamavam. "É só uma fase", diziam. Mas, para mim, era muito mais do que isso.
Certa noite, eu estava deitado na cama, tentando dormir. O relógio na parede do corredor marcava o passar das horas com um leve tique-taque, o único som que preenchia o silêncio da casa. Meus irmãos já estavam dormindo, e meus pais haviam se recolhido ao quarto deles. Apesar da quietude ao meu redor, minha mente estava em alerta. Eu me perguntava se, naquele exato momento, a Garota das Sombras estava em algum lugar da casa, esperando, observando.
Foi então que ouvi. Um som sutil, quase imperceptível, como o farfalhar de roupas sendo arrastadas pelo chão. Minha respiração ficou presa na garganta, e meus olhos se fixaram na porta do quarto, que estava entreaberta. Do outro lado, o corredor estava imerso em sombras, iluminado apenas pelo fraco brilho da luz noturna que minha mãe sempre deixava acesa. Eu não conseguia ver nada além das paredes e da escada que descia para o andar de baixo. Mas a sensação de ser observado era inegável.
Com o coração acelerado, me forcei a levantar da cama. Caminhei até a porta, com passos leves, tentando não fazer barulho, como se, de alguma forma, eu pudesse evitar chamar atenção para mim. Olhei para o corredor vazio, meus olhos se esforçando para enxergar além das sombras. Não havia nada ali… pelo menos, não algo que eu pudesse ver.
Voltei para a cama, mas o sono parecia impossível. A cada ruído da casa — o ranger do piso, o estalo das janelas com o vento lá fora — minha mente imaginava o pior. Sentia como se a Garota das Sombras pudesse aparecer a qualquer momento, saindo de algum canto escuro, vinda de um lugar onde eu jamais esperaria encontrá-la. E a parte mais perturbadora de tudo isso? Eu sabia, no fundo, que ninguém mais na casa estava ciente dessa presença. Para os meus pais e irmãos, o silêncio era apenas silêncio. Para mim, era um aviso.
O tempo foi passando, e eu comecei a evitar falar sobre o que sentia. Ninguém parecia notar que algo estava errado, e eu não queria parecer fraco ou infantil. Sempre que eu tentava mencionar a sensação de que algo estava errado, meus pais sorriam de forma compreensiva, mas logo mudavam de assunto. "Você está crescendo, tudo isso é parte da sua imaginação", eles diziam. Era uma resposta reconfortante… mas eu sabia que eles estavam errados. O que eu havia visto, o que eu continuava sentindo, não era imaginação.
As noites eram as piores. Durante o dia, eu conseguia me distrair com a escola e as brincadeiras com meus irmãos, mas à noite, o silêncio da casa voltava com força total. Havia algo naquela quietude, algo que parecia convidar a Garota das Sombras a se manifestar. Eu tentava manter os olhos fechados, forçando-me a dormir, mas a sensação de estar sendo observado não me deixava em paz. Era como se, a qualquer momento, eu fosse abrir os olhos e encontrá-la parada ao pé da cama, seus olhos brancos fixos em mim.
Esse medo constante começou a se tornar parte da minha rotina. A casa, antes cheia de vida e alegria, agora parecia um lugar de mistério e incerteza. O silêncio, que antes era acolhedor, agora era sinônimo de perigo. E a cada dia que passava, eu sabia que aquilo não tinha acabado. A Garota das Sombras ainda estava por perto, em algum lugar, esperando o momento certo para aparecer novamente.
Mal sabia eu que aquele seria apenas o começo.
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Atualizado até capítulo 22
Comments
ops, not found
se fosse eu na hora de dormir, botava o cobertor na cabeça e dormia.
o cobertor é o melhor escudo nessas horas🙌🏻
2025-01-20
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