A atmosfera da sala estava carregada de expectativa enquanto nos acomodávamos em nosso espaço especial, com velas acesas e almofadas confortáveis que criavam um ambiente acolhedor. A luz suave iluminava os rostos de cada um de nós, refletindo a determinação e a vulnerabilidade que estávamos prestes a compartilhar. O cheiro do café fresco misturava-se ao aroma da cera derretida, criando uma sensação de calor e intimidade que tornava aquele momento ainda mais especial. A ansiedade que havia pairado no ar nos dias anteriores agora se transformava em esperança.
A primeira a falar foi minha mãe. Ela sempre foi a rocha da nossa família, e ver a fragilidade em seus olhos me deixou um pouco mais à vontade. “Bom, eu acho que devo começar”, disse ela, com uma voz suave, mas firme. “Como eu mencionei antes, eu também vi a Garota das Sombras quando era jovem. Para mim, foi uma experiência que nunca consegui entender completamente.”
Ela começou a descrever sua infância, sua luta para se encaixar em um novo ambiente e a solidão que sentia em sua casa. “Eu me lembro de me sentir tão isolada, especialmente depois que mudamos para uma nova cidade. Era como se eu estivesse cercada por pessoas, mas ainda assim tão sozinha. Foi nesse contexto que eu a vi pela primeira vez. Estava sentada em um canto do meu quarto, olhando pela janela. Eu não tinha certeza se estava sonhando ou se era real. Mas, de alguma forma, eu sabia que ela estava lá para me lembrar de que não estava sozinha. Aquela presença me deu um tipo de conforto, mesmo que eu estivesse com medo.”
Ela fez uma pausa, permitindo que suas palavras ressoassem em nossos corações. Havia um reconhecimento em suas experiências, um eco das nossas próprias lutas. A solidão e o medo, assim como a esperança e a conexão, eram sentimentos que todos nós entendíamos.
Meu irmão mais velho decidiu se juntar à conversa. Ele sempre foi o mais reservado, mas percebi que a sinceridade de nossa mãe o encorajou a se abrir. “Quando eu era criança, tinha uma visão muito diferente da Garota das Sombras. Para mim, ela era mais uma amiga imaginária. Eu a vi como alguém que estava sempre lá, me observando, mas nunca me assustou. Eu costumava falar com ela, contar minhas histórias, compartilhar meus segredos. Foi apenas mais tarde que percebi que ela não era apenas uma imaginação. Era algo real, uma presença que estava em minha vida de maneiras que eu não conseguia entender.”
As palavras dele trouxeram um novo nível de compreensão para todos nós. O fato de que cada um de nós havia experimentado a Garota das Sombras de maneiras tão diferentes estava começando a unir nossas histórias. Era como se ela fosse um ponto de convergência, uma ligação invisível entre nós.
Quando chegou a minha vez, meu coração estava acelerado. Eu sabia que era crucial ser honesta e aberta, especialmente porque meu relato seria uma extensão das histórias que já havíamos compartilhado. “Eu também vi a Garota das Sombras, mas para mim, foi mais aterrorizante. Eu tinha apenas seis anos quando a vi pela primeira vez. Lembro-me de ter chegado da escola e subido as escadas. Quando entrei no quarto dos meus pais, a vi sentada ao pé da cama, olhando para a parede. Naquele momento, fiquei paralisada de medo. Era como se eu estivesse presa em um pesadelo, mas ela não estava me atacando; ela simplesmente estava lá.”
Pausei, tentando colocar em palavras o que tinha sentido naquela época. “O que mais me assusta é o olhar dela, aqueles olhos brancos como pires. Não havia emoção, só um vazio. Fiquei com tanto medo que corri para longe, mas, de certa forma, a presença dela também me intrigava. Por que ela estava ali? O que ela queria de mim?”
Meus irmãos e minha mãe ouviram atentamente, e o silêncio na sala parecia denso com as emoções que estávamos compartilhando. Havia uma sensação de alívio em finalmente falar sobre isso, e ao mesmo tempo, um peso nas nossas almas, uma tristeza por tudo o que tínhamos suportado em silêncio.
A conversa se desdobrou de maneira natural, cada um de nós trazendo à tona histórias, medos e sentimentos não ditos. Discutimos sobre momentos em que nos sentimos invisíveis ou não ouvidos, a forma como a Garota das Sombras parecia encarnar essas experiências. À medida que compartilhávamos, o entendimento se aprofundava, e uma força coletiva se formava entre nós.
A cada história, a tensão que havia se acumulado ao longo dos anos parecia diminuir. O medo que antes nos mantinha separados agora estava sendo dissolvido pela vulnerabilidade e pela sinceridade. A Garota das Sombras, que antes representava um símbolo de terror, começava a se transformar em uma figura de conexão.
Ao final da noite, decidimos que era hora de tomar uma ação concreta. Se a Garota das Sombras estava ligada às nossas experiências de solidão e desconexão, então precisávamos enfrentá-la com coragem e compreensão. Uma ideia surgiu durante nossa conversa: criar um ritual de libertação. Algo que simbolizasse nosso desejo de deixar para trás o medo e abraçar a conexão familiar.
“Podemos escrever cartas para a Garota das Sombras,” sugeri, animada. “Podemos expressar nossos medos, nossas ansiedades e até mesmo o que queremos deixar para trás. E, em seguida, queimaremos essas cartas como um símbolo de libertação.”
Meus irmãos e minha mãe concordaram, e a ideia parecia ressoar com todos nós. Estávamos prontos para nos unir contra o que antes nos separava, e agora tínhamos uma oportunidade de transformar nossas experiências em algo positivo.
Com a determinação renovada e uma sensação de união, nos despedimos daquela noite com corações mais leves. As sombras que antes nos assombravam estavam se dissipando lentamente, e a Garota das Sombras estava prestes a se tornar parte de nossa jornada de cura.
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Atualizado até capítulo 22
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