Sombras do Passado

Os dias que se seguiram ao meu último encontro com a Garota das Sombras foram como uma névoa densa que cobria minha mente. Cada passo que eu dava na casa parecia reverberar com uma sensação de desconforto, como se eu estivesse sendo seguido por uma presença invisível. O calor do verão foi substituído por um frio que me fazia querer me encolher sob os cobertores a qualquer momento. A liberdade das brincadeiras ao ar livre havia se transformado em um pesadelo, e a alegria das minhas atividades cotidianas estava desaparecendo rapidamente.

Na escola, meus colegas percebiam que algo estava errado. Eu costumava ser uma criança extrovertida, sempre rindo e brincando com os amigos, mas agora parecia que uma sombra se espalhava sobre mim. Conversas sobre o que havia acontecido com a borboleta, o olhar da Garota das Sombras e o pavor que eu sentia tornaram-se assuntos que eu não conseguia compartilhar. Não havia palavras suficientes para descrever a intensidade daquilo que eu estava vivenciando. Eu me sentia como um estranho, mesmo entre aqueles que eram próximos a mim. A sensação de isolamento era opressiva, e cada dia que passava sem que eu revelasse minha experiência me fazia sentir mais aprisionado.

Em casa, a tensão também era palpável. Minha família estava passando por uma fase difícil; meu pai estava cada vez mais ocupado com seu trabalho e, por consequência, mais distante. Minhas irmãs não tinham ideia do que estava acontecendo comigo, e meu irmão, mesmo que estivesse presente, estava mais preocupado com suas próprias coisas. Eu queria gritar, queria que alguém me ouvisse, mas a ideia de ser tratado como uma criança boba e medrosa me paralisava. Assim, optei por manter tudo em segredo.

Foi em uma dessas noites de insônia que decidi procurar algo que me ajudasse a entender melhor o que estava acontecendo. Lembrei-me do livro “Canadá Assombrado”, que havia lido na sexta série, onde aprendi sobre as Pessoas das Sombras. Tentei me concentrar em como as histórias eram contadas, tentando encontrar alguma conexão que pudesse me dar respostas. Eu precisava entender a origem daquela figura aterradora que havia invadido meus pensamentos e sonhos.

Subi as escadas e fui até o quarto dos meus pais. A escuridão lá dentro era mais densa, como se a luz tivesse sido engolida por algum tipo de força sombria. Abri a porta do armário e procurei entre os livros, puxando cada um deles, esperando encontrar alguma pista. O cheiro de papel envelhecido era reconfortante, mas não consegui encontrar nada que me oferecesse uma explicação. Em vez disso, encontrei um diário antigo de minha mãe. Ele estava coberto de poeira e parecia ter sido esquecido há muito tempo.

Curiosa, abri as páginas e comecei a ler. O diário falava sobre a infância dela, suas experiências e medos. Em uma passagem, encontrei uma menção a uma figura parecida com a Garota das Sombras. Minha mãe descreveu um evento que a assombrava desde a infância, onde, em momentos de solidão, ela via uma entidade semelhante a uma garota com um vestido negro que aparecia nas sombras. O coração disparou em meu peito. As palavras dela ressoavam com a intensidade de minhas próprias experiências, e cada frase parecia confirmar que eu não era o único a lidar com algo assim.

Continuei lendo, ansiosa por mais detalhes. Minha mãe escreveu sobre como aprendeu a ignorar a figura, como se fosse uma parte de sua imaginação. Ela disse que, com o tempo, conseguiu afastar seus medos, mas a lembrança da Garota das Sombras nunca a deixou completamente. Era como se ela tivesse herdado um fardo, algo que estava presente em sua vida, mas que não conseguia entender completamente.

Enquanto eu absorvia essas revelações, percebi que não poderia mais ficar calada. Se minha mãe também havia enfrentado isso, talvez houvesse uma maneira de lidar com a Garota das Sombras. O que eu precisava era coragem para enfrentar essa presença e entender o que ela realmente significava.

Naquela noite, ao deitar, tomei a decisão de buscar respostas. Eu precisava falar sobre o que estava acontecendo. Precisava de alguém que pudesse me ouvir, que pudesse compreender a profundidade do que eu estava passando. Eu não estava apenas lidando com uma sombra ou uma visão passageira; estava enfrentando algo que parecia transcender o tempo e o espaço. Essa figura que me seguia tinha raízes mais profundas do que eu imaginava, e eu estava determinada a descobrir até onde aquelas raízes se estendiam.

Os dias seguintes foram preenchidos com uma nova determinação. Durante as refeições, eu observava minha mãe com um novo olhar, tentando encontrar a oportunidade de falar sobre o que havia descoberto. No entanto, sempre havia algo me impedindo: um medo profundo de ser ridicularizada ou, pior, que ninguém acreditasse em mim. Mas a esperança de entender e talvez encontrar uma solução para o que estava acontecendo dentro de mim crescia a cada dia.

Finalmente, em uma noite tranquila, quando todos estavam reunidos na sala, eu me virei para minha mãe e, com a voz trêmula, perguntei sobre a Garota das Sombras. O silêncio que seguiu foi ensurdecedor. O olhar dela mudou instantaneamente, e eu sabia que havia tocado em um ponto sensível. Ela hesitou, e uma sombra de reconhecimento cruzou seu rosto.

"Você também a vê, não é?" ela perguntou, quase em um sussurro.

Era a primeira vez que alguém se referia a isso de maneira tão direta, e em um instante, a sensação de alívio e terror se misturou dentro de mim. Eu não estava sozinha nessa batalha. Mas ao mesmo tempo, sabia que isso era apenas o começo de uma jornada que me levaria a confrontar não apenas a Garota das Sombras, mas também as verdades que estavam escondidas nas profundezas do meu passado e de minha família. O que mais eu descobriria? E, mais importante, como eu enfrentaria essa presença que parecia estar presa a mim?

Os segredos estavam finalmente começando a emergir das sombras.

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