Nos últimos dias, todo o vinho ardente que era servido aos cativos era rapidamente esgotado pela ávida necessidade dos vitoriosos para tratar seus hematomas e mascarar as dores de pulsos, costelas e tornozelos que teimavam em doer, todo aquele vinho era acompanhado do costumeiro pão preto, às vezes mofado, mas sempre farelento que era o único impeditivo de um coma alcoólico total dos cativos.
Josh usava o característico balde de madeira ao qual os cativos chamavam de banheiro quando Matt acordou devido ao mau cheiro.
— Uau! Você está mesmo se acabando aí né!?
Reclamou Matt tampando o nariz da melhor forma que podia com um trapo embebido em vinho ardente, era o melhor que conseguiam para mascarar o cheiro, quando um companheiro cativo usava o tal balde.
— Eu fico nervoso antes das rodadas, tá legal? Além do mais, esse vinho não ajuda em nada melhorar meu intestino e...
— Esse pão de merda não dá consistência para oque eu estou fazendo aqui...
Obu completou oque Josh havia começado a falar antes de continuar.
— Por favor gente! Daqui a algumas horas estaremos lutando pelas nossas vidas, pulem esse falatório de todo dia e me deixem dormir! Eu estava num sonho, que eu limpava o esterco da fazenda...
— Isso porque ele está cagando em tudo! Aposto que sujou até a nuca e vai ter que pedir a um Ghoul levar ele até bica d'água de novo! Aí o Grogur vai diminuir nossa ração outra vez falando que...
— Ah! Cara, cala a boca e me deixa cagar!
Josh interrompeu um Matt que havia interrompido Obu, e assim bem cedo se iniciou o dia da segunda rodada das lutas, apesar do burburinho, nenhum deles iria lutar naquele dia, as lutas ocorreriam entre outros cativos, cativos esses que se encontravam acordados com os olhos esbugalhados pensando se viriam novamente a cela em que estavam naquela noite, logo a massiva Gárgula chegou à porta da cela.
— Que beleza! Os participantes estão animados para entreter a baronetesa e as ladys hoje! Espero de vocês uma luta empolgante, afinal... lutarão por suas vidas! Hahaha!
Após a risada sarcástica de Grogur Matt, que se aproximava das grades resmungou em resposta.
— Você não precisa ser Otário sabia Grogur!? Não vê que eles estão assustados? Se ficar pressionando eles, acha que o espetáculo vai ser bom?
De repente um dedo grosso, cinza e duro passou pelo vão da grade e deu uma cutucada dolorida no flanco de Matt.
— Você abusa demais humano! Se não fosse tão útil as nossas senhoras, pode ter certeza que você ia virar ração de ghoul!
Matt se dobrou sobre as costelas sentindo a dor do impacto que para ele, foi como um forte soco nas costelas.
— Agora humano, alinhe os participantes de hoje!
Assim que Matt fez como Grogur ordenou, eles saíram para a arena.
Era uma noite de lua cheia, o céu estrelado mostrava constelações desconhecidas, mas não importava para Matt, sempre que podia estar lá fora era um encanto a parte, o vento frio percorria o corpo e arrepiava a pele, mas era maravilhoso tendo como contraparte o ar estagnado da cela.
* Como pode um céu tão lindo abrigar um mundo de monstros tão desgraçados que se divertiam com o sofrimento palpável dos outros assim *
Matt pensou, mas no mesmo momento foi tomado por uma lembrança de sua infância em que Matt pulava e guinchava de dor enquanto sua mãe ria, ria e continuava balançando os fios de cobre cozido, chicoteando as costas, nádegas e coxas de uma criança nua e desprotegida. Essa criança era Matt, mas por alguma razão, ele sempre se lembrava do passado em terceira pessoa, como se ele também estivesse assistindo à cena, surpreendentemente, Matt carregava poucas marcas físicas dos abusos de sua infância.
* Talvez os mundos não sejam tão diferentes assim, talvez os monstros existam em todos eu só dou azar de sempre estar abaixo do reino deles *
Matt, perdido em pensamentos tropeçou no fim da borda branca e quase caiu na areia, mas se manteve em pé.
— Vê se não morre antes da baronetesa te matar hahaha!
Riu Grogur enquanto levava os cativos até os vestiários improvisados feitos nos depósitos de armas.
— Quanto tempo temos até o início?
Questionou Matt
— Cerca de meia hora, por quê?
Questionou Grogur enquanto respondia.
— Será que eu posso gastar um tempo olhando aquela janela?
Matt apontava ansioso enquanto perguntava.
— Está pensando em fugir? Ou se matar? Aquela janela fica no quarto andar! Você só vai quebrar as pernas, no máximo!
Respondeu um Grogur desconfiado
— Qual é... a noite está tão bonita, será que até seu coração é de pedra?
Matt argumentou brincando com a gárgula que surpreendentemente esboçou um sorriso no canto de sua bocarra e respondeu.
— Acho que não vamos precisar de você por uns 10 ou 15 minutos.
Matt exibiu um grande sorriso e andou para a janela, ansioso para ver mais do mundo que estava pela primeira vez.
Quando Matt se aproximou da janela pôde ver que estava numa mansão antiga de arquitetura romana, mas que com o passar do tempo a decoração tomara um estilo muito mais de colonialismo moderno, a mansão mais parecia um palacete que ficava acima de uma colina, tendo uma vista privilegiada da cidade de estilo londrino do século XVIII que se entendia ao longo da planície como um longo tapete de retalhos.
Havia alguns prédios de cinco ou oito andares, nada voluptuoso, exceto a grande catedral que se exibia a outra extremidade da cidade, com suas torres de sino sendo o ponto mais alto da cidade, tirando o palacete da baronetesa, e a catedral, todo o resto da cidade parecia meio gasto e pobre, como se a cidade fosse crescendo desordenadamente e sem uma arquitetura padrão, Matt de longe não conseguia distinguir pessoas, mas podia ver o serpentear de avenidas e o desenho de becos por todo o canto, se parecendo mais com um labirinto povoado, que uma cidade planejada.
Matt se concentrou ao terreno do palacete e com uma grande surpresa viu Lady Julie num bosque abaixo de sua janela a algumas dezenas de metros a frente, lady Julie, que colhia flores, ela parecia uma criatura a parte do mundo, sua pele branca se misturava a luz da lua e emitia um brilho branco fosco e delicado, como uma aura angelical, Matt de repente sentiu um rubor se espalhar pela sua face, quando talvez pelo instinto primal de sentir a presença de alguém quando se está sendo observado, lady Julie fitou a janela, olhando diretamente nos olhos de Matt.
* Não são brancos, são vermelhos! *
Matt pensou enquanto percebeu o chão batendo violentamente contra seu corpo que caiu ao chão flácido, como se não tivesse ossos.
— Matt! Droga oque houve humano!
Matt ouviu Grogur chamando ao fundo, mas sua consciência desvanecia muito rápido para responder.
Dois olhos escarlates vívidos e brilhantes, como rubis polidos sendo iluminados para exposição, os olhos de repente se encheram de lágrimas duas torrentes começaram a escorrer dos olhos tristes.
Os olhos rapidamente piscaram, e quando se abriram, já não eram mais vermelhos, eram brancos e leitosos, como se uma fina película tivesse coberto a joia mais deslumbrante que um dia existira na imensidão que englobava todas as realidades, espaços e tempos.
— Obu, ele acordou!
Matt ouviu a voz de Josh.
— Josh, avise a gárgula como ordenado! Matt, Irmão, você está bem? Me entende?
Obu parecia muito preocupado enquanto perguntava.
— Qual é!?, tô bem! Falta quanto pras lutas? Aposto que o Grogur tá bem chateado de eu ter desmaiado, ele já narrou alguma? Droga ele vai me surrar!
Matt respondia casualmente, enquanto Obu parecia um pouco desesperado e compadecente.
— Olha em volta Matt, duas rodadas já se passaram desde que você desmaiou por 7 dias, sua próxima luta é amanhã, e eu vou lutar contra o Josh...
Matt ouvindo Obu teve um surto silencioso de pânico, gotas de suor se formavam incessantemente em sua testa e suas pernas tremiam como bambus ao vento, é como se o véu da realidade se rasgasse abruptamente e ele tivesse simplesmente sumido num lugar e aparecido em outro tempo e espaço diferente, a versão de pesadelo de quando uma Criança dorme no sofá e acorda na cama, transportada pelos pais.
— E eu? Vou ser desclassificado? Vou ser morto? Oque acontecerá!? Como vai ser?
Matt começou a balbuciar perguntas pertinentes quando ouviu os passos pesados de Grogur chegando a porta da cela.
— Venha humano, as senhoras querem te ver!
Quando a gárgula nomeou-o por sua raça, Matt estranhamente não sentia aquele velho asco no tom de voz de Grogur, quase como se ele gostasse de Matt, ele então ficou em pé, suas pernas lutando para carregar o peso de seu corpo, e seguiu Grogur pelos corredores a sala desesperadora, a tal sala que uma vez Matt havia feito um trato com as vampiras.
Abrindo as portas dessa vez, porém havia apenas Lady Julie lá, ela estava com um vestido vermelho-escuro que magistralmente se destoava em contraste com sua pele quase albina, os olhos brancos leitosos sem pupilas encaravam Matt.
— Sente-se!
Lady Julie comandou, com uma graça inquietante, sua voz macia era agradável de ouvir, como seda roçando de leve a pele. Após Matt se sentar ela continuou.
— Nós vampiros somos seres da noite Matt, e como seres da noite, você imagina em que momento estaríamos mais fortes?
* Ela me chamou pelo nome, não só isso, mas me chamou de maneira respeitosa *
Matt pensara antes de responder.
— Acredito que estariam mais fortes a noite.
Matt respondeu tentando achar nervosamente o tom certo para se comunicar de maneira acertada com o ser que detinha em si o poder para tirar-lhe a vida ao bel-prazer.
— Sim, mas mais que isso, nas noites de lua cheia estamos mais fortes que nunca, e você lembra de ver a lua naquela noite antes de me ver no pátio?
— Era lua cheia, a mais bela lua que eu já vi...
Respondeu Matt contemplando a beleza da vampira a sua frente.
— Sim, Matt, sei que no seu mundo não existe magia, na verdade, sei de toda sua vida, desde seu pai desaparecido, até de sua mãe, sei como era sua casa, e do motorista que gostava de te deixar no ponto de ônibus sempre que via você correndo para o ponto, na verdade, sei que existe o conceito de magia, e basicamente sei tudo oque você sabe, pode imaginar como eu sei?
Lady Julie parecia ansiosa pela resposta.
— Então é isso, você sondou minha mente naquela hora...
Matt respondeu por impulso para encontrar uma vampira dando um riso quase que celestial cheio de satisfação, ele contemplando a visão percebeu.
* Não são brancos, são loiros, os cabelos dela são muito claros, mas definitivamente loiros! *
— Nem todos os vampiros têm poderes variantes Matt, os que tem se unem a corte sob a hierarquia de realeza, eu sou uma lady, pois estou sob os cuidados de nossa baronetesa, que está sob o comando do barão, que está sob o comando do visconde e assim sucessivamente, entende?
Matt que ouvia atentamente perguntou.
— Senhora, entendo sim, porém por que contar tudo isso para mim? Até alguns dias atrás eu era apenas, com todo respeito, sua refeição.
Exclamou ansioso pela resposta de lady Julie.
— Sim, era, e mesmo assim você galgou sem poder nenhum, passos importantes aqui, e mesmo sem poderes ou magias não morreu quando olhou diretamente nos meus olhos, mesmo em noite de lua cheia, Matt, eu estava sozinha no pátio por uma razão, ainda sou uma vampira jovem, esse ano, faço meu quinquagésimo quarto aniversário, desde que me transformei, ainda não consigo controlar minha magia variante direito, todo animal que vê meus verdadeiros olhos após passar todo seu conhecimento para mim, seca e morre, por isso, prático a exaustão minha variante para que eu possa aprender a controlá-la e não matar ninguém enquanto tento enxergar.
— Enxergar?
Perguntou Matt.
— Isso não é importante, o importante é, como você resistiu a minha variante sem morrer? Sinceramente, acredito que mesmo sem magia, você deve ter algum tipo de variação, comentei com a baronetesa e com Lady Marry sobre isso, e apesar de protestos da baronetesa ela aceitou com uma condição te transformar em nosso servo, você será salvo Matt.
Disse Lady Julie.
Aquelas palavras foram recebidas por Matt que incrédulo disse.
— Mas como? Salvo? Tenho uma variante? E Obu? E Josh?
A vampira fechou o cenho brevemente antes de dizer, de maneira muito mais fria que antes.
— O vencedor do torneio será incluído como servo da casa, e apenas este, seja quem for, a baronetesa é dura, mas mantém sua palavra, você é a exceção aqui, e sua resposta? Aceita então se tornar servidor de sua graça?
Hesitante, Matt perguntou.
— Vou me tornar que tipo de criatura?
Matt não suportava a ideia de ser transformado num zumbi acéfalo que só aceitaria ordens e balbuciaria coisas inteligíveis, os ghouls pareciam mais inteligentes, falavam como crianças e faziam coisas por conta própria, mas o fato de estar em um estado perpétuo de apodrecimento assustava-o profundamente.
Não! Se pudesse gostaria de ser duro e eterno como Grogur, a verdade é que a Gárgula era pouco inteligente, mas tinha um corpanzil robusto e o intelecto quase tão bom quanto o de uma pessoa, mas, na verdade, o ser que ele gostaria mais de se se tornar, seria um vampiro, até agora Matt só conhecera três vampiros até então, e uma delas estava a sua frente, a ideia de ser forte, rápido e extremamente atraente era fascinante, ainda melhor era o fato de não ser afetado pelo tempo.
* Viver para sempre acumulando riqueza e poder na corte não é nada mal *
Pensava quando ouviu o riso cativante e sincero de lady Julie.
— Hahaha! Você será um humano seu tolo! Temos tropas o bastante, e Grogur apesar de sua lealdade incontestável, não é o comandante mais esperto, precisamos de um servo que seja inteligente e sagaz, alguém que mesmo de frente a três vampiras ávidas pelo seu sangue, conseguiria negociar uma forma de sair vivo dessa situação, você não será líder de ninguém, mas estaria em pé de igualdade com Grogur, aposto que adoraria isso, sabendo o tanto que você o provoca, ele reclama de você para nós sempre que ele tem a chance! Sabia?
Disse Lady Julie de forma espirituosa e divertida, e então Matt respondeu.
— Sendo assim, eu gostaria de clamar por duas vidas.
A vampira olhou atenta antes de dizer.
— O alto e forte com pele de Azeviche, certo? E também o alto, magro e de membros alongados?
— Sim, com eles posso servir melhor, juntos nós podemos...
Matt se interrompeu por um instante antes de dizer.
— E se eles me ajudarem a conseguir mais pessoas para vocês? Pessoas boas de sangue fresco! Sabe!? Obu me carregou com facilidade uma vez, e Josh é um ótimo lutador que ganhou vários campeonatos e...
— Não posso tomar essa decisão!
Interrompeu a vampira levantando uma mão antes de continuar.
— A baronetesa não gosta da permanência de humanos na residência, além da fome ainda existe a possibilidade de traição, mas posso falar com Lady Marry e tentar interceder por ele, mas duvido que seja certo, afinal servimos a baronetesa, agora preciso de sua resposta.
Matt processou aquilo por um momento e disse.
— Sendo assim eu acei...
Como se fosse a força do ar puxando seu braço para cima, numa força avassaladora que não condizia a delicadeza que sentia, Matt sentiu o equivalente a uma ferroada em seu antebraço direito antes mesmo de finalizar a frase, quando levantou o olhar para acompanhar oque acontecia, Lady Julie já estava tirando as presas de sua pele antes de explicar.
— Tudo está no sangue Matt, com esse ato injetei minha intenção de controle sobre você, agora, sei de tudo, ouço tudo e vejo tudo oque você vê, sempre que eu quiser ver, assim você não poderá mais nos trair, ou acredite, você morrerá, dito isso, acompanhe aquele ghoul, ele te levará a seus aposentos o qual a partir de hoje, você chamará de lar!
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Atualizado até capítulo 57
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