Capítulo 17

Ryan Cooper

A porta bate atrás de Hadassa e Aisha, e o silêncio que se segue é quase ensurdecedor. Sinto o peso das últimas palavras de Aisha ressoando em meus ouvidos, e a marca no rosto dela ainda está gravada na minha mente, como uma cicatriz que nunca vai desaparecer. Meu pai… Ele realmente bateu nela. Na Aisha. Como ele pôde?

Seguro minha respiração por um instante, tentando controlar a raiva que borbulha dentro de mim. Eu sempre soube que meu pai era rígido, inflexível, mas isso… isso foi demais. Passo a mão pelos cabelos e me viro, observando-o de costas para mim enquanto entra em seu escritório. Ele está bebendo, claro. É o que ele faz quando o peso de suas decisões cai sobre seus ombros.

Eu o sigo, fechando a porta atrás de mim. O som da madeira ecoa pelo cômodo pequeno e abafado. Ele não se vira, apenas continua ali, encarando o copo de whisky na mão, como se a bebida fosse lhe dar as respostas que ele precisa.

— Ela foi — digo, quebrando o silêncio. Não há mais nada a ser dito, mas as palavras saem mesmo assim.

— Ótimo — ele responde, a voz cansada, fria. — Melhor assim.

Melhor assim? Melhor assim? Ela está arrasada! Aisha acabou de ser esbofeteada pelo homem que ela sempre viu como um herói, forçada a um casamento que ela não quer, e ele acha que “melhor assim” é suficiente? Meu sangue ferve.

— Acha mesmo que isso é o melhor, pai? — Falo devagar, controlando o tom da minha voz para não explodir. — Bater nela? Essa foi a sua solução?

Ele não me olha. Apenas continua ali, fingindo que tudo está sob controle. Eu o conheço, ele está tentando se manter no comando, como se esse fosse apenas mais um negócio, mais uma decisão difícil que ele tomou para o “bem da família”.

— Ryan — ele começa, com a mesma calma forçada de sempre. — Você não entende. Esse casamento é importante. A aliança com a máfia chinesa não pode ser quebrada. Aisha é a chave disso. Isso não é algo que você ou ela podem decidir.

Eu o interrompo, não consigo segurar mais.

— Isso não é sobre o que é melhor para Aisha, é? — Minha voz sai mais forte do que eu pretendia, mas não me importo. — É sobre o seu orgulho. Sobre o poder. Desde quando vendemos nossa própria família, pai? Desde quando somos tão fracos que precisamos sacrificar Aisha? Sabe o que não entendo,cadê aquele Miguel apaixonado pela filha,e por minha mãe, aquele que nunca permitiu que um filho da puta ousasse a tocar em nenhuma delas. O que tem por trás desse maldito contrato que tanto quer firma?

Ele finalmente se vira para mim. O olhar dele é frio, vazio, o mesmo que ele usava quando lidava com traidores ou inimigos. Mas isso não vai funcionar comigo. Eu sou o Don agora, e mesmo que ele ainda queira mandar em tudo, eu sou quem está no controle.

— Você acha que eu queria fazer isso? — Ele pergunta, sua voz cortante. — Acha que isso me agrada? Acha que ver minha filha chorar, se revoltar, me traz algum prazer? Estou fazendo isso pela família, Ryan. Pela sobrevivência. Você não vê o quadro maior. Sobre o contrato tenho meus motivos,e preciso evitar uma guerra.

Eu o encaro, incrédulo.

— Família? — Repito, cheio de desprezo. — Isso não é família, pai. Família é proteger uns aos outros, é cuidar da Aisha, não forçá-la a um casamento que pode acabar destruindo ela. Eu sou o Don agora, eu conheço as leis, mas eu também sou humano. Eu sou o irmão dela, e não vou deixar isso acontecer.

Ele dá um passo em minha direção, e por um momento vejo uma faísca de raiva nos olhos dele.

— Você não sabe o que está dizendo — ele resmunga, seu tom mais baixo, mas com um peso ameaçador. — Esse casamento não é uma escolha. Se você quer liderar, Ryan, se quer realmente ser o Don que essa família precisa, então vai ter que fazer sacrifícios ao ter que lidar com certas decisões. Vai ter que entender que o mundo não é justo, e que às vezes, as decisões mais difíceis são as certas.

Eu rio, mas é um riso amargo. Como ele não vê o que está fazendo?

— Sacrifícios? — Pergunto, encarando-o diretamente. — O único sacrifício que você está fazendo aqui é a felicidade da Aisha. Está disposto a entregá-la para um homem que ela nunca viu, com a pior fama possível, e acha que isso é liderança? Isso é fraqueza, pai. Você está com medo de perder o controle. Está tão desesperado por manter o poder que não vê o que está perdendo. Está perdendo a sua própria filha.

Eu vejo o impacto das minhas palavras nele, mesmo que ele tente esconder. O velho Miguel Cooper está começando a vacilar, mas ele não vai admitir isso. Ele nunca admite fraqueza, nunca.

Ele levanta o copo de whisky e toma um longo gole antes de me olhar novamente. Sua voz é mais fria do que antes, mas há algo quebrado nela.

— Se eu não fizer isso, Ryan, a guerra será inevitável. É isso que você quer? Você acha que estamos prontos para uma guerra com a máfia chinesa? Estamos tentando sobreviver, e essa é a única maneira de garantir isso.

Eu não recuo. Não posso recuar. Não desta vez.

— Sobreviver? — Repito, firme. — Às custas de quem? Da Aisha? Da nossa própria família? Se é guerra que vem, então lutamos. Mas eu não vou sacrificar minha irmã. Não por causa de uma aliança que vai custar a vida dela. E você, como pai, deveria saber disso melhor do que ninguém.

Ele me encara, e por um segundo, vejo uma rachadura na armadura de Miguel Cooper. Ele está lutando para manter o controle, mas eu sei que ele não tem todas as respostas que acha que tem.

— Quando você for pai, Ryan, verá que as coisas não são tão simples — ele murmura, voltando a olhar para o whisky. — O mundo não é preto e branco.

Eu me aproximo dele, mais calmo agora, mas ainda firme.

— Pode ter certeza, quando eu me torna pai,não irei fazer essa merda que está fazendo. E vejo exatamente o que está acontecendo. O problema é que você se esqueceu do que realmente importa. O poder sem família não é nada. E se você não parar de sacrificar as pessoas que ama, vai acabar sozinho.

O silêncio volta ao escritório. Ele não responde, apenas me observa, perdido em seus próprios pensamentos. Eu sei que deixei uma marca, mas não sei se ele está pronto para aceitar isso. Não ainda.

Me viro e caminho até a porta, sabendo que não adiantaria mais continuar discutindo. Paro por um momento antes de sair e digo, sem olhar para trás:

— Pense bem, pai. Porque, se continuar assim, não só perderá a Aisha. Vai perder a mim também.

A porta se fecha suavemente atrás de mim, mas o peso das palavras permanece. Eu preciso proteger Aisha. Mesmo que isso signifique ir contra o homem que me ensinou tudo.

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Comments

Rosineide Sousa

Rosineide Sousa

Eles não lembram que a Hadassa foi a mesma coisa ela tá casado pelo um acordo, a diferença que agora e irmã dele,ela não conhecia ele ,a fama não era boa e agora tão até em uma guerra particular entre os dois quem sede primeiro ao desejos.

2025-03-19

0

Amanda Porfírio

Amanda Porfírio

pra quem abusou a própria esposa isso é o de menos que espero dele

2024-11-19

0

Arlete Fernandes

Arlete Fernandes

Isso mesmo não abandona ela que é indefesa e pode até morrer de desgosto!

2024-12-10

0

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